Programa PEAK: Autonomia na seleção de reprodutores

Genética | 01 de Setembro de 2016 Voltar

Produzir seus próprios touros, a partir de fêmeas de altíssimo valor genético, e disponibilizar ao mercado do mundo todo, sêmen, embriões e animais da mais alta qualidade, são os objetivos do Programa PEAK. Agora que a sigla PEAK está aparecendo em várias das melhores listas genômicas, conversamos com um dos diretores da Alta Genetics, Paul Hunt, para trazer mais informações sobre o Programa.

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Com o início da era genômica, após 2009, o progresso genético apresentou uma intensa aceleração, fazendo com que o preço dos machos aumentasse em mais de 5 vezes, assim como das fêmeas, que tiveram seus valores equiparados aos dos machos. Isso dificultou a compra de reprodutores (as). Neste momento, a Alta decidiu produzir suas próprias fêmeas, mães dos futuros touros.

Foi então que, em outubro de 2012, a Alta Genetics decidiu ser proprietária também de fêmeas bovinas e desenvolver o Programa PEAK, que tem o gerenciamento e decisões tomados exclusivamente por integrantes da equipe da Alta. O principal objetivo do programa é produzir seus próprios touros, a partir de fêmeas altamente selecionadas, por meio de testes genômicos, assim como produzir embriões e animais para a comercialização.

Além de poder selecionar o que há de melhor em termos de seleção genética, e considerando o alto custo de aquisição de doadoras no mercado, a produção destas fêmeas visa obter os melhores touros de forma muito mais econômica, realizando a FIV (uma ferramenta agressiva de reprodução) em novilhas selecionadas pelos seus índices e buscando a maior quantidade de animais possíveis através desta ferramenta. Com isso, a empresa busca se manter no topo da genética da raça.

Durante o Showcase Alta Genetics, realizado no mês de junho no estado de Wisconsin, EUA, produtores e técnicos do mundo todo visitaram uma das seis fazendas onde o PEAK terceiriza todo o manejo, alimentação, reprodução e cuidados necessários para as vacas, novilhas e bezerras. Destas seis fazendas, quatro delas realizam os procedimentos reprodutivos, realizando 350 implantes de transferência de embriões por mês.

A equipe da Revista Leite Integral conversou com Paul Hunt, Diretor de Operações da Altas Genetics, responsável pelo Programa PEAK. Paul explicou as premissas do programa, as metas em relação a produção de animais e venda de embriões, e a importância do programa para a empresa.

“O poder da genômica ofereceu à indústria genética uma série totalmente nova de oportunidades, e como principais integrantes do negócio, depende de nós usufruirmos desta nova tecnologia e entregar a maior quantidade de ganho genético possível aos nossos clientes. Desta forma, queremos ter o que há de melhor em seleção, para oferecermos ao mercado do mundo todo, sêmen, embriões, fêmeas e touros do mais alto nível”, contextualiza Paul, no início de nossa conversa.

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Parcerias de alto nível

O Diretor explica que, no passado, a população bovina era mais equilibrada e nivelada geneticamente, com os melhores touros vindos de vários tipos de rebanhos. Hoje, no entanto, com esse rápido progresso genético, os melhores touros são oriundos de rebanhos de alto nível. “E como uma empresa global, queremos liderar a seleção genética, e para isso nós precisamos escolher as melhores fêmeas possíveis para produzirmos os melhores touros”, diz.

Na Budjon Farms, o grupo pôde ver vacas de altos índices genéticos, produções superiores e muito bem conformadas, além de visitar as instalações da criação de bezerros recém-nascidos, em ambiente altamente organizado e controlado.

Na fazenda estão alojadas cerca de 60 doadoras de embriões do programa (no total, o PEAK conta com quase 130 doadoras). “O intuito de espalhar esses animais em seis diferentes locais do país é diminuir os riscos sanitários. Todas as fazendas são excelentes em manejo reprodutivo e sanitário, mas ainda assim temos mais este cuidado”, explica.

Para escolher essas fazendas que a Alta terceiriza, são considerados principalmente a forma como realizam as rotinas reprodutivas e o manejo das doadoras de embriões. “Contratamos as empresas melhor avaliadas nos últimos anos em biotecnologia da reprodução para realizarem os procedimentos em nossas doadoras, como a Trans Ova Genetics, Boviteq, entre outras. Nós nos asseguramos em ter as melhores pessoas trabalhando conosco e realizando um excelente trabalho”, ressalta Paul. Em relação às fazendas, ele diz que todas elas apresentam altos índices de prenhez, baixíssimo número de abortos e alto controle sanitário, denotando a grande eficiência do manejo. “Para serem alojados em uma central de genética e comercializarem sêmen, os touros precisam ter excelente saúde, e por isso escolhemos trabalhar com os melhores”, diz.

“Sabemos que, em função deste acelerado progresso genético, aliado à ótima saúde, as novilhas da próxima geração deverão produzir embriões mais precocemente e em maior quantidade, e o mesmo ocorrerá ainda mais para a produção de sêmen. Os touros do Programa PEAK produzem sêmen 1 mês antes dos demais touros, e também possuem um nível maior de concepção, de forma que os touros PEAK nos trazem muita segurança para trabalhar, tendo mais sêmen e de melhor qualidade”, explica o diretor.

Em relação às mães dos touros escolhidos pela empresa, Paul conta que cerca de 50% das doadoras ainda são provenientes de rebanhos conhecidos, de alto mérito genético, como a North Florida, por exemplo. As demais são fêmeas PEAK, e nossa meta é aumentar esse número até que tenhamos todas as doadoras dentro do nosso programa. “Hoje já temos doadoras de origem PEAK”, diz Paul.

