Tudo o que você precisa saber sobre leite A2

O leite no mundo | 14 de Janeiro de 2019 Voltar

Flávia Fontes

 

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E, de uma hora pra outra, só se fala nisso. Um tema que até pouco mais de um ano era quase desconhecido entre produtores e até entre os técnicos do setor passa a ser questão de ordem. Todo mundo quer dar sua opinião, e é aí que mora o perigo.

O leite A2, que, ao contrário do que muitos pensam, não é uma invenção brasileira, pode ser um produto de nicho, capaz de agregar valor ao artigo que mais sofre pressão do mercado – o leite fluido. Mas, se não for comunicado de forma adequada, também pode ser um “tiro no pé” de um setor que já sofre tanto com a desvalorização e os ataques de uma parte da sociedade. Por isso, temos que usar a informação correta como nossa maior ferramenta de conquista do consumidor, lembrando sempre que a nutrição é uma ciência, não um ponto de vista. 

PRA NÃO CONFUNDIR NUNCA MAIS
Mesmo existindo muita informação sobre o assunto, muitas pessoas, inclusive profissionais da área da saúde e do meio científi co, confundem a intolerância à lactose com a APLV (alergia à proteína do leite). Isso ocorre porque ambas são causadas pelo mesmo alimento, o leite, e também porque podem apresentar alguns sintomas semelhantes, como cólicas e diarreia. Mas, definitivamente, são quadros completamente diferentes! 

INTOLERÂNCIA À LACTOSE
A lactose, comumente conhecida como açúcar do leite, é um carboidrato composto por uma molécula de glicose e uma de galactose, formado pelas glândulas mamárias dos mamíferos.

Ela está presente no leite para fornecer energia ao neonato e é a mesma encontrada no leite de vaca, no leite materno humano e no de todos os outros mamíferos. Por ser um carboidrato, e não uma proteína, não há nenhuma possibilidade de alguém desenvolver “alergia à lactose”. 

A intolerância ocorre quando o organismo não está apto a digerir a lactose por causa da ausência total ou parcial da enzima específica para este fim, a lactase, que é uma enzima produzida pelas células intestinais que consegue quebrar a lactose em glicose e galactose.

Quando a lactose não é digerida, ela atinge o intestino grosso intacta e é fermentada pelas bactérias que existem nele. Quando a quantidade de lactose que atinge esse órgão é muito alta, ocorre um excesso de produção de ácidos graxos de cadeia curta, ácido lático e gases. Esses compostos são os grandes causadores dos sintomas clínicos, sendo os mais comuns: flatulência, dor e distensões abdominais. O ácido lático, produzido com a lactose não digerida, aumenta a osmolaridade no lúmen intestinal, sequestrando líquido e causando diarreia.

Os sintomas sistêmicos mais comuns são dores de cabeça e tontura, mas podem ser observados perda de concentração, problemas com memória de curto prazo, dor muscular e da articulação, cansaço, arritmia cardíaca, úlceras orais, dor de garganta e aumento da frequência de micção. 

A intolerância à lactose é mais comum em adultos, e vale lembrar que a lactase é uma enzima substrato dependente. Ou seja, sua produção é dependente da quantidade de lactose consumida. Este é o grande perigo dos modismos que pregam a retirada da lactose da dieta: criar indivíduos artifi cialmente intolerantes. Essa também é a razão pela qual os indivíduos intolerantes não devem cortar completamente a lactose de suas dietas. O diagnóstico de intolerância à lactose deve ser feito por meio de testes laboratoriais, solicitados por médico ou nutricionista. 

APLV (ALERGIA À PROTEÍNA DO LEITE DE VACA)
A APLV é definida como uma reação imunológica adversa à proteína presente no leite de vaca. É a alergia alimentar mais comum na infância e, às vezes, precede o desenvolvimento de alergias a outros alimentos, particularmente ovo e amendoim.

A alergia pode aparecer desde o período neonatal ou durante o primeiro ano de vida. As estimativas da prevalência de APLV variam de 2% a 7,5% entre crianças até 3 anos. A persistência na idade adulta é incomum. Em geral, 50% dos casos se resolvem até os 2 anos de vida, e 80% deles, entre os 3 e 4 anos.

