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Pastagens

Aplicação de ferramentas moleculares na identificação de sementes forrageiras tropicais

A aplicação de ferramentas moleculares na identificação de sementes forrageiras tropicais oferece precisão científica, combate a pirataria e fortalece a rastreabilidade

Aplicação de ferramentas moleculares na identificação de sementes forrageiras tropicais

O mercado de forrageiras tropicais é um dos pilares que sustentam a pecuária brasileira. Líder mundial na exportação de carne bovina e detentor do maior rebanho comercial do planeta, o Brasil apoia a produção pecuária em uma base impressionante: cerca de 170 milhões de hectares de pastagens. Desses, 135 milhões são formadas por gramíneas do gênero Urochloa (Syn. Brachiaria) e da espécie Megathyrsus maximus (Syn. Panicum maximum) (Figura 1). Nesse contexto, a qualidade e a autenticidade das sementes forrageiras são cruciais para a produtividade e sustentabilidade do agronegócio. 

Figura 1: Exemplos das espécies forrageiras mais cultivadas no Brasil. A) Urochloa brizantha cultivar BRS Paiaguás B) Megathyrsus maximus cultivar Mombaça 


Genética a favor da semente 

O setor de sementes forrageiras desempenha papel estratégico na produção de carne e leite no Brasil, sendo a base para a formação e manutenção de pastagens. Com a crescente utilização de espécies forrageiras em sistemas integrados - como plantas para cobertura e para a melhoria da qualidade do solo, o setor tem sido importante também para a agricultura. 

A disponibilidade, a procedência e a qualidade das sementes são, portanto, fatores determinantes para o sucesso produtivo. No entanto, esse mercado vital enfrenta grandes desafios, como a baixa qualidade genética e sanitária das sementes, potencializado pelo comércio ilegal de sementes, conhecido como pirataria. A fiscalização insuficiente por parte dos órgãos competentes agrava o problema, colocando em risco pecuaristas, agricultores e todo o ecossistema de produção.

Um levantamento da Associação Brasileira de Sementes e Mudas (Abrasem), realizado em 2019, estimou que cerca de 30% do mercado de sementes no país é de origem desconhecida, resultando em perdas financeiras de aproximadamente R$ 2,44 bilhões por ano. Além das perdas econômicas, a pirataria drena recursos que poderiam ser investidos em pesquisa e desenvolvimento de novas cultivares, expondo o produtor a riscos agronômicos e financeiros. 

Nesse cenário, ganha importância a correta e inequívoca identificação de espécies e cultivares. Os métodos tradicionais de identificação, baseados em características morfológicas, enfrentam limitações: são influenciados por fatores ambientais e, muitas vezes, de difícil mensuração. Em contraste, métodos baseados na análise do DNA (testes de DNA ou fingerprinting) oferecem identificação precisa, rápida, confiável e independente de fatores externos. Embora pouco utilizado nas forrageiras, esses testes são comuns na ciência forense para a comparação de padrões genéticos entre indivíduos. 

Além da autenticação de cultivares, a análise molecular tem aplicações estratégicas no melhoramento genético, como a confirmação de cruzamentos e a detecção precoce de contaminações indesejadas nos campos de multiplicação. A utilização desse tipo de ferramenta aumenta a confiabilidade dos cruzamentos realizados, reduz o desperdício de tempo e de recursos na avaliação de cruzamentos não planejados e auxilia na detecção precoce de contaminação nos campos de multiplicação de sementes.


Teste de DNA em espécies forrageiras 

Os marcadores moleculares têm se tornado ferramentas indispensáveis na pesquisa e desenvolvimento de forrageiras, impulsionando a inovação e a eficiência dos programas de melhoramento genético no Brasil. Funcionam como verdadeiras “impressões digitais” do DNA - regiões específicas do genoma que permitem identificar, com elevada precisão, uma cultivar. Técnicas como a PCR (Reação em Cadeia da Polimerase) possibilitam detectar essas regiões, estabelecendo a identidade genética de uma planta de forma inequívoca. 

