Proteção Nota 10

Animais Jovens | 28 de Junho de 2019 Voltar

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O colostro é a secreção da glândula mamária obtida na primeira ordenha da vaca após o parto e tem como principais elementos os anticorpos (células de defesa), as imunoglobulinas (IgG), especialmente a IgG1. Contudo, não podemos esquecer que esse alimento também é rico em nutrientes, tais como gordura, proteína, vitaminas, minerais, além de fatores de crescimento. Isso explica o maior desempenho e produção de leite nas primeiras lactações (cerca de 1.000 L a mais) em bezerras que receberam 4 litros de colostro, quando comparadas às fêmeas que mamaram 2 litros desse importante alimento.

As bezerras nascem sem anticorpos para protegê-las contra a diversidade de microrganismos aos quais são expostas após o nascimento. Apesar de apresentarem todos os órgãos e células do sistema imune ao nascimento, as bezerras precisam de um tempo para amadurecer e montar respostas efetivas contra os patógenos. Nesse período, os anticorpos maternos e outros elementos imunes do colostro irão compor a base de proteção nas primeiras semanas de vida.

Bezerras que não são colostradas adequadamente podem até sobreviver, porém, conforme a Figura 1, a taxa de sobrevivência é menor. Além disso, os animais serão mais propensos a desenvolverem doenças, e provavelmente não expressarão o seu máximo potencial para a produção de leite.

 

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Por ser estratégia prioritária na criação de bezerras, com impacto a curto e longo prazo, destacamos os dez principais pontos que produtores e técnicos precisam saber sobre o manejo do colostro.

 

PONTO 1 - CUIDE BEM DA VACA, A FONTE DE COLOSTRO

As vacas muitas vezes são esquecidas no pré-parto porque não estão em produção. Porém as condições às quais são submetidas, como dietas deficientes, estresse térmico e doenças influenciam a qualidade do colostro produzido. Programas de vacinação pré-parto contra diarreia neonatal (Escherichia coli, Rotavírus e Coronavírus) e doença respiratória são indicados para garantir que a mãe produza anticorpos específicos que serão transferidos para a prole pela ingestão de colostro. Como mostra a Figura 2, o ideal seria vacinar as vacas com, pelo menos, uma dose de vacina, entre 60 (D -60) e 50 (D -50) dias antes da previsão de parto, para que a vaca tenha tempo hábil para produzir anticorpos antes do início da colostrogênese.

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PONTO 2- ORDENHE A VACA O MAIS RÁPIDO APÓS O PARTO COM O MÁXIMO DE HIGIENE

O colostro deve ser ordenhado da forma mais higiênica possível e em menos de uma hora após o parto, pois é importante que ele esteja limpo e não diluído pela produção de leite na glândula mamária.

As boas práticas relacionadas à primeira ordenha pretendem minimizar ao máximo a carga de microrganismos no colostro. É preciso lembrar que essa fêmea não foi ordenhada durante todo o período seco, portanto a carga de patógenos na superfície do teto é maior do que quando ela está em lactação.

Preparar o úbere e os tetos da vaca é o primeiro passo para obter um colostro limpo. Em seguida, os tetos devem ser imersos em solução de desinfecção, podendo ser a mesma utilizada para as vacas em lactação. Essa solução desinfetante deve ter um tempo de contato de, no mínimo, 30 segundos para efetivamente matar as bactérias ali presentes. Após esse tempo, a solução é removida dos tetos secos com papel descartável limpo.

A correta higienização do equipamento de ordenha também é essencial para a coleta de um bom colostro e para evitar qualquer contaminação cruzada. Nunca ordenhe vacas pós-parto junto com fêmeas de descarte, animais com problemas de casco, mastite e outras doenças.

 

PONTO 3 - SOMENTE FORNEÇA COLOSTRO COM QUALIDADE IMUNOLÓGICA

É extremamente importante investir tempo e recursos para garantir que o colostro fornecido para as bezerras seja de alta qualidade, principalmente, com relação aos níveis de anticorpos.

