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Baldonedo Arthur Napoleão

Entrevista concedida a Mariana Garcia em 08-set-08

A Epamig completou no último dia 06, 34 anos de existência e significativas contribuições para o desenvolvimento agropecuário do estado de Minas Gerais. Seu atual presidente, Baldonedo Arthur Napoleão, que está à frente da instituição desde 2003, nos conta nesta entrevista um pouco da história da Epamig e dos desafios enfrentados em sua gestão. Fala com otimismo dos avanços e perspectivas da empresa, tanto no que diz respeito à captação de recursos financeiros para pesquisa, quanto à melhoria das condições de trabalho dos empregados.


LI: Revista Leite Integral (RLI): O que representam para o Estado os 34 anos de existência da Epamig?

AL: Baldonedo Napoleão (BN): A Epamig já deu grandes contribuições à pecuária do Estado. Eu costumo citar que há 20 anos atrás a área plantada de café era praticamente a mesma de hoje, no entanto a produtividade foi multiplicada por três, ou seja, uma mesma área colhe três vezes mais café que há 20 anos. Isto é exclusivamente tecnologia. Há 20 anos atrás Minas não plantava soja, e hoje é o sexto maior produtor do Brasil, contribuindo efetivamente para a segunda posição que o país ocupa no ranking de produtores mundiais. A Epamig tem dado contribuições extraordinárias, tanto para a agricultura familiar quanto para a empresarial. Com relação à agroenergia, estamos há 20 anos desenvolvendo pesquisas com pneumanso e mamona que hoje são referência nacional. A Epamig desenvolve também pesquisas importantes nas áreas de bovinocultura de corte e de leite, contribuindo para que Minas seja o Estado maior produtor de leite e possua o segundo maior rebanho do país. Nossas pesquisas contribuem também na produção de legumes, verduras e frutas, e recentemente, em função do interesse estratégico e da vocação do Estado, criamos três novos programas de pesquisa: o de floricultura, de aqüicultura e o de silvicultura. Sinto-me orgulhoso em trabalhar numa instituição como esta.


LI: RLI: Sobre os projetos de pesquisa, o que está sendo desenvolvido atualmente e quais as prioridades futuras?

AL: BN: A Epamig foi criada em 1974 com apoio do governo federal. Eu divido esses 34 anos em três fases: a primeira corresponde aos 13 primeiros anos, quando houve grande crescimento e desenvolvimento da empresa, que chegou a ter 2.700 funcionários. Essa foi uma época fabulosa. De 1987 para cá, ou seja, nos últimos 20 anos duas coisas muito graves aconteceram: houve grande retração das verbas federais para as pesquisas agropecuárias nos estados e até mesmo na Embrapa que é federal. O governo reduziu a quase zero o apoio financeiro à pesquisa, demonstrando falta de visão política. Um país com tanta vocação natural para produção de alimento não pode ficar sem pesquisa, pois dela depende a nossa produtividade e competitividade no agronegócio mundial. Outro sério problema foram as dívidas contraídas pelo Estado desde o governo Newton Cardoso em 1987. Quando assumimos a presidência o patrimônio da empresa era estimado em R$ 11 milhões e as dívidas em aproximadamente R$ 60 milhões, gerando uma situação muito grave. De 2.700 empregados, chegamos a menos de 800, pois não podíamos realizar concursos públicos para ocupação das vagas dos funcionários que se aposentavam. Esta é a segunda etapa da história - a fase de decadência. Mas, ainda assim, os bravos pesquisadores da Epamig continuaram fazendo pesquisas, embora em menor quantidade, mesmo com salários defasados e total falta de recursos. Eu considero que o governo Aécio Neves iniciou a terceira etapa da Epamig, que tem sido pautada pelo pagamento das dívidas, pelo saneamento das finanças, pela implantação do planejamento, pela recomposição do quadro de pessoal, pela retomada das pesquisas e recuperação da infra-estrutura física da empresa. Atualmente, a Epamig não tem mais dívidas, conseguiu aumentar as verbas para pesquisa de três para 19 milhões de reais, aumentou o número de eventos de transferência tecnológica, e aumentou o índice de aprovação de projetos de pesquisas nas fontes financiadoras de 5% em 2002 para 49% em 2007. A Epamig existe para fazer pesquisas e transferir tecnologias. Em 2007 foram realizados 1061 eventos, entre dias de campo, palestras, seminários e encontros de produtores. Estamos celebrando os 34 anos de uma empresa que está de pé, motivada e com funcionários satisfeitos. O governo autorizou, recentemente, pela primeira vez na história da Epamig, a implantação da progressão por tempo de serviço, com efeito retroativo ao início da operação da empresa, representando uma justiça salarial para todos os mais de mil empregados. Agora, a cada quatro anos trabalhados, o empregado ganha uma letra, sendo que cada letra corresponde a 4% de aumento salarial. As perspectivas futuras também são excelentes. Estamos obtendo cada vez mais recursos federais, não só para pesquisas, mas também para recuperação da infra-estrutura da empresa. Já iniciamos obras no Instituto Candido Tostes, com uma verba de R$ 2.200.000,00 (dois milhões e duzentos mil reais) do Ministério da Agricultura. Ainda há uma previsão de R$ 2.500.000,00 (dois milhões e meio de reais) para este ano para aquisição de meios de transporte para os pesquisadores. Para o ano que vem, há uma expectativa ainda maior de recursos para obras, aquisição de máquinas e equipamentos. A Epamig celebra seu 34º aniversário com muita alegria e muito entusiasmo.


