Leite com amor

Fazendas | 01 de Maio de 2019 Voltar

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AUTORA: ANA LUIZA CARDOSO

 

Esta história deveria começar como nos contos de fada, com o famoso bordão “Era uma vez”. A Fazenda Lagoa Dourada, localizada em Jaguariaíva/PR, é o resumo de um sonho que se inicia com o casamento de Nico Biersteker e Ellen Salomons. Da  união de um engenheiro e uma administradora de empresas, nasceu a paixão pelo leite. Uma aventura? Não, longe disso. Embora a formação acadêmica de ambos não carrega relação direta com a pecuária, a origem do casal os aproxima dessa realidade. Nico é filho de pecuarista e Ellen descende de agricultor/suinocultor. A relação com a agropecuária sempre foi muito estreita, mas a possibilidade de viver e trabalhar em uma fazenda tinha outros atrativos muito especiais, dentre eles a chance de estarem sempre juntos e cuidar do próprio negócio. Então, seguindo a tradição dos pais e avós holandeses, Nico propôs a Ellen mudar para o campo para produzir leite. Foi aí que o pai de Ellen ofereceu as terras, os animais foram doados pelo pai de Nico. Assim começou a jornada da Fazenda Lagoa Dourada, que hoje resume bem o conceito de extraordinário. A tecnologia robótica, a estrutura, o manejo, a gestão, o zelo pelo negócio e a qualidade dos animais impressionam.

O casal iniciou o  desenvolvimento da propriedade em 2014 e a operação das atividades da Fazenda foi muito bem planejada durante os dois anos que antecederam a chegada dos animais. O trabalho de pesquisa foi intenso na busca de um modelo ideal que contemplasse um bom e rentável sistema de criação, envolvendo desde o tipo de ordenha até a raça pela qual optariam. “A gente começou a estudar tudo, dieta das vacas, reprodução, ordenha robotizada, visitamos várias fazendas no Paraná e fomos até a Holanda e Dinamarca”, conta Ellen. De acordo com Nico, tudo foi feito na ponta do lápis para conseguirem chegar na melhor opção para a propriedade.

Em abril de 2016, depois de toda a estrutura construída, chegaram as primeiras vacas na propriedade, 110 animais da raça Jersey que vieram do plantel do pai de Nico em Carambeí/PR. 

 

A PROPRIEDADE 

Atualmente a Fazenda possui 791 animais da raça Jersey divididos nas seguintes categorias: 340 vacas em lactação, 30 vacas no pré-parto, 41 vacas secas, 88 bezerras de 0 a 3 meses, 103 bezerras entre 4 a 11 meses, 95 novilhas em reprodução e 94 novilhas prenhes. A área destinada à atividade leiteira é de 123 hectares (ha), 100 deles reservados à produção dos alimentos para os animais e 23 ha para instalações e piquetes.

Com três galpões de compost barn e seis conjuntos de ordenha robótica de uma marca holandesa, a propriedade produz 9.100 litros de leite/dia com uma média de 27,5 litros/vaca. A Fazenda conta com seis funcionários que são responsáveis pelo manejo geral, monitoramento e nutrição dos animais. Dentro dos galpões as vacas circulam livremente como pode ser visto na Ilustração 1, em um sistema como esse é importante analisar quantas vezes ao dia as vacas vão até a ordenha (Gráfico 1).

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A estrutura da Fazenda conta com seis unidades de ordenha robotizada

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NUTRIÇÃO


A dieta das vacas em lactação é única e composta por silagem de milho, pré-secado de azevém, farelo de soja, caroço de algodão, núcleo e ração peletizada comercial, “Apenas 1kg de concentrado é fornecido no cocho e cerca de 4kg são dados no robô”, explica Nico. O fornecimento da ração é realizado de acordo com mérito produtivo, ou seja, quem produz mais consome mais e isso é determinado pelo robô, assim que o animal entra na ordenha.

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  Em todos os galpões da propriedade os animais têm acesso à escova mecânica

 

O FORNECIMENTO DA RAÇÃO É REALIZADO DE ACORDO COM MÉRITO PRODUTIVO, OU SEJA, QUEM PRODUZ MAIS CONSOME MAIS CONCENTRADO E ISSO É DETERMINADO PELO ROBÔ, ASSIM QUE O ANIMAL ENTRA NA ORDENHA

 

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VACA SECA E PRÉ-PARTO


As vacas são secas 60 dias antes do parto. No processo de secagem desses animais é realizada a cultura microbiológica em amostras de leite para a escolha do protocolo de tratamento que será utilizado. Daí as vacas são divididas em dois lotes que ficam em um galpão com cama de serragem, pista de alimentação e livre acesso ao pasto. O primeiro lote é formado por vacas que irão parir nos próximos dois meses e o segundo é composto por animais de até 30 dias antes parto.

A dieta de todos os animais contém palha de trigo, silagem de milho, farelo de soja e minerais. Na alimentação do segundo lote é adicionado sal aniônico. Para avaliar os efeitos desejáveis da dieta aniônica é realizado, semanalmente, o monitoramento do pH urinário.


De 5 a 7 dias antes do parto as vacas são levadas para um galpão com cama de serragem, pista de alimentação e acesso ao pasto. A área é mais controlada e ficam lotes de até 8 animais.

