Conheça a NZ Agropecuária (Umirim/CE), onde ambiência, genética e decisões ajustadas fazem a diferença
Produção leiteira na NZ Agropecuária avança com base em ambiência, genética e decisões ajustadas às condições climáticas do Ceará
Quanto mais perto da linha do Equador, menor é a diferença entre as temperaturas no inverno e no verão. É por esse motivo que as praias cearenses estão sempre cheias, de janeiro a janeiro. As temperaturas por lá não encontram muitos motivos para cair. Ótimo para o turismo, desafiador para a produção leiteira.
É nesse cenário que a NZ Agropecuária, mesmo grupo da Companhia de Alimentos do Nordeste (Cialne), organiza seu sistema produtivo em Umirim, na região norte do estado, em uma faixa de transição entre o litoral e o sertão. As decisões tomadas ali partem das condições reais de temperatura, umidade e disponibilidade de recursos, que condicionam cada escolha feita durante a operação.
À frente desse processo está Péricles Montezuma, médico-veterinário, responsável pela operação pecuária. Há mais de 25 anos, ele acompanha de perto a evolução e conduz as mudanças que reposicionaram a produção de leite dentro da estrutura do grupo.
A propriedade, referência na produção de leite no Nordeste, avançou em seus indicadores zootécnicos e no bem-estar animal na medida que conseguiu alinhar uma série de fatores ao ambiente climático. Da escolha da base genética ao sistema de produção, passando pelos manejos diários, cada ajuste foi orientado pelo objetivo de manter os animais em condição de conforto mesmo em um cenário de calor constante.

Equipe Operacional da NZ Agropecuária: da esquerda para a direita, Djair Sales, Supervisor de Produção; Vinicius Gomes, Supervisor de Obras; Raimundo Mesquita, Encarregado Geral; Péricles Montezuma, Diretor Operacional; Diego Fernandes, Coordenador Operacional; e Carlos de Oliveira, Técnico Agropecuário
A construção do sistema produtivo
A trajetória de Péricles Montezuma se entrelaça com a própria evolução da pecuária de leite no grupo. Médico-veterinário, chegou à empresa em 2000, convidado por Francisco de Araújo Carneiro, conhecido como Dico Carneiro, patriarca do grupo, para atuar na área de reprodução, em um momento em que a atividade estava em desenvolvimento na estrutura produtiva.
Naquele período, o foco principal do grupo estava na avicultura, enquanto o leite avançava, apoiado em diferentes fazendas e com menor padronização de processos. Coube a Péricles, inicialmente, organizar a base reprodutiva do rebanho e dar suporte sanitário em um sistema que ainda refletia o padrão predominante na região: animais Girolando oriundos de retrocruzamentos sucessivos entre Holandês e Gir Leiteiro, manejados em regime predominantemente a pasto, com suplementação em períodos estratégicos. “Era um sistema mais tradicional, com rebanho a pasto e parte do ano em confinamento, bem característico da região”, lembra Péricles.
Com o tempo, a atuação ganhou escala. Cerca de cinco anos depois de sua chegada, Péricles assumiu a gestão das fazendas, ampliando o escopo de decisões. Esse movimento marcou uma inflexão importante: o trabalho envolveu mais decisões estruturais sobre o sistema de produção. O rebanho começou a ser reorganizado, com redução do número de unidades produtivas e maior concentração dos animais, buscando ganho de escala, padronização de manejo e melhoria nos indicadores.
Nesse período, a intensificação das áreas de pastejo, com o uso de irrigação, representou um avanço relevante de acordo com as condições disponíveis. Ainda assim, o modelo permanecia baseado na combinação entre pasto e confinamento no decorrer do ano, exigindo constante adaptação às variações climáticas da região.
DA ESCOLHA DA BASE GENÉTICA AO SISTEMA DE PRODUÇÃO, PASSANDO PELOS MANEJOS DIÁRIOS, CADA AJUSTE FOI ORIENTADO PELO OBJETIVO DE MANTER OS ANIMAIS EM CONDIÇÃO DE CONFORTO MESMO EM UM CENÁRIO DE CALOR CONSTANTE
Ao mesmo tempo, a estratégia genética evoluía. O modelo mais definido do rebanho Girolando, com maior controle sobre os graus de sangue e melhor alinhamento entre tipo de animal e ambiente de produção, passou a orientar as decisões do sistema. A predominância de vacas meio-sangue, mais adaptadas às condições locais, consolidou essa direção. Mas foi a observação prática que consolidou a necessidade de mudança. Animais ¾ Girolando, produzidos na própria fazenda, quando comercializados e levados para sistemas mais intensivos, apresentavam desempenho significativamente superior. Em ambientes com maior controle de ambiência, nutrição e manejo, esses mesmos animais saíam de lactações na faixa de 6 mil a 7 mil litros (à pasto) para patamares entre 9 mil e 12 mil litros.
Esse contraste trouxe um diagnóstico: o limite produtivo não estava na genética, mas no sistema. Com base nessa leitura, os investimentos foram direcionados para a construção de um ambiente capaz de sustentar níveis mais altos de produção, sem renunciar à adaptação genética construída ao longo dos anos. É nesse ponto que a mudança de sistema orientou, de forma mais decisiva, os próximos passos da operação.

