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Sanidade

Conheça estratégias eficientes para o assertivo diagnóstico da brucelose bovina

Conheça as estratégias e os testes necessários para a realização do diagnóstico eficiente da brucelose bovina

Conheça estratégias eficientes para o assertivo diagnóstico da brucelose  bovina

Conceito e importância 

O Brasil, como o detentor do maior rebanho bovino comercial do mundo, enfrenta desafios importantes no controle de doenças infecciosas bovinas. No âmbito da pecuária, essas enfermidades surgem como barreiras significativas não apenas para a estabilidade financeira dos produtores, mas também para a saúde do rebanho, além de representarem, em alguns casos, um potencial risco para a saúde humana. A brucelose é um exemplo de enfermidade que gera consideráveis prejuízos sanitários, econômicos e sociais, com impactos no desenvolvimento e crescimento da economia nacional.

Causada por bactérias do gênero Brucella, a brucelose é uma doença contagiosa que afeta diversas espécies, incluindo bovinos, suínos, caprinos e seres humanos. A transmissão desta importante zoonose ocorre principalmente por meio do consumo de produtos de origem animal contaminados, como leite cru e derivados, ou por meio de contato direto com animais infectados, acomentendo principalmente trabalhadores rurais, magarefes e médicos veterinários que mantêm contato próximo a estes animais.

Em bovinos, a infecção é causada por Brucella abortus e resulta em problemas reprodutivos, especialmente aborto no último trimestre de gestação, retenção de placenta, metrite e inflamação dos testículos em machos. A transmissão entre os animais ocorre tanto de maneira direta, por meio do contato com secreções e material oriundos de parto ou aborto, quanto de maneira indireta, por meio da ingestão de água e pastagens contaminadas.

No Brasil, a brucelose bovina está presente em todos os estados, apesar de sua distribuição heterogênea. A redução de sua prevalência e incidência não deve ser buscada apenas para preservar a saúde e a produtividade dos animais, mas também para garantir a saúde pública, evitando a propagação dessa zoonose e garantindo a segurança alimentar.

Diante deste desafio evidente e da demanda por esforços padronizados em todo o país, ocorreu em 2001 a implantação, pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), do Programa Nacional de Controle e Erradicação da Brucelose e da Tuberculose (PNCEBT). O objetivo principal do programa é reduzir a prevalência e a incidência de novos focos dessas doenças, alcançando o controle e a erradicação no país em um futuro próximo.

As estratégias do PNCEBT estão baseadas em medidas obrigatórias, como abate de animais positivos, vacinação de fêmeas jovens contra a brucelose e diagnóstico para brucelose e tuberculose de animais em trânsito (exceto para abate); e medidas de adesão voluntária, como a certificação de propriedades livres. Essas estratégias têm sido fundamentais para atingir os objetivos do programa, como evidenciado pela melhora nos indicadores, especialmente relacionados à brucelose.

CAUSADA POR BACTÉRIAS DO GÊNERO BRUCELLA, A BRUCELOSE É UMA DOENÇA CONTAGIOSA QUE AFETA DIVERSAS ESPÉCIES, INCLUINDO BOVINOS, SUÍNOS, CAPRINOS E SERES HUMANOS 

Como realizar o diagnóstico?


Para o controle, a erradicação e a vigilância da brucelose bovina é essencial realizar diagnóstico preciso da doença, uma vez que a falta de sinais clínicos específicos torna imprescindível a utilização de exames laboratoriais.

No caso do diagnóstico em bovinos e bubalinos, o PNCEBT estabelece normas específicas. Tais normas definem a idade em que os animais devem ser submetidos aos testes, bem como os tipos de testes a serem realizados. A execução desses testes é restrita a médicos veterinários habilitados ou laboratórios oficiais ou credenciados pelo MAPA, visando assegurar a confiabilidade dos resultados. Todos os animais em trânsito com a finalidade de reprodução (transporte entre fazendas, para eventos pecuários, centrais de reprodução, etc) devem passar por testes. Os machos devem ser testados a partir dos oito meses de idade. No caso das fêmeas, aquelas vacinadas com a vacina B19 podem ser testadas a partir dos 24 meses de idade, enquanto aquelas não vacinadas ou vacinadas com a vacina RB51 podem ser testadas a partir dos oito meses de idade.

