Causa e Efeito

Qualidade do Leite | 30 de Junho de 2017 Voltar

Edição #95 - Fevereiro/2017

CAUSA & EFEITO

Influência da ordenhadeira sobre o desempenho da ordenha e saúde do úbere 

Dando continuidade à matéria apresentada na edição de janeiro (págs. 76 a 84), apresentaremos nessa edição as formas de otimizar a utilização da máquina de ordenha, e evitar a ocorrência de lesões e novas infecções.

OTIMIZAÇÃO DA MÁQUINA DE ORDENHA

Além da instalação correta, segundo os padrões do fabricante, é essencial que o equipamento de ordenha seja submetido a revisões e manutenções periódicas, realizadas por um técnico devidamente treinado. A exigência de manutenção irá variar, dependendo das horas de funcionamento, do fabricante e das condições ambientais. Como regra geral, o equipamento de ordenha requer uma revisão a cada 750 horas, e uma manutenção a cada 1.500 horas de funcionamento.

Além das manutenções regulares, todos os operadores devem estar treinados em uma série de verificações, que devem ser realizadas, diariamente, para assegurar que a ordenhadeira esteja funcionando de modo adequado.

Uma lista detalhada de testes básicos a serem realizados na fazenda foi produzida pela IDF, em 2005, incluindo:

• o nível do vácuo em funcionamento, no início e durante a ordenha, para assegurar que o mesmo mantenha-se estável durante todo o processo;
• a pulsação, avaliando a velocidade dos pulsadores e o movimento das teteiras;
• o escape de ar dos conjuntos de ordenha, que devem ser verificados e limpos no início de cada ordenha;
• a estabilidade do vácuo, com a remoção periódica dos dois tubos de leite longos e averiguação se o nível cai menos de 1 kPa. Este é um teste básico para assegurar uma reserva de vácuo satisfatória e eficaz.

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Foto: Estima-se que entre 6% e 20% das novas infecções de mastite estavam direta ou indiretamente relacionadas ao funcionamento da máquina de ordenha.

CONDIÇÃO DOS TETOS

No final da década de 1990, um grupo de especialistas mundiais em máquina de ordenha e saúde da glândula mamária, formou o Teat Club International, com o objetivo de reunir conhecimento prático, com base em evidências relacionadas à influência da ordenhadeira sobre o desempenho da ordenha e saúde do úbere. Este grupo dividiu os efeitos da ordenhadeira sobre a condição dos tetos em três categorias:
• Os efeitos principais de curto prazo, isto é, após uma única ordenha, podem incluir alterações na cor, inchaço e rigidez da extremidade do teto e do canal, e o grau de abertura do orifício do teto.
• Os principais efeitos de médio prazo (que requerem alguns dias ou semanas de desenvolvimento) incluem alterações na condição da pele do teto e a incidência de hemorragias puntiformes.
• As alterações nos níveis de hiperqueratose dos orifícios parecem se desenvolver a longo prazo (normalmente 2 a 8 semanas), mas podem ocorrer mais rapidamente na presença de condições climáticas ou ambientais extremas.

ALTERAÇÕES DE CURTO PRAZO NA CONDIÇÃO DO TETO (RESPOSTAS A UMA ÚNICA ORDENHA)

Tem sido reconhecido, há bastante tempo, tanto por observações de campo como experimentalmente, que falhas no equipamento ou no manejo da ordenha são a causa primária das mudanças de curto prazo da cor, rigidez, espessura ou inchaço dos tetos, ou do “grau de abertura” do orifício do teto.

COR

Para estudos mais robustos ou avaliações do rebanho, os tetos podem ser classificados pelas mudanças de cor observadas, variando do ligeiramente avermelhado até o azul. Mas, o mais importante nessa observação é responder às seguintes questões:
“O teto está normal ou não?”
“ Esse é um problema do rebanho ou de uma vaca individual?”

As mudanças na cor são influenciadas pela sobreordenha, conjunto de ordenha muito pesado, alto nível do vácuo, pulsação inadequada ou uma incompatibilidade entre o tipo de teteira usado e o tamanho médio dos tetos.