Inicialmente, podemos fazer uma avaliação visual do colostro. Certifique-se de que esteja limpo e livre de fezes. Deve-se ter consistência espessa e cor amarelada. Devemos evitar alimentar as bezerras com colostro de cor amarronzada ou que aparente ter sangue em sua composição. E caso esteja mais aquoso, significa baixa qualidade e não deve ser fornecido aos animais recém-nascidos. No entanto, avaliar o colostro apenas visualmente não é confiável, de modo que devemos analisá-lo de maneiras mais assertivas.

Existem testes a campo que são aprovados para estimar a quantidade de anticorpos no colostro, sendo estes métodos rápidos, práticos e que ajudam a atestar sua qualidade.

Podemos utilizar o colostrômetro, que é um instrumento de vidro semelhante a um termômetro, que flutua e mede a gravidade específica do colostro. O teste funciona assim: o colostrômetro é colocado para flutuar na amostra de colostro. A graduação do instrumento indica a qualidade de acordo com a cor visível à flutuação, conforme a Figura 3. A área da zona verde indica colostro de alta qualidade, a amarelo representa a qualidade média, e a área vermelha baixa qualidade. Em outras palavras, ele mede o quanto espesso aquele colostro é, e isso se correlaciona com o conteúdo de anticorpos presentes.

Como regra geral, quanto mais anticorpos existir no colostro mais denso ele será. E maior será a leitura da gravidade específica. Isso significa que o colostrômetro flutuará mais alto em uma boa amostra e em altura menor em uma amostra mais pobre. No entanto, as leituras desse instrumento são afetadas pela temperatura, pela quantidade de espuma no conteúdo testado e pelo teor de gordura/sólidos totais, podendo superestimar a qualidade da amostra. Dessa maneira, é importante utilizá-lo apenas em colostro em temperatura ambiente e ter mais atenção na hora de realizar a aferição quando houver espuma.

Como opção também temos o refratômetro Brix, instrumento que mede o teor de açúcar em uma variedade de soluções. Ele foi adaptado para correlacionar essa medida com o conteúdo de anticorpos no colostro, pois, sendo calibrado na escala Brix para esse fim, os valores são lidos como uma porcentagem. Uma pontuação de, no mínimo, 22% é o ponto de corte para a detecção de colostro de boa qualidade (fresco ou congelado), que pode ser fornecido aos bezerros para sua primeira alimentação. Se a qualidade do colostro é baixa, seu uso não é indicado.

 

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PONTO 4 - NUNCA DEIXE O COLOSTRO EM TEMPERATURA AMBIENTE

O colostro será fornecido imediatamente após a ordenha ou será armazenado para uso futuro? Se não for utilizá-lo logo após a coleta, devem ser realizados procedimentos adequados de armazenamento para evitar um maior crescimento bacteriano, pois a quantidade de bactérias presentes no colostro pode dobrar em menos de 20 minutos quando deixado em temperatura ambiente. Dentro de seis horas, o número de bactérias no colostro pode exceder 10 milhões de bactérias por ml. Essas bactérias podem afetar a saúde da bezerra.

O colostro pode ser refrigerado (4°C), no entanto, o período de permanência nesse tipo de armazenamento não pode ultrapassar 24 horas porque as bactérias, mesmo em temperaturas mais baixas, ainda podem crescer.

Quando o uso for futuro e o colostro armazenado em um banco, o acondicionamento deve ser realizado em congelador (-20°C). Para tanto, recomenda-se colocá-lo em garrafas limpas e desinfetadas para congelamento imediato. É importante identificar os recipientes no momento do congelamento, com a identificação da vaca, dia do parto e qualidade do colostro.

Para descongelar, a recomendação é que seja feito em banho-maria a 50°C, no máximo. No momento da alimentação, a temperatura do colostro deve estar próxima da temperatura do corpo da bezerra, ou seja, entre 38°C e 39°C. O ideal é que não ocorra tentativa de encurtar o processo de descongelamento usando água acima da temperatura recomendada. Isso irá destruir ou inativar alguns dos anticorpos que a bezerra precisa. Recomenda-se descongelar apenas a quantidade necessária ao fornecimento imediato, pois ciclos repetidos de congelamento e descongelamento diminuem a qualidade do colostro.

