Impactos econômicos da mastite

Sanidade | 01 de Agosto de 2012 Voltar

Texto: Nara L. de Carvalho, Daniele C. Beuron, Marcos V. dos Santos

A ocorrência de mastite é uma das principais fontes de prejuízos em rebanhos leiteiros, tendo impacto direto sobre os custos de produção e perda da qualidade do leite. Para que se tenha uma ideia da magnitude do problema, uma vaca adulta que tenha três casos clínicos durante uma lactação deixa de produzir cerca de 700 kg de leite. Além dos prejuízos na produção primária, a mastite também é um problema para as indústrias de laticínios. Devido à natureza crônica de parte dos casos da mastite, os prejuízos podem ocorrer ao longo de toda a lactação e não são facilmente percebidos. Desta forma, a estimativa dos custos gerados pela ocorrência da mastite pode aumentar a percepção sobre as perdas econômicas, o que permite motivar os produtores a implantar medidas de controle e melhoria da saúde do úbere.

1.Introdução

O setor leiteiro é um dos mais importantes do agronegócio brasileiro e vem atravessando um período de evolução. As principais mudanças têm sido a implementação da nova legislação para os padrões mínimos de qualidade (IN nº 51/2002 e IN nº 62/2011), o aumento nas exigências de qualidade do leite por parte das indústrias, além de bonificação pelo leite de alta qualidade.

A ocorrência de mastite é uma das principais fontes de prejuízos em rebanhos leiteiros, tendo impacto direto sobre os custos de produção e perda da qualidade do leite.  Além dos prejuízos na produção primária, a mastite também é um problema para as indústrias de laticínios. A utilização de leite de baixa qualidade tem implicações tecnológicas relevantes como, por exemplo, o baixo rendimento na fabricação dos lácteos, a diminuição da vida de prateleira dos produtos e alterações nas características originais do leite e dos derivados.

Devido à natureza crônica de parte dos casos da mastite, os prejuízos podem ocorrer ao longo de toda a lactação e não são facilmente percebidos. Dessa forma, a estimativa dos custos gerados pela ocorrência da mastite pode aumentar a percepção sobre as perdas econômicas, o que permite motivar os produtores a implantar medidas de controle e melhoria da saúde do úbere. Outra justificativa sobre a importância de conhecer os custos da mastite é que essa informação auxilia o produtor na tomada de decisões sobre quais medidas e práticas de manejo apresentam melhor relação custo/benefício no que se refere ao controle da doença.

As perdas financeiras causadas pela mastite ocorrem tanto na forma clínica quanto subclínica. A manifestação clínica é caracterizada por aspecto anormal do leite, edema da glândula mamária e/ou sintomatologia sistêmica da vaca. A mastite subclínica é caracterizada por leite de aparência normal, com aumento nas células somáticas (CCS) devido ao influxo de leucócitos. Os prejuízos devido à mastite clínica são evidentes e incluem o descarte do leite, redução da produção de curto e longo prazo, custo de medicamentos e riscos de resíduos de antibióticos. Já a mastite subclínica causa redução da produção de leite no curto e longo prazo, o que torna esta forma de manifestação da doença mais importante economicamente, pois representa de 90 a 95% dos casos de mastite.

As estimativas das perdas de produção associadas a mastite podem variar de 10 a 30% da produção leiteira por lactação, sendo que a extensão das perdas é influenciada por  fatores como: gravidade  e duração da infecção,  microrganismo causador, idade do animal, época do ano, estado nutricional e potencial genético. Diversos fatores podem afetar o custo final da mastite, uma vez que estes itens podem sofrer variações ao longo do tempo: preço do leite, custos de alimentação, custos de reposição de descartes e custos de medicamentos.

Para que os programas de controle de mastite sejam economicamente viáveis, devem ser mais voltados para a prevenção do que para o tratamento da doença, uma vez que medidas preventivas reduzem os prejuízos. Os rebanhos que realizam a prevenção da mastite produzem leite de maior qualidade com menor custo. Por exemplo, as vacas com mastite apresentam 10% a mais de chance de serem descartadas do que vacas sadias. Muitas vezes, pode ser mais vantajoso para o produtor descartar uma vaca que tenha apresentado vários casos de mastite por conta dos prejuízos acarretados pelo animal.

Nos Estados Unidos, estima-se que o custo da mastite por vaca/ano seja de aproximadamente US$ 185, o que corresponde a um custo anual para o país de 1,8 bilhões de dólares. Este valor corresponde a aproximadamente 10% da receita do leite vendido pelos produtores. Cerca de dois terços desse valor deve-se à redução na produção de leite relacionado às infecções subclínicas.  Na Holanda, as pesquisas publicadas estimam que as perdas econômicas devido à mastite clínica e subclínica variam entre 17 e 198 euros/vaca/ano.

Um dos principais objetivos, quando se pretende demonstrar os prejuízos causados pela mastite, é a conscientização sobre os custos associados à doença. No entanto, a maioria dos produtores subestima estes valores. O segundo objetivo da demonstração destes custos é direcionado no auxílio da decisão de métodos com melhor potencial de relação custo: benefício para controle da mastite. Para a saúde do úbere, isso poderia justificar o uso de diferentes medidas para reduzir ou prevenir a mastite em rebanhos leiteiros.