LI: RLI: Ainda faltam recursos para pesquisa?

AL: Baldonedo: Hoje estamos trabalhando com aproximadamente 300 projetos de pesquisa. Houve um grande aumento nos últimos cinco anos. A relação pesquisador X número de projetos de pesquisa, passou de 0,9 para 3,2 e vai continuar crescendo. Esse é um dos índice mais altos do Brasil, se não for o maior. Estamos participando, como sempre, de todos os editais das agências financiadoras, com um número cada vez maior de projetos. O índice que atesta a qualidade dos projetos passou de 5% para 49%, pois estamos afinados com as prioridades do governo na área de aqüicultura, silvicultura, agroenergia e floricultura. O horizonte é muito positivo para a Epamig.


LI: RLI: Ainda faltam recursos para pesquisa?

AL: Baldonedo: Primeiro, devemos elucidar a questão dos objetivos distintos da pesquisa pública e a da pesquisa privada. A pesquisa pública é essencial, pois a pesquisa privada nem sempre é difundida. As empresas particulares e os produtores rurais (os grandes produtores, porque os pequenos não têm capital para as despesas dos experimentos) que fazem pesquisa, em geral, utilizam a tecnologia gerada, exclusivamente, em seu benefício. A pesquisa pública, por outro lado, vem de encontro às necessidades daqueles que não têm como financiar experimentos, mas que necessitam de tecnologia em seus sistemas de produção. Esse é o trabalho da Epamig faz – geração e difusão de tecnologia. Não é verdade que faltam recursos para a pesquisa. O que falta é pessoal e recursos para a manutenção da infra-estrutura de pesquisa existente (instalações, laboratórios, máquinas, etc), mas não verba para fazer pesquisa. Na Epamig existem três grandes categorias de despesas – pessoal, custeio e pesquisa. As despesas com pessoal são totalmente pagas pelo Estado. A Epamig ainda é carente de algumas categorias profissional como trabalhadores rurais para as fazendas, advogados, engenheiros, contadores, técnicos agrícolas, gerentes e administradores rurais; e as contratações não podem ser feitas sem autorização do governo. A outra categoria de despesa é o custeio, representado pelas contas de telefone, água, luz, gastos com combustível, diárias de viagem, manutenção mecânica de máquinas, equipamentos e veículos. Estas despesas são integralmente pagas com recursos próprios; o Estado não participa da despesa de custeio da Epamig. A terceira categoria de despesa é aquela relativa às pesquisas, que são financiadas pelo Estado por meio da Fapemig (Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais), e pelo governo federal por meio do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), da FINEP (Financiadora de Estudos e Projetos) e dos Ministérios. O setor privado investe muito pouco na pesquisa pública da Epamig, e não há muita possibilidade de que isto mude, porque não existe interesse, da maior parte das empresas particulares, nas pesquisas públicas.


