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Manejo

Entre vantagens operacionais e riscos nutricionais, a escolha do sucedâneo pede avaliação criteriosa

Entre vantagens operacionais e riscos nutricionais, a escolha do sucedâneo pede avaliação criteriosa

Durante a fase de cria, o leite representa a maior parcela do custo operacional na alimentação de bezerras. Por isso, há décadas produtores, técnicos e a indústria buscam alternativas que permitam substituir total ou parcialmente o leite por outros produtos. O desafio, porém, é grande: nas primeiras semanas de vida, a capacidade das bezerras de digerir nutrientes de origem vegetal é limitada, enquanto o leite possui alto valor biológico e excelente digestibilidade. Assim, encontrar sucedâneos que realmente se aproximem do perfil nutricional e funcional do leite ainda é uma tarefa complexa.

Entre os produtos usados para substituir o leite, pode-se citar o colostro e o leite de transição, o leite de descarte e os produtos formulados pela indústria, conhecidos como sucedâneos do leite.

A utilização do colostro e do leite de transição apresenta vantagens econômicas e nutricionais, por serem produtos sem valor comercial e de alto valor nutricional, além de aumentar as defesas contra infecções, reduzir a mortalidade, morbidade e melhorar o desempenho dos animais. No entanto, sua utilização é limitada pelo baixo volume disponível.

O leite de descarte, por sua vez, corresponde ao leite de vacas em tratamento ou em período de carência do uso de antibióticos, de anti-inflamatórios e de produtos para controle de ectoparasitas e endoparasitas. Embora seja frequentemente visto como alternativa de baixo custo, trata-se de uma falsa economia. Além dos custos indiretos associados ao tratamento dos animais, seu uso envolve riscos sanitários relevantes, pela possível transmissão de patógenos como Mycobacterium avium subsp. paratuberculosis, Salmonella spp., Mycoplasma spp., Listeria monocytogenes, entre outros.

A pasteurização do leite de descarte reduz a concentração de microrganismos viáveis, mas ainda há riscos de transmissão de toxinas pré-formadas ou de resíduos da morte bacteriana, potencialmente prejudiciais às bezerras. Outro ponto é que a pasteurização não deve ser confundida com esterilização, pois algumas bactérias tolerantes ao calor podem sobreviver ao processo.

Soma-se a isso a preocupação com a seleção de bactérias resistentes a antibióticos, especialmente quando esses compostos estão presentes no leite de descarte. A resistência pode se estabelecer rapidamente, reduzindo a eficácia de tratamentos antes utilizados na fazenda. Há evidências de que cepas resistentes persistem por anos após a pressão de seleção, o que amplia o risco tanto para a saúde das bezerras quanto para pessoas expostas ao mesmo ambiente.


Sucedâneos: critérios técnicos para uma escolha eficiente

Em relação aos substitutos do leite integral, estudos mostram que sucedâneos de boa qualidade podem substituir totalmente o leite na nutrição de bezerras, sem prejuízo ao desempenho. Vale a pena considerar essa alternativa. Além disso, apresentam vantagens como a estabilidade na composição, que reduz a ocorrência de mudanças bruscas no trato digestivo, a facilidade de estocagem e a possibilidade de controle de doenças transmitidas pelo leite.

A grande questão é como escolher um bom sucedâneo. O menor preço não deve orientar essa decisão. Sucedâneos muito baratos exigem cautela. A leitura do rótulo é fundamental, especialmente na avaliação das concentrações de nutrientes e dos ingredientes utilizados na formulação.

Para o crescimento adequado, sucedâneos com 20 a 22% de proteína são considerados aceitáveis, enquanto níveis entre 23 e 26% são indicados para programas que buscam maiores ganhos. Em termos energéticos, recomenda-se a presença de 18 a 20% de gordura, além da lactose. A relação entre proteína e energia deve ser ajustada conforme o ganho de peso esperado, seguindo referências como as do NASEM (2021). De acordo com essas recomendações, para ganhos de 0,2 a 0,4 kg/dia, a relação proteína/energia (% PB/EM Mcal/kg) deve variar de 4,2 a 4,9; para ganhos de 0,4 a 0,7 kg/dia, de 5,0 a 5,7; e, para ganhos superiores a 0,7 kg/dia, de 5,8 a 6,2.

O teor de fibra deve ser inferior a 0,15%, pois níveis mais altos indicam a inclusão de proteínas vegetais de menor qualidade, reduzindo a digestibilidade. No entanto, valores abaixo de 0,15% não garantem ausência de fibra. Os níveis de minerais devem ser menores que 8%.

Além dos níveis de nutrientes apresentados no rótulo do produto, é importante também avaliar quais são as fontes de proteína e energia (lipídeos e carboidratos). A qualidade de um sucedâneo está diretamente relacionada à digestibilidade dos ingredientes, ou seja, à capacidade da bezerra de digerir e absorver os nutrientes ingeridos.

As fontes proteicas utilizadas na formulação de sucedâneos podem ser de origem animal - como leite em pó desnatado, proteínas do soro, concentrado proteico do soro e soro delactosado - ou de origem vegetal, como proteínas de soja ou glúten de trigo. Entre elas, a caseína, presente no leite desnatado, permanece como referência, por ser a principal proteína do leite e apresentar elevada digestibilidade para bezerras jovens.

Ainda assim, pesquisas mostram que proteínas do soro também apresentam bom aproveitamento e perfil de aminoácidos adequado. Já as proteínas vegetais, como o hidrolisado de soja, podem ser utilizadas com sucesso, mas seu uso é mais indicado para animais acima de três semanas de idade, uma vez que bezerras muito jovens ainda têm capacidade limitada de digerir e absorver proteínas não lácteas. De modo geral, a inclusão dessas fontes contribui para a redução do custo dos sucedâneos, mas pode comprometer a qualidade nutricional do produto.