Na maior parte das vezes, a alergia é causada pela β-lactoglobulina, pela α-lactalbumina e pela caseína, sendo a primeira a principal. Entretanto, a maioria das pessoas que têm APLV são alérgicas a mais de uma proteína.

Leite de outros mamíferos, como cabras e ovelhas, são tão antigênicos quanto o de vaca. Estudos mostram que 90% das crianças alérgicas à proteína do leite de vaca também apresentam uma reação alérgica aos leites de cabra e ovelha, não havendo nenhuma vantagem em seu uso como preventivo de APLV.

Crianças com APLV apresentam, normalmente, mais de um sintoma. Os mais comuns são: erupções cutâneas (50-70%), sintomas gastrointestinais (50-60%) e sintomas respiratórios (20-30%).

O diagnóstico de APLV deve ser feito por meio de testes laboratoriais, solicitados por médico alergista. 

 

FALANDO UM POUCO MAIS SOBRE PROTEÍNAS
O leite é uma incrível ferramenta evolutiva dos mamíferos. Ele é secretado pela glândula mamária, e sua principal função é fornecer nutrientes indispensáveis para o desenvolvimento da cria. Sua composição é, no caso dos bovinos, de
87% de água e 13% de sólidos. Estes são divididos em: proteínas totais (3,3% a 3,5%), gordura (3,5% a 3,8%), lactose (4,9%), minerais (0,7%) e vitaminas.

O leite de vaca contém entre 3% a 3,5% de proteína. Essa composição depende, principalmente, da raça e da dieta dos animais. De forma geral, a proteína do leite é dividida em duas frações, a caseína, que representa, em média, 80% da proteína do leite, e as proteínas do soro, que compõem os outros 20%. A composição das proteínas do leite e seus diferentes tipos estão descritos na tabela a seguir.

 

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A TAL DA CASEÍNA
A caseína tem uma composição de aminoácidos muito equilibrada, que inclui todos os nove aminoácidos essenciais, fornecendo um importante substrato para o crescimento e o desenvolvimento de crianças e jovens. Essa proteína de alta qualidade, presente no leite de vaca, é uma das principais razões pelas quais esse alimento é tão importante. 

Além da função nutricional, a caseína é o meio pelo qual é possível disponibilizar ao neonato grande quantidade de cálcio, pois é essencial para que este possa passar pelo epitélio mamário sem provocar problemas de calcificação.

A β-caseína compõe, aproximadamente, 30% da proteína total do leite de vaca, e os tipos mais comuns encontrados nos bovinos são A1 e A2. 

MAS, AFINAL, O QUE É LEITE A2?
De forma simples, essa pergunta pode ser respondida da seguinte forma: o leite A2 é aquele que possui apenas a β-caseína A2. Agora, se isso não deixou a questão ainda muito clara, vamos nos aprofundar no assunto.

O interesse pelo leite A2 começou na Nova Zelândia, na década de 1990, quando médicos identificaram uma diferença na fração de caseína e resolveram investigar.

 

SE LIGA: Por ser um carboidrato e não uma proteína, não há nenhuma possibilidade de alguém desenvolver “alergia à lactose”

 

A β-caseína do leite de vaca possui 209 aminoácidos, sendo que as variações A1 e A2 diferem apenas por um aminoácido na posição 67 [como é possível observar na figura a seguir]. Todas as fêmeas de espécies mamíferas, entre elas as humanas, as cabras, as búfalas, as éguas e as camelas, produzem apenas a β-caseína A2, mas, por causa de uma mutação genética que ocorreu há aproximadamente 10 mil anos, algumas vacas passaram a produzir a β-caseína A1. Por esse motivo, a β-caseína A2 é chamada de caseína “natural”.

Essa pequena mudança pode parecer inofensiva, mas é sufi ciente para alterar a digestão da molécula e levar a outras consequências. Quando as enzimas digestivas interagem com a molécula de β-caseína A1, ela é quebrada, justamente, na posição 67, liberando um peptídeo de sete aminoácidos, o BCM-7. A presença de prolina, em vez de histidina, na variante A2, evita a hidrólise da ligação peptídica entre os resíduos 66a e 67a na β-caseína A2 e inibe a produção de BCM-7.

