Histórias reais e princípios que fortalecem a sucessão familiar, com Eduardo Valias
Com a experiência de quem vive o dia a dia da pecuária leiteira, Eduardo Valias compartilha histórias reais e princípios que fortalecem a sucessão familiar
“A terra não é um bem que herdamos de nossos pais, mas um patrimônio que tomamos emprestado dos nossos filhos”. A frase, projetada em um dos muitos congressos técnicos de pecuária leiteira que frequentei na época de estudante, me marcou profundamente. Lembro perfeitamente do momento em que li – e se me lembro, é porque marcou algo em mim, fez sentido. Em casa não era diferente, pois sempre ouvia do meu avô: “a roda tem que continuar rodando” através das próximas gerações.
Meu avô fez parte da quinta geração a se dedicar à mesma propriedade rural, encrustada na região da Mantiqueira, no sul de Minas Gerais, em São Gonçalo do Sapucaí. A pecuária de leite foi um dos pilares do progresso da família e talvez uma das primeiras atividades econômicas. O registro mais antigo que conheço é uma imagem de 1910, que traz o momento da ordenha a céu aberto, apenas 22 anos após a abolição da nefasta escravidão no Brasil. Naquele tempo, meu avô era ainda uma criança. E é bem possível que, do quarto, ouvisse os mesmos ruídos que eu ouviria muitos anos depois — sons que ficaram entranhados na minha memória e ajudaram a moldar quem sou.
Foi observando o trabalho de José Bento Valias, meu avô, a quem presto aqui uma homenagem, que aprendi a gostar e a respeitar a “lida leiteira”. Ele levou essa atividade para outras propriedades, com a visão de negócio que o levou a comprar a última fazenda, a Santa Clara, pouco antes da sua morte.
Hoje, 115 anos depois daquela fotografia e 37 anos desde a morte do meu avô, assisto com muita tristeza o apagar das luzes da atividade centenária em minha família de origem. Para mim, esse fim é cruel, doloroso e triste. Apaga-se a luz de muitos dos meus sonhos. E talvez seja justamente esse apagar que me impulsiona a seguir com ainda mais força, de corpo e alma, ao lado de outras famílias — para que consigam vencer a difícil barreira da sucessão. É sobre isso que quero conversar com você por aqui. Começando pelo meu próprio caso: um insucesso, é verdade, mas também um aprendizado profundo de vida.
Sucessão é o verdadeiro sucessozão
O maior sucesso que uma empresa pode ter é, com perdão do trocadilho, a sucessão. Afinal, o aumentativo de sucesso é sucessozão. E se a terra é realmente um patrimônio que tomamos emprestado dos nossos filhos, a primeira pergunta que faço é: o que temos feito para que eles queiram esse patrimônio?
Ao longo dos meus mais de 50 anos de vida e 30 de mercado, tive e tenho o privilégio de conviver e aprender com pessoas incríveis, que constroem negócios sólidos e preparam as novas gerações para que tenham comprometimento, competência, orgulho, felicidade e lucro na atividade leiteira. Tomo a liberdade de começar pela Agrindus, trazendo à memória uma a icônica imagem de uma geração dentro da porteira e a nova geração para fora. Essa cena sempre me remete a uma frase do Roberto Jank, repetida como uma melodia suave e poderosa: “Eu não precisei morrer para que minhas filhas viessem trabalhar na fazenda.”

Entre histórias e projetos, Eduardo Valias se reuniu, em 2023, com a terceira geração da família do Sr. Antônio Carlos Pereira
A Agrindus nasceu empresa e é pioneira do Leite A2A2 no Brasil, com a marca Letti. Dispensa comentários adicionais sobre a cultura empresarial que a família Jank fincou, com raízes profundas, na cabeça e no coração de todos. Um modelo de sucessão familiar exemplar.
Em Carmo do Rio Claro, também no Sul de Minas, vivi outra experiência marcante, acompanhando o trabalho do saudoso Sr. Antônio Carlos Pereira. Ele estruturou cada sucessor em uma propriedade diferente, dentro de um modelo de fazendas reunidas: estruturas distintas, mas interdependentes em processos-chave como compra e venda. Com o Sr. Antônio aprendi o que hoje chamamos de ritual de gestão, prática que, muito tempo depois, adotamos em uma multinacional gigante onde trabalhei, a Cargill. Todas as semanas, se não me falha a memória, às segundas-feiras, às 19 horas, todos os sucessores se reuniam na casa do patriarca. A pauta era clara: alinhamento estratégico do grupo, compartilhamento de informações, definição de prioridades e tomadas de decisão de maior impacto. Hoje, com emoção, vejo a terceira geração ocupando os espaços que foram preparados para ela. garantindo o futuro e a prosperidade do negócio e da família.