Mesmo o colostro fresco, logo após ser ordenhado da vaca, deve ter sua temperatura ajustada (entre 38°C e 39°C) para o fornecimento, especialmente nas épocas mais frias do ano. Naturalmente, as bezerras preferem líquidos que estejam em temperatura similar à do próprio corpo. O colostro “frio” pode ser menos palatável e os animais podem se recusar a beber. Outra consequência disso é o risco de queda da temperatura interna das bezerras, o que obriga esses animais a usarem energia para gerar calor e atingirem novamente a normotermia. Por outro lado, se a temperatura do colostro estiver muito alta (acima de 49°C), há risco de queimar a boca e o esôfago das bezerras.

 

AS BEZERRAS NASCEM SEM ANTICORPOS PARA PROTEGÊ-LAS CONTRA A DIVERSIDADE DE MICRORGANISMOS AOS QUAIS SÃO EXPOSTAS APÓS O NASCIMENTO

 

PONTO 5- O COLOSTRO DEVE SER FORNECIDO O MAIS RÁPIDO POSSÍVEL APÓS O NASCIMENTO DA BEZERRA

O intestino delgado de uma bezerra recém-nascida é permeável, sendo capaz de absorver os anticorpos contidos no colostro. No entanto, também pode absorver patógenos ambientais. Por essa razão, os animais recém-nascidos devem ser colostrados o mais rápido possível após o nascimento para evitar a exposição aos riscos ambientais sem proteção dos anticorpos maternos.

A maturação do intestino começa logo após o nascimento, e quando suas células amadurecem perdem a capacidade de absorver os anticorpos. Teorias atuais sugerem que as células epiteliais intestinais não são mais capazes de absorver macromoléculas, tais como os anticorpos, após cerca de 18 horas de vida.

Além disso, o trato intestinal da bezerra recém-nascida é estéril ao nascimento. No entanto, dentro de algumas horas, as bactérias do ambiente começam a colonizá-lo. Assim, se uma bezerra nascer em um ambiente sujo, contendo grande número de microrganismos, potencializam as chances de colonização intestinal por agentes causadores de doenças.

A essência é alimentar as bezerras com colostro de alta qualidade o mais rápido possível após o nascimento. À medida que o trato intestinal da bezerra amadurece, a capacidade de absorver IgG é perdida. O fornecimento precoce do colostro significa bezerras mais saudáveis.

 

PONTO 6 - FORNECER NO MÍNIMO 4 LITROS DE COLOSTRO

O volume de colostro a ser fornecido é decisivo para garantir proteção às bezerras. O excesso geralmente não é considerado um problema (ao menos que seja fornecida de uma única vez). No entanto, o maior risco ocorre quando a bezerra recebe quantidade inferior ao mínimo recomendado. A recomendação geral indicada é de 10% do peso vivo. Assim, uma bezerra de 40 kg deve receber 4 litros do alimento, sendo a meta inicial fornecer o máximo possível desse volume já na primeira mamada. Nesse quesito o uso da sonda é vantajoso, pois garante o fornecimento rápido e a ingestão de, ao menos, 3 litros já na primeira mamada, meta dificilmente alcançada na mamadeira. O objetivo é fornecer entre 100g e 150g de anticorpos o mais breve possível após o nascimento.

PONTO 7 - FORNECER O LEITE DE TRANSIÇÃO ENTRE O 2º E 4º DIA DE VIDA

Nesta fase, os anticorpos maternos já não são mais absorvidos, mas, apesar disso, eles recobrirão a superfície dos intestinos, evitando a adesão de bactérias patogênicas. E o mais importante é que o leite de transição também contém muitos hormônios (GH, insulina e IGF-I) que aumentam a capacidade absortiva das células intestinais, o que contribui para o desenvolvimento e produção futura da bezerra.