O GRAU DE HIPERQUERATOSE NA EXTREMIDADE DO TETO É UMA CONDIÇÃO DINÂMICA, SENDO, GERALMENTE, A QUE OS PRODUTORES DE LEITE NOTAM PRIMEIRO E QUE LHES TRAZ MAIOR PREOCUPAÇÃO

INCHAÇO E RIGIDEZ

Novamente, para a resolução dos problemas, a informação mais importante é se existe edema de qualquer natureza ou o teto está normal. Os fatores responsáveis pelo inchaço, ao redor da parte superior dos tetos, geralmente incluem alto nível de vácuo no bocal, sobreordenha e incompatibilidade entre o tipo de teteira usado e o tamanho médio dos tetos. A rigidez dos tetos está, normalmente, associada a teteiras rígidas, fase de extração prolongada ou falha das teteiras para abrir completamente durante a pulsação.

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Foto: A retirada do conjunto de ordenha, sem o desligamento prévio do vácuo, pode causar danos vasculares e lesões nos tetos.

ALTERAÇÕES DE MÉDIO PRAZO NA CONDIÇÃO DO TETO (RESPOSTAS VISÍVEIS APÓS ALGUNS DIAS OU SEMANAS)

CONDIÇÃO DA PELE DO TETO

Tal como acontece com as alterações de curto prazo, existem muitos fatores interrelacionados variando desde os ambientais e climáticos até a idade da vaca, e fatores químicos e biológicos, que podem fazer com que a pele do teto se deteriore.

Quanto mais seca e rugosa a pele, maior será a colonização por bactérias, aumentando, assim, o desafio da extremidade do teto e as taxas de novas infecções.

Além disso, a pele não é muito elástica, o que pode causar desconforto às vacas e, com isso, liberação de hormônios do stress, que são antagônicos ao reflexo de descida de leite.

DANO VASCULAR

É caracterizado por manchas de sangue ou hemorragia mais extensa, e geralmente reflete algum tipo de falha na pulsação, especialmente com alto nível de vácuo, sobreordenha prolongada e retirada do conjunto sem desligar o vácuo.

ALTERAÇÕES DE LONGO PRAZO NA CONDIÇÃO DA EXTREMIDADE DO TETO (RESPOSTA VISÍVEL APÓS ALGUMAS SEMANAS)

HIPERQUERATOSE

O grau de hiperqueratose na extremidade do teto é uma condição dinâmica, sendo, geralmente, a que os produtores de leite notam primeiro e que lhes traz maior preocupação.

Seguindo uma investigação mais aprofundada, não é incomum registrar que o problema esteja mais relacionado com a vaca do que com o rebanho, já que há tantos fatores que afetam a condição final do teto, incluindo o formato da sua extremidade, a idade da vaca, o nível de produção e o estágio da lactação, as interações entre o manejo da ordenha e fatores relacionados ao equipamento (especialmente a ordenha lenta, a sobreordenha e lesões da pele do teto), e genética.

UMA ROTINA EFICAZ E CONSISTENTE DE PREPARAÇÃO DOS TETOS ANTES DA ORDENHA PODE SER BENÉFICA TANTO PARA A QUALIDADE DO LEITE, COMO PARA A CONDIÇÃO DOS TETOS

Tal como identificado em uma série de estudos, a hiperqueratose na extremidade do teto pode ser influenciada pela preparação prévia do úbere, pelo momento da colocação do conjunto de ordenha e pelas definições de limiar para os extratores automáticos. Estes efeitos são exacerbados pelo alto nível de vácuo, sobreordenha, retirada do conjunto sem desligar o vácuo e uso de teteiras com bocais rígidos. Isto é, pelo menos em parte, explicado pela carga compressiva aplicada pela teteira, durante o fechamento e a fase fechada do ciclo de pulsação. Resumindo os resultados de muitos estudos sobre a carga de compressão, concluiuse que, dentre os fatores de manejo de ordenha e aqueles relacionados ao equipamento, o tempo total por dia no qual a vazão do leite é inferior a 1,0 kg/min, parece ser o mais importante na condição da extremidade do teto. No entanto, vale lembrar que o nível de hiperqueratose é muito influenciado por outros fatores que não a máquina de ordenha, podendo-se citar o clima e o meio ambiente, a produção de leite e a genética das vacas.