Base genética Girolando, com predominância de animais meio-sangue, selecionados ao longo dos anos para melhor adaptação às condições climáticas da região
Ambiência, escala e precisão de manejo
A mudança de direção nessa propriedade ganhou forma concreta com a adoção do confinamento do tipo Compost Barn. Esse movimento se insere em uma fase mais recente da operação: em 2019, a atividade leiteira do grupo foi reorganizada na NZ Agropecuária, estrutura que ficou mais concentrada e que passou a dar mais unidade à operação.
Na unidade de Umirim, o primeiro galpão foi dimensionado para 700 vacas em produção, com foco na manutenção de um ambiente confortável, mais controlado, mais ventilado e com menor variação térmica. Em uma região onde calor e umidade se intensificam nos períodos chuvosos, o controle da ambiência se tornou condição para o funcionamento do sistema.
A resposta do rebanho foi forte e imediata. Animais que, no sistema anterior, operavam em patamares menores passaram a expressar outro nível produtivo quando inseridos em um ambiente mais estável. Esse resultado estava associado ao conjunto: conforto térmico, menor exposição à umidade e à luz intensa, regularidade de trato e melhores condições de descanso. “O rebanho chegava às propriedades e fechava a lactação pelo menos 50% acima do que antes a gente via aqui”, relata Péricles, ao lembrar do desempenho dos animais vendidos para sistemas confi nados.
Atualmente, a unidade concentra 650 vacas em lactação confi nadas no galpão, além de cerca de 50 animais em pré-parto ocupando os postos disponíveis. No total, são aproximadamente 850 vacas adultas e outras 800 fêmeas em recria, compondo uma base que sustenta o crescimento planejado da operação.



