Amido em dietas de vacas em lactação: Estratégias de utilização para otimizar o desempenho
Texto: Alexandre M. Pedroso
Ninguém discute a importância do amido na alimentação de bovinos leiteiros. Em qualquer sistema de produção, grãos de cereais, em especial o milho, representam a principal fonte de energia em dietas de vacas leiteiras, e o principal constituinte desses grãos é justamente o amido. Esse tema já foi assunto de outros artigos escritos por mim, mas como é da maior relevância é sempre importante rever o assunto. Em sistemas intensivos de produção de leite as vacas têm consumido quantidades cada vez maiores de carboidratos não fibrosos (CNF), especialmente amido, mesmo com os preços elevados dos grãos observados em 2012. A maior inclusão de CNF, por um lado, é a principal forma de aumentar a densidade energética das dietas, a fim de atender à demanda produtiva dos animais, mas, por outro, pode representar um risco para a saúde das vacas.
Não é possível definir um nível ótimo de amido na dieta das vacas. Isso vai depender dos outros ingredientes utilizados, por exemplo, da concentração de outros carboidratos e de proteínas. Também é preciso saber a forma como esse amido se apresenta, definida basicamente pelo método e intensidade de processamento dos grãos. Por exemplo, o amido de grãos de milho quebrado (quirera) tem digestibilidade muito diferente do amido de grãos finamente moídos. O nível ótimo de amido varia em função das características dos alimentos utilizados e da categoria e desempenho animais.
Em dietas de vacas de alta produção (acima de 30 kg leite/dia), o amido pode representar até mais de 35% da MS total consumida pelas vacas, sendo que, invariavelmente, a quase totalidade desse amido vem dos grãos de cereais. A degradabilidade ruminal do amido é extremamente variável, de menos de 50 a mais de 90%, sendo determinada pela taxa de degradação e tempo de retenção dos alimentos no rúmen. Grãos inteiros têm baixa degradabilidade, sendo que esta aumenta à medida que se intensifica o processamento dos mesmos. O milho finamente moído é uma fonte de amido de alta degradabilidade ruminal.
A digestibilidade do amido é cerca de duas vezes superior à digestibilidade da fibra (FDN) para vacas leiteiras, de forma que o aumento na inclusão de amido aumenta o teor energético das dietas. No entanto, esse aumento pode ser menor do que se espera, pois via de regra quando se substitui FDN por amido (concentrado) em dietas de vacas leiteiras, a digestibilidade total da FDN diminui. Isso ocorre principalmente em função da queda no pH ruminal das vacas que recebem mais concentrado. Por um lado, há o ganho energético, e por outro pode haver prejuízo no aproveitamento da forragem. O objetivo é buscar um equilíbrio à fim de maximizar o desempenho dos animais.
Com isso, como fazer para formular corretamente as dietas com relação ao amido? Na verdade, os nutricionistas consideram não só o amido, mas os CNF como um todo. Nesse grupo são considerados além do amido, os açúcares simples, a pectina, ácidos orgânicos e a porção solúvel da FDN. A tabela 1 mostra parâmetros médios utilizados na formulação de dietas de vacas leiteiras, resultado de uma combinação entre dados de pesquisas e experiências de campo.

Vale ressaltar que essas recomendações são baseadas em necessidades de vacas de alta produção. Infelizmente, ainda não temos parâmetros consistentes, definidos nas condições tipicamente brasileiras – vacas de produção média, em sistemas mistos ou de pastejo. De qualquer forma, as recomendações acima servem bem como guia para formular dietas de vacas leiteiras em nossas condições.
Teores de CNF acima de 45% da MS são considerados excessivamente elevados, sendo que esse limite superior é ditado pelo risco de ocorrência de distúrbios relacionados à acidose ruminal, resultado do excesso de carboidratos de fermentação rápida no rúmen, principalmente amido. Dessa forma, a determinação da concentração ótima de CNF nas dietas de vacas leiteiras depende de alguns fatores, tais como:
1) Os efeitos da velocidade de degradação do amido sobre a digestão de fibra no rúmen;
2) Teor e composição da fração FDN, principalmente a efetividade física;
3) Consumo de MS.
Se a degradação ruminal do amido for muito rápida, certamente haverá prejuízo à digestão da fibra. Em nossas condições, em que grande parte das vacas são mantidas em pastagens na maior parte do ano, excesso de fermentabilidade de carboidratos não parece ser um grande problema, mesmo em rebanhos com média de produção mais elevada, que normalmente possuem lotes de vacas produzindo acima de 30 kg leite/dia, pois o alto custo médio dos grãos de cereais em nosso país muitas vezes inviabiliza rações com muito amido. Além disso, a forma mais comum de processamento do milho em nosso país é a moagem grosseira, muitas vezes com tamanho médio elevado de partículas, de fermentabilidade ruminal não tão elevada.