“A TERRA NÃO É UM BEM QUE HERDAMOS DE NOSSOS PAIS, MAS UM PATRIMÔNIO QUE TOMAMOS EMPRESTADO DOS NOSSOS FILHOS”
Ali pertinho do Carmo, em Passos/MG, convivi com outro modelo de sucessozão: o grupo Cabo Verde. O Sr. José Cabo Verde, inteligentemente observava sua família e incentivava cada sucessor ou sucessora a liderar alguma área do negócio, desde a produção até os serviços internos. Com muita honra e gratidão, convivi de perto com a liderança e visão do Maurício, à frente da pecuária de leite. Com ele, aprendi o valor da flexibilidade conceitual e da humildade intelectual genuína e louvável.
Em um setor tão marcado por paixões — por raça, sistema de produção, ou tradição — vi a Fazenda Santa Luzia produzir leite em sistema de Free Stall, na década de 1990, quando eu ainda era estudante. Depois, vieram projetos de leite a pasto, de pasto irrigado, e, mais recentemente, uma nova fase coma adoção estratégica do Compost Barn. Quem lida na pecuária de leite enxerga o Maurício. Quem atua na suinocultura, na pecuária de corte, no café, na agricultura, enxerga alguém do Grupo Cabo Verde liderando negócios, inspirando mercados e construindo a prosperidade e o caminho para as novas gerações da família.
Ainda dentro desse modelo de otimização do perfil e das competências de cada sucessor ou sucessora, convido você a visitar a Fazenda Taquaral, em Conceição do Rio Verde, ainda no sul de Minas. Lá, invariavelmente encontraremos meu colega médico veterinário e xará, Eduardo, dedicado à pecuária de leite, seu irmão Fernando à produção agrícola e sua irmã Luciana liderando os processos internos do grupo. Mais uma vez, o antecessor, Sr. Moacyr Dias Pereira, percebendo a aptidão de cada filho e filha, os conduziu ao trabalho interdependente. Resultado? Um crescimento vertiginoso e merecido, pavimentando com solidez o caminho da prosperidade para as próximas gerações.

Da Mantiqueira ao Sertão: cada filho encontra seu lugar
Já que “falei” muito do “meu” Sul de Minas, convido você a embarcar comigo rumo ao “meu” Ceará - terra de empresários brilhantes, pioneiros da prosperidade e visionários da sucessão familiar.
Há 15 anos conheci a Companhia de Alimentos do Nordeste, a CIALNE, que teve início em 1966, quando o Sr. Dico Carneiro passou a comercializar ovos produzidos em uma pequena granja que construiu nos arredores de Fortaleza. Hoje, a CIALNE é um dos maiores conglomerados produtivos do Nordeste brasileiro, atuando com excelência em todos os elos das cadeias produtivas que compõe. No leite, especificamente, a empresa está presente da produção em fazendas próprias até as gôndolas dos supermercados com a marca Sabor e Vida, passando pela genética e pela nutrição animal.
O Sr. Dico, ainda à frente dos negócios, teve o mérito de enxergar em cada sucessor ou sucessora a aptidão mais forte. Abriu as portas da empresa para que netos e netas se preparassem e merecessem o lugar. É com alegria que vejo esse legado florescer através de Rafael Carneiro, , hoje proprietário da também referência Agropecuária Castanhão, projeto claramente desenhado para durar muitas gerações.
De Fortaleza seguimos para Beberibe, onde tive o privilégio de conhecer o Sr. Everardo Vasconcelos. Recebi dele sua biografia autorizada — O semeador de sonhos — e, com ela, algumas das mais profundas lições de vida, visão e cultura organizacional familiar que já aprendi.
A história da Tijuca Alimentos começa na década de 1960, após uma aula na graduação em Agronomia, na UFCE. O professor dizia que muitas empresas começaram com 50 galinhas e, com o tempo, ser tornaram grandes empreendimentos - o então jovem Everardo acreditou. Com apoio do pai, iniciou a criação no quintal de casa. Depois, fundou com a namorada Socorro (e apoio do sogro) a SOEVER — união dos nomes Socorro e Everardo — com linhagens de alta performance.
