Fique de olho no seu rebanho e previna a ceratoconjuntivite infecciosa bovina
Fique de olho no seu rebanho! A ceratoconjuntivite infecciosa bovina é uma grave doença ocular que pode levar à cegueira permanente e provocar grandes perdas produtivas nos rebanhos
A ceratoconjuntivite infecciosa bovina (CCIB), também conhecida como oftalmia contagiosa ou doença do olho branco, é uma doença bacteriana que acomete os olhos dos animais, causando conjuntivite, inflamação da córnea (ceratite) e lacrimejamento.
É a principal doença ocular de bovinos, ocorrendo especialmente em sistemas intensificados que cursam com aglomerações de animais, como na bovinocultura leiteira e em confinamentos. Quando os fatores predisponentes estão presentes, a enfermidade se dissemina rapidamente no rebanho (alta morbidade), mas dificilmente leva o animal a óbito. Entretanto, quando não tratada, pode provocar cegueira permanente e, como consequência, causar perda de peso, queda de produção e menor valor econômico dos animais doentes. Além dessas perdas, a CCIB também ocasiona elevados custos com o tratamento dos animais acometidos.
Considerada uma doença de distribuição mundial, a CCIB pode afetar animais de qualquer idade, mas observa-se maior ocorrência em animais jovens devido aos manejos estressantes que ocorrem nesta faixa etária, como o desaleitamento, troca de alimentação, descorna e mudança de lotes. As raças europeias são mais afetadas, sendo mais susceptíveis os animais com pele clara ao redor dos olhos.
Como os animais se infectam?
O agente causador da CCIB é a Moraxella bovis, bactéria Gram-negativa que pode estar presente na microbiota de bovinos portadores saudáveis. Moraxella bovoculi, Mycoplasma spp. e o vírus da Rinotraqueíte Infeciosa Bovina (IBR; herpesvírus bovino tipo I) têm sido encontrados em casos clínicos de CCIB, entretanto, seus papéis ainda precisam ser mais esclarecidos. Acredita-se que esses agentes possam induzir certo grau de anormalidade ocular, que poderia auxiliar na colonização ou disseminação ocular de M. bovis.
Existem dois tipos de Moraxella bovis: amostras não-patogênicas, que não causam doença, e amostras patogênicas, que possuem mecanismos que favorecem a fixação e a invasão dessa bactéria na córnea dos animais, causando a ceratoconjuntivite. A estrutura que promove a adesão dessas bactérias na córnea é chamada de fímbria, que possui diferentes sorotipos em Moraxella bovis. Isso é importante, pois elas estão diretamente relacionadas com a produção e eficácia das vacinas contra essa bactéria.
A principal forma de transmissão da doença é por meio das moscas lambedoras (Musca domestica), que funcionam como vetores mecânicos, transportando as bactérias entre animais doentes e saudáveis (Figura 1). Elas se alimentam das secreções oculares ou nasais de animais doentes e carreiam a bactéria por meio de suas patas até a região ocular de um animal sadio, transmitindo a doença. Existe uma correlação positiva entre o número de moscas e a disseminação da doença no rebanho. A Moraxella bovis pode permanecer viável nas patas das moscas por até 3 dias.
A CERATOCONJUNTIVITE INFECCIOSA BOVINA (CCIB), TAMBÉM CONHECIDA COMO OFTALMIA CONTAGIOSA OU DOENÇA DO OLHO BRANCO, É UMA DOENÇA BACTERIANA QUE ACOMETE OS OLHOS DOS ANIMAIS, CAUSANDO CONJUNTIVITE, INFLAMAÇÃO DA CÓRNEA (CERATITE) E LACRIMEJAMENTO

Lesão ocular causada por Moraxella bovis mostrando proliferação de tecido cicatricial. Nota-se a presença de moscas no olho e em secreções lacrimais, que podem disseminar a infecção para animais saudáveis.
Outra forma importante de transmissão é pelo contato direto entre um animal saudável com a secreção ocular ou nasal de um animal doente. Essa via é especialmente importante em criações intensivas, como a bovinocultura leiteira e confinamentos de gado de corte. Fômites, como cabrestos, cordas e até mesmo as mãos das pessoas que manejam os animais, também podem transmitir a doença.
Situações de maior predisposição à CCIB
A ceratoconjuntivite infecciosa bovina pode ocorrer em qualquer época do ano, mas os surtos ocorrem majoritariamente em períodos mais quentes e úmidos, relacionados com o aumento da população de moscas na propriedade. Existem outros fatores que predispõem a ocorrência e disseminação da doença em um rebanho, como:
- Radiação ultravioleta;
- Traumatismos oculares causados por partículas de poeira, capins fibrosos ou a existência de arbustos com espinhos nos piquetes;
- Ambientes secos com vento e poeira, que podem causar lesões e ressecamento na córnea dos animais;
- Alta densidade de animais confinados, aumentando a proximidade entre eles;
- Excesso de matéria orgânica próxima ao recinto de criação dos animais, que favorece a proliferação de moscas;
- Estresse.
