Uma boa opção?

Animais Jovens | 29 de Abril de 2019 Voltar

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AUTOR: JIM QUIGLEY

 O leite de descarte é assim chamado nas fazendas leiteiras quando o produto não é adequado para venda comercial e para o consumo humano. Na maioria das vezes, é proveniente de vacas recém-paridas e fêmeas com infecções mamárias ativas ou, ainda, daquelas que estão em tratamento com antibióticos que preveem período de carência, durante o qual o leite deve ser descartado. A quantidade de leite de descarte disponível nas fazendas depende do número de vacas que parem, da produção de colostro e do número de animais que estão sendo tratados. Um estudo publicado nos Estados Unidos (EUA) apontou que algumas amostras de leite de descarte estavam com teores muito baixos de sólidos (<7%), indicando uma possível contaminação, provavelmente em função da água de lavagem da sala de ordenha.

 

COMPOSIÇÃO

A composição dos nutrientes, nesse tipo de leite, pode variar em relação ao leite integral, dependendo da contribuição do colostro e leite de transição - que aumenta os sólidos, proteínas e gordura - e da água – que pode contaminar o alimento durante os procedimentos de lavagem, afetando todos os nutrientes. Pesquisas relataram que o leite de descarte de fazendas da Califórnia, nos EUA, apresentou média de 11,2% de sólidos, o que foi significativamente diferente da média apurada em leite comercializável, com 12,5%.

Recentemente, pesquisadores coletaram 25 amostras de leite de descarte de fazendas de gado leiteiro na região do Vale Central da Califórnia. Estas amostras foram analisadas quanto ao teor de nutrientes e presença de resíduos de antibióticos. Os resultados dos dados da composição dos nutrientes estão na Tabela 1. A ampla variedade de contagens altas de bactérias totais (contagem padrão em placas) detectadas nas amostras é, provavelmente, o resultado da falta de refrigeração do leite durante a coleta e armazenamento.

Um critério importante para considerar o uso de leite de descarte é a falta de estabilidade, frequentemente observada na sua composição. Uma “regra de ouro” da criação de bezerras é a importância da consistência na composição dos alimentos, aliada a boas práticas de alimentação, caso contrário, pode resultar em baixo desempenho.

Nos EUA, um estudo comparou a alimentação de bezerras com o mesmo volume de leite todos os dias ou uma quantidade variável de sucedâneo do leite. Os pesquisadores usaram duas fórmulas de sucedâneos do leite - uma fórmula de 27:17 (proteína:gordura) similar a fórmulas comerciais utilizadas nos EUA e a segunda, uma fórmula 27:31 projetada para ser semelhante ao leite integral com base na MS.

Os substitutos do leite foram fornecidos com uma quantidade fxa (681 gramas / dia) ou uma taxa que variou de dia para dia, mas a média foi de 681 gramas / dia durante a semana. A quantidade oferecida variava de 545 a 817 gramas / dia, dependendo do dia da semana. As bezerras foram alimentadas com uma porcentagem fixa de MS, 14,8%, então a quantidade de leite recebidos diariamente variou. No entanto, cada bezerra recebeu a mesma quantidade de nutrientes no final de cada período de 7 dias. As bezerras foram desmamadas, neste estudo, no dia 28 do experimento. Aquelas alimentadas com uma quantidade fixa de substituto do leite - mesma quantidade de pó todos os dias - cresceram mais rápido (Tabela 2), comeram mais ração inicial e foram mais efcientes antes do desmame. Os efeitos sobre a ingestão e o GMD foram mantidos mesmo após o desmame.

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CONTAMINAÇÃO MICROBIANA E PASTEURIZAÇÃO

O leite de descarte tem, por sua natureza, constituição instável. A composição dos nutrientes pode variar e, somado a isto, muda também o grau de contaminação microbiana devido à mastite e outros organismos que podem ser passados da vaca para a bezerra pelo alimento. As precauções para o uso de leite de descarte não pasteurizado foram delineadas em uma pesquisa e estão descritas no BOX 1.