“O MAIOR SUCESSO QUE UMA EMPRESA PODE TER É, COM PERDÃO DO TROCADILHO, A SUCESSÃO. AFINAL, O AUMENTATIVO DE SUCESSO É SUCESSOZÃO. E SE A TERRA É REALMENTE UM PATRIMÔNIO QUE TOMAMOS EMPRESTADO DOS NOSSOS FILHOS, A PRIMEIRA PERGUNTA QUE FAÇO É: O QUE TEMOS FEITO PARA QUE ELES QUEIRAM ESSE PATRIMÔNIO?”

Atualmente, a Tijuca Alimentos abastece os mercados do Ceará e outros estados nordestinos com ovos, frango, queijos e caju, atuando nos elos das cadeias produtivas, da fazenda às mesas dos consumidores.
A gestão é compartilhada entre os três filhos, com a supervisão do Sr. Everardo e a bênção da dona Socorro. Observando a aptidão, que se expressava no que seus filhos gostavam de fazer desde a infância, Sr Everardo conduziu a filha Patrícia para a área de vendas, o Nícolas para a produção e o Marden para as compras.
Na página 147 do livro, há uma frase que leio e releio, como se escutasse sua voz: “Aqui, nesse nosso negócio, todo mundo, tanto as pessoas, quanto os bichos e as árvores, tem uma função certa. Gosto de repetir a conversa que corre na empresa: na Tijuca, o Mozar (amigo inseparável) trabalha nas construções, minha filha Patrícia nas vendas, o Nícolas na produção, o Marden nas compras, minha mulher rezando e eu contando histórias.” Não por acaso, a frase está no capítulo 8, “A Consolidação”, dentro no bloco “Lições de Felicidade”.
Por fim, chegamos a Limoeiro do Norte, onde convido você a conhecer a Beira Rio Agronegócios, liderada por um dos mais visionários empreendedores que conheci: Sr. Arinilson Macena — que, inclusive, foi um dos que mais me acolheram no Ceará.
Tive a honra de proferir, na varanda da sede da fazenda, a primeira palestra do Agro no Ceará no pós-pandemia, em 2021, sobre Compost Barn. Estavam presentes grandes nomes da pecuária leiteira do estado. Desde então, acompanho praticamente todos os passos da transformação da fazenda, e mais uma vez fui honrado com a incumbência de palestrar na inauguração de toda a estrutura, em evento promovido pela Alvoar Lácteos, no ano passado.
A Beira Rio Agronegócios une a experiência do fundador com a expertise do filho Victor, profissional reconhecido pela competência em gestão de negócios e com um apurado bom senso, o que o torna um profissional raro e valioso.
O legado é direção
Eu poderia passar meses aqui, viajando nas minhas lembranças e digitando sentimentos e percepções que colho pelo Brasil inteiro e fora dele, mas seria mais do mesmo. Também poderia passar o resto da vida relembrando e digitando as centenas de casos de frustração na sucessão familiar. Mas opto por resumir o assunto com o que considero essencial: 10 princípios que, humildemente, acredito serem capazes de transformar a sucessão no maior sucesso - no sucessozão, de qualquer empresa familiar. Vamos a eles:
1) Toda fazenda é empresa. E, como empresa, a responsabilidade da liderança é fazer a gestão na busca incansável pela sustentabilidade do negócio, ou seja, pelo lucro que gera a prosperidade compartilhada entre todos os stakeholders, ou seja, todas as partes interessadas;
2) Sua moeda é dinheiro e não leite ou vacas. Foque no lucro para que os sucessores se interessem pela atividade e a vejam como opção viável para o futuro deles. A terra sempre será um ativo de alto valor e com liquidez e, por isso, uma das opções sempre será vender tudo e sair da atividade;
3) Nunca fale mal do seu negócio para ninguém, principalmente para sua família. Além de desvalorizar seu negócio, deprecia você como líder. Em uma economia de mercado, ninguém é obrigado a permanecer em um negócio que não dá lucro e satisfação pessoal. Tenho estudado profundamente esse comportamento - infelizmente comum no meio rural - que diz muito mais de quem fala, no sentido de buscar reconhecimento do que da realidade do negócio. Mas esse é assunto para outro artigo;
4) Assuma a sucessão de frente. Hoje! Minha percepção é que a sucessão só tem sucesso se for liderada pelo antecessor ou antecessora ainda ativo no negócio. A visão de longo prazo dessas pessoas define se a empresa terá sucessores profissionais e dedicados ao crescimento comum ou herdeiros emocionais, cada um remando para um lado, fazendo com que o navio se divida em vários pequenos barcos a navegar em oceanos cada vez mais tormentosos;
