Fungos entomopatogênicos no controle das cigarrinhas-das-pastagens
Estudos da Embrapa Gado de Leite e de instituições parceiras indicam que o tratamento de sementes com fungos entomopatogênicos pode revolucionar o controle das cigarrinhas-das-pastagens
Ano após ano, as cigarrinhas-das-pastagens impõem perdas significativas à pecuária brasileira. Esses insetos sugadores comprometem diretamente a produtividade das pastagens ao se alimentarem da seiva e do xilema das plantas forrageiras, injetando toxinas que reduzem drasticamente a taxa fotossintética. O resultado é a redução de até 60% na capacidade de suporte das áreas afetadas - impacto brutal para a oferta de forragem ao rebanho.
Presente em aproximadamente 45% da área agrícola nacional, as pastagens nativas e cultivadas - especialmente aquelas formadas por espécies do gênero Urochloa (sinônimo de Brachiaria) - são as mais afetadas. Os surtos recorrentes dessa praga ameaçam a estabilidade das cadeias produtivas de carne e leite, exigindo soluções mais eficazes e sustentáveis para o seu controle.
Fungos a favor da pecuária: aliados invisíveis no controle biológico
O controle químico ainda é o método mais utilizado para conter surtos de insetos-praga nas pastagens. No entanto, em sistemas de pastejo, essa estratégia tem se mostrado insuficiente, além de causar impactos ambientais negativos e ser, muitas vezes, economicamente inviável para o produtor.
Como alternativa mais sustentável, pesquisadores vêm apostando no controle biológico com fungos entomopatogênicos. Esses microrganismos, aplicados de forma convencional por meio da pulverização, entram em contato com os insetos, penetram sua cutícula, germinam e liberam substâncias tóxicas que atingem os órgãos internos, levando o hospedeiro à morte por infecção generalizada (Figura 1).
Entre as espécies disponíveis, o Metarhizium anisopliae se destaca como a mais eficaz no controle da cigarrinha-das-pastagens. Comercializado sob diferentes formulações e linhagens, esse fungo atua sobre os adultos e sobre ninfas protegidas no dossel forrageiro, envoltas pela espuma característica da praga — locais onde os inseticidas químicos, em geral, falham.
Além de ser um agente biológico que respeita o meio ambiente, o Metarhizium apresenta outra grande vantagem: sua aplicação não exige a retirada do rebanho da área tratada, diferencial importante, especialmente para pequenos produtores. Essa praticidade facilita o manejo e reduz custos operacionais.
Contudo, a eficácia desse controle biológico está diretamente ligada a fatores ambientais, como temperatura, luminosidade, umidade do ar e do solo. Características do pasto, como altura das plantas, bem como os métodos e horários de aplicação, também influenciam nos resultados obtidos em campo.
Pesquisa nacional impulsiona inovação no controle biológico
Neste cenário, a Embrapa Gado de Leite, em parceria com a Universidade Federal de São João Del Rei (UFSJ) e a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), avança no conhecimento sobre o controle biológico das cigarrinhas-das-pastagens. Pesquisadores dessas instituições identificaram a ação oculta de espécies de fungos entomopatogênicos que podem atuar como endófitos, colonizando os tecidos das plantas e amenizando os impactos dos fatores ambientais adversos. Além dessa resistência ampliada, esses fungos também conferem proteção contra a herbivoria, tornando-se uma ferramenta estratégica no manejo sustentável das pastagens.
Uma das técnicas mais promissoras para introduzir microrganismos endofíticos nas plantas é o tratamento de sementes, conforme Figura 1. Quando as cigarrinhas sugam a seiva das plantas oriundas dessas sementes tratadas, acabam ingerindo conídios e/ou metabólitos secundários produzidos pelos fungos, levando à infecção e posterior eliminação da praga.

Futuro sustentável
Essas descobertas abrem novas perspectivas para o manejo preventivo das cigarrinhas-das-pastagens, reduzindo significativamente a ocorrência de surtos. Além de minimizar os danos às pastagens e preservar a qualidade nutricional do alimento para o rebanho, essa abordagem traz maior segurança ao produtor, especialmente àquele que enfrenta desafios na disponibilidade de mão de obra para o monitoramento constante da lavoura - a realidade de muitos pecuaristas familiares. A inoculação de sementes com fungos endofíticos reduz a necessidade de aplicações frequentes, impactando positivamente nos custos de produção e beneficiando toda a cadeia produtiva de carne e leite.
A Embrapa segue investigando o potencial de diferentes espécies de fungos entomopatogênicos endofíticos para colonizar pastagens já estabelecidas. Essa abordagem inovadora, ainda em desenvolvimento, promete um novo paradigma para o manejo sustentável das forrageiras, com custo acessível e alta eficiência. No entanto, como toda inovação, a técnica gera dúvidas entre os produtores e, para isso, a Embrapa oferece esclarecimentos detalhados (Quadro 1).
A ação oculta desses fungos pode, em um futuro próximo, revolucionar a pecuária leiteira e de corte no Brasil, consolidando-se como a solução sustentável e economicamente viável para o controle das cigarrinhas-das-pastagens.