A adoção dos marcadores representa uma mudança de paradigma: do fenótipo ao genótipo. Tradicionalmente, a identificação de cultivares é realizada com descritores morfológicos, que apresentam algumas desvantagens - são influenciados pelo ambiente, limitados em número e de avaliação complexa e restrita a especialistas. Em contraste, os marcadores moleculares, por serem baseados no DNA, não são limitados por fatores como parte da planta, estágio de desenvolvimento, estação ou ambiente, exibindo alta estabilidade. Além disso, são numerosos, distribuídos por todo o genoma, e apresentam alto polimorfismo, com muitas variações alélicas existentes na natureza.  

OS MARCADORES MOLECULARES TÊM SE TORNADO FERRAMENTAS INDISPENSÁVEIS NA PESQUISA E DESENVOLVIMENTO DE FORRAGEIRAS, IMPULSIONANDO A INOVAÇÃO E A EFICIÊNCIA DOS PROGRAMAS DE MELHORAMENTO GENÉTICO NO BRASIL


Embora exijam equipamentos específicos e expertise, os benefícios superam as barreiras operacionais. 

A precisão oferecida pelos testes genéticos é fundamental tanto para a proteção da propriedade intelectual quanto para o combate à pirataria – em que a aparência morfológica, muitas vezes enganosa, deixa de ser critério confiável de identificação. 

Existem diversos tipos de marcadores moleculares, que variam em custo, resolução, complexidade laboratorial e variabilidade genética detectada. A escolha adequada depende dos objetivos da análise, da infraestrutura disponível e do nível de detalhamento necessário. Em muitos casos, combinações estratégicas de diferentes marcadores são adotadas, ampliando a robustez da identificação ou o alcance do programa de melhoramento.

Uma das aplicações mais consolidadas está na identificação e caracterização de cultivares e híbridos. Marcadores moleculares, especialmente os microssatélites, são empregados para desenvolver perfis de DNA (DNA fingerprinting) que permitem a identificação precisa de cultivares forrageiras (Figura 2). Essa capacidade é fundamental para comprovar a origem genética de uma cultivar, funcionando como um “teste de paternidade” vegetal, atestando a origem genética de uma cultivar ou detectando uso indevido. 

Um estudo específico validou o uso de marcadores microssatélites para diferenciar cultivares de capim-elefante, como Pioneiro, BRS Capiaçu, BRS Kurumi e BRS Canará, estabelecendo padrões de DNA específicos e inequívocos para cada uma. A Embrapa avança no desenvolvimento de painéis semelhantes para todas as cultivares comerciais de Brachiaria e Panicum, o que deve reforçar ainda mais a rastreabilidade e a segurança genética no setor de sementes forrageiras.  





Nas pesquisas com sementes forrageiras, as ferramentas moleculares são essenciais para:
• Garantir a autenticidade e a qualidade das sementes: marcadores moleculares, como os microssatélites, permitem criar “perfis de DNA” (DNA fingerprinting) que comprovam a identidade e a origem genética de uma cultivar, funcionando como “teste de DNA” vegetal. Isso é vital para assegurar que o produtor está adquirindo a cultivar desejada e com a genética e a qualidade esperada;
• Combater a pirataria e o uso indevido: a análise molecular é uma ferramenta forense poderosa na fiscalização, permitindo identificar sementes ilegais e comprovar o uso não autorizado de cultivares protegidas. Isso ajuda a coibir a concorrência desleal, a proteger os direitos de propriedade intelectual das empresas obtentoras e garantir o recebimento de royalties – incentivando, assim, novos investimentos em pesquisa.


Controle de qualidade e combate à pirataria de sementes e mudas

O desenvolvimento de uma cultivar de forrageira é um processo longo, técnico e dispendioso - demanda, em média, 10 anos de pesquisa intensiva e elevados investimentos em inovação. A pirataria de sementes compromete o retorno sobre esses investimentos, desestimulando as empresas a alocarem recursos em novas tecnologias e melhorias genéticas. 

