Perigo!

Sanidade | 10 de Outubro de 2017 Voltar

PERIGO!

Agulhas contaminadas podem matar nossas vacas

O caso clínico descrito na edição #101 da Revista Leite Integral apresentava um quadro de surto de mortalidade em vacas, causado pelas consequências da falta de higiene das agulhas usadas na aplicação de ocitocina na hora da ordenha. Depois disso, recebemos vários depoimentos de pessoas que tiveram ou souberam de casos semelhantes. Com isso, resolvemos escrever um pouco mais sobre este problema.

A prática do uso de ocitocina se tornou muito comum nas fazendas leiteiras, desde que se descobriu que a substância pode auxiliar na descida do leite e acabar com a trabalheira de levar bezerros na hora da ordenha. Este recurso deixou muitas pessoas contentes, mas quem espalhou a notícia se esqueceu de contar também como o procedimento deve ser feito.

Na maioria das vezes, esta prática é realizada de forma inadequada, o que coloca o rebanho em risco. Entretanto, o problema não se resume à aplicação de ocitocina. Utilizar agulhas sujas ou a mesma em vários animais, sem a higienização correta, virou rotina e também um problema que está associado à transmissão de doenças e mortes dos animais. Vamos explicar...

O PROBLEMA

Um professor nosso costuma dizer que “uma coisa é ser comum, outra é ser normal.” Acreditamos que o compartilhamento de agulhas seja um bom exemplo. Ele pode ser comum, mas não podemos considerá-lo normal.

O uso comum do material é muito conhecido pelo potencial de transmitir doenças. Na medicina humana, todo o cuidado é tomado para evitar esta promiscuidade. Hoje em dia, muitas agulhas são fabricadas com tecnologias que impedem o reuso, já que o contato com o sangue de um animal após o outro é a forma mais eficiente de se transmitir doenças. Queremos isso? Se a resposta é não, por que fazemos?

Para mostrar quão danoso pode ser o compartilhamento de agulhas, vamos aos exemplos de doenças que podem ser transmitidas dessa forma: brucelose, tripanossomose, IBR, BVD, leptospirose, salmonelose, leucose, babesiose, anaplasmose, erlichiose, micoplasmose, listeriose, estreptococose, estafilococose (como S. aureus) e outras.

Muitas vezes, os produtores não dispensam a atenção necessária a algumas dessas patologias, como é o caso da leucose. Um dos motivos é por considerá-las comuns em razão da alta prevalência. Mas, não nos deixemos enganar: todas elas causam prejuízos à nossa produção. O sistema imune dos animais utiliza energia para controlar ou debelar infecções, energia essa que poderia ser destinada para produção de leite.

A situação fica ainda mais preocupante quando lembramos que esse compartilhamento ocorre, normalmente, todos os dias, duas vezes por dia, entre algumas dezenas ou centenas de animais. Com tantos desafios diários, quanta energia nossas vacas estão gastando para se manterem saudáveis?

Além disso, o problema não se resume apenas à transmissão de doenças. Cada vez que perfuramos a pele do animal com uma agulha, levamos para o sangue ou músculo qualquer bactéria presente nela. As bactérias adoram, a vaca não.

O sangue é extremamente rico em nutrientes, usados pelas bactérias para o seu crescimento. Se o sistema imune do animal for extremamente eficiente, mesmo injetando bactérias duas vezes por dia, ele pode conseguir superar o desafio. Porém, basta uma situação de estresse, uma deficiência alimentar ou uma doença concomitante para deixar a imunidade mais debilitada, permitindo que a bactéria se multiplique e, inclusive, colonize outros órgãos.

Sem preocupações com a higiene, as agulhas e seringas ficam, muitas vezes, em algum canto do fosso de ordenha, ao pé da vaca e expostas a fezes e urina. A condição do local de aplicação também é importante: “bater” a agulha em partes sujas de lama ou fezes aumenta o risco de contaminação, mesmo se o manejo de agulhas estiver correto.

A falta de cuidados com estes objetos gera casos de mortalidade, como descritos na edição #101 e reportados por leitores da revista. Entre estes casos, um foi recebido no Hospital Veterinário da UFMG. Alguns animais foram levados até a faculdade na tentativa de se descobrir a causa da mortalidade que estava ocorrendo na fazenda. As vacas foram examinadas e foi observada a presença de alterações nas veias mamárias, com aumento de volume, consistência endurecida e presença de abcessos na região. Devido ao surto de tripanossomose que vem ocorrendo em todo o país e que figurava como uma suspeita do caso, testes diagnósticos foram realizados, mas o parasito não foi encontrado.

