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Fazenda Bom Jardim

2008-09-08 - Às margens da rodovia Fernão Dias, em Oliveira, Minas Gerais, está localizada a Fazenda Bom Jardim, um projeto de produção de leite que mistura técnica, planejamento e uma dose de ousadia.

Eduardo Valias Vargas


A Fazenda

Ao cruzarmos a portaria, numa tarde empoeirada de agosto, nos deparamos com a imponente e moderna estrutura de produção de leite, sobre a qual daremos maiores detalhes no decorrer desta matéria.

Tudo começou quando o empresário Miguel Furtado Neto, buscando um recanto que lhe proporcionasse mais qualidade de vida, o que não conseguia na rotina diária em Belo Horizonte, adquiriu a fazenda de 1800 hectares, destinada à produção de leite e genética de gado Holandês, além de café de qualidade.

Com as vacas já existentes na fazenda, a produção de leite chegou aos 2.500 litros por dia, com manejo tradicional de pista de trato. O inverno era transposto sem maiores problemas, mas o verão representava fator de preocupação, desmotivação e prejuízo. Então, em 2005, preocupado com esta situação, o Médico Veterinário que assiste o rebanho desde seu início, Alexandre Pires de Carvalho, foi em busca de consultoria especializada. Nascia então, um novo conceito de produção, que vem sendo aprimorado dia a dia, e que torna a Fazenda Bom Jardim uma referência na produção de leite em Minas Gerais.


O Projeto

A cargo do Médico Veterinário Paulo Sérgio Amoreli Silveira, do ReHAgro, a condução e aprimoramento do projeto não se retiveram às instalações. Implantou-se na Bom Jardim um conceito de gestão participativa, o que pudemos presenciar no dia de nossa visita, quando a equipe que “toca” o projeto estava reunida, avaliando resultados, implantando metas, ou seja, cumprindo a importante rotina da gestão.

As instalações físicas estão localizadas em uma nova área da fazenda, onde tudo foi projetado. O sistema de confinamento utilizado é o “Free Stall”, com capacidade para alojar 400 vacas, ao lado do qual encontram-se a sala de ordenha, a estação de manejo, os corredores, o pedilúvio, um laboratório de transferência de embriões, em pleno funcionamento, e todos os demais anexos necessários para a condução de uma fazenda leiteira.

Todas as instalações por onde passam as vacas são providas de sistema de limpeza por “flushing”, abastecido por um grande reservatório de água.

A fazenda tem ainda uma fábrica de rações, onde são produzidos todos os concentrados utilizados na fazenda.

Free Stall

Seguindo as normas mais modernas e arrojadas de construção, o “Free Stall” apresenta uma configuração de telhado que imediatamente nos chamou a atenção. São 10 metros de altura (cumeeira), com pé direito de 4,5 metros e inclinação de 45 graus, além dos 96 metros de comprimento.

Colchões para as Vacas

Outro ponto interessante da fazenda é a utilização dos colchões, ao invés de areia, como cama das vacas. Aliás, este é um tema de constante discussão entre técnicos e produtores de leite, já que possui impacto direto no manejo, custo e eficiência da instalação e das vacas.

Na Fazenda Bom Jardim os colchões foram produzidos, juntamente com a obra civil do “Free Stall”, ao custo de R$ 44,00 por vaca instalada. “Este é o maior ponto positivo”, assegura Amorelli, “pois a manutenção é barata e, com o tempo e experiência, temos aperfeiçoado ainda mais”, complementa.

Cuidado com o meio ambiente; facilidade de higienização, visando controle de mastite; dificuldade na aquisição de areia de qualidade (além do custo) e da necessidade de um sistema de separação de areia, em função da utilização do “flushing”; são os demais argumentos favoráveis, citados pela equipe durante um “brain storm” relacionado à utilização dos colchões.

Como ponto negativo, citou-se o aparecimento, no início, de algumas escaras de decúbito, mas que já não são notadas na vistoria que fizemos.

Mas, na Bom Jardim há números e dados que complementam as discussões temperadas por paixões e razões. Existe na fazenda um excelente trabalho de acompanhamento da taxa de ocupação de camas, com metodologia, coleta de dados, planilha, análises, etc. Os resultados estão apresentados na tabela 1.


Tabela 1 – Taxa de ocupação das camas
Estação do Ano Taxa Ocupação de Camas
Verão 61%
Inverno 89%
Ocupação Média 73%

Dados complementares, como relação entre ocupação, temperatura e umidade relativa do ar também são contemplados pelo trabalho, ainda em fase de conclusão e que, certamente, voltará às nossas páginas, como um tema a ser profundamente abordado.


Vacas: Manejo e Nutrição

Chamou-nos a atenção alguns cuidados, que sabemos serem básicos, porém negligenciados em muitos sistemas de produção pelo Brasil afora.

O periparto, período que compreende as três últimas semanas que antecedem e as três semanas seguintes ao parto, merece aqui a maior das atenções. Os animais são divididos em três lotes - pré-parto, “checagem” (vacas até 15 dias pós-parto) e “pós-checagem”. A rotina destes lotes compreende aferição diária de temperatura corporal e auscultação de todas as vacas.

