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entrevista
Nivaldo Silvavoltar

Nivaldo Silva

O novo presidente eleito do CRMV-MG, Nivaldo Silva, é médico veterinário formado pela UFMG. Já foi pesquisador da Empraba Gado de Leite e atualmente é professor associado do Departamento de Medicina Veterinária Preventiva da Escola de Veterinária da UFMG.

Entrevista concedida a Mariana Garcia em 28-mar-09


LI: O slogan da campanha de sua chapa à presidência do CRMV-MG prometia NOVOS COMPROMISSOS e NOVAS REALIZAÇÕES. Quais serão as principais mudanças em relação à gestão anterior, na qual o senhor era o vice-presidente?

NS: Na eleição passada nós estabelecemos uma série de compromissos e todos foram cumpridos. A proposta era dar uma nova feição ao Conselho, com uma gestão voltada à valorização do indivíduo, ao respeito ao profissional e ao resgate do papel do Conselho no dia-a-dia de veterinários e zootecnistas. Criamos uma delegacia do Conselho em Montes Claros, consolidamos as outras delegacias que já haviam sido criadas e mostramos para a sociedade o papel preponderante dos veterinários e zootecnistas. Trabalhamos também a questão das muitas instituições de ensino de veterinária e zootecnia que não eram reconhecias pelo Ministério da Educação e estavam sob tutela do Conselho Estadual de Educação, infringindo a legislação em vigor. Esta foi uma situação difícil, porém já foi solucionada por meio das ações desenvolvidas pela diretoria junto aos escalões superiores do governo. Outra batalha que vencemos foi o reconhecimento de que é uma atribuição do veterinário, e de sua competência exclusiva, a responsabilidade técnica em várias áreas, dentre elas, a de laticínios. Vencidas estas etapas, temos que buscar manter o respeito e valorização do profissional. Pretendemos trabalhar pelo fortalecimento das associações e sociedades de veterinários e zootecnistas do Estado de Minas Gerais e do nosso programa de educação continuada. Atuaremos também na área de responsabilidade técnica, pois hoje, não basta que o profissional assine como responsável técnico, é exigido que ele tenha qualificação. Nosso projeto é de treinar, em três anos, 3000 profissionais nas diversas áreas da responsabilidade técnica. Serão cursos gratuitos oferecidos pelo Conselho, em parceria com a iniciativa privada ou com órgãos públicos. Precisamos fazer com que os colegas entendam o que é responsabilidade técnica. Outro compromisso que assumimos é o de ministrar cursos de gestão. Na verdade, são 33 propostas de trabalho que trarão benefícios aos colegas. Eu espero que, quando os três anos estiverem concluídos, possamos dizer que cumprimos todos os itens das propostas.


LI: Existe uma crença de que um segundo mandato político consecutivo nunca é melhor que o primeiro. Por que o senhor acredita que, para o CRMV-MG, a continuidade será melhor que a mudança?

NS: Não é uma continuidade, é a primeira vez que sou presidente. O grupo é que vem junto. O sistema do Conselho é um sistema presidencialista. Efetivamente não será uma continuidade, pois não foi uma reeleição. O presidente anterior não queria se candidatar, mas por insistência minha, ele aceitou vir conosco nesta tarefa. O Dr. Fernando Laender tem uma influência e uma participação política muito grande, e sua permanência na diretoria será benéfica para o Conselho. Mas, eu sou um novo presidente e minhas propostas são frutos de experiência pessoal de vida, de 36 anos como veterinário, pesquisador e professor. Essa vivência trouxe propostas muito diferentes daquelas de quando começamos aqui no Conselho. É uma mudança, não uma reeleição, eu sou o novo presidente. O Conselho é um órgão de fiscalização, e continuará sendo, mas nós vemos que o Conselho pode fazer mais, nossas propostas estão muito mais voltadas para o profissional. Se conseguirmos fazer com que o profissional possa trabalhar corretamente, nós teremos menos problemas éticos no exercício profissional. Vamos também investir na área de marketing profissional, já fizemos algumas inserções, vamos criar ouvidoria e aperfeiçoar a assessoria de comunicação. Em 2006, nós fizemos um levantamento na mídia em Minas Gerais para ver o que as pessoas sabiam da veterinária e zootecnia, e ficamos extremamente preocupados com a resposta. Hoje, nós já somos procurados para entrevistas. No momento da fraude do leite em 2007, chamamos a imprensa aqui, mostramos que foi um episódio pontual, que os profissionais envolvidos não eram da veterinária, e que a situação só está segura quando existe um veterinário envolvido.


