Esforço perdido

Nutrição | 13 de Março de 2019 Voltar

 Abertura Silos.png (1.07 MB)

Produtores se empenham na hora de ensilar, mas se esquecem de que o processo não finaliza quando se veda o silo. É necessário levar o alimento em volume adequado e com qualidade nutricional à dieta das vacas

Vaca que não come adequadamente não dá leite – e todo produtor sabe disso. Garantir, portanto, alimento com qualidade nutricional e em volume que atenda a demanda do animal é regra básica da atividade. O volumoso pode ser considerado um dos protagonistas da dieta do rebanho, por ser menos oneroso e essencial para a elaboração de uma alimentação balanceada. Mas, ainda hoje, produtores e técnicos enfrentam desafos para assegurar o sistema de retirada da silagem que garanta o mínimo de perdas de nutrientes e evite o comprometimento da estrutura do painel dos silos em trincheira.

Para a maioria dos técnicos consultados pela Revista Leite Integral, o ideal é encontrar o equilíbrio entre a demanda da sua fazenda e o custo-benefício do equipamento utilizado no processo. “Não diria que existe um método mais indicado. Vai depender do número de vacas, que define a quantidade de descarga por dia e o tipo de silo”, destaca o professor adjunto de bovinocultura de leite da U?a (Universidade Federal de Lavras) Marcos Neves Pereira. Ele afrma que as desensiladeiras acopladas a vagão forrageiro, do tipo fresna, são muito comuns nas fazendas brasileiras. “Esses equipamentos funcionam bem quando a taxa de descarga necessária não é excessivamente alta. Dependendo da forma como a fresna é utilizada, ela pode reduzir o tamanho de partícula da forragem, mas, com uso adequado, a redução nas partículas não é enorme”, destaca.

Outro sistema comum, segundo Pereira, utiliza a pá em trator. “O inconveniente é que não se consegue retirarde forma uniforme o perfil do silo, e ele descompacta a silagem remanescente. Funciona bem em fazendas muito grandes, onde a taxa de descarga é alta”, pondera.

Segundo o médico veterinário e consultor Eduardo Silveira, grande parte dos produtores do Rio Grande do Sul ainda utilizam o garfo tratorizado. O técnico afirma que esse sistema compromete a compactação do silo durante a desensilagem. “Ele mexe na estrutura do silo e facilita a entrada de oxigênio, afetando a qualidade da forrageira. Em contrapartida, ele evita o reprocessamento da silagem, impedindo a diminuição da partícula”, explica.

Outro método de retirada muito comum no Estado são máquinas desensiladoras. Como ponto positivo, Silveira cita que elas impedem a abertura da estrutura de compactação do silo. Porém, podem afetar a qualidade nutricional da fibra. “Ela diminui o tamanho da partícula, fazendo com que a matéria seja picada de forma mais grosseira”, afirma o consultor.

A quebra de partícula da fibra pode estar associada ao manejo inadequado do equipamento. É o que afirma o médico veterinário e técnico do Senar MG Bernardo Faria de Barros: “Para coletar no silo é preciso desligar a rotação das pás internas do vagão e ligar quando colocar o concentrado”. Em relação à perda nutricional, ela vai acontecer se a confecção não for feita corretamente, segundo o técnico. “Se ensilar no ponto correto, com o milho adequado, se a colheita for higiênica e a estocagem for bem-feita, não tem por que perder mais de 5%. Se for mais que isso, é porque há falha na confecção da silagem”, alerta. Para efetuar o descarregamento, o ideal é cortar uma fatia mínima na face do silo. A espessura depende
da temperatura ambiente, do tipo de silagem e do perfl fermentativo, de forma que não descompacte o material remanescente.


PECADO CAPITAL

Embora a maioria dos produtores trabalhe com muito cuidado durante a ensilagem, muitos deles pecam na hora de escolher o sistema de retirada mais adequado para sua propriedade, o que vai impactar negativamente a saúde financeira do negócio.
“Quando comparamos uma propriedade na qual é realizado o manejo adequado com outra que não o faz, percebemos que há grande oportunidade de redução de perdas”, afirma Mário Zoni, médico veterinário e consultor técnico especialista em bovino de leite. A afirmação é ratifcada pelo produtor Jonadan Ma Shou Tao, proprietário da Fazenda Boa Fé (Conquista/MG). Ele afirma que hoje existe potencial de perdas elevado, o que impacta consideravelmente os custos de produção. “O descarregamento malfeito compromete a próxima retirada. Além disso, temos perdas da silagem que esquenta no cocho e no vagão e também da silagem que fica na trincheira abalada. O produtor estima que as perdas de silagem possam variar entre 5% e 15% do total investido na produção da forrageira. Um dos principais debates sobre o sistema de retirada envolve a quebra das partículas da fibra, essencial para manter a ruminação ideal das vacas e o comprometimento dos painéis do silo remanescente. Quando a forrageira é processada com partículas maiores, há comprometimento da compactação do silo, maior presença de oxigênio – que compromete
a fermentação – e maior massa do material compactado, que necessitará de maior espaço para armazenamento.