LI: RLI: O Instituto de Laticínios Cândido Tostes também está entre os projetos de recuperação e modernização da estrutura física da Epamig. O que está sendo feito lá?

AL: BN: A primeira preocupação quando assumimos a presidência foi a de ter um plano diretor para o Cândido Tostes, uma instituição com mais de 70 anos, sucateada em sua estrutura física, rede elétrica e hidráulica, carente de pessoal e, principalmente, com uma estrutura administrativa inadequada para o seu desenvolvimento. Então, a primeira providência foi elaborar um plano diretor para orientar todas as ações de recuperação e desenvolvimento do Cândido Tostes. Muito já foi feito. Contratamos professores e mudamos a estrutura administrativa, dando mais ênfase à questão gerencial das áreas administrativa e financeira. O Instituto tem uma fábrica de laticínios, que é uma fábrica-escola tradicional, mas que também comercializa produtos. Então, ao invés de ter uma direção única para tudo, criamos dois centros. Um deles é o centro de ensino e pesquisa e o outro, cuida da administração, finanças, produção, além de administrar a fábrica e a loja de produtos. Com relação ao sucateamento da estrutura física, estamos pleiteando uma verba de R$ 2.200.000,00 (dois milhões e duzentos mil reais) do Ministério da Agricultura para reforma da fábrica-escola e construção da estação de tratamento de efluentes, evitando que o soro da fábrica continue a ser um grave agente poluidor ambiental. Essa fábrica foi construída para ser uma penitenciária e, por isso, tem uma estrutura pesada e muito antiga que está sendo totalmente reformada. Todo o telhado e as redes elétrica e hidráulica já foram trocados. Os projetos futuros são a implantação do museu do leite do Cândido Tostes, a transformação do curso médio para curso superior de laticínios, a implantação do curso de pós-graduação em laticínios, a reestruturação do curso profissionalizante e o pleno funcionamento do centro de capacitação, com a realização de cursos rápidos para os produtores do queijo de Minas e do Brasil. Nossa meta é a revitalização total do Cândido Tostes.


LI: RLI: Como funciona a parceria da Epamig com a Embrapa?

AL: BN: Temos uma parceria muito estreita, tanto na pesquisa quanto nas área de pessoal e técnica. Das 23 fazendas utilizadas pela Epamig, 10 são da Embrapa cedidas em comodato. Dos nossos 215 pesquisadores, 12 são cedidos pela Embrapa. Temos ainda duas unidades da Embrapa em Minas Gerais, a Embrapa Gado de Leite, em Juiz de Fora e Embrapa Milho e Sorgo, em Sete Lagoas. É uma parceria natural. A Epamig é a Embrapa de Minas Gerais.


LI: RLI: A maior demanda mundial de alimentos e, os conseqüentes aumentos dos preços ao consumidor representam a “hora do Brasil”, ou seja, esta é a nossa grande oportunidade de crescimento no mercado internacional?

AL: BN: O Brasil está tendo a oportunidade de aumentar muito a sua produção com vistas ao mercado internacional. A grande vocação do Brasil é produzir alimentos para diversos países que não têm mais área disponível para a agropecuária e, inclusive para a bioenergia. Ao contrário de países como os EUA, a Argentina, a Europa Ocidental e o Canadá, o Brasil não tem problemas de área. Não precisamos reduzir um hectare de área plantada com alimentos para produzir energia, nem cortar nossas florestas. Nós temos área disponível para tudo.


LI: RLI: Quais as suas expectativas em relação à mudança de governo que ocorrerá em menos de 2 anos? Há mais esperança ou medo do que está por vir?

AL: BN: O agronegócio brasileiro encontra-se em franca expansão no mercado internacional, gerando cada vez mais empregos e aumentando a renda da população. Os produtores estão começando a se organizar para atender às exigências de qualidade do mercado consumidor. Assim, só torcemos para que as mudanças de governo não tragam retrocessos, pois nós já avançamos muito, mas precisamos avançar muito mais.