Com o rebanho alojado, o manejo ganhou precisão. A ordenha passou a ser realizada três vezes ao dia, em sistema mecanizado e com medição eletrônica individual, acompanhando o desempenho dos lotes mais produtivos. A decisão esteve diretamente ligada ao novo patamar de produção. “Sair de uma média de 18 a 20 litros no pasto para animais produzindo acima de 30 litros é uma grande vitória para o início da mudança de chave no sistema de produção”, avalia Péricles.
A nutrição acompanhou esse avanço. A base do alimento volumoso, antes mais dependente de capim e sorgo, foi sendo substituída por silagem de milho, mais compatível com níveis mais altos de produção.
Parte dessa silagem é produzida dentro da estrutura da fazenda, em áreas irrigadas por pivô central. Em uma região marcada por irregularidade de chuvas, a irrigação garante maior previsibilidade na produção de alimento volumoso, com melhor controle sobre o ponto de corte, o teor de matéria seca e a qualidade do material ensilado. Esse ajuste reduz a dependência das variações climáticas e sustenta o padrão nutricional exigido pelo nível produtivo do rebanho.
A evolução do sistema também envolve tecnologia. A identificação eletrônica já fazia parte da rotina, e a introdução dos colares de monitoramento marca a próxima etapa, endereçada para iniciar ainda nesse semestre, ampliando a capacidade de leitura do comportamento, da saúde e da reprodução dos animais. “A gente passa a acompanhar cada vaca segundo o seu padrão, com muito mais proximidade”, explica Péricles.
A operação também se apoia em uma rede de parceiros comerciais que contribuem para a sustentação técnica do sistema. Na área de sanidade animal, o trabalho é conduzido em parceria com a MSD Saúde Animal, com foco na prevenção e no controle dos principais desafios sanitários do rebanho.
O planejamento acompanha essa trajetória de crescimento. O projeto prevê a ampliação para três, o que implica na construção de mais dois galpões de produção, cada um com capacidade para 700 vacas, além de uma estrutura dedicada ao préparto e outro à recria. A proposta é segmentar melhor as categorias e dar mais precisão ao manejo em cada fase produtiva.
Mesmo com a intensificação, uma decisão foi mantida: o rebanho não foi substituído. O trabalho segue apoiado na base genética construída no decurso dos anos, com ajustes no planejamento para responder ao novo ambiente produtivo. A lógica, como resume Péricles, não foi trocar o animal, mas criar condições para que ele pudesse se expressar mais e melhor no novo sistema.
A IDENTIFICAÇÃO ELETRÔNICA JÁ FAZIA PARTE DA ROTINA, E A INTRODUÇÃO DOS COLARES DE MONITORAMENTO MARCA A PRÓXIMA ETAPA, ENDEREÇADA PARA INICIAR AINDA NESSE SEMESTRE, AMPLIANDO A CAPACIDADE DE LEITURA DO COMPORTAMENTO, DA SAÚDE E DA REPRODUÇÃO DOS ANIMAIS

Bezerras em fase inicial de criação no bezerreiro da NZ Agropecuária, com manejo estruturado, controle individual e ambiente protegido, etapas que sustentam o desenvolvimento dos animais e influenciam diretamente o desempenho futuro do rebanho
Do campo ao consumidor
A consolidação do sistema produtivo na NZ Agropecuária não se encerra na efi ciência dentro da fazenda. O leite produzido está diretamente conectado à estratégia do grupo de integrar produção e processamento, com destino prioritário ao laticínio do grupo, a marca Sabor & Vida.
Esse arranjo redefine o papel da produção. O sistema responde a critérios específicos de qualidade, regularidade e composição, sempre alinhado às exigências industriais. Parâmetros como teor de sólidos, padrão sanitário e estabilidade da matéria-prima são critérios que orientam as decisões de produção.
A entrada no nicho de leite A2 reforça esse direcionamento. A seleção genética do rebanho incorpora esse critério; alinha a produção a um posicionamento voltado a produtos de maior valor agregado e com apelo de saudabilidade. Esse movimento também é reconhecido fora da porteira. Desde 2023, a operação integra o programa de certificação da FairFood, sendo pioneira no Ceará e uma das primeiras do Nordeste a investir no segmento de leite e derivados A2.
O LEITE PRODUZIDO ESTÁ DIRETAMENTE CONECTADO À ESTRATÉGIA DO GRUPO DE INTEGRAR PRODUÇÃO E PROCESSAMENTO, COM DESTINO PRIORITÁRIO AO LATICÍNIO DO GRUPO, A MARCA SABOR & VIDA
Para Helena Karsburg, diretora técnica da FairFood, o diferencial do trabalho desenvolvido pela NZ Agropecuária e pela Sabor & Vida está na forma como é conduzido durante toda a cadeia. “Há um trabalho bem-estruturado, com comprometimento das equipes envolvidas, garantia de origem, rastreabilidade e controle dos processos – da fazenda até o produto fi nal. Existe um cuidado real com o que é entregue; não apenas do ponto de vista técnico, mas também na forma como isso chega ao consumidor, com uma comunicação clara e coerente, valorizando o diferencial da certificação com a garantia do que está sendo produzido”, afirma.
A avaliação reforça um ponto central do sistema: a capacidade de sustentar, ao longo do tempo, um padrão de produção em sintonia com a indústria e com o mercado. Nesse modelo, produzir leite envolve eficiência técnica e entrega contínua de um produto com características bem-definidas, da fazenda ao consumidor final.