A EMBRAPA SEGUE INVESTIGANDO O POTENCIAL DE DIFERENTES ESPÉCIES DE FUNGOS ENTOMOPATOGÊNICOS ENDOFÍTICOS PARA COLONIZAR PASTAGENS JÁ ESTABELECIDAS. ESSA ABORDAGEM INOVADORA, AINDA EM DESENVOLVIMENTO, PROMETE UM NOVO PARADIGMA PARA O MANEJO SUSTENTÁVEL DAS FORRAGEIRAS, COM CUSTO ACESSÍVEL E ALTA EFICIÊNCIA
Quadro 1. Perguntas e respostas sobre a aplicação de fungos entomopatogênicos via tratamento de sementes ou pulverização
1. Onde consigo o produto para aplicar?
- Modo de uso – pulverização: existem produtos biológicos à base de Metarhizium anisopliae registrados para o controle das cigarrinhas-das-pastagens e disponíveis no mercado para aplicação por pulverização. Esses produtos podem ser encontrados em lojas especializadas em insumos agropecuários. É essencial seguir as recomendações de uso fornecidas pelos fabricantes e as orientações de técnicos especializados para garantir a eficácia do biocontrole.
- Modo de uso – tratamento de sementes: as linhagens estudadas pela Embrapa demonstraram eficiência no controle da praga, mas ainda não estão disponíveis comercialmente.
2. Como posso realizar a aplicação? Pela manhã ou à tarde? Qual pressão e bico do pulverizador devo utilizar? A aplicação deve ser mais suave ou até escorrer pelas folhas?
- Modo de uso – pulverização: a aplicação deve ser realizada no início da manhã ou no final da tarde, quando as temperaturas são mais amenas e a umidade relativa do ar está em torno de 70%. Deve-se utilizar bicos que proporcionem uma pulverização uniforme, sem que o produto escorra excessivamente pelas folhas. O pulverizador deve ser calibrado para um volume de 50 L/ha.
- Modo de uso – tratamento de sementes: a aplicação ocorre no momento da semeadura, com as sementes sendo tratadas em suspensão contendo os fungos entomopatogênicos. Como são endofíticos, esses microrganismos colonizam e permanecem nas plantas ao longo do tempo. A persistência do fungo dentro da planta ainda está sendo estudada.
3. A eficiência muda com o local? Se é morro, baixada, área mais úmida ou mais seca? O tipo de solo interfere?
- Modo de uso – pulverização: sim. Fatores ambientais, como umidade, temperatura e tipo de solo, influenciam diretamente a eficácia do controle biológico. Por isso, é fundamental considerar as características da área ao escolher a melhor estratégia de manejo.
- Modo de uso – tratamento de sementes: embora a atuação do fungo endofítico não seja tão dependente das condições ambientais como a pulverização, um solo fértil e bem manejado favorecerá o desenvolvimento das forrageiras e, consequentemente, a eficiência do fungo na planta.
4. O comportamento dos fungos é diferente em sistemas integrados (lavoura-pecuária-floresta)?
Sim. Devido ao microclima favorável ao desenvolvimento dos fungos e à biodiversidade presente em sistemas integrados, a eficiência do controle pode ser alterada. Entretanto, estudos indicam que os fungos endofíticos são isolados de cigarrinhas-das-pastagens em sistemas silvipastoris de forma natural, sugerindo que essas condições podem ser benéficas para sua persistência.
5. O produto também mata outras pragas da pastagem?
- Modo de uso – pulverização: os fungos entomopatogênicos possuem amplo espectro de ação e, quando pulverizados, podem afetar outros insetos presentes na área.
- Modo de uso – tratamento de sementes: até o momento, não há registros de impacto sobre insetos não-alvo nas pastagens tratadas com essa tecnologia.
6. Caso eu tenha abelhas na propriedade e elas visitem as flores da braquiária, o produto pode afetá-las?
- Modo de uso – pulverização: como possuem amplo espectro, os fungos pulverizados podem afetar insetos benéficos, incluindo algumas espécies de abelhas.
- Modo de uso – tratamento de sementes: para abelhas que se alimentam do néctar das forrageiras tratadas, há a possibilidade de exposição ao fungo, mas essa interação ainda está sendo estudada.
7. Posso encontrar esses fungos dentro da minha propriedade? Eles ocorrem espontaneamente?
Sim. Esses fungos podem ser encontrados naturalmente, principalmente em áreas onde as cigarrinhas-das-pastagens já foram isoladas. Em sistemas silvipastoris, sua ocorrência espontânea tem sido observada com frequência.
8. Existem formas de cultivar fungos dentro da propriedade?
Sim, porém o cultivo requer acompanhamento técnico especializado para garantir a produção adequada e a manutenção da viabilidade dos fungos.
9. Que manejos podem aumentar a permanência do fungo no solo, reduzindo a necessidade de novas aplicações?
- Modo de uso – pulverização: o manejo adequado do solo e das pastagens influencia diretamente a persistência do fungo. Evitar superpastejo e degradação do solo reduz a radiação solar incidente, a compactação e a perda de umidade, favorecendo a manutenção dos fungos entomopatogênicos por mais tempo e reduzindo a necessidade de reaplicações.
10. Se eu tiver dificuldade para encontrar o produto biológico, quais são as alternativas para o combate às cigarrinhas-das-pastagens?
Os surtos da praga podem ser minimizados com boas práticas de manejo da pastagem, como rotação de pastejo, ajuste da lotação animal, adubação equilibrada e uso de forrageiras mais resistentes. Essas estratégias reduzem as condições favoráveis para a infestação e ajudam a manter o equilíbrio do ecossistema.

Autor
EMBRAPA GADO DE LEITE
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