Sementes certificadas, cuja autenticidade pode ser verificada molecularmente, oferecem uma série de garantias: qualidade, segurança jurídica, acesso a crédito e seguro rural, origem conhecida, inovação tecnológica e confiabilidade do produtor. Atualmente, o uso de marcadores moleculares para identificação de cultivares serve como ferramenta auxiliar em processos de fiscalização, embora ainda não seja utilizado para registro e proteção oficial.


SEMENTES CERTIFICADAS, CUJA AUTENTICIDADE PODE SER VERIFICADA MOLECULARMENTE, OFERECEM UMA SÉRIE DE GARANTIAS: QUALIDADE, SEGURANÇA JURÍDICA, ACESSO A CRÉDITO E SEGURO RURAL, ORIGEM CONHECIDA, INOVAÇÃO TECNOLÓGICA E CONFIABILIDADE DO PRODUTOR


O DNA fingerprinting emerge como uma ferramenta forense poderosa na fiscalização e perícia de sementes piratas. Essa técnica explora variações únicas nas sequências de DNA para discriminar entre diferentes fontes genéticas. Após a definição do padrão molecular único de cada cultivar, o diagnóstico é simples: extrai-se o DNA, realiza-se a amplificação via PCR e separam-se os fragmentos por eletroforese. Essa metodologia, amplamente utilizada na ciência forense para identificar indivíduos com base em seu padrão de DNA, permite a identificação inequívoca da origem da cultivar, sendo crucial para a comprovação da pirataria. 

A análise molecular pode detectar a presença de misturas de cultivares ou de outras espécies ao identificar perfis genéticos inconsistentes com uma cultivar pura e declarada. A comparação entre o perfil de DNA de um lote de sementes suspeito e o perfil de DNA conhecido e protegido de uma cultivar registrada (DNA fingerprinting) permite comprovar cientificamente o uso ilícito. Isso fornece evidências concretas para processos legais, superando as limitações da inspeção visual ou morfológica. A adoção e o reconhecimento legal de técnicas de identificação molecular não são apenas avanços científicos, mas ferramentas econômicas e regulatórias essenciais (Figura 3).




A Embrapa vem investindo na ampliação do conhecimento genômico das espécies forrageiras de maior interesse. Muitas cultivares (Tabela 1) já possuem padrão molecular determinado com marcadores do tipo microssatélite, que podem ser facilmente identificados. Essas informações moleculares são constantemente atualizadas à medida que novas cultivares são lançadas. 


Tabela 1. Cultivares forrageiras lançadas pela Embrapa e estágio de desenvolvimento dos painéis fingerprint para realização dos testes de DNA 


Desafios e perspectivas 

Apesar dos avanços significativos na aplicação de marcadores moleculares na genética de forrageiras, existem barreiras para sua implementação em larga escala. O custo de equipamentos específicos e a necessidade de expertise técnica para a realização de análises moleculares representam desafios importantes. Além disso, a demanda por maior investimento na busca por novos marcadores e no avanço do conhecimento genômico são fundamentais para a aplicação dos conhecimentos em larga escala. 

Os marcadores moleculares representam uma ferramenta transformadora para a identificação e autenticação de cultivares forrageiras no Brasil. Sua capacidade de fornecer informações genéticas precisas e independentes de fatores ambientais os posiciona como superiores aos métodos morfológicos tradicionais, oferecendo uma base sólida para a garantia de qualidade e a proteção da propriedade intelectual no setor. 

No combate à pirataria de sementes, os marcadores moleculares oferecem o “padrão ouro” para a perícia forense, permitindo a identificação inequívoca de materiais ilegais e a comprovação de sua origem genética. Essa capacidade é vital para coibir um problema que causa perdas econômicas bilionárias, dissemina pragas e doenças, desestimula a inovação e compromete a sustentabilidade do agronegócio. 

