Tudo que você precisa saber sobre IATF

Reprodução | 11 de Dezembro de 2017 Voltar

Edição #93 - Dezembro/2016

Tudo que você precisa saber sobre IATF

O uso de protocolos hormonais para IATF com o intuito de aumentar a fertilidade e a eficiência reprodutiva é uma realidade crescente em rebanhos leiteiros. Entretanto, uma avaliação dos índices reprodutivos da propriedade, das condições de manejo atuais e do custo-benefício de tal ferramenta devem ser levados em conta na tomada de decisão em relação à adoção da IATF, e de qual protocolo hormonal utilizar.

A pecuária leiteira vem se tornando cada vez mais competitiva e tecnificada. Para se manter na atividade, muitos produtores buscam aumentar a produtividade de seus rebanhos e reduzir os custos com a produção leiteira, criação de bezerras e novilhas geneticamente superiores. Entretanto, o aumento da produção leiteira por hectare tem sido acompanhado pela redução da fertilidade dos rebanhos, caracterizada pelas baixas taxas de gestação, e consequentemente, menor rentabilidade da atividade devido ao menor número de bezerras nascidas e diminuição da vida útil das vacas de alta produção. Além disso, o número de fêmeas bovinas inférteis ou subférteis, devido à alta incidência de afecções durante o período puerperal, também aumentou, contribuindo para a redução da fertilidade. Diante desse panorama e da grande dificuldade relatada pelos pecuaristas em aumentar a taxa de detecção de estros em vacas de alta produção e realizar a inseminação no momento mais adequado, muitos produtores viram na inseminação artificial em tempo fixo (IATF) a solução para o problema. Entretanto, antes de adotar essa ferramenta reprodutiva em sua propriedade, o produtor precisa analisar alguns pontos que serão discutidos a seguir.