LI: O ENCP (Exame Nacional de Certificação Profissional) tem como objetivo ser uma ferramenta de avaliação do padrão de qualidade do ensino da Medicina Veterinária no Brasil. Com os resultados obtidos até hoje e com a sua longa experiência de docência, trace um perfil da qualidade técnica dos veterinários egressos das universidades públicas e particulares brasileiras.

NS: Durante algum tempo eu participei do processo de elaboração do ENCP e tive acesso aos resultados destes processos. O resultado desses 13 exames aplicados mostra as diferença que existem de ensino, nos processos de formação dos profissionais de medicina veterinária em todo país. Evidentemente que as instituições de ensino públicas (UNESP e USP não participaram) se destacam como as melhores, principalmente as federais. Muitos conteúdos não preparam os estudantes para a vida profissional. O que se vê muito nas instituições privadas é uma ênfase muito maior nas áreas de clínica e cirurgia. Todas as escolas recebiam os resultados do ENCP com objetivo de melhorar as áreas de maior carência. Nós detectamos maior carência na área de medicina veterinária preventiva e saúde pública, justamente minha área de trabalho, e na área de produção animal. Existem instituições de ensino de veterinária que oferecem um conteúdo mínimo na área de produção animal. Enquanto a UFMG tem cerca 15% da carga horária total voltada à produção animal, algumas escolas não chegam a 3% da carga total. O que se buscou quando foram criadas as diretrizes curriculares foi uma formação generalista, inclusive humanística, e nesse quesito todas as escolas, de norte a sul, estavam deixando a desejar. Outra questão que o exame apontou foi que, nas regiões sul e sudeste, o ensino é de qualidade superior ao de outras áreas do Brasil, principalmente norte e nordeste. O ENCP mostrou a questão da pressão de seleção, ou seja, se você tem uma pressão menor, o profissional terá mais carência em seu processo de formação.


LI: Nos últimos anos temos assistido à abertura de inúmeros cursos de medicina veterinária e zootecnia em universidades particulares. Como conseqüência, observa-se uma grande diversidade entre instituições, inclusive nas públicas, em termos de estrutura física e qualidade de ensino. O senhor acredita que, ao longo do tempo, poderá ocorrer um declínio na qualidade profissional dos veterinários e zootecnistas em função dessa diversidade, aumentando assim, o papel fiscalizador dos CRMV’s? Como evitar que isso ocorra?

NS: Vamos analisar a situação aqui de Minas Gerais. Hoje, entre públicas e privadas, temos 19 escolas de veterinária e, aproximadamente, 15 de zootecnia em Minas Gerais. Existem grandes diferenças entre os processos de formação. Com isso, temos profissionais com formações diferentes, e que muitas vezes não atendem às exigências do mercado de trabalho. Sempre que participo de reuniões, surgem questionamentos dos colegas sobre o que pode ser feito com relação às universidades que estão sendo criadas. Legalmente, o Conselho não pode intervir neste processo, pois esta é uma atribuição do MEC por meio do Conselho Nacional de Educação, a quem compete conceder a abertura e o próprio reconhecimento dos cursos. As áreas de medicina, odontologia, direito, dentre outras, conseguiram que o Conselho Federal destas instituições fosse consultado sobre a viabilidade ou não da abertura de novas instituições de ensino. Entretanto, a última palavra é dada pelo Conselho Nacional de Educação que, normalmente, tem ignorado todas as ponderações dos conselhos reguladores quanto à abertura de novas instituições de ensino. Na veterinária, até o ano passado, ainda havia esta consulta ao Conselho sobre a abertura de novas instituições de ensino. Hoje, esta questão está praticamente a critério, único e exclusivo, do Conselho Nacional de Educação. Em Minas Gerais, até setembro de 2008, um artigo de lei que era considerado constitucional, passou a ser inconstitucional. Esse artigo permitia que o Conselho Estadual de Educação autorizasse a abertura de instituições, assim como seu próprio reconhecimento, desde que fossem consideradas fundações estaduais. Ainda existem várias instituições funcionando dessa forma. Elas eram consideradas filantrópicas e, quando passaram a ser de competência federal, como é o caso da Unipac, Unincor e Unifenas, começaram a ser avaliadas pelo Inep, por meio do Ministério de Educação, de acordo com a lei 5.517, que regulamenta a profissão da veterinária. Para tentar minimizar as diferenças no processo de formação profissional nas escolas de Minas Gerais, temos uma comissão permanente de veterinários e uma de zootecnistas que realizaram um fórum de coordenadores de cursos. O objetivo era que todos conhecessem um pouco mais sobre a legislação e os procedimentos que levariam à formação de um melhor profissional. Agora, nós pretendemos que estas comissões acompanhem mais de perto os processos de formação dos profissionais de veterinária e zootecnia, inclusive com visitas às instituições, com o intuito de melhorar o processo de educação, não de fiscalizar. Como o Conselho não pode intervir no processo de formação, vamos trabalhar com a educação do profissional, preparando-o melhor ou possibilitando oportunidades de reciclagem para que aqueles que se formaram há mais tempo.