Os carboidratos e lipídeos presentes nos sucedâneos são as principais fontes de energia, e a verificação das fontes utilizadas no rótulo é essencial. Bezerras jovens têm capacidade limitada para digerir a maior parte dos carboidratos, exceto a lactose - o carboidrato predominante no leite - que deve permanecer como principal carboidrato dos sucedâneos. Ela é normalmente incorporada por meio de leite desnatado, soro de leite em pó ou pela adição direta de lactose à fórmula.

Embora carboidratos de origem vegetal possam ser incluídos, seu aproveitamento é reduzido em animais muito jovens, que ainda não produzem enzimas suficientes para digeri-los de forma eficiente. Quando utilizados, é desejável que esses ingredientes passem por processamentos que aumentem a digestibilidade, como a gelatinização do amido, frequentemente indicada nos rótulos por termos como “milho gelatinizado”. Ainda assim, níveis elevados de amido (acima de 10%) na formulação são indesejáveis, pois podem comprometer o desempenho e a saúde digestiva das bezerras.

No caso de gorduras, a gordura do leite seria sem dúvida a melhor opção, não fosse pelo alto valor comercial. Sendo assim, a adoção de substitutos torna-se necessária para baratear a fórmula do sucedâneo e, assim, tornar a sua utilização interessante. Óleo de coco ou de palma são fontes utilizadas para substituição. Para garantir boa homogeneização, as partículas não devem ultrapassar 4 μ de diâmetro no produto reconstituído. Óleos vegetais convencionais, como milho ou soja, não são bem aproveitados pelas bezerras.


O uso de sucedâneos pode substituir o leite na fase de cria, desde que a escolha do produto e o manejo de fornecimento sejam bem conduzidos.


Outro aspecto relevante é a presença de aditivos na formulação. Aminoácidos, vitaminas e aditivos, como coccidiostáticos, prebióticos, probióticos, paredes celulares de leveduras ou ácidos orgânicos, podem contribuir para a saúde intestinal e auxiliar no controle de diarreias.

A escolha do sucedâneo deve estar alinhada ao objetivo da fazenda. Nesse processo, o suporte do médico-veterinário ou do zootecnista é fundamental para orientar a decisão e esclarecer dúvidas.

Há ampla variedade de formulações disponíveis no mercado, com diferenças nas concentrações de proteína e gordura, nas fontes proteicas utilizadas, no teor de energia metabolizável - influenciado principalmente pelo conteúdo de gordura -, na inclusão de outros ingredientes, como prebióticos, probióticos, pós-bióticos, leveduras e medicamentos, e na facilidade de mistura. Essas variações explicam a diferença de preços entre os produtos.


A qualidade do sucedâneo e do manejo de fornecimento influencia diretamente a saúde intestinal das bezerras.


Manejo: o detalhe que define o resultado

Uma vez definido o sucedâneo, o resultado passa a depender diretamente do manejo adotado no preparo e no fornecimento. A qualidade do produto é apenas parte do processo - a execução impacta diretamente o desempenho das bezerras. Na prática, isso envolve atenção a alguns pontos-chave:

  • Água: como o produto requer diluição antes do fornecimento, a qualidade da água deve ser equivalente à da água para consumo humano - um ponto muitas vezes negligenciado na fazenda. Não adianta utilizar um bom sucedâneo se a água estiver contaminada;
  • Higiene: a correta higienização dos utensílios utilizados no preparo e no fornecimento é fundamental para garantir a qualidade do alimento e reduzir riscos sanitários;
  • Recomendação do fabricante: deve ser seguida à risca. Quantidade de produto, volume e temperatura da água precisam ser respeitados. Um sucedâneo de boa qualidade e bem preparado não deve apresentar espuma e grumos ao final do processo de preparação, devendo estar totalmente solubilizado. Ingredientes que permanecem apenas em suspensão - e não são totalmente solúveis - tendem a sedimentar quando a solução fica em repouso. Esse acúmulo no fundo torna-se mais evidente à medida que aumenta a inclusão de fibras, minerais ou medicamentos na formulação;
  • Diluição do produto: ajustes no teor de sólidos devem ser feitos com critério. Em situações que demandem maiores ganhos de peso, sem aumento do volume fornecido, a definição do teor final deve contar com orientação técnica. Teores de sólidos de até 15% são considerados seguros quando se utilizam sucedâneos de boa qualidade.

A introdução de sucedâneos deve ser acompanhada de perto, com atenção à aceitação pelos animais, ao desempenho (ganho de peso) e a possíveis alterações de saúde, como a ocorrência de diarreias. A introdução pode ser feita inicialmente em um grupo reduzido, permitindo avaliar a resposta antes da adoção em toda a propriedade. A observação do comportamento de ingestão dos animais é um indicativo importante nesse processo.



A aceitação do sucedâneo pelos animais é um dos primeiros indicativos da adequação do produto e do manejo adotado.


Decidir com critério

Diante desses pontos, a adoção de sucedâneos na alimentação de bezerras deve ser uma decisão técnica, orientada por critérios nutricionais, sanitários e pelos objetivos da propriedade.

Com base no que você sabe agora, adotaria sucedâneo na alimentação das bezerras da sua propriedade?


O desempenho das bezerras reflete a soma entre escolha do produto, qualidade do manejo e acompanhamento ao longo da fase de cria.


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