Os testes sorológicos representam a base para o diagnóstico da brucelose bovina, uma vez que a amostra clínica utilizada, o sangue (do qual se obtém o soro), está prontamente disponível, e os testes são relativamente baratos e fáceis de serem realizados. Esses testes têm como princípio a identificação de anticorpos (imunoglobulinas - Ig). As imunoglobulinas são formadas apenas após o contato com o agente, seja por meio de vacinação ou infecção, e podem ser do tipo IgG, indicando um contato antigo, ou IgM, indicando um contato recente com a bactéria. Há cinco testes sorológicos aprovados pelo PNCEBT: Teste do Antígeno Acidificado Tamponado (AAT), Teste de redução pelo 2-Mercaptoetanol (2-ME), Teste de Polarização Fluorescente (FPA), Teste de Fixação de Complemento (FC) e Teste do Anel em Leite (TAL) (Tabela 1).

Para a realização de métodos de diagnóstico para o controle de brucelose, e também de tuberculose, os médicos veterinários devem ser aprovados em “Curso de Habilitação em Métodos Diagnósticos e Controle da Brucelose e Tuberculose Animal” e solicitar sua habilitação no PNCEBT junto ao MAPA e ao órgão de defesa sanitária animal do estado em que irão trabalhar. A estratégia para o diagnóstico da brucelose bovina está esquematizada na Figura 1.

Testes de triagem para o diagnóstico sorológico 


Os testes de triagem aprovados no PNCEBT são o TAL e o AAT. Ambos os testes de triagem podem ser realizados por médicos veterinários habilitados no PNCEBT ou por laboratórios oficiais ou credenciados pelo MAPA.

O TAL (Figura 2) é realizado em amostras de leite, sendo um teste que deve ser realizado a partir de amostras do rebanho e não de animais individuais. É realizado principalmente para monitoramento em rebanhos leiteiros, portanto pode ser utilizado para controle de estabelecimentos e propriedades livres ou para a triagem de rebanhos. O teste positivo indica a possibilidade de presença de animal positivo no rebanho, portanto deve-se seguir para a testagem individual deles, utilizando-se inicialmente o AAT.



O AAT (Figura 3) é um teste de aglutinação que detecta principalmente IgG, ou seja, detecta infecções crônicas, e é realizado com soro dos animais. Por ser um teste de triagem, caso o resultado seja não reagente, o animal é considerado negativo. Entretanto, caso o resultado seja reagente, o animal deve ser submetido a um teste confirmatório (2-ME, FC ou FPA). A critério do médico veterinário responsável e do proprietário do animal, o animal reagente ao AAT pode também ser encaminhado ao abate sanitário ou à eutanásia, sem a realização de teste confirmatório. Nestes casos, o rebanho passa a ser considerado como infectado e, se certificado como livre, perde a certificação.


Figura 3. Teste do Antígeno Acidificado Tamponado para triagem de animais positivos para brucelose Fonte: Arquivo dos autores

Testes confirmatórios

Os testes de 2-ME, FPA e FC estão aprovados no PNCEBT pelo MAPA para utilização como testes confirmatórios no diagnóstico da brucelose. Soros dos animais reagentes ao AAT devem ser submetidos aos testes confirmatórios. Esses testes só podem ser executados por laboratórios credenciados ou oficiais.

O 2-ME (Figura 4) é composto por duas séries de tubos, uma com 2-ME e uma sem (teste de soroaglutinação lenta em tubos - SAL) e identificam presença de IgG e IgM + IgG, respectivamente.

O FPA (Figura 5) identifica a presença de anticorpos IgM e IgG no soro. Os resultados são rápidos e o teste é muito específico e sensível. Por essas características é o único teste aprovado pelo PNCEBT que pode também ser utilizado como teste único, ou seja, sem a realização prévia do AAT.



A FC (Figura 6) também detecta tanto IgG quanto IgM. É comumente utilizado como teste nos protocolos internacionais de trânsito de bovinos vivos. Entretanto, como o número de laboratórios que realizam o teste no país é pequeno, sua utilização tem sido limitada.

Nos testes confirmatórios, caso o animal teste negativo, o animal é considerado como não infectado, negativo. Caso o resultado do teste seja positivo, o animal deve ser destinado ao abate sanitário ou eutanásia em, no máximo, 30 dias.

Resultados inconclusivos nos testes confirmatórios podem ocorrer em animais recém-infectados ou serem oriundos de reações inespecíficas por contato com outros agentes microbianos. Assim, nos casos de resultados inconclusivos nos testes confirmatórios, novas coletas de sangue devem ser realizadas entre 30 e 60 dias após a coleta anterior.