Em relação às principais características para seleção, no caso destas doadoras, Paul explica que “o foco é em Produção, Saúde e funcionalidade nas características de Conformação”.

Nos procedimentos de FIV e TE, utiliza- se tanto sêmen convencional, como também sêmen sexado de fêmea e sêmen sexado de macho.

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Os produtos PEAK

Os primeiros bezerros oriundos do Programa PEAK nasceram em 2013. “Hoje a Alta possui 75 touros PEAK, e a meta é que, em 2016, tenhamos 50% dos touros de origem PEAK. Além disso, pretendemos colocar no mercado 20 a 25 touros novos a cada 2 meses”, diz Paul.

Em 2015, foram 800 nascimentos de machos nas seis fazendas onde o PEAK mantém os animais (200 machos apenas na Budjon Farms). Para 2016, o programa estima um crescimento em novos nascimentos de 25% e meta de transferir 4.000 implantes, que resultarão em 1.000 bezerros (machos).

Em relação aos produtos do PEAK, 50% das fêmeas são mantidas e 50% são vendidas para parceiros e em leilões, de forma a ter uma variabilidade genética e evitar a consanguinidade.

Segundo Paul, a empresa tem investido fortemente neste programa, tanto na compra das bezerras - futuras doadoras, como nas equipes e no trabalho como um todo. “O investimento da Alta Genetics no Programa PEAK já ultrapassou os US$ 14 milhões. Ainda estamos investindo, visando ampliar o programa”, ressalta. “O mercado para comprar essas doadoras ainda é muito desafiador, sendo que o valor médio destes animais pode ultrapassar os US$ 100 mil. E até que se tenham bezerras oriundas destas doadoras, foram investidos milhares de dólares em cada uma”, diz.

Em relação à estabilização do Programa PEAK, Paul explica que hoje a empresa determina quantos touros precisa ter, e então trabalha para buscar as fêmeas necessárias para produzi-los. “A ideia é que essa relação se inverta, ou seja, que tenhamos um número suficiente de fêmeas que produzam a quantidade de touros que precisamos. Devido ao intenso manejo reprodutivo, é possível obter muitos touros de cada doadora, mas também pelo fato da indústria realizar tantas fertilizações in vitro a partir dessas doadoras, acabamos tendo vários touros irmãos. Então o que queremos é ter, a cada ano, um maior número de doadoras para produzir o mesmo número de touros, e ter maior variabilidade genética”, explica.

 

Manejo reprodutivo

Em relação às metas de produção de embriões, Paul explica que as novilhas são mensuradas rotineiramente em relação ao peso e altura e, quando atingem 250 quilos de peso vivo, passam por uma avaliação de seu sistema reprodutivo, através de ultrassonografia. “A partir dos oito meses, as novilhas aprovadas no exame clínico começam a ter seus oócitos aspirados uma vez ao mês, até os 10 meses. A partir daí, são aspiradas duas vezes ao mês até que alcancem os 18 meses, quando são inseminadas. As coletas seguem até os 120 dias de gestação, uma vez ao mês, sendo que a meta é produzir 80 implantes por doadora até este momento. A média é de 15 oócitos por novilha a cada aspiração, variando de 3 a 50 oócitos por mês por doadora”, diz. “A meta é chegar a 100 implantes por doadora até o primeiro parto”, afirma.

Paul explica que nas novilhas que apresentam algum problema reprodutivo, e que não respondem bem à FIV, são realizadas ainda algumas tentativas com a TE convencional, com protocolos de superovulação e coleta de embriões.

Aos 90 dias pós-parto, as doadoras primíparas entram novamente no manejo reprodutivo, em protocolos de TE, visando a produção de embriões para venda.

As receptoras dos embriões são mantidas em 4 fazendas, sendo elas predominantemente novilhas Holandesas.

Segundo Paul, hoje o programa obtém uma média de 36 bezerras aos 30 dias de vida por doadora. “Geralmente obtemos 18 fêmeas e 18 machos de cada doadora, para fazer a seleção genética da próxima geração”, diz. “Quando você tem um investimento desta magnitude, de centenas de milhares de dólares para adquirir uma doadora, cada bezerra a mais dilui os custos, uma vez que o investimento em reprodução e manejo desta doadora é o mesmo. Então, a melhor doadora é aquela que resulta em mais vendas. Por outro lado, temos doadoras que não têm sucesso, e resultam em não mais de 8 ou 10 bezerras nascidas, e estas não pagam a conta”, explica.

 

Programa em expansão

Paul Hunt afirma que a Alta Genetics vê uma real oportunidade em aumentar a influência do Programa PEAK produzindo e vendendo mais embriões. Segundo ele, a empresa está ampliando estas vendas, no entanto, ainda precisa manter uma quantidade de fêmeas para ampliar seu plantel de doadoras. “Nós vendemos muitos embriões para a Austrália, por exemplo, e muitos dos melhores touros genômicos que estão sendo testados lá são oriundos de um grupo de embriões que enviamos no ano passado. Acreditamos que com a venda de sêmen e embriões de animais do Programa PEAK, poderemos manter o restante do mundo mais próximo do trabalho e das tendências genéticas dos EUA”, diz o Diretor.

Finalizando, Paul comentou: “E para fortalecer o programa estamos fornecendo touros também à Accelerated Genetics (EUA) e para CRV (Holanda), que se inscreveram para trabalhar com PEAK e, assim, o programa irá gerar também uma parte da necessidade de touros jovens dessas outras empresas do mercado global. Neste programa, queremos criar um sistema ou cadeia que permita realizar trabalhos como grupo”, finaliza Paul Hunt.

 

Para saber mais sobre o programa PEAK, acesse: www.peakgenetics.com

 

 

Marlizi Marineli Moruzzi

Médica Veterinária

Editora Assistente da Revista Leite Integral