O estresse desencadeado por manejos como desmame, descorna, carência alimentar, associado à imunidade em desenvolvimento, torna o bezerro ainda mais susceptível à infecção, podendo virar a balança para o lado da doença. A presença prévia e concomitante de outros agentes infecciosos pode propiciar condições adequadas à ocorrência da CCIB, como é caso da infecção pelo vírus da IBR e micoplasmas.
O ESTRESSE DESENCADEADO POR MANEJOS COMO DESMAME, DESCORNA, CARÊNCIA ALIMENTAR, ASSOCIADO À IMUNIDADE EM DESENVOLVIMENTO, TORNA O BEZERRO AINDA MAIS SUSCEPTÍVEL À INFECÇÃO
As manifestações clínicas da CCIB
A ceratoconjuntivite infecciosa bovina pode ser unilateral ou bilateral. Os sinais clínicos observados inicialmente são o lacrimejamento e a fotofobia (sensibilidade excessiva à luz), podendo ser observada secreção serosa ou mucopurulenta. Logo em seguida, cerca de 24 a 48 horas após o início dos sinais clínicos, é possível observar lesões (ulcerações) na córnea e edema. A cicatrização das lesões provoca a opacidade da córnea, levando à aparência esbranquiçada dos olhos. Quanto maior a lesão, maior será a opacidade da córnea e maior será o prejuízo na visão do animal.
A Moraxella bovis tem a capacidade de aderir à córnea e de produzir substâncias que provocam erosões em seu epitélio, levando à formação de úlceras, na maioria das vezes, na região central da córnea. Essa lesão pode progredir para camadas mais profundas, atingindo o estroma da córnea e causando perfuração e herniação de camadas mais profundas (descemetocele). Quando isso ocorre, no centro da córnea se observa um aumento de volume de coloração avermelhada (Figura 1). Em casos mais graves, pode ocorrer a ruptura da córnea e a cegueira total e permanente. A infecção também pode se propagar e atingir os ouvidos, causando otite nos animais (Figura 2). Em casos mais brandos, as lesões podem se resolver dentro de 2 a 4 semanas sem comprometimento da visão dos animais.

Otite decorrente de infecção ocular por Moraxella bovis.
Como se pode confirmar a CCIB em um animal?
O diagnóstico na propriedade deve ser realizado por um médico veterinário e, inicialmente, deve levar em consideração o histórico da propriedade. É importante levantar dados como ocorrência da doença na fazenda e na região em anos anteriores, presença e intensidade da infestação de moscas, histórico de vacinação do rebanho, densidade animal nos lotes e presença de outros fatores de risco, como poeira e plantas que podem traumatizar a córnea. Em seguida, deve-se realizar o exame clínico dos animais, observando a presença de lacrimejamento, fotofobia e lesões na córnea.
A lesão corneana pode ser confirmada instilando fluoresceína sobre a córnea, que, quando ulcerada, retém o pigmento verde fluorescente na lesão (Figura 3). Os sinais clínicos da CCIB são bem característicos, permitindo o fechamento do diagnóstico apenas com o exame clínico. Caso seja necessário realizar a confirmação da doença ou até mesmo conhecer o sorotipo de Moraxella bovis presente na propriedade para produzir uma vacina autógena, pode ser realizada a coleta da secreção ocular dos animais doentes por swab estéril. O swab deve ser enviado ao laboratório em meio de cultura (meio de Stuart) para as análises.
Úlcera de córnea em bezerra infectada por Moraxella bovis. A instilação de fluoresceína na córnea auxilia na identificação da ulceração
A CCIB tem tratamento?
Uma etapa primordial do atendimento, especialmente a surtos de grande escala de CCIB, é a segregação dos animais em grupos conforme o estágio e gravidade da doença. Recomenda-se fazer um grupo de animais com lesões corneanas já estabelecidas, que precisarão de suporte e cuidados adicionais, separado de animais ainda sem lesões significativas e com lacrimejamento. Essas segregações viabilizam aprimorar o monitoramento, a evolução e o manejo dos animais acometidos e, importante, ajudam a evitar a dispersão da infecção aos animais ainda não afetados do rebanho.