“O FUNCIONÁRIO É O GRANDE RESPONSÁVEL PELO SUCESSO DA FAZENDA, É ELE QUEM FORNECE O ALIMENTO ADEQUADO ÀS VACAS”, DIZ EDUARDO SILVEIRA, MÉDICO VETERINÁRIO E CONSULTOR.

 

DESENVOLVIMENTO DOS FUNCIONÁRIOS

Quem lida diariamente com a desensilagem deve conhecer as técnicas mais adequadas e cuidar para que o processo seja realizado com maior nível de excelência. Por isso, a capacitação e o treinamento dos funcionários são fatores que devem estar na rotina das fazendas. Nas propriedades onde são realizados treinamentos periódicos e onde são feitas avaliações periódicas dos silos e da estrutura de compactação, há menos perdas.

Na Fazenda Boa Fé, a preocupação com o treinamento dos funcionários é base do trabalho diário. Jonadan Ma garante que, sem o desenvolvimento dos colaboradores, o fracasso seria certeiro. “As margens de lucro por litro de leite são cada vez menores. Se eu não tiver efciência, treinamento e capacitação, mesmo com máquinas efcientes para evitar perdas ao máximo, estaríamos em condições preocupantes”, diz. O cuidado com a alimentação das vacas integra o projeto de bem-estar da propriedade.

 

IMG_1331.jpeg (154 KB) 

ALTERNATIVAS DE MERCADO

Como saída aos sistemas tradicionais, produtores estão buscando equipamentos que atendam as necessidades das fazendas. Hoje, destaca-se um equipamento descarregador importado que remove a silagem em blocos sem descompactar. “É interessante quando se quer transportar silagem de um local para outro ou descarregar silo para ser usado em outro dia. Como o material fca compactado, como no silo após o descarregamento, não sofre tanta deterioração aeróbica após ser descarregado”, avalia Marcos Pereira. É a mesma conclusão do produtor Jonadan Ma Shou Tao. “Ele consegue entrar na trincheira e cortar com a faca, de cima para baixo, mantendo a integridade da silagem”, afrma. O investimento em um maquinário como esse pode chegar a aproximadamente R$ 100 mil mais o valor da taxa de importação. “É um equipamento extremamente tecnológico. Temos que avaliar como ele vai se comportar no dia a dia das fazendas, como será feita a manutenção e se ela é cara ou barata”, ponderou Eduardo Silveira.


Outra alternativa, essa mais indicada para a silagem feita em pátio com piso concretado, são minicarregadeiras com garfos adaptados, que escarificam a silagem. O médico veterinário Régis Carvalho relata que há produtores que utilizam
esses equipamentos inclusive em propriedades com alta demanda de retirada: “Existe o inconveniente de depois da escarifcação ter que jogar no chão, mas não há redução da partícula da fibra, não tem perda nutricional. Isso é diferente de tudo
o que falaram, com certeza. E funciona bem demais”. Segundo ele, o investimento necessário seria o custo da minicarregadeira mais o valor da adaptação, que chega a aproximadamente R$ 3.000.

Ou seja, existem alternativas disponíveis no mercado que atendem as diferentes necessidades das propriedades brasileiras. O que falta, segundo alguns técnicos e proprietários de vacas, é a maior aproximação e o alinhamento com a indústria para
observar as maiores demandas, aumentar a produção do leite e torná-lo um produto mais rentável.

 

SE LIGAAs perdas de silagem podem variar entre 5% e 15% do total investido na produção da forrageira

 

DESAFIOS

Quais são os maiores desafos enfrentados por técnicos e produtores na hora de desensilar? Confira o relato de alguns profissionais da área.

 

“Na descarga manual, ainda usada em muitas fazendas pequenas, um dos desafos é não descompactar o remanescente após a retirada da fatia de silagem. Garfos devem ser usados de cima para baixo, e nunca fincados na massa ensilada (para descarregar por desmoronamento). Outro problema é a retirada de fatias excessivamente grossas em baixa taxa de descarga por dia (descarregamento em prateleira ou de uma fração pequena da face por dia). Nesse caso, não se retira uma fatia uniforme por dia em toda a face do silo, o que aumenta a perda de matéria seca. O sintoma disso na fazenda é o aquecimento da face do material. Qualquer bom método de descarregamento manterá fria a face do silo (sem calor gerado por respiração).” Marcos Neves Pereira, professor adjunto de bovinocultura de leite da Ufla

 

“O maior desafio hoje, na retirada com desensiladora, é acertar a fbra da silagem. Esse processo também deve ser feito de forma a garantir a higiene da silagem.” Régis Carvalho, médico veterinário

 

“Dependendo do tamanho da fazenda, a retirada manual vai ser cara porque vai aumentar o número de funcionários necessários para fazer o processo. Outro erro é usar equipamentos incompatíveis com a necessidade da fazenda. A qualidade do material não pode ser avaliada apenas visualmente.” Bernardo Faria de Barros, médico veterinário e técnico do Senar MG

 

 

João Paulo Mello

Jornalista da Revista Leite Integral