A pasteurização do leite de descarte é necessária, pois ele pode conter organismos potencialmente infecciosos e tem sido citado na transmissão vertical de numerosos organismos causadores de doenças, incluindo Cryptosporidium parvum, Mycoplasma bovis e Mycobacterium paratuberculosis, entre outros.

No processo de pasteurização, o leite é aquecido a uma temperatura definida, por um período específico de tempo, para reduzir a carga microbiana. Por exemplo, um processo comum de pasteurização na fazenda - pasteurização lenta - é aquecer o leite a 63-65 °C e manter a temperatura por 30 minutos. E a pasteurização rápida que é feita em altas temperaturas por um curto período de tempo pasteurização (71,7 °C por 15 segundos) também é efcaz. Quando o leite é pasteurizado corretamente, a contagem de bactérias potencialmente patogênicas é reduzida, incluindo Salmonella, Mycoplasma e Mycobacterium paratuberculosis – responsável por causar paratuberculose ou doença de Johne.

Pesquisas realizadas nos Estados Unidos no fnal da década de 1990, relataram que a pasteurização na fazenda reduzia a diarreia e pneumonia, além de melhorar o ganho de peso. Já o uso de leite não pasteurizado aumentava o risco de transmissão de doença. Evidentemente, o manuseio pós-pasteurização do leite de descarte é essencial, pois pasteurização não é esterilização e novo crescimento de bactérias é possível se o leite for armazenado por longos períodos. Considerações para procedimentos bem-sucedidos de pasteurização estão listadas no BOX 2.

Contudo, não são todas as pesquisas que mostram benefício na pasteurização de leite de descarte. Por exemplo, um estudo de 2018 relatou pouca diferença entre a prevalência de Salmonella em amostras fecais de bezerras alimentadas com leite pasteurizado ou não pasteurizado. Um total de 68% e 69% das amostras fecais coletadas tiveram resultado positivo para uma das várias espécies de Salmonella, respectivamente.

Outra pesquisa relatou que bezerras com mães soropositivas tinham 6,6 vezes mais chances de serem infectadas em comparação com as bezerras de mães soronegativas.

Além disso, a soropositividade de 84,6% deveu-se ao fato de ter nascido em um rebanho soropositivo e 15,4% a outras exposições, como água contaminada com fezes de bovinos adultos.

Nos Estados Unidos, o Sistema Nacional de Monitoramento de Saúde Animal do Departamento de Agricultura (NAHMS), avaliou as práticas de alimentação de bezerras durante uma pesquisa nacional em 2014-2015.

Os pesquisadores relataram que o tipo mais comum de dieta líquida era leite integral ou leite de descarte, que representava 40,1% de todas as bezerras (n = 2.545), enquanto 34,8% das bezerras recebiam somente sucedâneo e 25,1% recebiam uma combinação dos dois.

O levantamento revelou ainda que 43,3% das fazendas forneciam leite integral ou de descarte, 38,5% apenas substitutos do leite e 38,5% das fazendas ofertavam uma combinação dos dois. De todas as propriedades que ofereciam leite integral, leite de descarte ou combinações, 36,5% pasteurizava o leite e 21,2% avaliava as contagens bacterianas do leite. Claramente, existe uma oportunidade de melhorar a gestão do leite de descarte nas fazendas leiteiras e reduzir o risco de transmissão de doenças as bezerras.

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SUPLEMENTAÇÃO DO LEITE DE DESCARTE

Embora o leite (integral ou de descarte) seja normalmente considerado um alimento “perfeito”, existem alguns desequilíbrios em comparação com os requerimentos nutricionais publicados, conforme a Tabela 3. Nos esquemas de manejo em que as bezerras são alimentadas apenas com quantidades limitadas (400-500g de MS/dia) de leite por um curto período de tempo (<42 dias), os efeitos nutricionais desses desequilíbrios são geralmente limitados.