É fundamental que o tratamento dos animais doentes seja instaurado imediatamente ao diagnóstico para melhorar o prognóstico e diminuir as lesões irreversíveis e sequelas oculares, como cicatrizes corneanas, opacidade de córnea e perda de visão. O tratamento pode ser realizado por via local ou sistêmica, sendo o mais econômico e indicado a aplicação subconjuntival com antibióticos, como a gentamicina ou enrofloxacino.
Usualmente, consegue-se aplicar 1 mL pela via subconjuntival. Ao optar por essa via, faz-se necessário realizar uma contenção eficiente do animal e aplicação cuidadosa para evitar ocorrência de lesões oculares. Aplicações de pomadas antibióticas para mastite (bisnagas) na parte interna da pálpebra inferior dos bovinos, diariamente, tem sido relatadas na rotina como opção alternativa de tratamento bem-sucedida.
O lacrimejamento dificulta a manutenção da concentração mínima inibitória dos antimicrobianos no olho, fazendo-se necessárias reaplicações diárias, por 7 a 10 dias, quando da aplicação tópica. A presença do antinflamatório na formulação aplicada é importante, pois diminui a dor da lesão corneana e confere conforto, além de reduzir a inflamação e o edema, acelerando a recuperação.
Em situações em que as condições técnicas ou logísticas não viabilizem a aplicação local, opta-se pelo tratamento sistêmico. O princípio ativo mais recomendado para isso é a oxitetraciclina, administrada por via intramuscular ou subcutânea. A desvantagem do tratamento sistêmico é que é mais oneroso, porém, é mais viável em situações de surtos quando grande número de animais é acometido ao mesmo tempo.
Formas de prevenção
Para controlar a doença na propriedade, deve-se atentar aos fatores de transmissão e aos fatores predisponentes. Algumas medidas a serem seguidas são:
- Controlar as moscas na propriedade por meio da utilização de armadilhas e do manuseio adequado de matéria orgânica, que pode ser criadouro desses vetores;
- Segregar os animais doentes;
- Desinfectar cabrestos, cordas e mãos que tiveram contato com os animais doentes;
- Reduzir o estresse dos animais;
- Evitar altas densidades populacionais;
- Evitar a utilização de pastagens muito sujas, com gramíneas fibrosas;
- Evitar que os animais fiquem em locais com excesso de poeira e ventos fortes;
Uma das principais formas de prevenir a doença é por meio da vacinação dos animais. Como a proteção eficaz é específica para o sorotipo da fímbria expressa pela bactéria, as vacinas autógenas são mais eficazes do que as comerciais. Assim, idealmente, as vacinas devem ser aplicadas de acordo com o sorotipo de Moraxella bovis presente na propriedade para que sejam funcionais. Para isso, a melhor estratégia é uso de vacina autógena, produzida a partir da cepa isolada na própria fazenda. Em contrapartida, as vacinas comerciais apresentam proteção inferior e parcial; entretanto, na maioria das vezes, são os imunógenos disponíveis e devem ser utilizadas.
É importante dar especial atenção à imunização de categorias de maior risco, como bezerros, animais em aglomeração, como confinamentos, e expostos a fatores estressores. Por apresentar um curto período de proteção, a vacina deve ser aplicada em animais acima de 3 meses de idade com reforço após 30 dias, e a revacinação deve ser realizada a cada 4 meses, principalmente durante os períodos mais quentes e em locais endêmicos com grande população de moscas. Assim, deve-se programar a vacinação para acontecer antes dos períodos de maior incidência da CCIB, ou seja, antes dos meses mais quentes.
Conclusão
A ceratoconjuntivite infecciosa bovina traz um grande impacto para a propriedade, pois, além de gerar custos com o tratamento dos animais, pode levar à cegueira permanente, resultando em altas perdas produtivas. Para que seja controlada nas propriedades, é necessária a orientação de um médico veterinário para realizar o esquema de tratamento, controle e profilaxia da doença.
Agradecimentos
Os autores agradecem ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG) pelas bolsas concedidas, e à FAPEMIG pelo financiamento, processo RED-00132-22.
Autores:
KELLY MARA GOMES GODOY - Mestranda do Programa de Pós-graduação em Ciência Animal, Escola de Veterinária (EV), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)
DIONEI JOAQUIM HAAS - Doutorando do Programa de Pós-graduação em Ciência Animal, EV, UFMG
ELIAS JORGE FACURY FILHO - Professor Associado do Departamento de Clínica e Cirurgia Veterinárias, EV, UFMG
ELAINE MARIA SELES DORNELES - Professora Adjunta do Departamento de Medicina Veterinária, Universidade Federal de Lavras (UFLA)
ANDREY PEREIRA LAGE - Professor Titular do Departamento de Medicina Veterinária Preventiva, EV, UFMG
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Autor
LeiteInova

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