LI: Por que o ENCP, ao contrário de outros exames de qualificação profissional, como o da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), deixou de ser obrigatório para obtenção da inscrição profissional? Sem essa ferramenta, como avaliar a formação de veterinários e zootecnistas egressos de instituições tão diversas?

NS: O ENCP foi muito contestado desde a sua criação, e como ele não estava previsto em lei, e sim por uma resolução, acabou sendo suspenso. Quando tentamos incorporá-lo à lei da veterinária, como é o exame da OAB no direito, ele foi vetado sob a argumentação de que o MEC já tem outros instrumentos de avaliação de ensino. A própria sociedade é contra qualquer processo de avaliação do profissional, considerando que se ele formou-se em uma instituição que é reconhecida, está apto a exercer sua profissão. A lei foi vetada pelo presidente da República, portanto tem que se iniciar outro processo, extremamente longo no Congresso Nacional, com um projeto diferente. Eu não acredito que o ENCP volte a ser utilizado, nem mesmo sob a forma de processo voluntário, como foi da última vez. Nós chegamos a ter aqui no Conselho, solicitações de empresas, dizendo que só contratariam profissionais que tivessem passado pelo ENCP, mas isso agora está “sepultado”. Nós não podemos fiscalizar o ensino, pois essa não é uma atribuição dos Conselhos. Nós fiscalizamos os profissionais. Onde identificamos que os profissionais precisam de um melhor processo de formação, vamos até às instituições, sejam elas públicas ou privadas, e tentamos trabalhar em conjunto, oferecendo a ajuda necessária. O que precisa é que o governo tome uma posição mais definida na avaliação das instituições de ensino.


LI: Algumas instituições de ensino têm admitido estudantes com formação de ensino médio insuficiente para o ingresso em um curso de veterinária e zootecnia. Por outro lado, existe no campo uma grande deficiência de bons técnicos agropecuários. Será que a criação de novos colégios técnicos e a melhoria dos existentes seria uma forma mais “inteligente” de aproveitar os recursos humanos para a pecuária brasileira?

NS: A partir do momento que nós temos uma grande oferta de vagas por parte das instituições privadas, diminui-se a pressão de seleção. Nesses casos, observamos o ingresso de estudantes que precisariam passar por um processo de nivelamento, antes de iniciar sua formação. Acreditamos que toda instituição de ensino tem a melhor das intenções de formar um bom profissional, pois os currículos e as matrizes curriculares têm mostrado isso. Entretanto, se o profissional não sai bem formado, nós temos que descobrir onde estão estes gargalos do ensino, mas acreditamos que esta é uma competência do Ministério da Educação. O interesse principal de avaliar o ensino é do governo. O nosso, é de ter o profissional melhor formado. O papel dos técnicos, que são profissionais do nível médio, é de ser um suporte para a atividade do veterinário e do zootecnista. O que acontece no Brasil é que se desconhecem os limites do que papel do técnico e o do profissional de nível superior. Eu creio que no futuro chegaremos a este patamar de reconhecimento, mas primeiro os veterinários e zootecnistas têm que entender o papel que eles têm na sociedade. Um profissional não pode chegar em uma propriedade rural apenas para resolver um caso específico. Temos que ser gestores, mostrar nossa qualificação no que fazemos. Esse é um dos nossos objetivos quando falo em valorização profissional.