 

2. Prejuízos da mastite clínica

Informações sobre o custo total de um caso de mastite clínica (MC) são cruciais para avaliar a viabilidade econômica de diferentes medidas preventivas e para auxiliar nas decisões de suas aplicações. Os custos da MC são provenientes do tratamento, produção de leite reduzida, aumento do risco de descarte e aumento do risco de doenças subseqüentes. O principal componente das perdas financeiras é a redução da produção das vacas afetadas. Dessa forma, o custo de um caso de mastite clínica vai depender amplamente da extensão das perdas de produção.

Uma vez que a prevalência da mastite tende a aumentar durante o verão, os prejuízos são maiores nesta época do ano. Adicionalmente, casos de mastite no início da lactação apresentam impacto maior do que aqueles no final da mesma, além do fato de que os efeitos de um caso clínico podem se estender até a próxima lactação. De forma similar, vacas mais velhas são mais propensas a apresentarem mastite do que animais mais jovens. Deve-se ressaltar que a ocorrência de mastite pode resultar em perdas de produção sobre a próxima lactação, ainda que os efeitos principais sejam sobre a lactação atual na qual ocorre o caso de mastite.

A prevalência de casos clínicos pode variar de forma muito mais ampla entre os rebanhos do que a mastite subclínica, em razão de diversos fatores como estação do ano e predominância de agentes ambientais ou contagiosos. Dessa forma, os custos dos casos clínicos de mastite podem ser mais variáveis. Pesquisas mostram que os efeitos negativos da mastite sobre a próxima lactação são da ordem de 20-30% das perdas observadas na lactação atual. A redução da produção de leite causada pela mastite clínica é mais acentuada em vacas multíparas e de maior produção.

As perdas da produção de leite em vacas com mastite clínica começam a ocorrer após o diagnóstico, sendo que a maior redução ocorre nas primeiras semanas (acima de 126 kg). Após cerca de dois meses do início do caso clínico há uma redução gradual a um valor constante. Vacas de primeira lactação apresentam perdas de produção de 164 kg de leite no primeiro episódio MC e 198 kg de leite no segundo episódio em 2 meses após o diagnóstico de MC, quando comparado ao seu potencial de produção. Entre vacas mais velhas, a estimativa de perdas foi de 253 kg de leite para o primeiro episódio da doença, 238 kg de leite para o segundo e 216 kg de leite para o terceiro episódio de MC. Uma vaca que teve um ou mais episódios de MC na lactação anterior produziu 1,2 kg leite/dia a menos durante toda sua lactação (intervalo de confiança de 95%) do que vacas sem MC na lactação prévia. Esses resultados fornecem informações aos produtores de leite sobre a média de perda na produção associada a casos de MC sem considerar o agente causador, e podem ser usados para análises econômicas.

Dessa forma, uma vaca adulta que tenha três casos clínicos durante uma lactação deixa de produzir cerca de 700 kg de leite somente em razão da redução de produção leiteira. Além da perda com a produção, é preciso contabilizar os custos com medicamentos e descarte de leite com resíduos de antibióticos durante o tratamento. Em todo mundo, pesquisas estimam que as perdas econômicas devido à matite clínica variam de 61 a 97 euros/vaca/ano. A figura 1 mostra a curva de lactação de vacas primíparas e o efeito da MC na produção de leite kg/dia em relação às semanas de produção.

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A semana da lactação na qual a mastite clínica se inicia determina a magnitude das perdas de gordura e proteína do leite. Resultados de estudos indicaram que vacas primíparas com mastite produziram de 0-9% menos leite, 0-8% menos gordura e 0-7% menos proteína em 305 dias, quando comparadas a vacas primíparas sadias. As maiores perdas de produção ocorreram quando vacas primíparas desenvolveram mastite na 6ª semana pós-parto. Vacas multíparas sofreram maiores perdas quando desenvolveram mastite na 3ª semana pós-parto. As perdas de produção de gordura e proteína foram da mesma ordem que as perdas de produção de leite. Após um caso de mastite clínica, a produção de leite tende a ser reduzida durante o restante da lactação. Esses resultados indicam que os produtores de leite devem reforçar as medidas preventivas para redução da freqüência de MC entre o parto e o pico de lactação, por ser esse o período no qual ocorre a maioria dos casos, e quando as perdas de produção são mais extensas.

O patógeno envolvido e características individuais da vaca influenciam o custo da MC. Em média, o custo total de uma MC causada por Streptococcus spp. e tratada com 3 dias de infusão de antimicrobiano intramamário é de U$196, e o custo para a MC causada por S. aureus é de U$255. Os custos da MC são maiores quanto maior é  a produção de leite no momento da ocorrência. Adicionalmente, para casos repetidos de MC e casos de MC com sintomas sistêmicos, os custos são maiores que os casos sem repetição e sem envolvimento sistêmico da doença. O tratamento antimicrobiano com 3 dias de infusão intramamária resulta em menor custo total para todos os patógenos e para todas as vacas, com uma exceção: o descarte de  vacas com baixas produções tem o menor custo total.