Nesse reteste, os animais que reagirem negativo nos testes confirmatórios serão considerados não infectados, negativos. Já os animais que reagirem positivo ou inconclusivo nos testes confirmatórios devem ser enviados ao sacrifício ou abate sanitário em até 30 dias. Os animais que reagem inconclusivo em dois testes confirmatórios consecutivos são animais que, como o próprio nome diz, não permitem concluir se estão ou não infectados, constituindo um potencial risco de manutenção da infecção no rebanho. Assim, esses animais devem ser eliminados.

Testes diretos

Além dos testes oficiais recomendados pelo PNCEBT, o diagnóstico da brucelose bovina também pode ser realizado por meio de métodos diretos, moleculares e microbiológicos. O isolamento e identificação de Brucella spp. é considerado o padrão ouro para o diagnóstico confirmatório da brucelose.

Contudo, é importante destacar que a probabilidade de se obter cultura positiva de um animal vivo infectado é baixa, especialmente quando não são colhidas amostras de aborto. Além disso, a cultura é inviável para uso em larga escala, considerando os custos e os riscos de biossegurança envolvidos, uma vez que B. abortus é classificada como um microrganismo nível 3 de biossegurança, implicando em elevado risco de infecção para o pessoal do laboratório. O diagnóstico molecular, particularmente a reação em cadeia da polimerase (PCR), é uma alternativa que envolve menos riscos para quem manipula amostras em laboratório, além da vantagem de ser mais rápida, sensível e específica. A PCR é de grande valia, principalmente para o diagnóstico de aborto por B. abortus.

Considerações finais

A brucelose bovina resulta na redução da eficiência produtiva e reprodutiva dos rebanhos e em grande risco de infecção humana, sendo de extrema importância o controle eficaz dessa doença. Assim, é fundamental o diagnóstico correto dos animais infectados, bem como o esforço dos produtores em monitorar seus rebanhos e adquirir animais negativos, para que haja o controle da doença e a minimização das perdas produtivas. A partir do diagnóstico positivo, há a necessidade de realizar o abate desses animais, eliminando-os como forma de bloquear a transmissão para outros animais e para os seres humanos.

Além do diagnóstico, a vacinação das fêmeas também é uma importante estratégia de controle, visando o aumento da imunidade dos rebanhos e diminuição das desordens reprodutivas, sendo obrigatória a vacinação das fêmeas bovinas entre 3 e 8 meses de idade com a vacina B19. Já as fêmeas não vacinadas nesse período devem regularizar a situação vacinal com a RB51. A vacinação é realizada por médico veterinário cadastrado pelo Serviço Veterinário Estadual.

Nesse sentido, fica claro que a brucelose bovina é muito relevante no âmbito da saúde pública. Para sua resolução, deve haver um bom diagnóstico e destinação correta dos animais, além do esforço dos produtores e médicos veterinários em realizar o monitoramento e a vacinação do rebanho. Assim, o combate à evolução desse problema sanitário no país será mais efetivo.

Agradecimentos

Os autores agradecem ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e à Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG) pelas bolsas de estudo e à FAPEMIG pelo apoio financeiro, processo RED-00132-22.



YASMIM DOMINGOS DA SILVA - Graduanda no Curso de Medicina Veterinária do Departamento de Zootecnia e Medicina Veterinária, Universidade Federal de Lavras (UFLA)
ANA CAROLINA CHALFUN SANTANA - Graduanda do Curso de Medicina Veterinária do Departamento de Zootecnia e Medicina Veterinária, UFLA
JÚLIA LIMA PAZ - Graduanda do Curso de Medicina Veterinária do Departamento de Zootecnia e Medicina Veterinária, UFLA
RAFAELLA SILVA ANDRADE - Pós-doutoranda do Departamento de Zootecnia e Medicina Veterinária, UFLA
ANDREY PEREIRA LAGE - Professor Titular do Departamento de Medicina Veterinária Preventiva da Escola de Veterinária, Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)
ELAINE MARIA SELES DORNELES - Professora Adjunta do Departamento de Zootecnia e Medicina Veterinária, UFLA


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Comentários

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    13/06/2024 11:25:42 - ODERMAN OLIVEIRA LIMA:

    Parabens pelo excelente artigo. Como sempre. Arevista dando um show de informações.

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