LI: O senhor acredita mais no sucesso de grades curriculares generalistas ou naquelas que visam a um direcionamento do estudante para uma área específica de atuação? Por quê?

NS: O processo de formação do veterinário e zootecnista tem que ser generalista e humanístico, para que ele seja capaz de dar respostas à sociedade por meio dos conteúdos. Existem conteúdos generalistas e conteúdos específicos. Os conteúdos são obrigatórios, mas não é definida a carga horária que cada um deles vai ter dentro de cada instituição. Hoje, a maior parte das instituições privadas de ensino de veterinária se destinam a uma formação mais médica, deixando carentes as áreas de produção animal e vigilância sanitária. O que muitas dessas instituições fazem é criar disciplinas optativas ou grupos de estudos. O problema é que, quando uma instituição privada cria disciplinas optativas, cobra por elas, e aí o aluno “pensa duas vezes” antes de fazê-las. Depois que ele se forma, sente necessidade de buscar a especialização. A bolha do ensino já estourou, e mesmo assim algumas escolas insistem em abrir novos cursos, com isso, o número de profissionais fica muito grande para ser absorvido pelo mercado de trabalho. Além disso, a qualidade do ensino também está diminuindo.


LI: Baseado na resposta anterior, e na sua experiência profissional, trace um perfil “ideal” para o veterinário e zootecnista que atua ou pretende atuar na bovinocultura leiteira atual.

NS: Logicamente, há necessidade da formação generalista porque muitos não sabem onde vão atuar após concluir a graduação. Mas, o que se sugere é que o aluno busque uma formação complementar por meio de bons estágios, cursos, congressos e outras atividades voltadas para a área que ele tem mais interesse em trabalhar, pois tudo isso ajuda na formação de um bom profissional.


LI: Ainda com relação à bovinocultura leiteira, quais as ações de Educação Continuada serão priorizadas pela sua gestão?

NS: Nós não privilegiamos uma área especificamente, porque o Conselho é formado por profissionais das mais diferentes áreas. Mas, pretendemos dar um apoio na área de gestão agropecuária, pois vemos que o mercado busca um profissional mais gestor. Muitos colegas confundem assistência técnica com certificação, e esta só vem quando há um profissional participando. As possibilidades são muitas, e nós vemos com uma certa satisfação este novo olhar dos profissionais formados para bovinocultura.


LI: Uma questão que sempre gera polêmica é a sobreposição dos exercícios profissionais da medicina veterinária e da zootecnia, extremamente comum, nas propriedades rurais. A confusão aumenta ainda mais quando as escolas ou departamentos de zootecnia aceitam veterinários como estudantes de pós-graduação em nutrição e melhoramento, enquanto os zootecnistas, em geral, não são aceitos em áreas como a reprodução. Como o CRMV-MG atuaria caso fosse acionado para resolver algum tipo de impasse relativo a essa sobreposição?

NS: Nós temos áreas que são comuns ao veterinário e zootecnista e áreas exclusivas de cada profissão. O que nós temos que saber é que cada um deve saber ocupar seus espaços e que estes profissionais podem trabalhar em conjunto e, principalmente, coexistir dentro de um mesmo conselho. A meu ver, não há necessidade de se criar Conselhos separados de veterinária e zootecnia, pois juntos seremos mais fortes. Uma profissão não é melhor que a outra, cada uma tem suas atribuições. Não creio que haja impasse, creio que haja confusão nas definições dos próprios limites.


LI: Qual será, em sua opinião, o seu principal desafio à frente do CRMV-MG?

NS: O principal desafio será mostrar à sociedade e aos colegas veterinários e zootecnistas a importância de nossas profissões na sociedade. Outro desafio será realizar uma gestão marcada pela seriedade, zelo e transparência, mostrando não só à sociedade, mas aos colegas, que o Conselho está aqui não só para fiscalizar, mas também para ser um grande baluarte nas nossas profissões.


LI: Se o senhor tivesse o poder de mudar apenas uma coisa em relação ao exercício profissional da medicina veterinária e zootecnia, o que seria?

NS: Eu não mudaria nada, eu tentaria fazer com que os nossos colegas veterinários e zootecnistas efetivamente ocupassem o seu espaço dentro dos campos de atuação das nossas profissões. Hoje sofremos sérias ameaças de outras profissões que querem ocupar os espaços que nós não estamos ocupando.