  1. Quais são os índices reprodutivos do rebanho?
    Assim como em qualquer atividade econômica que visa a obtenção de lucro, o pecuarista necessita conhecer o seu sistema produtivo e possuir métodos de monitoramento da sua efi ciência. A identificação individual dos animais e as anotações periódicas são de suma importância para detectar os gargalos do sistema de produção e elaborar medidas estratégicas para um melhor desempenho reprodutivo, produtivo e, principalmente, financeiro. Em rebanhos leiteiros, especialmente na área reprodutiva, o produtor necessita conhecer índices como taxa de serviço ou inseminação (número de vacas inseminadas em relação ao total de vacas aptas à reprodução), taxa de concepção (número de vacas inseminadas que se tornam gestantes no primeiro diagnóstico de gestação após a inseminação), taxa de gestação (número de vacas aptas à reprodução que se tornam gestantes a cada 21 dias), intervalo do parto à concepção, intervalo de partos e número de serviços (coberturas ou inseminações) por gestação. Com tais índices em mãos, o produtor consegue monitorar a eficiência reprodutiva de seu rebanho entre estações e ao longo dos anos, avaliar se o manejo reprodutivo adotado atingiu ou não as metas pré-estabelecidas, comparar seu sistema com outros sistemas de produção, além de avaliar os índices obtidos com os índices esperados. A anotação individual proporciona um levantamento do histórico do animal e prediz a possível resposta do mesmo frente à adoção de protocolos de IATF e sua viabilidade. Sem essas informações e sem o acompanhamento de um médico veterinário, o produtor se torna incapaz de monitorar e avaliar a eficiência reprodutiva de seu rebanho.
  2. Quais são os índices esperados com o uso da IATF?
    A IATF é uma biotécnica reprodutiva que consiste na utilização de hormônios para sincronização do crescimento folicular, indução do estro e da ovulação em vacas aptas à reprodução, aliada à inseminação artificial em momento pré-determinado, sem que haja a necessidade de observação de estros. Com a IATF, a taxa de serviço pode alcançar 100%, desde que nenhuma vaca, por problemas sanitários ou de manejo, deixe de ser inseminada. Dessa forma, a IATF pode proporcionar maiores taxas de concepção e gestação, encurtar o intervalo de partos, aumentar a produção de bezerras e a produtividade da fêmea bovina durante sua vida útil. Nos rebanhos que adotam a IATF, as taxas de concepção e gestação esperadas (Tabela 1) variam muito e dependem de diversos fatores como raça, categoria animal, nível de produção das vacas, condição corporal dos animais, manejo sanitário, qualificação da mão de obra e protocolos hormonais utilizados. Além de fatores relacionados à qualidade dos gametas, condição do ambiente uterino, status metabólico da vaca e qualidade do embrião, tais índices são diretamente influenciados pela alta incidência de mortalidade embrionária, que pode chegar a 20% quando se utilizam protocolos hormonais para sincronização do estro e da ovulação.
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  3. A IATF realmente dispensa a detecção de estros?
    Uma das características da IATF citada como a maior vantagem em sua aplicação é a inseminação de vacas aptas à reprodução sem a necessidade de detectar o estro, permitindo assim um menor desgaste da mão de obra e a inseminação de um maior número de animais no mesmo dia. Entretanto, é recomendado observar o cio das fêmeas que foram submetidas a IATF. Alguns animais manifestam cio após a inseminação em tempo fixo e podem ser reinseminados. Convém ressaltar também que as fêmeas não gestantes irão manifestar cio dentro de 17 a 24 dias, podendo ser inseminadas novamente sem a necessidade de se iniciar um novo protocolo. A adoção de tais manejos resulta no aumento da taxa de gestação no rebanho. Em propriedades leiteiras com boas práticas de manejo e acompanhamento veterinário constante, porém com baixa taxa de detecção de estro, a IATF apresenta o potencial de aumentar a eficiência reprodutiva das vacas em lactação, podendo atingir taxas de gestação próximas a 60%, dependendo do nível de produção. Sendo assim, o emprego da IATF é mais indicado para rebanhos com taxa de detecção de estro inferior a 50%. Baixa taxa de serviço aliada à baixa taxa de concepção em vacas de alta produção resultam em baixa taxa de gestação. Dessa forma, o emprego da biotécnica pode ser uma alternativa viável para aumentar os índices reprodutivos, uma vez que a taxa de serviço pode chegar a 100%. Quando a taxa de detecção de estro é superior a 50%, a taxa de gestação pode não aumentar com o emprego da IATF e o custo com protocolos pode impactar negativamente na rentabilidade do sistema.
  4. A IATF pode ser empregada em qualquer categoria animal?
    Os índices reprodutivos com o emprego da IATF variam entre as categorias de animais. As novilhas apresentam o maior potencial genético e são consideradas a categoria de maior fertilidade no rebanho. Quando bem manejadas, as novilhas podem iniciar a vida reprodutiva precocemente. Entretanto, essa precocidade deve ser acompanhada de desenvolvimento corporal compatível com a sua composição genética, peso vivo, idade e desenvolvimento adequado do sistema reprodutivo. O canal pélvico da novilha deve possibilitar a passagem do bezerro, evitando assim problemas durante o parto por incompatibilidade de tamanho entre a pelve e o feto. O uso de protocolos hormonais para indução da puberdade em novilhas, com associação de implante de progesterona e estrógeno, representa uma alternativa para acelerar o início da ciclicidade reprodutiva e o desenvolvimento uterino, principalmente em novilhas mestiças Holandês x Zebu. A adoção desses protocolos com o objetivo de fazer uma pré-sincronização do estro antes da IATF tem resultado em melhores taxas de gestação. Entretanto, a eficiência dos protocolos, traduzida em alta taxa de gestação, somente será alcançada se os animais apresentarem desenvolvimento corporal e reprodutivo. Além disso, recomenda-se sempre a observação de cio após a IATF para elevar ainda mais a taxa de gestação nessa categoria. As vacas em lactação, principalmente as de alta produção, apresentam menor fertilidade dentro do rebanho quando comparadas às novilhas e às vacas de média e baixa produção. A reprodu- ção dessa categoria é influenciada por diversos fatores, tais como condição corporal, afecções puerperais, produ- ção leiteira, ordem de parto, manejo nutricional e sanitário, além de falhas reprodutivas inerentes ao animal ou ao manejo deficiente. Vacas desafiadas por alguma alteração dos fatores citados anteriormente apresentam dificuldades para se tornarem gestantes, resultando em menor taxa de gestação, maior intervalo do parto à concepção, mais serviços por concepção e maior intervalo de parto. A redução do intervalo de parto nessa categoria animal é extremamente desejável, pois reflete em maior produção de bezerras e de leite. Com o objetivo de aumentar a taxa de gestação e reduzir o intervalo de parto das vacas em lactação, muitas vezes a IATF é adotada sem assistência veterinária e sem a avaliação criteriosa do status do aparelho reprodutivo, verificando-se resultados catastróficos e perdas econômicas expressivas. Caso os problemas de manejo não sejam corrigidos previamente, apesar de aumentar a taxa de serviço, a IATF pode não alterar ou até mesmo reduzir a taxa de gestação do rebanho, onerar ainda mais a atividade, impactando negativamente na rentabilidade e sustentabilidade do sistema.