Outro manejo de rotina no pós-parto é o fornecimento do “drench” (solução oral hidroeletrolítica e gliconeogênica) que, segundo Alexandre, tem sido extremamente eficiente em evitar os típicos problemas do peri-parto.

Saindo do lote “pós-checagem”, as vacas seguem monitoradas e manejadas, de acordo com a curva de lactação, até a secagem.

A dieta das vacas é composta de silagem de milho, tifton verde (fertirrigação), farelo de soja, milho (grão úmido), polpa cítrica, núcleo mineral-vitamínico e gordura protegida, em substituição ao caroço de algodão, que tem apresentado inviabilidade de custo nesse sistema.

Cria e Recria:

As bezerras e bezerros (a fazenda produz tourinhos de transferência de embriões) são criados em abrigos individuais, as populares casinhas, onde são fornecidos, até os 15 dias de idade, 6 litros de leite ao dia, divididos em duas alimentações, além de ração e água.

Após os 15 dias, o fornecimento de dieta líquida (sucedâneo do leite) passa a ser feito apenas uma vez ao dia, pela manhã, na quantidade de 5 litros por animal, além de ração e água.

Mitos e Medos

Aqui vale ressaltar dois pontos importantes: a ração inicial farelada e o sucedâneo de leite.

A ração inicial também é produzida na fazenda. É farelada e contém palatabilizante específico, garantindo consumo e desempenho das bezerras.

O sucedâneo de leite entra no cardápio das bezerras a partir de 15 dias. O desempenho dos animais, aliado ao fator custo, avaliza sua utilização.

Os animais permanecem nas casinhas até o desaleitamento, cujo critério é o alcance do peso vivo de 80 Kg, atingido em média aos 60 a 70 dias de vida.

Os lotes “pós-casinha” são formados por 8 a 10 animais, nos quais o manejo nutricional, dividido em 4 semanas, destina-se à adaptação das bezerras à dieta rica em volumoso, no caso a silagem de milho. Este manejo consiste em ofertar o concentrado em 4 etapas (semanas) - separado da silagem, por cima da silagem, mistura de 2 fórmulas de concentrado, e TMR (dieta total).

Dos 6 meses de idade até a entrada na maternidade, os animais passam a receber uma dieta à base de cana-de-açúcar complementada por concentrado protéico.


Gestão e Motivação

Outro ponto forte da fazenda é a gestão, amparada pela motivação, disseminação e aprimoramento de conhecimentos. A equipe possui um gerente geral, Marcelo, que responde pelos setores de produção, bezerras, recria e agricultura. Cada um destes setores, por sua vez, possui um organograma próprio, no qual, cada colaborador, sabe exatamente sua função, suas obrigações e a quem responder ou fazer solicitações. São oferecidos cursos de treinamento dentro da própria fazenda, objetivando o aprimoramento dos serviços e a produção.

Compõem ainda o organograma a assistência técnica e a consultoria, ligados diretamente aos proprietários.


Metas

Outro trabalho interessante feito na fazenda é a análise de alcance de metas. “Estes são os parâmetros para tomadas de decisões rápidas e mais precisas”, diz Amorelli. “E realmente notamos que funciona”.

Há uma meta atingível e definida para cada setor, que é checada, avaliada e discutida mensalmente e, de acordo com a evolução dos dados, sofre ajustes e progressões.

Os parâmetros gerais compreendem os setores plataforma (20 parâmetros avaliados), casinha (3 parâmetros), pós-casinha (3 parâmetros), recria (5 parâmetros) e maternidade (7 parâmetros).


Conclusão

Esta é a fazenda Bom Jardim, onde fomos recebidos “mineiramente” de portas abertas pelo Sr. Miguel, filho do Sr. Miguel Furtado Neto, e por toda a equipe, aos quais agradecemos imensamente a clareza de informações, as discussões técnicas e a contribuição que estão prestando à Leite Integral para disseminação de conceitos e bons exemplos aos técnicos e produtores de leite do Brasil.

Abaixo, uma tabela que tem a pretensão de resumir o que aqui conhecemos:

Nome da Propriedade: Fazenda Bom Jardim
Localização: Oliveira, MG
Proprietário: Miguel Furtado Neto e Filhos
Área: 1.800 ha
Café: 180 ha
Milho: 235 ha
Produtos do Milho: Silagem, grão úmido e grão seco
Cana-de-açúcar: 8 ha
Tifton irrigado (fertirrigação): 6 ha com 8 cortes ao ano
Capacidade de Alojamento: 400 vacas
Meta de Produção: 12.000 litros de leite/dia
Ocupação atual: 302 vacas em lactação
Produção Atual: 9.000 litros de leite/dia
Teor de Gordura no leite: 3,46%
Teor de Proteína no leite: 3,21 %
Inseminação de Novilhas (idade) 14 a 15 meses
Inseminação de Novilhas (peso) 340 a 350 Kg


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