Rebanho inserido em sistema certificado, com rastreabilidade, controle de processos e padrões definidos que garantem a qualidade do leite desde a origem
Milk Run na NZ Agropecuária
Correr é movimento. E, às vezes, é também uma forma de cuidar. Inspirada por essa essência, a Milk Run, iniciativa do time de Ruminantes da MSD Saúde Animal, transforma quilômetros em doações de leite para quem mais precisa. A Milk Run nasceu do mesmo impulso que move quem corre: a vontade de fazer o bem, de seguir adiante e de deixar algo pelo caminho.
De acordo com Rafael Luiz da Silva, gerente de mercado de gado de leite da MSD Saúde Animal no Brasil, “a Milk Run nasceu do propósito da MSD Saúde Animal: melhorar a vida das pessoas e promover saúde e bem-estar. A cada 10 km percorridos pelo grupo, 1 litro de leite é doado e, nos eventos, a cada 5 km. O projeto incentiva o esporte, amplia a solidariedade e reforça a importância do leite como alimento essencial. Essa é a Milk Run: movimento, saúde e impacto real.”
Para Péricles, essa iniciativa dialoga diretamente com o que a operação busca construir dentro da porteira. “Esse movimento está em consonância com a proposta de saudabilidade dos produtos da marca. Onde há movimento, há vida. E é isso que a gente procura entregar, do sistema produtivo até o que chega ao consumidor.”

Linha de produtos Sabor & Vida, marca do grupo, que recebe o leite produzido na NZ Agropecuária e traduz, no produto final, os padrões definidos na fazenda

Corrida promovida nas dependências da NZ Agropecuária, em prol do projeto Milk Run, iniciativa da MSD Saúde Animal que transforma quilômetros em doações de leite
Produzir alimento, todos os dias
Na NZ Agropecuária, a produção de leite está estruturada para responder às condições ambientais do Ceará, onde o clima impõe exigências contínuas ao sistema produtivo. A gestão se organiza a partir desse contexto, com decisões orientadas para garantir estabilidade operacional e previsibilidade de resultados.
A evolução observada nos últimos anos está diretamente ligada à reorganização do sistema. A adoção do confi namento, os ajustes no planejamento genético, a mudança na base nutricional e a incorporação de tecnologia permitiram elevar o nível produtivo do rebanho e melhorar a qualidade do leite entregue.
Produção organizada e estável, resultado de um sistema estruturado para operar com previsibilidade mesmo em condições desafiadoras
Esse avanço se apoia na combinação entre ambiente controlado, manejo mais preciso e maior capacidade de leitura dos animais. “O que me motiva é produzir alimento numa atividade que envolve muita gente e que tem impacto direto na vida das pessoas”, afirma Péricles.
Para os próximos anos, o foco está na ampliação da estrutura produtiva e no refinamento do sistema. A implantação de novos galpões, a consolidação do uso de monitoramento individual e a continuidade dos ajustes genéticos indicam uma trajetória de crescimento baseada em maior controle e precisão.
Nesse contexto, a gestão se define pela capacidade de manter o sistema funcionando, mesmo sob condições desafiadoras, assegurando a entrega contínua de leite com padrão e alta qualidade.

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Autor
Adriana Vieira Ferreira
EDITORA EXECUTIVA
Economista, DSc. em Economia Rural
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