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  5. A nutrição influencia no resultado da IATF?
    A ausência de ovulações, condição também conhecida como anestro, é muito comum em vacas leiteiras após o período voluntário de espera. A ausência de ciclicidade ovariana é diretamente influenciada pela condição corporal das vacas ao parto e pelo nível nutricional no início da lactação. Quanto melhor a condição corporal ao parto e a nutrição após o mesmo, menor será o desequilíbrio energético decorrente da lactação, menor a mobilização de reservas corporais, melhor a condição metabólica e hormonal, o que reflete em maior crescimento folicular após o parto e ovulação precoce. Animais em anestro, mas que apresentam boa condição corporal após o período voluntário de espera, podem ser submetidos a protocolos de IATF. Os fármacos utilizados no protocolo irão mimetizar a ação dos hormônios endógenos do animal, proporcionando desenvolvimento folicular, indução do estro e ovulação do folículo dominante, seguida de formação de um corpo lúteo funcional. Em animais com baixa condição corporal não é recomendada a adoção de protocolos hormonais, pois estes não são capazes de reestabelecer o desenvolvimento folicular adequado para ocorrência da ovulação. Existem protocolos que associam a gonadotrofina coriônica equina (eCG) para estimular o desenvolvimento folicular de forma satisfatória, aumentando a chance de ocorrer a ovulação. Entretanto, tais protocolos são mais onerosos, necessitando uma avaliação prévia do custo/benefício antes da sua adoção em animais com baixa condição corporal. Em alguns casos, a simples correção do manejo nutricional será mais eficiente para aumentar a eficiência reprodutiva e resultará em melhores resultados que a adoção de protocolos de IATF mais elaborados.

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  6. E o manejo sanitário?
    Em muitos rebanhos, principalmente os de alta produção, as incidências de doenças metabólicas e puerperais são muito altas. Muitas vacas acometidas se tornam repetidoras de serviço, ou seja, fêmeas submetidas a três ou mais inseminações após o período voluntário de espera, com manifestação de estro em intervalos regulares e que não se tornam gestantes. O aumento crescente de fêmeas repetidoras de serviço impacta diretamente na eficiência reprodutiva de um rebanho, como é possível ver na Tabela 2. Muitos produtores utilizam protocolos de IATF na tentativa de reintroduzirem animais subférteis no manejo reprodutivo e, consequentemente, no sistema de produção. Entretanto, a taxa de gestação esperada para IATF em animais subférteis varia de 15 a 30%. Dessa forma, a adoção de protocolos hormonais deve ser precedida por exame físico do animal e avaliação criteriosa do trato reprodutivo das fêmeas, com o objetivo de identificar animais “problema”. Tais animais devem ser tratados de acordo com a afecção diagnosticada e, quando não for possível tratamento, deverão ser descartados do rebanho. Recomenda- se também que todas as fêmeas aptas à reprodução estejam com o calendário de vacinação em dia para as principais doenças reprodutivas. Além disso, é necessário fornecer condições ambientais favoráveis para o conforto e bem-estar dos animais. O aumento do desafi o ambiental, principalmente o estresse calórico, está associado a uma maior taxa de mortalidade embrionária precoce, o que contribui para a obtenção de menores taxas de gestação.
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  7. qual o melhor protocolo hormonal a se utilizar?
    Existem diversos protocolos hormonais disponíveis no mercado, alguns mais simples, compostos por uma ou duas doses de prostaglandina (PGF2α), e outros mais sofisticados, que usam associações mais complexas, envolvendo o hormônio liberador de gonadotrofinas (GnRH), implantes de progesterona, prostaglandina, estrógenos, gonadotrofina coriônica equina (eCG) e gonadotrofina coriônica humana (hCG), dentre outros fármacos. Os primeiros são mais econômicos, porém os últimos sincronizam melhor o crescimento folicular, induzindo o estro e a ovulação, além de garantir uma melhor qualidade do oócito ovulado e do ambiente uterino para receber o embrião. Devido à grande variação dos resultados, os protocolos de IATF devem ser avaliados criteriosamente por um médico veterinário, com o intuito de identificar o (s) mais indicado (s) para cada propriedade, pois cada rebanho tem suas particularidades e a eficiência do protocolo depende de diversos fatores, como citado anteriormente.
  8. É recomendado o uso de sêmen sexado na IATF?
    O processo de sexagem do sêmen reduz a qualidade dos espermatozoides e, consequentemente, a sua viabilidade no trato genital da fêmea. Dessa maneira, o uso do sêmen sexado em protocolos tradicionais de IATF resultam em baixas taxas de concepção e gestação ao final do processo, quando comparados aos que utilizam sêmen convencional (Figura 1). Para obter maior eficiência na utilização de sêmen sexado, recomenda-se que o mesmo seja utilizado em novilhas cíclicas, após a detecção de estro natural. Com a adoção de tal medida, a taxa de gestação em novilhas pode chegar a 50%. Em propriedades que utilizam protocolos hormonais para sincronização e indução do estro e da ovulação, recomenda-se o uso de sêmen sexado apenas na primeira inseminação, precedida pela detecção de estro.
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  9. É necessário ter mão de obra especializada para uso da IATF?
    Devido a uma predominância de mão de obra sobrecarregada e não especializada na maioria das propriedades leiteiras do país, muitos produtores adotaram a IATF como ferramenta essencial para corrigir falhas de manejo, aumentar a eficiência reprodutiva e reduzir a sobrecarga de trabalho dos funcionários, concentrando as atividades. Entretanto, dependendo do protocolo de sincronização adotado para realizar a IATF, os animais devem ser manejados de três até dez vezes, e o momento da aplicação dos fármacos deve ser respeitado, para que os mesmos possam mimetizar a endocrinologia dos animais. Dessa forma, recomenda-se maior incentivo à capacitação dos funcionários, reciclagem anual das técnicas de inseminação artificial, além de comprometimento dos funcionários com a implementação, aplicação e condução dos protocolos. Diferentemente de rebanhos de corte, vacas leiteiras são manejadas diariamente. Dessa forma, a mão de obra para a realização de protocolos de IATF não é concentrada como no gado de corte, o que desmistifica a vantagem de concentração de serviços. O que normalmente ocorre é a concentração mensal de grupos de fêmeas bovinas que serão protocoladas para IATF. Entretanto, as fêmeas não gestantes e as que não entraram no grupo (por alguma patologia, p. ex.) serão manejadas somente no mês seguinte, o que pode prolongar o intervalo de parto do rebanho. Dessa forma, para que a IATF seja viável, os custos com protocolos hormonais não devem ultrapassar os custos com a contratação de mão de obra adicional para detecção de estros.