O canal do teto é extremamente retorcido e revestido com queratina. As células de queratina maduras têm propriedades adesivas e são capazes de capturar patógenos que entram no canal do teto. Durante a ordenha, a ação da pulsação e o fluxo de leite através do canal do teto removem as células de queratina maduras e qualquer bactéria aderente. Esta ação de descarga ajuda a “limpar” a superfície do canal do teto.

No entanto, quando essa remoção se torna excessiva, possivelmente por ação mecânica, a produção de queratina no canal do teto é estimulada, e isto é frequentemente percebido, à palpação, como filetes endurecidos e presença de um anel espesso de queratina ao redor do orifício.

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Foto: Hiperqueratose severa da extremidade do teto. 

ROTINAS DE ORDENHA

Uma rotina eficaz e consistente de preparação dos tetos antes da ordenha pode ser benéfica tanto para a qualidade do leite, como para a condição dos tetos. Uma rotina completa vai melhorar não só os níveis de contaminação do leite, como também o desempenho na sala de ordenha e a produção.

Infelizmente, com a crescente pressão para melhorar o desempenho na sala de ordenha, em termos de vacas ordenhadas ou litros produzidos por hora, a rotina é muitas vezes comprometida. No entanto, como observado na Tabela 1, a limpeza efetiva dos tetos, frequentemente, produz um efeito benéfico acentuado na qualidade microbiológica do leite.

TABELA 1. Efeitos da preparação do teto pré-ordenha na contagem padrão em placas (CPP)

 

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A situação não é tão clara quando se trata da saúde do úbere, embora benefícios possam ser vistos, particularmente, onde os principais problemas se relacionam com bactérias de origem ambiental.

No entanto, as melhorias na saúde do úbere são dependentes tanto do tempo de contato dos produtos de higienização, quanto da quantidade de resíduos orgânicos deixados após a limpeza dos tetos. Um benefício adicional da desinfecção pré-ordenha é que, quando os conjuntos de ordenha são acoplados, os tetos já estão cheios de leite, reduzindo os gradientes inversos de pressão através do canal, e minimizando, assim, a transferência de bactérias.

O benefício máximo da estimulação pré-ordenha será alcançado se a unidade for acoplada após permitir tempo suficiente para que a resposta de ejeção do leite atinja o seu pico. A fixação do conjunto de ordenha cerca de 60 a 90 segundos após o início da preparação do teto pode tornar a ordenha mais eficiente.

Com base em estudos práticos em todo o mundo, é agora uma prática comum para rebanhos ordenhados duas vezes por dia, com uma rotina de pré-ordenha satisfatória, ter pontos de troca nos extratores automáticos estabelecidos em 400 g/min, com um atraso de cinco segundos. Para rebanhos ordenhados três vezes ao dia, pontos de troca ajustados em 700 g/min e um atraso de cinco segundos não são incomuns. Um benefício adicional do ajuste dos extratores automáticos é uma redução considerável na hiperqueratose na extremidade do teto. Acredita-se que isto esteja relacionado com o tempo reduzido em que a unidade é ligada à vaca quando o fluxo de leite é inferior a 1000 g/min. No entanto, é essencial que os extratores automáticos sejam ajustados apenas se houver total certeza de que foi adotada uma rotina de ordenha completa e correta, por todos os ordenhadores em todos os momentos, que inclua pelo menos 20 segundos de preparação do teto e um tempo de espera para acoplar o conjunto entre 60 e 90 segundos.

A ordenhadeira e as rotinas de ordenha não devem ser vistas individualmente. A coleta completa e eficaz do leite é uma combinação de todos os elementos da máquina e da rotina de ordenha.

Texto e fotos: IAN OHNSTAD The Dairy Group - Taunton, UK