Tem sido mostrado que a caseína e seus derivados, particularmente a BCM-7, exercem uma variedade de efeitos sobre a função gastrintestinal, incluindo a redução da frequência e amplitude das contrações intestinais e o aumento da secreção de muco. Dada a complexidade desses efeitos, é razoável esperar que os sintomas expostos variem muito entre os indivíduos.

A2A2
Nem todas as vacas produzem os dois tipos de caseína. Na verdade, existem três genótipos possíveis: o genótipo A1A1 determina que o animal produza apenas a β-caseína A1; vacas com o genótipo A2A2 produzem somente o tipo A2; e
vacas com o genótipo A1A2 produzem os dois tipos. O tipo de β-caseína produzido é totalmente dependente da genética de cada animal
[como ilustrado na fi gura da próxima página], e os mesmos genes também podem estar presentes
nos touros reprodutores.


Como o leite vendido no supermercado é proveniente de vários animais, ele possui um pouco de cada um dos dois tipos de caseína.
Além da diferença na digestão, alguns estudos encontraram relação positiva entre a presença do alelo para
caseína A2 e a produção de leite e proteína.

 

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Essa relação precisa ser mais investigada, mas pode indicar que o leite A2 não está ligado somente à digestão humana, mas também à produtividade animal.

QUEM PODE SE BENEFICIAR DO CONSUMO DE LEITE A2
Muitas pessoas acreditam ter intolerância à lactose, pois se sentem mal, com digestão difícil e produção de gases após a ingestão de leite. Entretanto, segundo o National Institutes of Health, nos EUA, a maioria da população não tem qualquer
problema com a digestão da lactose nem possui alergia à proteína do leite. 

A intolerância à lactose, segundo pesquisas de epidemiologia, afeta apenas cerca de 5% da população mundial. No entanto, aproximadamente 20% das pessoas relatam algum desconforto após a ingestão de leite. Esses sintomas são, provavelmente, causados pela BCM-7, oriunda da digestão da β-caseína A1.

Em um importante estudo, os pesquisadores relataram que o consumo de leite A2 provocou melhora em crianças que tinham reclamação de constipação após o consumo de leite comum.

Em um teste clínico, o consumo de leite A1 foi relacionado com maior infl amação do intestino, dores abdominais e distensão abdominal. Essas relações não foram observadas nas pessoas que receberam leite A2.

As pesquisas mais recentes, apesar de saberem que a intolerância à lactose e o consumo de leite A1 são coisas distintas, levantam a hipótese de haver uma interação entre as duas condições. Existem vários mecanismos pelos quais isso pode ocorrer. A primeira possibilidade é que as características inflamatórias da BCM-7 podem afetar negativamente a produção e a atividade da enzima lactase e, possivelmente, exacerbar os sintomas da intolerância à lactose em indivíduos suscetíveis.

A segunda é a de que a infl amação do cólon afeta a fermentação da lactose que não foi digerida, possivelmente através de mudanças na microbiota que ocorrem com a infl amação do intestino. Uma terceira possibilidade é a de que o trânsito gastrintestinal é retardado, aumentando a chance de a lactose e outros carboidratos da dieta serem fermentados.

 

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Essas hipóteses são consistentes com os sintomas gastrointestinais relacionados à má absorção da lactose. No entanto, nenhuma delas foi testada cientificamente.

Um estudo com indivíduos chineses, com alta taxa de intolerância à lactose, mostrou que o consumo de leite contendo β-caseína A1 foi associado a aumento dos sintomas gastrointestinais, concentrações mais altas de marcadores de inflamação, tempo de trânsito intestinal mais longo e quantidades inferiores de ácidos graxos de cadeia curta. Os ácidos graxos de cadeia curta são produzidos pela microbiota intestinal, possuem efeito anti-infl amatório e aumentam a atividade de algumas células da mucosa do intestino. Os resultados fornecem evidências de que o consumo de leite que contém β-caseína A1 pode afetar adversamente a função gastrintestinal e que sua exclusão pode aliviar esses sintomas. Aqui, vale um parênteses: são necessárias mais pesquisas para comprovar que o leite A2 é capaz de reduzir os sintomas de pessoas com comprovada intolerância à lactose. Por isso, até que esses resultados sejam apresentados, o leite A2 não deve ser recomendado para esses indivíduos. 