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  10. Relação custo/benefício
    Para qualquer tomada de decisão, é de extrema importância a avaliação da relação custo/benefício, principalmente quando se refere à produção de leite e reprodução dos animais. A IATF, quando empregada em grande escala, possui um valor expressivo dentro do sistema de produção; no entanto, devese avaliar o quanto a mesma irá trazer de melhorias ou retorno financeiro. O produtor, assessorado pelo Médico Veterinário, deve ter em mente que a ferramenta não é uma salvação para corrigir erros de manejo. No caso de mão de obra desqualificada, por exemplo, falhas na adoção dessa biotécnica poderão resultar em grandes perdas econômicas e inviabilidade da atividade leiteira. 


Conclusão
O uso de protocolos hormonais para IATF com o intuito de aumentar a fertilidade e a eficiência reprodutiva é uma realidade crescente em rebanhos leiteiros. Entretanto, uma avaliação dos índices reprodutivos da propriedade, das condições de manejo atuais e do custo-benefício de tal ferramenta devem ser levados em conta na tomada de decisão em relação à adoção da IATF e de qual protocolo hormonal utilizar. Vale ressaltar que a IATF deve ser adotada em propriedades bem manejadas, que visam aumentar a eficiência reprodutiva, e não apenas como uma ferramenta emergencial para corrigir erros de manejo.

Philipe Pimenta Nunes Mestrando em Ciência Animal Escola de Veterinária da UFMG
Sílvio Costa e Silva Mestrando em Ciência Animal Escola de Veterinária da UFMG
Virgílio Barbosa de Andrade Graduando em Medicina Veterinária Escola de Veterinária da UFMG
Ana Carolina Leite Doutoranda em Ciência Animal Escola de Veterinária da UFMG
Telma da Mata Martins Pós-doutoranda em Reprodução Animal Escola de Veterinária da UFMG
Álan Maia Borges Professor Associado do Departamento de Clínica e Cirurgia Veterinárias Escola de Veterinária da UFMG