Após o óbito dos animais, durante a necropsia, foi encontrado no interior das veias mamárias um material purulento (pus), e sua presença era tão intensa que nem sangue havia mais. Também foram encontrados abcessos nos pulmões e áreas de hemorragia no coração. O sangue da veia mamária vai até o coração e depois para os pulmões, indicando um quadro de septicemia, ou seja, houve uma disseminação de bactérias pelo corpo do animal via corrente sanguínea, por meio da veia mamária contaminada pelo uso das agulhas não higienizadas e utilizadas para a aplicação da ocitocina.

COMO RESOLVER O PROBLEMA?

Algumas fazendas vêm mostrando que, nem sempre, precisamos optar pelo uso da ocitocina nos animais, uma vez que existem alternativas que podem ajudar a diminuir seu uso ou até mesmo excluir esta prática de vez.

Boas práticas de manejo na sala de ordenha:

Tudo o que pudermos fazer para minimizar as condições de estresse do animal, ao conduzi-lo para a sala de ordenha, ajudará a liberar sua ocitocina natural e, consequentemente, na descida do leite. Por exemplo: eliminação do uso do portão de aproximação (choque e som) e da utilização de ferramentas agressivas para a condução dos animais; isolamento da sala de ordenha, impedindo estímulos externos e o acesso de pessoas que não convivem com as vacas; melhoria no conforto da sala de espera, com a instalação de nebulizador e ventiladores; e padronização da rotina, com ênfase na pré-ordenha, massageando os tetos durante todo o procedimento de pré-dipping (este é o principal fator de estímulo para promover a liberação natural da ocitocina endógena e a descida do leite).

Amansamento:

Diversas fazendas, em várias partes do Brasil, tiveram uma ótima experiência no processo de amansamento de novilhas. Com esta prática, algumas propriedades conseguiram eliminar o uso de ocitocina na hora da ordenha, mesmo em rebanhos de vacas F1. Existem cursos e treinamentos para se aprender a técnica. É trabalhoso, mas você deve avaliar se prefere empregar seu tempo amansando os animais ou aplicando injeções na ordenha – acreditamos que a primeira opção é a melhor.

Aplicar ocitocina na novilha recém-parida, simplesmente, por ser este o protocolo seguido na propriedade, ou por não querer empenhar esforços para que o animal fique mais tranquilo na sala de ordenha, são os piores caminhos. Rebanhos acostumados com as injeções de ocitocina exógenas reduzem ou até mesmo param de produzir a sua própria ocitocina. Os animais ficam viciados, e para retirá-la dá muito mais trabalho.

Uma alternativa para o gado jovem é implementar, gradativamente, práticas de manejo racional, principalmente para os bezerros em aleitamento e novilhas prenhas, com procedimentos de amansamento e treinamento diário na sala de ordenha para adaptá-las à nova rotina.

Seleção genética:

Os animais com mais sangue zebu, usualmente, costumam ser aqueles nos quais o uso de ocitocina na hora da ordenha é mais comum. Parte da característica da docilidade ou da adaptabilidade à ordenha mecânica sem ocitocina é hereditária, ou seja, depende dos pais. Você pode começar a observar na hora da ordenha quais são as vacas que ficam mais tranquilas e não precisam da ocitocina. Faça essas anotações e depois verifique qual touro ou vaca produz animais mais mansos e adaptados à ordenha.

foto 1.png (776 KB)

Foto: Acima: Agulha e seringa em um frasco de ocitocina. O conteúdo da seringa está vermelho por causa do sangue dos animais que receberam a aplicação

Crédito: Elias Jorge Facury Filho

A seleção para as características comportamentais passou a ser incluída nos programas de melhoramento genético. Na prova de touros, é possível observar a nota da docilidade do animal no item temperamento.

Manejo para reutilização dos estojos:

Temos que encarar o fato de que a extinção do uso de ocitocina nas fazendas leiteiras do Brasil ainda é um processo longo e trabalhoso, mas podemos minimizar os danos causados, a partir da adoção do manejo correto de agulhas. O ideal seria utilizar uma agulha e uma seringa a cada aplicação, mas, considerando a realidade que conhecemos bem, uma alternativa é realizar a desinfecção e higienização das mesmas depois de cada aplicação. Ao adotarmos este procedimento devemos tomar cuidado com os produtos químicos, pois nem todos têm boa eficácia de desinfecção e podem deixar resíduos, causando irritações na pele dos animais. Uma opção é ferver as seringas e agulhas por, pelo menos, 20 minutos. Lembrando, água sempre limpa!

Se você optar por isso, não se esqueça: as partes da seringa e agulha devem ser, completamente, desmontadas e enxaguadas antes da fervura para tirar o excesso de material, principalmente, do interior da agulha. Devem, ainda, ser guardadas em um local limpo, seguro, lacrado e livre de poeira e umidade excessivas.