DANDO NOME AOS BOIS E TAMBÉM ÀS VACAS
Alguns levantamentos mostram que a frequência do alelo que determina a produção da β-caseína do tipo A2 é menor nas raças taurinas de bovinos. Isso indica que a mutação que originou a β-caseína A1 ocorreu nos animais dessas raças, provavelmente em algum lugar na Europa. Na população de animais da raça Holandês, a frequência do alelo A2 varia de 24% a 62%. Isso difi culta, mas não impossibilita o processo de seleção genética de animais homozigotos A2.

Os levantamentos realizados nas raças zebuínas, todavia, indicam que a frequência do A2 é bem maior. Um levantamento feito no Rio Grande do Sul encontrou uma frequência do alelo A2 de 50% nos animais da raça Holandês e de 92% no Gir.

Em outro estudo brasileiro, a frequência de alelo A2 em animais da raça Guzerá foi de 97%, e 93% apresentaram o genótipo A2A2. No Gir, a frequência do alelo A2 foi de 98%, e 96% dos animais apresentaram o genótipo A2A2. Esses resultados revelam o potencial genético das raças zebuínas para a produção de leite A2.


A HORA DA VERDADE
O teste de genotipagem, feito em uma amostra de material biológico (sangue ou folículo piloso), é a forma mais eficiente de determinar o genótipo para β-caseína do animal. No laboratório, o DNA é extraído, e o marcador genético para essa característica é pesquisado. O resultado desse teste pode ser um dos três possíveis genótipos: A1A1, A1A2 ou A2A2. Apenas animais A2A2 produzem exclusivamente β-caseína A2. 

No Brasil há alguns laboratórios que fazem esse teste, a um custo que varia de R$ 35 a R$ 65 por animal.

OUTRO PONTO QUE MERECE MUITA ATENÇÃO É A “HIPOALERGENICIDADE” ASSOCIADA AO LEITE A2, QUE SÓ PODE SER CONSUMIDO POR CRIANÇAS COM APLV SE ESTAS FOREM ALÉRGICAS ÚNICA E EXCLUSIVAMENTE À -CASEÍNA A1. VALE LEMBRAR QUE A MAIOR PARTE DAS ALERGIAS É MISTA, OU SEJA, ENVOLVE MAIS DE UM TIPO DE PROTEÍNA. COMO A APLV É UMA DOENÇA SÉRIA, QUE PODE CAUSAR A MORTE, NUNCA DEVEMOS FAZER MARKETING RELACIONADO À HIPOALERGENICIDADE. 

PELO MUNDO
A maior parte do leite vendido no mundo contém os dois tipos de caseína, A1 e A2. A β-caseína A1 é o tipo mais comum encontrado no leite das vacas de raças europeias, animais que produzem a maior parte do leite nos Estados Unidos, no Canadá, no Europa, na Austrália e na Nova Zelândia.

No Brasil, cerca de 80% do leite produzido é derivado de animais mestiços, predominantemente oriundos do cruzamento entre Gir e Holandês.

Todavia, não existe nenhum estudo que indique a prevalência do alelo A1 nesses animais. Todavia, não existe nenhum estudo que indique a prevalência do alelo A1 nesses animais.

O único levantamento existente sobre a composição dos tipos de caseína no leite vendido no varejo é do Reino Unido, que encontrou de 40% a 50% da β-caseína A1 e de 43% a 52% de β-caseína A2.


1/2 HORIZONTAL
A maior empresa que comercializa leite A2 no mundo se chama A2 Milk Company, fundada em 2000, na Nova Zelândia. Atualmente, sua sede é na Austrália, mas ela atua também nos mercados da Nova Zelândia, do Reino Unido, dos EUA e da China,
comercializando leite fl uido, iogurte, leite em pó, sorvete e fórmulas infantis.

No Reino Unido, apenas alguns rebanhos na ilha de Guernsey são produtores de leite A2. As empresas que planejam as ações nesse mercado dizem que é difícil satisfazer a demanda. Rod Farmer Kent, de Berkshire, é um dos produtores que estão testando o seu rebanho para se tornarem um produtor de leite A2. Ele disse à BBC: “Todo leite é bom para você, mas se o A2 é bom para um pequeno segmento da população, deixe-o ter uma escolha”.

FLÁVIA FONTES
Editora Chefe da
Revista Leite Integral