PONTO 8 - DÊ PREFERÊNCIA ÀS MAMADEIRAS NO PROCESSO DE COLOSTRAGEM

O método mais recomendado para a alimentação de colostro é usar uma mamadeira limpa com bico macio e flexível. Importante atentar-se ao tamanho do furo do bico da mamadeira, pois este deve ter tamanho adequado para que o leite apenas goteje, permitindo que o animal possa fazer a sucção em seu próprio ritmo. Nesses primeiros momentos da vida fora do útero da mãe, eles estão aprendendo a sugar, e podem levar alguns minutos para coordenar todos os movimentos necessários. É preciso ter paciência nesse manejo para evitar estressar o recém-nascido.

As bezerras nunca devem ser forçadas a beber porque o leite pode entrar nas vias aéreas e causar pneumonia por aspiração, ou até mesmo a morte. Se o animal estiver tendo dificuldade para alimentar-se ou não apresentar o reflexo de sucção, é hora de usar um tubo de alimentação esofágico, também conhecido como sonda esofágica.

Estudos compararam métodos de fornecimento de colostro e sugeriram que os teores de anticorpos no sangue das bezerras não foram afetados diretamente pela técnica de fornecimento do colostro (mamadeira x sonda).

PONTO 9 - COLOSTRO EM PÓ DEVE SER USADO ESTRATEGICAMENTE

Os sucedâneos de colostro, também conhecidos como colostro em pó, podem ser usados como uma alternativa quando não há disponibilidade desse alimento direto da vaca pós-parto, ou quando o colostro disponível na propriedade não apresenta boa qualidade.

Para o preparo do sucedâneo em pó, a quantidade de água utilizada e a temperatura merecem especial atenção. É preciso seguir as instruções do rótulo para fornecer quantidades consistentes e adequadas do colostro. Bons sucedâneos têm um alto conteúdo de imunoglobulinas por dose, que deve ser de, pelo menos, 150g de anticorpos.

Outra possibilidade de uso do sucedâneo em pó é complementar o colostro da mãe. O objetivo desse manejo é melhorar a qualidade do colostro materno e sua capacidade imunológica. Isso possibilita o uso de colostro de qualidade média a baixa disponível na fazenda, adicionado de quantidades adequadas de colostro em pó, conforme orientação do fabricante, o que resulta em um alimento com níveis adequados de anticorpos.

 

NATURALMENTE, AS BEZERRAS PREFEREM LÍQUIDOS QUE ESTEJAM EM TEMPERATURA SIMILAR À DO PRÓPRIO CORPO

 

PONTO 10 - MONITORE A TRANSFERÊNCIA DE IMUNIDADE PASSIVA NA 1A SEMANA DE VIDA

Quando um bezerro consome colostro, as imunoglobulinas são absorvidas pela parede intestinal na corrente sanguínea. Isso faz com que o conteúdo de proteína no sangue aumente, sendo esse um biomarcador da transferência de imunidade passiva.

Para monitorar o processo de colostragem, recomenda-se coletar sangue em tubos sem anticoagulante entre as primeiras 48 e 72 horas de vida da bezerra. Após a coleta, o tubo deve permanecer em temperatura ambiente até a formação do coágulo. Em seguida, a dosagem da proteína total deve ser feita com a parte líquida do sangue (soro) usando refratômetro digital ou óptico, que possui uma escala de 0 a 12 g/dl. Se a bezerra foi colostrada de maneira adequada, o valor da proteína total será ≥ 5,5 g/dl. O refratômetro Brix utilizado para avaliar a qualidade do colostro também pode ser usado para avaliar o soro das bezerras. Neste caso adote o ponto de corte equivalente a 8,3%.

O correto manejo de colostragem deve considerar especialmente os seguintes aspectos: tempo para fornecimento, qualidade do colostro e volume fornecido. As primeiras horas da vida do animal são decisivas, e, em havendo falhas nessa fase, é imprescindível investir mais na nutrição e no manejo sanitário das bezerras. Porém, lembre-se: é melhor prevenir do que remediar.

  

FERNANDA CAROLINA RAMOS DOS SANTOS

Médica veterinária, mestranda da FMVZ-USP

VIVIANI GOMES

Professora doutora da FMVZ-USP