 

3. Prejuízos da mastite subclínica

A mastite subclínica (MSC) é uma das principais doenças que acometem vacas leiteiras, causando grandes prejuízos aos produtores, principalmente devido à redução de produção de leite (quando há aumento de CCS - contagem de células somáticas), descarte de vacas com mastite crônica, além de riscos de transmissão da doença para vacas saudáveis.

A contagem de células somáticas no tanque (CCST) constitui um importante recurso para o monitoramento da qualidade do leite e da saúde da glândula mamária nos rebanhos, pois indica a ocorrência de mastite subclínica e de possíveis perdas econômicas decorrentes. Para estimar as perdas totais de produção causadas pela mastite subclínica, deve-se considerar outros fatores como redução de qualidade do leite, perdas no sistema de pagamento, mudanças na composição do leite, redução de ingestão de matéria seca pelos animais, custos de mão de obra, tratamento e descarte prematuro.

Em estudo sobre perdas de produção causadas pela mastite em vacas mestiças, a taxa de redução na produção de leite por quarto com escores de CMT positivo de 1+, 2+ e 3+ foi de 25%, 33% e 48%, respectivamente. Os resultados indicaram que um quarto com MSC causada por S. aureus pode reduzir, em média, 34,5% do seu potencial de produção de leite, enquanto que a perda total de produção/vaca foi estimada em 6,8%.

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4. Estudos no Brasil

Em estudo realizado no Brasil, os prejuízos causados pela mastite subclínica em propriedades leiteiras produtoras de leite tipo B e C, com produção média de 28.000 litros/mês/propriedade, foi de 4.800 litros/mês/propriedade, o que representou uma perda de 17% do volume total de produção. Estudos sobre gastos e perdas totais por mastite no Brasil não são comuns, em razão das dificuldades de avaliação de todos os itens envolvidos nos custos. A redução na produção de leite é considerada o fator individual mais importante das perdas econômicas da mastite. Estima-se que no Brasil essa redução varie de 12% a 15%, o que representa perda de 2,4 bilhões de litros de leite/ano.

No Brasil, são escassos os estudos que estimam o custo e retornos econômicos de estratégias de tratamento de doenças animais, principalmente quando o assunto envolve tratamentos de forma empírica e sem assistência, muito comuns nas propriedades rurais. A disponibilidade de informações precisas e facilmente disponíveis é um subsídio importante para que as decisões sobre um programa de controle de mastite sejam eficientes. 

Considera-se que não é possível eliminar totalmente as perdas causadas pela mastite em uma fazenda, porém, a implantação de medidas de prevenção pode resultar em relações custo-benefício favoráveis para os produtores. Um estudo feito com base em coleta de dados de seis fazendas leiteiras durante 12 meses estimou a média de 75 quartos/fazenda afetados por mastite, sendo 86% por mastite subclínica e 10% por mastite clínica, representando perdas, incluindo descarte e redução na produção anual de leite, de 18.729 litros de leite por fazenda. Essas perdas representam 17% do total de leite produzido, o que significa um valor de R$ 389 por fazenda/mês. A principal perda devido à mastite subclínica é a redução de produção leiteira, cujo valor corresponde a 75% do prejuízo total. No entanto, essa perda não é perceptível ao produtor, enquanto que os custos com as medidas de controle são mais evidentes. Na prática, tal situação resulta em falta de motivação para o controle de mastite.

Em estudo recente, estimou-se que o impacto econômico anual da mastite variou de R$ 1.333,90 a R$ 2.145,89, e de R$ 0,2146 a R$ 0,4311/kg de leite, para CCST de 250.000 e 1.000.000 de células por mL de leite, respectivamente. O custo operacional efetivo das medidas de prevenção, por kg de leite, apresentou variação de R$ 0,0231 a R$ 0,0289 (CCST de 250.000 e 1.000.000 de células somáticas/mL), enquanto que os custos das medidas curativas foram estimados em R$ 0,0544 a R$ 0,0680, para os mesmos valores de CCST. O tratamento de uma vaca com mastite, apresentando sintomas clínicos da doença, foi de R$ 28,68 (US$ 12,74) para cada caso subagudo e de R$ 110,43 (US$ 49,08) para casos considerados agudos.

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5. Conclusões

A mastite causa grandes perdas econômicas nos sistemas de produção de leite, na qualidade do leite produzido, no tratamento e descarte de vacas. A estimativa de custos ocasionados pela mastite é uma ferramenta fundamental para que o produtor conheça os impactos econômicos que essa doença causa dentro da propriedade leiteira. As pesquisas sobre mastite no Brasil, de maneira geral, estão direcionadas para tratamento e diagnóstico, sendo pouco estudadas as relações entre a doença e os sistemas de produção, incluindo os fatores humanos e a incidência de mastite. O maior conhecimento destas relações auxiliará os produtores a reduzir os custos de produção de leite e os riscos à saúde humana.