Como os produtores podem evitar ao máximo as perdas causadas pela TPB

Animais Jovens | 01 de Outubro de 2018 Voltar

Por Cristina Moreno de Castro

 

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Pindura, amarelão, mal da ponta, piroplasmose, mal-triste, tristezinha. Não importa o nome pelo qual essa grave doença é conhecida em sua região, o fato é que o complexo da TPB (tristeza parasitária bovina) é uma preocupação em todo o Brasil e gera perdas econômicas muito expressivas.

É difícil mensurar todo o prejuízo causado por redução da produção de leite e de carne, infertilidade temporária, custo com tratamentos, remédios e mão de obra especializada, atraso do desenvolvimento e abortos, sem falar na mortalidade. Já houve cálculos estimando perdas econômicas anuais de cerca de US$ 850 milhões na América Latina e impressionantes US$ 500 milhões só no Brasil.

Mas as avaliações de impacto muitas vezes não expressam com exatidão o real prejuízo enfrentado pelo produtor. É o que afirma Gustavo Henrique Ferreira Abreu Moreira, que é professor de clínica médica de produção de ruminantes do UniBH e membro do Educavet. Ele explica: “Existem aspectos que classificamos como perdas insensíveis, ou seja, que não podem ser quantificadas. Não sabemos, por exemplo, qual é o impacto da tristeza parasitária sobre a imunidade do animal dentro do sistema de produção. Sabemos que animais acometidos têm risco elevado de desenvolver comorbidades, como as pneumonias, mas estamos longe de saber como a TPB influencia a ocorrência de outras enfermidades mais tardias”.

Em sua tese, ele estudou o impacto da TPB em uma grande propriedade produtora de leite, entre 2009 e 2016. Das diversas conclusões a que chegou, foi observado que a doença afeta mais os bovinos leiteiros com maior composição genética Holandês. Os valores totais perdidos (terapêutica + produção) por animal variaram de R$ 50 a R$ 2.500 ao ano.

A TPB causa
mortes, redução
de produção de
leite e infertilidade,
além de gerar
grandes custos com
remédios e mão de
obra especializada

 

Seja qual for o cálculo, o que é garantido dizer é que a TPB gera grande impacto nos rebanhos leiteiros do país. Transmitida principalmente por carrapatos, como o Boophilus microplus, que é comum em regiões tropicais e subtropicais, a TPB é um complexo de doenças causadas por protozoários do gênero Babesia spp. e pela bactéria Rickettsia do gênero Anaplasma spp., que, nos dois casos, desencadeiam danos clínicos muito parecidos, como anemia e apatia, deixando os animais com aspecto “triste”.

De acordo com o professor da Escola de Veterinária da UFMG Elias Jorge Facury Filho, a TPB existe no país todo e, “de maneira geral, é um problema sério”. Apenas em regiões com frio ou calor muito intensos, como no sertão do Nordeste ou em algumas cidades do extremo sul do país, em que o ambiente é desfavorável para os carrapatos e as moscas transmissoras, é que a doença não ocorre. “No Sul, existe instabilidade, e a doença é mais frequente em animais adultos. Já no Sudeste, é mais frequente em bezerras, surgindo quando têm em torno de 150 a 180 dias”, explica.

O médico veterinário e consultor José Renato Chiari destaca a preocupação com a doença em animais mais jovens: “Depois da diarreia na primeira fase, a segunda doença mais comum é a tristeza parasitária. E talvez a que cause mais prejuízos, porque os animais já estão criados”. Ele destaca que cada fazenda tem um perfil, com diferentes fases de incidência da doença.

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DIAGNÓSTICO PRECOCE

Chiari é produtor de leite da fazenda São Caetano, na cidade goiana de Morrinhos. Lá, o problema costuma surgir com animais a partir de 90 dias de idade, e o período crítico vai até os 180 dias. Esse grupo de bezerras é acompanhado semanalmente, usando a ferramenta do micro-hematócrito, para avaliar se o animal tem anemia. Quando o sintoma é detectado, o acompanhamento daquele animal passa a ser feito de quatro em quatro dias. “Com isso, a gente tem gasto com mão de obra, porque precisamos de gente treinada. Mas a parte do impacto da doença, de o animal perder condição ou peso, se torna muito reduzida”, afirma o produtor.

Há outras formas de se fazer o diagnóstico precoce, a fim de diminuir a intensidade dos casos. O professor Elias Facury lista algumas: inspeção diária do rebanho para verificar sintomas, esfregaço sanguíneo e monitoramento da temperatura, feito de duas a três vezes por semana – embora seja um método mais “inespecífico”, já que a febre pode ser causada por outros fatores.

No Grupo Sekita, onde a principal causa de morte dos animais jovens é a TPB, há uma rotina de medir a temperatura de bezerras na idade de maior risco (após a desmama até os 6 meses) duas vezes por semana, segundo Leonardo Lopes Garcia, médico veterinário e diretor de pecuária da Sekita Agronegócios. Os animais que apresentam alteração na temperatura são tratados. A propriedade também está testando, desde o último trimestre, uma nova prática: “Em parceria com a UFMG, começamos a fazer inóculos da TPB nas bezerras em aleitamento. Elas entram em contato com a doença e adquirem a imunidade já na casinha”. Garcia destaca que isso requer dedicação da equipe para acompanhar, medir temperatura, fazer lâminas e, se necessário, tratar cada animal. “O objetivo é que as novilhas, ao saírem da bezerreira, já tenham imunidade para enfrentar os desafios”.

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Animais infectados com Babesia bovis se mostram com apatia, um dos sintomas da doença | Foto: Tiago Facury Moreira

 

Seja qual for o método escolhido, o importante é evitar o diagnóstico tardio, que é um dos grandes desafios enfrentados em relação à TPB. “Associado à terapia incompleta, o diagnóstico tardio resulta em gasto com tratamento e, muitas vezes, em uma taxa de sucesso baixa”, diz Gustavo Moreira. “Nas fazendas, na maioria das vezes, os casos clínicos são diagnosticados erroneamente ou tardiamente”, conta.

Em fazendas grandes, é comum que existam pessoas que cuidam da recria como um todo, mas ficam praticamente focadas só na TPB, tamanha a incidência da doença. “O custo está em manter funcionários e medicamentos, mas, fazendo a tomada de temperatura ou hematócrito, é possível evitar maiores prejuízos. A mortalidade cai praticamente a zero”, diz o produtor José Renato Chiari. Em fazendas pequenas também é possível evitar a evolução, afirma ele, já que os profissionais têm uma convivência muito próxima com os bezerros e, sendo treinados, conseguem tratar logo nos primeiros sintomas.

Para Facury, um impacto financeiro importante decorre do diagnóstico errado. Quase sempre, o animal é tratado para duas doenças que têm sintomas muito parecidos: babesia e anaplasma. “Mas, na grande maioria das vezes, ou é uma, ou é outra. Quando não faz o diagnóstico, o produtor acaba tratando para as duas doenças e gasta o dobro”, explica. O diagnóstico diferencial é feito em laboratório, que pode ser implementado na própria fazenda, com equipamentos que exigem investimento de cerca de R$ 10 mil, além da mão de obra especializada. “Só conheço uma fazenda que faz diagnóstico com lâmina de todo bezerro que ela acredita ter TPB. E o número de tratamentos depois que passaram a fazer diagnóstico etiológico diminuiu muito”, relata o professor. Além da questão da detecção precoce, ele cita a importância, para combater o problema, de se fazerem o controle de vetores (carrapatos e moscas), a boa transmissão de imunidade passiva e a exposição mais precoce aos agentes da doença.