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Eduardo Valias Vargas (Médico Veterinário - Nutron Alimentos)voltar

Torneio Leiteiro: onde a paixão e a técnica caminham de mãos dadas.

2009-12-17 - Nascido e criado em tradicional bacia leiteira, tenho na memória até o frio que sentia “rodeando” as vacas nos torneios leiteiros nas fazendas. Disputa amigável, mas acirrada, entre os melhores rebanhos da minha querida São Gonçalo do Sapucaí, aqui no sul de Minas.

Eduardo Valias Vargas (Médico Veterinário - Nutron Alimentos)


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Minha família participou poucas vezes. A primeira, talvez em 1945, muito antes do meu nascimento. E não fez feio, assim como nas poucas vezes que assisti a nossa participação.

Depois, já crescido, os torneios “minguaram”, mas agora felizmente eles retomam força, com o profissionalismo atual mesclado à paixão tradicional. E esta nova realidade encontrou-me formado, trabalhando justamente com nutrição de vacas leiteiras. Esta gratificante lida proporcionou-me a oportunidade de conviver e me tornar amigo de grandes “torneieiros”, como o Gilberto e o Fernando Vilela, de Boa Esperança, ambos com laços de parentesco comigo, embora tenham sido os torneios leiteiros que fizeram com que nossos caminhos se cruzassem.

Conversando com Gilberto, na fazenda Campo Redondo, onde ele cria excelentes animais da raça Holandês, fica fácil de entender a paixão. E a história é a mesma. “Desde moleque acompanhava meu pai nos torneios. Assistia e o ajudava a tratar das vacas”, conta.

Gilberto se formou em Zootecnia pela Universidade Federal de Lavras, então ESAL, em 1987, voltou para casa e hoje é realmente uma referência em torneios leiteiros. Só em 2009 participou de 10, com vacas próprias ou conduzindo os trabalhos em animais de terceiros, além dos muitos outros “por telefone”. Aliás, esta é uma característica marcante no Gilberto: ele não “esconde leite!” Para ele, o torneio leiteiro é um local para troca de experiências, ajuda mútua e grandes amizades. “A disputa é saudável”.

Destes certames, trouxe prêmios importantes, como a Campeã Novilha da Megaleite e a Campeã Vaca na Agroleite, em Castro, Paraná, onde a vaca Selvaverde Maaike 2142, de Teunis e John Groenwold produziu 326,78 Kg de leite em 11 ordenhas, com média de 89,122 Kg de leite por dia.


..Genética, Nutrição e Manejo..

Se estes são os três pilares da produção de leite, é no torneio leiteiro que se expressam com intensidade máxima. Inclusive, acho que esta é a grande contribuição do torneio para os técnicos. Ali sim, são validadas as técnicas e tecnologias disponíveis no mercado.

Segundo Gilberto, a genética é muito importante, pois em torneios vencem as vacas de alto potencial genético. “Enquanto algumas vacas atingem seu limite e param de aumentar a produção, em outras eu jamais descobri o limite, até porque nunca matei uma vaca, graças a Deus. Termina o torneio e a vaca continua a produzir e reproduzir.”

Ainda sobre a genética, Gilberto sempre comenta da importância de se utilizar sêmen de touros provados. Criador de Holandês, ressalta a grande importância dessa raça para o incremento da produção de leite no mundo, inclusive por meio dos cruzamentos.

No quesito nutrição, ressalta com clareza a importância do volumoso na dieta. “Às vezes, algumas vacas pifam pela falta de um balanceamento adequado de volumoso na dieta. A base é o volumoso”. Uma dieta adequada em volumoso, concentrado, minerais, vitaminas e aditivos é realmente importante para se vencer um torneio ou para que qualquer vaca produza tanto leite quanto sua genética e o manejo permitam. Gilberto comenta ainda sobre os tamponantes, leveduras e protetores hepáticos como importantes aditivos em uma dieta desafiadora, para altas produções, mas com a preservação da saúde da vaca.

É no torneio leiteiro que se conhece, na prática, o potencial dos alimentos. Qualidade da fibra, perfil de aminoácidos, biodisponibilidade de minerais, eficiência de vitaminas e aditivos são constantemente avaliados pela vaca, e o “torneieiro” sabe receber e interpretar o feed back que ela transmite.

A água é outro nutriente essencial na rotina de trabalho de um torneio leiteiro. Nesse ponto da conversa, já contamos com a presença do Dr. Fernando Vilela, que fala da importância da temperatura da água, completando o Gilberto, que frisa a importância da qualidade e disponibilidade constante da mesma. Ponto em comum: a água do torneio deve ser a mesma que a vaca está bebendo na fazenda.

Em manejo, o foco deve ser o conforto e a alimentação, já que outras variantes, como a sanidade, por exemplo, obrigatoriamente deverão estar em dia. Mais uma vez, toda a técnica disponível está sob constante observação. É necessário monitorar o conforto térmico e da cama, a ingestão de matéria seca, o número de tratos por dia, o número de mastigações, o tempo de ruminação, a consistência de fezes, o aspecto da urina, dentre outros. Trata-se de um verdadeiro tratado de manejo de vacas leiteiras entrando em ação, muitas vezes sem que o próprio tratador saiba os fundamentos técnicos do que está fazendo, e fazendo bem feito. Todos sabem que, sem isso, normalmente não se vence o torneio.

“Conduzir uma vaca em torneio é como pajear um neném”, diz Gilberto. E quem o conhece sabe que está falando de zelo, atenção, amor e respeito à vaca.

O resumo de tudo é que os torneios estão aí, agitando e emocionando o interior do Brasil, desafiando todas as raças de aptidão leiteira e prestando um grande serviço à pecuária nacional, mesmo que esta não seja a declarada intenção dos eventos.

A temporada 2010 promete. Geralmente os torneios vão de março a outubro, e este ano já contou, em Minas Gerais, com eventos inclusive chancelados pela Associação Mineira do Holandês, como o torneio da Megaleite, que também traz o Torneio Nacional do Girolando. Para o ano que vem estão programados vários eventos, aguardados com ansiedade e expectativa. Além dos prêmios, que hoje podem chegar a um carro zero km, e que são um forte estímulo ao retorno do investimento, há que se levar em conta a valorização e o comércio de animais de alto potencial. Não dá para esquecer também a magia do tradicional banho de leite, orgulho geralmente eternizado em fotos que passam de geração em geração.

Aos bons e éticos “torneieiros” do Brasil, o nosso respeito e admiração. Vocês fazem com que nós, que trabalhamos na indústria de nutrição animal, busquemos mais e mais tecnologia, informações, validações e produtos que possam atender a este público exigente em resultados desafiadores, com segurança para a vida da vaca e do ser humano, que é a principal razão de ser de todo o setor produtivo.

É gratificante ver uma vaca campeã de torneio voltar para a fazenda e ainda produzir muito leite e muitas filhas, assim como é gratificante conhecer o Sr. Ênio, que ensinou o Gilberto, que está ensinando o André e o Diego a “conhecer as vacas e cuidar delas como se estivessem pajeando um neném”.