PARA MOSTRAR QUÃO DANOSO PODE SER O COMPARTILHAMENTO DE AGULHAS, VAMOS AOS EXEMPLOS DE DOENÇAS QUE PODEM SER TRANSMITIDAS DESSA FORMA: BRUCELOSE, TRIPANOSSOMOSE, IBR, BVD, LEPTOSPIROSE, SALMONELOSE, LEUCOSE, BABESIOSE, ANAPLASMOSE, ERLICHIOSE, MICOPLASMOSE, LISTERIOSE, ESTREPTOCOCOSE, ESTAFILOCOCOSE (COMO S. AUREUS) E OUTRAS

ALÉM DA OCITOCINA

O compartilhamento de agulhas também ocorre de forma rotineira nas fazendas, em vacinações e aplicações de medicamentos. Muitas têm uma ou duas seringas com agulha para aplicar medicamentos e as utilizam até que quebrem ou fiquem cegas.

A questão chega a ser irônica. Certa vez, vimos o caso de um lote de bezerras que apresentaram gangrena gasosa alguns dias após serem vacinadas contra clostridiose. A lesão começou exatamente na região onde havia sido aplicada a vacina. A causa: a agulha usada estava contaminada com Clostridium e a lesão causada pela vacinação desencadeou a multiplicação do microrganismo.

Até, aproximadamente, 25 anos atrás, as seringas não eram descartáveis, eram feitas de vidro e metal. O alarme para o perigo da transmissão de doenças soou com a divulgação da descoberta do HIV. Então, proibiuse a reutilização de seringas e agulhas em aplicações, e depois os hospitais e estabelecimentos farmacêuticos passaram a utilizar os descartáveis de forma definitiva. Pois bem, mesmo sabendo disso há tanto tempo, por que ainda não mudamos as práticas quando se trata dos nossos rebanhos? Custo?

Enquanto uma agulha pode ser comprada por menos de R$ 0,15, ou uma caixa com 100 por menos de R$ 120,00, se uma vaca morre, o prejuízo é da ordem de R$ 3.000,00 ou mais, o suficiente para comprar pelo menos 20.000 agulhas!

BOAS PRÁTICAS NO MANEJO DE AGULHAS

As aplicações de medicamentos, como antibióticos e anti-inflamatórios, devem ser feitas, utilizando agulhas e seringas descartáveis, pois, assim, evitamos que a droga perca o efeito por contaminação de matéria orgânica ou em decorrência de resíduos de diferentes medicações que, porventura, venham a entrar em contato. Como a administração de fármacos é um procedimento menos frequente, o custo de se usar uma agulha e uma seringa para cada animal se torna mínimo para a fazenda.

Nas vacinações, as pistolas também devem ser higienizadas de forma correta, pois trazem tanto risco quanto qualquer outro tipo de compartilhamento de agulhas. Mantenha na propriedade uma quantidade razoável de agulhas de metal, que permitam um manejo eficiente, sem comprometer o processo de higienização. Após cada utilização, lave-as bem com água e sabão e as ferva por alguns minutos, ou utilize um produto antisséptico como o álcool.

As pistolas também devem ser desmontadas e lavadas com o uso de água e sabão, pois produtos químicos, como detergente, cloro ou iodo, podem prejudicar a qualidade das vacinas. O vidro pode ser fervido em água antes da remontagem da pistola. Podemos deixar uma agulha limpa no frasco da vacina, e usá-la apenas para puxar o produto, e outra para a aplicação, pois assim evitamos a contaminação.

UM INIMIGO EM ESPECIAL

Em algumas regiões do Brasil, a disseminação do Tripanossoma vivax promoveu uma mudança forçada no manejo de agulhas. A tripanossomíase bovina é uma doença que está apresentando grandes repercussões nos cenários da bovinocultura de leite. Em Minas Gerais, a doença foi descrita pela primeira vez por pesquisadores da UFMG, em 2008 e, desde então, inúmeros surtos estão acontecendo em diversas partes do estado, gerando grandes prejuízos econômicos.

QUEM É O CULPADO?

O responsável pela infecção é um protozoário que vive no sangue dos animais doentes, conhecido por Trypanosoma vivax. Ele está presente em diversas partes do mundo, mas os países com maiores índices de umidade e temperatura (como o Brasil) são os mais acometidos. Isso porque, nessas regiões, há um maior número de insetos transmissores da doença, devido às condições climáticas que favorecem seu crescimento.

A transmissão da doença por insetos ocorre por meio da picada das moscas (principalmente, a mosca-dosestábulos) que se alimentam do sangue dos animais, levando os tripanosomas de um doente para um saudável. Porém, nos surtos que temos visto desta doença, o compartilhamento de agulhas durante a aplicação de medicamentos, a exemplo da ocitocina, é o maior responsável pela transmissão.