PARTO E PÓS-PARTO


Todos os partos da propriedade são assistidos. Quando as vacas acabam de parir recebem drench e um suplemento a base de cálcio e magnésio por via oral. Em seguida são direcionadas para a ordenha robotizada para retirada do colostro que é analisado pelo refratômetro de brix. Se o valor de brix estiver acima de 22, esse alimento é fornecido à bezerra, em uma quantidade de 4-5 litros/animal, cerca de 30-40 minutos após o nascimento. A fazenda possui banco de colostro, utilizado raramente, pois a maioria dos animais produz colostro de qualidade. Além da colostragem, outros manejos são realizados com as bezerras, como a pesagem, a transferência para um box individual com luz e a identificação do animal.

Cerca de dois dias após o nascimento, as bezerras passam por uma verificação de transferência da imunidade passiva com a coleta de sangue e posterior avaliação da proteína sérica por meio do refratômetro de brix. A média desse indicador na propriedade é de 10%, demonstrando que o manejo do colostro está sendo feito de forma adequada.


CRIAÇÃO DE BEZERRAS


A criação das bezerras é feita em duas instalações, os animais de 0 a 15 dias de idade ficam em baias individuais suspensas. Até 3 dias de vida, elas recebem cerca de 4 litros de leite de transição divididos em três mamadas. De 3 a 15 dias é fornecido aos animais 4 litros de sucedâneo, três vezes ao dia. De 15 a 45 dias as bezerras passam para um bezerreiro coletivo com calf feeder (alimentador automático), onde recebem sucedâneo à vontade (a cada duas horas, elas podem mamar 1,5 litro, variando de 10 a 15 litros/dia). “Quando elas são levadas para esse ambiente com alimentador automático observamos um desenvolvimento muito grande, porém aumentam também os desafi os”, ressalta Nico.

Entre 45 e 85 dias as bezerras começam a ser desmamadas gradualmente. O volume de leite oferecido é reduzido diariamente. Todos os animais recebem concentrado peletizado comercial, água e feno à vontade nessa fase.

Durante o aleitamento as bezerras ganham, em média, 609 gramas/dia, sendo desaleitadas aos 85 dias de vida, pesando cerca de 52kg. Após o desmame elas ficam em um galpão com cama de serragem, pista de alimentação e acesso livre ao pasto. A dieta delas é composta por feno à vontade e 2kg de ração peletizada. Todas as bezerras passam por teste genômico. A partir daí, quando detectadas as melhores fêmeas jovens por meio do genoma, as mães desses animais também são submetidas ao teste.

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Bezerra em fase de aleitamento no alimentador automático

 

 

DESAFIO


O principal problema sanitário da Fazenda na fase de cria é a diarreia, que acomete as bezerras por volta do sexto dia de vida. Nesse caso, ao observarem os primeiros sintomas inicia-se o protocolo de tratamento por meio de hidratação oral visando uma recuperação rápida, evitando perdas e atrasos no desenvolvimento inicial das fêmeas.

 

A TECNOLOGIA ROBÓTICA, A ESTRUTURA, O MANEJO, A GESTÃO, O ZELO PELO NEGÓCIO E A QUALIDADE DOS ANIMAIS IMPRESSIONAM 

 

CRIAÇÃO DE NOVILHAS


As novilhas são divididas em seis lotes, com base no peso dos animais, sendo dois deles compostos por 35 animais e quatro lotes com dez animais. Todas elas ficam em um barracão igual ao das bezerras, com cama de serragem e livre acesso ao pasto. A alimentação desses animais é composta por feno, silagem de milho, pré-secado de azevém, ração peletizada comercial e sal mineral.

Com 12 meses e cerca de 250kg, as novilhas são liberadas para primeira inseminação. A idade média ao primeiro parto na propriedade é de 24 meses e a taxa de concepção é de 46,85%.

 

REPRODUÇÃO


Na Fazenda Lagoa Dourada todo manejo reprodutivo é feito a partir da observação de cio natural. O foco do melhoramento genético é baseado nos seguintes parâmetros: mérito líquido, vida produtiva e composto de úbere. Os índices reprodutivos da fazenda são de impressionar, conforme pode ser observado na Tabela 1.

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QUALIDADE DO LEITE

O controle de qualidade do leite e monitoramento de mastite da fazenda é feito através do robô, que faz a ‘leitura’ do leite por meio de um dispositivo a laser, possibilitando detectar qualquer alteração. Além disso, é feita a cultura microbiológica do leite de qualquer animal que apresente sintomas de mastite para avaliar a realização de tratamento e estratégias a serem adotadas. O leite produzido na Fazenda Lagoa Dourada tem ótima qualidade, com uma contagem de células somáticas (CCS) de 120 mil células/ml, contagem padrão em placas (CPP) de 5 mil UFC/ml, gordura de 4,7 g/ml e proteína 3,66 g/ml.

 

O FUTURO


A meta do casal proprietário da Fazenda, a curto prazo, é a homogeneizar o rebanho e alcançar uma produção média de 28 litros de leite/vaca/dia com 400 animais em lactação. O nível de dedicação, comprometimento e amor pelo negócio, faz com que todos tenham a certeza de que essas e tantas outras metas serão alcançadas em breve com muito êxito.

 

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Nico Biersteker é um dos proprietários da Fazenda Lagoa Dourada

 

ANA LUIZA CARDOSO

Médica veterinária da Revista Leite Integral