5) Busque ajuda capacitada. Sucessão é processo crítico e delicado em qualquer empresa, das micro até as gigantes multinacionais que ainda são familiares. É processo profissional, independentemente do tamanho, repito. É processo longo e que deveria se basear na clareza, na visão de negócio, nas capacidades, nas habilidades e nos interesses, no bom sentido da palavra, de todas as partes interessadas. Há vários modelos possíveis: empresas de participações, holdings familiares, entre outros;
6) Confie na clareza. O senso de injustiça é um dos piores sentimentos humanos e invariavelmente nasce da falta de clareza, que evolui para a quebra da confiança. Entre irmãos e irmãs já é complicado. Imagine com o acréscimo de temperos externos, de pessoas que chegaram como cônjuges, filhos e outros agregados, cada qual com sua própria cultura, seus valores, suas experiências e sua visão de mundo e de futuro. Na minha família, somos cinco irmãos. Tivemos infâncias parecidas, guardadas as diferenças de personalidade, que são únicas. Quando nos analiso atualmente, já quarentões e cinquentões, cada um de nós é o resultado da infância que tivemos e que nos moldou aos valores e à cultura dos nossos pais e avós, somados às experiências que tivemos na vida, e são cinco experiências completamente diferentes, acrescidas dos aprendizados que tivemos e ainda temos. Então, nos tornamos pessoas completamente diferentes, porém com os mesmos princípios, com destaque para o respeito e o amor incondicional à nossa guardiã: nossa mãe;
7) Cultive o senso de pertencimento. Recentemente perdi um tio muito querido, mestre em criar senso de pertencimento. Ouvia a todos com atenção e sem julgamentos. Meu pai também tinha essa habilidade extremamente desenvolvida. Isso vale para todas as relações humanas. Ouvir com atenção, compreender, ter empatia não significa concordar, mas entender. Isso traz sentimento de fazer parte, comprometimento com o resultado, com o futuro;
8) Aprenda a desaprender. No agro, vivemos o “ciclo da porteira”: os mesmos líderes à frente dos negócios por décadas. Trazendo o meu exemplo familiar, desde 1910, data da foto antiga que tenho, a fazenda passou pela gestão de 4 pessoas, o que em 115 anos, daria uma média que seria de quase 30 anos por gestão, ou por “mandato”. Nesse mesmo período, o Brasil passou por 38 Presidentes da República, 6 Constituições, 9 moedas. O mundo vivenciou 2 guerras mundiais e 2 pandemias. Ainda no caso específico da minha família, o negócio prosperou e continua evoluindo graças à competência e visão das pessoas que o lideraram e lideram, mas essa não é a realidade de milhares de outras famílias, cujos negócios se perderam por seus gestores não acompanharem as mudanças, cada vez mais rápidas e profundas em todos os negócios do mundo. Aprender a desaprender é aceitar que o que nos trouxe até aqui não será sufi ciente para nos levar ao próximo nível. É aceitar que o “manda quem pode, obedece quem tem juízo” não se aplica mais. Se formos apenas cópias dos nossos pais, não seremos referência para nossos filhos. E eles buscarão outros caminhos;
9) Tenha mais vontade de ganhar do que medo de perder. Vivemos a era da conexão, da velocidade na informação, do mundo compartilhado nas telas dos celulares. Não somos mais uma sociedade moldada pelos filmes americanos ou pelas dramáticas novelas brasileiras. Nossos filhos sabem que não somos perfeitos, como pensávamos dos nossos pais e avós e nosso comportamento diante deles determinará se teremos sucessores ou somente herdeiros. Perder o medo de assumir genuinamente as imperfeições demonstra vontade de ganhar apoio, aderência, novas formas de trabalhar, de enxergar o negócio e a vida. A evolução, por definição, é a lapidação dos negócios e das pessoas. No mundo atual, quem está parado está regredindo, quem regride está morto;
10) Traga Deus para o seu negócio e Ele o ajudará em uma sucessão de sucesso. Em todos os bons exemplos de sucessão familiar que conheço, a fé inabalável em Deus é o pilar do sucesso. A fé em Deus nos mostra o quão pequenos, imperfeitos e perecíveis somos. A fé e temor à Deus molda caráter por meio da humildade, do perdão, do acolhimento, bem como a reação firme e enérgica contra o que é errado. A fé em Deus nos mostra que o exemplo arrasta e que o melhor e mais atual livro de gestão e de sucessão ainda é aquele escrito há milhares de anos, que toda casa tem, embora poucos leiam e menos ainda sigam.
Enviar comentário