ESTUDO DE CASO

Em meados de 2011, pesquisadores da Universidade de Uberaba observaram várias mortes de animais de produção em propriedades rurais do Triângulo Mineiro. As queixas dos proprietários, frequentemente, estavam relacionadas à diminuição da produção de leite, fraqueza dos animais e morte súbita. Baseado nisso, foi realizada uma pesquisa na região para compreender os principais pontos em comum dessas propriedades acometidas.

No estudo, 34 fazendas foram visitadas para entender por que esses animais estavam adoecendo. Após realizar várias perguntas aos proprietários, foi observado que, deste total de propriedades, 67,6% possuíam atividade leiteira e realizavam a aplicação de ocitocina nas vacas antes da ordenha. A grande maioria das propriedades não realizava a troca das agulhas ou a fazia a cada dez animais. Em menor proporção, as propriedades estudadas realizavam a desinfecção das agulhas para posterior aplicação nas próximas ordenhas. Apenas uma pequena parcela das propriedades adotava o manejo correto, que consiste na troca de agulha a cada animal.

A consequência mais danosa veio alguns anos depois, quando o compartilhamento de agulha ajudou a espalhar o Trypanosoma vivax na região e causou grande mortalidade nos rebanhos.

NA SAÚDE E NA DOENÇA

Uma informação que poucos sabem: os animais que sobreviverem à infecção podem se tornar portadores sem demonstrar os sintomas. Testes sorológicos conseguem determinar se um animal teve contato com o parasita em algum momento da vida. Neste caso, o teste é positivo. Porém, o parasita pode ter sido eliminado ou estar escondido do sistema imunológico em algum órgão do animal. Em situações de estresse ou nutrição inadequada, a imunidade pode ficar enfraquecida e possibilitar a multiplicação do tripanossoma, causando os sinais clínicos. Nesta situação, a doença pode ser transmitida para outros animais por meio das moscas e do uso de agulhas contaminadas.

IDENTIFICAR E TRATAR

Os principais sinais clínicos incluem febre, enfraquecimento, inapetência, emagrecimento, mucosas pálidas, queda na produção de leite e morte. Vale lembrar que esses são sintomas inespecíficos, comuns a muitas outras doenças e que, portanto, o médico veterinário deve ser procurado para realizar o diagnóstico e o tratamento adequados.

Depois da avaliação clínica dos animais, o especialista irá solicitar exames de sangue para detectar a presença do tripanosoma. Os testes podem ser sorológicos (para detecção de anticorpos contra o parasita) ou parasitários (teste de Woo ou esfregaço sanguíneo, nos quais é possível visualizar o parasita no sangue). Cada um destes exames possui benefícios e limitações, por isso deve-se avaliar qual é o mais apropriado para a situação.

2.png (503 KB)

Foto: Estojo e frasco de ocitocina deixados na beira do fosso de ordenha

UM PROFESSOR NOSSO COSTUMA DIZER QUE “UMA COISA É SER COMUM, OUTRA É SER NORMAL.” ACREDITAMOS QUE O COMPARTILHAMENTO DE AGULHAS SEJA UM BOM EXEMPLO. ELE PODE SER COMUM, MAS NÃO PODEMOS CONSIDERÁ-LO NORMAL

Após a realização dos exames, o tratamento mais adequado deve ser prescrito pelo médico veterinário. Até há pouco tempo, não existia nenhuma droga específica contra o Trypanosoma vivax comercializada no Brasil e, por isso, era usado o diaceturado de diminazene, que possui uma ação pouco eficaz. Entretanto, com surtos da doença ocorrendo, algumas empresas lançaram produtos à base de cloridrato de isometamidium, que é um produto específico contra tripanossomose, antes inexistente no mercado brasileiro e que é muito usado em países onde a doença é endêmica.

Foto 3.png (684 KB)

Foto: Seringas com ocitocina utilizadas (à esquerda) e outras prontas para serem usadas (à direita). Esta preparação evita que a mesma agulha seja usada em mais de um animal

PREVENIR É MELHOR QUE REMEDIAR!

Sem sombra de dúvida, a prevenção é o melhor remédio. Por isso, fique atento à importância de se trocar a agulha entre uma aplicação de medicamento e outra e ao monitoramento da população de moscas, por meio do controle ambiental - que inclui a limpeza das instalações, utilização de inseticidas prescritos e a realização de quarentena, isolando os animais recém-adquiridos, a fim de se conhecer sua condição sanitária, antes de introduzi-los ao rebanho.

 

TIAGO FACURY MOREIRA Médico Veterinário, DSc. Ciência Animal e editor- -assistente da Revista Leite Integral

MICHELLE ENDREY GODOY Médica Veterinária, residente no setor de Clínica de Ruminantes na UFMG

MARCO TÚLIO GOMES CAMPOS Médico Veterinário, residente no setor de Patologia Clínica na UFMG