Outro ponto a se considerar é que o milho brasileiro é de textura dura, sendo menos degradável no rúmen que o amido de grãos americanos, que são do tipo dentado. O tamanho de partícula das forrageiras ensiladas por aqui também é frequentemente elevado, resultado de falhas na picagem, contribuindo positivamente para a efetividade física da fibra, e minimizando o problema de um possível excesso de CNF. Além disso, a presença freqüente de grãos inteiros nas silagens também reduz a disponibilidade do amido no rúmen. O alto teor de fibra das forrageiras, associado ao uso freqüente de subprodutos fibrosos nos concentrados, normalmente resulta em rações nas quais o teor de FDN total é relativamente alto o que, consequentemente, resulta em teor de CNF abaixo daquele que representa risco de ocorrência de acidose. O maior problema da vaca brasileira não é acidose ruminal, e sim falta de energia, tanto para os microorganismos do rúmen quanto para o animal.
Também interessante é o fato de que a relação ótima entre amido e fibra na dieta depende da efetividade da fibra. Em dietas com teor relativamente baixo de fibra efetiva, que naturalmente causam redução no pH ruminal, o nível de inclusão de amido, que possibilita maximizar a digestão de fibra, não passa de 30-33% da MS. Já em dietas com teor mais elevado de fibra efetiva, é possível a inclusão de até 38-40% de amido na MS, sem grande prejuízo à degradação da FDN.
Um estudo bastante interessante realizado nos EUA (Beckman & Weiss, 2005) mostrou que a queda na digestibilidade da MS e da energia, que normalmente ocorre com a redução na inclusão de amido à dieta de vacas leiteiras, pode ser compensada, pelo menos em parte, por um aumento de consumo das dietas com mais FDN, desde que essa fibra seja de alta digestibilidade. Dessa forma, mesmo com diferentes teores de amido, o consumo de energia entre as dietas comparadas no trabalho foi equivalente. Nesse ensaio, os níveis de amido variaram entre 25,4 e 33,3 e os de FDN entre 24,7 e 32,2% da MS total das dietas. Isso mostra que quando o volumoso é de alta qualidade, não há necessidade de se utilizar quantidades elevadas de grãos. Isso vale não só para silagem de milho, mas para qualquer tipo de volumoso.
Esse é o mesmo princípio em que se baseia a substituição dos grãos de cereais por concentrados fibrosos, que são pobres em amido, mas bastante ricos em fibra altamente digestível, como é o caso da polpa cítrica, casca de soja, farelo de glúten de milho e farelo de trigo. Logicamente, as características desses subprodutos são muito diferentes, e isso precisa ser considerado quando se formula dietas para vacas leiteiras. Com isso em mente, em dietas que levam subprodutos, os níveis de amido podem ser sensivelmente reduzidos, sem prejuízo ao desempenho dos animais. A combinação de fontes energéticas ricas em fibra digestível com grãos de cereais pode resultar em dietas contendo teores relativamente baixos de amido (cerca de 25%) que sustentem maiores produções de leite do que dietas nas quais se utiliza exclusivamente fontes amiláceas, com teor de amido em torno de 30%, ou mais.
Dessa forma, algumas reflexões são pertinentes:
Em dietas de vacas de alta produção, a inclusão de amido acima dos 30-35% da MS total aumenta o teor energético da dieta, mas pode colocar os animais em risco de acidose, o que pode resultar em redução no CMS. Isso, por sua vez, pode comprometer a ingestão de energia, o que obviamente é indesejável.
Quanto maior o teor de fibra efetiva na dieta, mais espaço há para se utilizar grãos de cereais, já que ao ingerir esse tipo de dieta o animal rumina mais e produz mais saliva, o que equilibra melhor o pH ruminal, prevenindo quedas drásticas no consumo.
Quando se utiliza subprodutos fibrosos, é possível obter níveis elevados de desempenho, mesmo com baixa inclusão de amido (abaixo de 25% da MS total). No entanto, é preciso equilibrar bem a dieta, e ficar atento às características de cada subproduto.
Em qualquer situação, para qualquer tipo de animal, a qualidade da fibra é determinante do desempenho. Quanto maior a digestibilidade da FDN da dieta, menor a necessidade de inclusão de CNF para atingir uma dada meta de desempenho.
Infelizmente, ainda há relativamente poucos trabalhos avaliando diferentes teores de amido em dietas de vacas leiteiras mantidas em pastagens, e os poucos dados disponíveis são inconclusivos. De qualquer forma, todos os princípios discutidos aqui são válidos para o manejo alimentar de vacas a pasto, basta usar o bom senso.
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