Apesar de um robusto marco regulatório e de ações de fiscalização importantes, existe uma lacuna na integração plena da autenticação molecular nos processos oficiais de certificação. Superar essa barreira regulatória, junto a investimentos contínuos em pesquisa, à capacitação dos órgãos de fiscalização e ao engajamento dos produtores por meio de campanhas de conscientização, é fundamental para consolidar o uso das ferramentas moleculares no setor.


NO COMBATE À PIRATARIA DE SEMENTES, OS MARCADORES MOLECULARES OFERECEM O “PADRÃO OURO” PARA A PERÍCIA FORENSE, PERMITINDO A IDENTIFICAÇÃO INEQUÍVOCA DE MATERIAIS ILEGAIS E A COMPROVAÇÃO DE SUA ORIGEM GENÉTICA


Fortalecer o sistema de sementes com base em tecnologias de ponta é essencial para proteger a inovação, salvaguardar os interesses econômicos do país e garantir a sustentabilidade e a competitividade da sua pecuária brasileira a longo prazo. A adoção proativa e abrangente dos marcadores moleculares é, portanto, um imperativo estratégico para o futuro da agricultura brasileira.

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Autores

EMBRAPA GADO DE LEITE

EMBRAPA GADO DE LEITE

ANA LUISA SOUSA AZEVEDO

ANA LUISA SOUSA AZEVEDO

Possui graduação em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Juiz de Fora (2004), mestrado e doutorado em Genética e Melhoramento pela Universidade Federal de Viçosa (2008). Atualmente é pesquisadora da Embrapa Gado de Leite. Tem experiência na área de citogenética vegetal, genética molecular animal e vegetal, atuando principalmente nos seguintes temas: diversidade genética e marcadores moleculares aplicados ao melhoramento de forrageiras tropicais.

ROBERT DOMINGUES

ROBERT DOMINGUES

Possui graduação em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Juiz de Fora (2007), mestrado em Genética e Melhoramento pela Universidade Federal de Viçosa (2011) e está cursando doutorado em Ciências Biológicas (Imunologia e Doenças Infecto Parasitárias/ Genética e Biotecnologia) na Universidade Federal de Juiz de Fora.Desde 2011 é Analista da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, na área de biologia avançada: tecnologias de largha escala (genômica, transcriptômica, proteômica e outras). Está vinculado à unidade da Embrapa Pecuária Sul (Bagé - RS), onde ficou lotado até 08/2020. Desde então, foi removido para a Embrapa Gado de Leite (Juiz de Fora - MG).Desenvolve atividades de pesquisa, desenvolvimento e inovação ligadas às áreas de: genética molecular, bioinformática, melhoramento genético animal, melhoramento genético vegetal, e gestão laboratorial. Possui expertise nas técnicas de: extração de ácidos nucleicos, marcadores moleculares, expressão gênica, purificação e sequenciamento de amplicons, análise de dados de NGS (genômica e transcriptômica) provenientes de short e long reads, montagem e anotação de genomas, técnicas de microbiolgia básica, desenvolvimento e validação de métodos de diagnóstico molecular.

FAUSTO DE SOUZA SOBRINHO

FAUSTO DE SOUZA SOBRINHO

Engenheiro Agrônomo, Pesquisador Embrapa Gado de Leite

SANZIO CARVALHO LIMA BARRIOS

SANZIO CARVALHO LIMA BARRIOS

Engenheiro Agrônomo, Pesquisador Embrapa Gado de Corte

MARIANE DE MENDONCA VILELA

MARIANE DE MENDONCA VILELA

Bióloga, Analista Embrapa Gado de Corte

BIANCA BACCILI ZANOTTO VIGNA

BIANCA BACCILI ZANOTTO VIGNA

Bióloga, Pesquisadora Embrapa Pecuária Sudeste

MATEUS FIGUEIREDO SANTOS

MATEUS FIGUEIREDO SANTOS

Engenheiro Agrônomo, Pesquisador Embrapa Gado de Corte

JUAREZ CAMPOLINA MACHADO

JUAREZ CAMPOLINA MACHADO

Engenheiro Agrônomo, Pesquisador Embrapa Gado de Leite


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