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Isto é particularmente verdadeiro quando esse leite é oferecido a partir de uma idade precoce. No entanto, estratégias mais modernas de fornecimento de maiores quantidades de leite, por mais tempo, podem exacerbar as deficiências nutricionais do leite de descarte.

Uma alternativa que mostrou melhorar o crescimento e a eficiência alimentar foi a suplementação do leite de descarte com vitaminas e minerais, bem como, a alteração da relação proteína:energia, como pode ser notado no gráfico da página a seguir. Vários produtos comerciais estão disponíveis para alterar a relação proteína:energia - geralmente, aumentando a quantidade de proteína na mistura - e adicionar vitaminas e minerais essenciais.

Estes produtos também podem conter aditivos funcionais que melhoram a resposta imune - componentes de levedura, anticorpos, óleos essenciais - reduzindo o risco de doenças.

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SE LIGA: Na China, estima-se que o descarte de leite pode chegar a 1,6 milhões de toneladas por ano. No Brasil, não há estimativas sobre o volume de leite de descarte produzido

 

RESÍDUOS ANTIBIÓTICOS

Quando o leite de descarte é proveniente de vacas tratadas com antibióticos, a quantidade de resíduo do medicamento pode ser alta o sufciente para gerar efeitos indesejáveis sobre a bezerra e/ou sua micro?ora intestinal. Um risco signifcativo é o desenvolvimento de bactérias resistentes a antibióticos no intestino de bezerras jovens alimentadas com esse tipo de leite. Estas bactérias resistentes são, entretanto, muito mais difíceis de serem combatidas com os antibióticos disponíveis e tornam mais complexa a gestão da propriedade, nesse aspecto.

Evidências recentes sugerem que a alimentação com leite de descarte promove a presença de bactérias resistentes no intestino inferior e nas vias respiratórias de bezerras leiteiras. Assim, organizações em algumas partes do mundo recomendam que leite que contenha resíduos de antibióticos não seja fornecido aos animais. No Reino Unido, por exemplo, a organização agrícola sem fns lucrativos Responsible Use of Medicines in Agriculture Alliance (RUMA) publicou, recentemente, a seguinte declaração de posicionamento sobre o uso de leite de descarte em fazendas leiteiras: “O leite de descarte - excluindo o colostro – de vacas sob o período de abstenção estatutário para antibióticos não deve ser fornecido a animais jovens. Com base nas evidências atuais, recomenda-se que uma solução prática para esse leite na fazenda seja descartá-lo em um poço. A RUMA incentiva uma pesquisa adicional sobre as opções de descarte para identifcar alternativas práticas e obter uma melhor compreensão de quaisquer possíveis interações ambientais associadas ao descarte através dessa rota”.

A questão é que os antibióticos presentes no leite de descarte podem afetar o desenvolvimento ruminal ou o crescimento de bezerras, o que foi abordada por um estudo recente, onde os autores concluíram que os antibióticos no leite de descarte não tiveram efeito significativo no crescimento de bezerras. No entanto, houve alterações na microflora ruminal e nas concentrações de ácidos graxos voláteis (AGV) no rúmen.

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PERSPECTIVAS

O leite de descarte tem sido usado por muitos anos como uma fonte viável de nutrição para bezerras leiteiras. Embora seu o conteúdo nutricional espelhe, frequentemente, o do leite comercial, existem muitos riscos associados, como a variação no conteúdo de nutrientes, presença de potenciais patógenos e resíduos de antibióticos. No futuro pode se limitar o uso desse tipo de alimento para as bezerras, seja pela regulamentação governamental ou pela demanda do consumidor, para minimizar o risco de desenvolver mais bactérias resistentes aos antibióticos no meio ambiente. A pasteurização do leite usado é essencial para reduzir o risco de transmissão de organismos patogênicos às bezerras.

 

 

JIM QUIGLEY

PhD em Ciência Animal

Editor da Calf Notes