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Manejo, Sanidade

Clostridioses - controle e profilaxia

Com alta mortalidade e potencial para induzir grandes perdas econômicas, as clostridioses tornam nossa missão desafiadora, mas possível graças às estratégias de profilaxia e controle.

Clostridioses - controle e profilaxia

Bactérias do gênero Clostridium são responsáveis por doenças que podem acometer os rebanhos e, por estarem presentes na matéria orgânica (algumas espécies podem também estar no organismo do animal), seu controle torna-se um desafio ainda maior. As clostridioses ocorrem, geralmente, em forma de surtos, determinando forte perda econômica no sistema de produção. 


ALVO:

Quando a infecção é fortemente disseminada, fatores como idade, sexo e número de animais afetados exercem influência direta sobre o prejuízo acarretado, composto por gastos com assistência veterinária e medicação, perda dos investimentos aplicados na criação do indivíduo perdido e compra de animal para reposição. É importante lembrar que o preço da arroba e dos insumos à época desse descarte involuntário também influenciam no valor total do prejuízo, já que podem significar maior gasto para a reposição do animal. 

As clostridioses apresentam altíssimas taxas de mortalidade e elevadas chances de se apresentarem em forma de surto. Isso significa que, na maior parte das vezes, os prejuízos serão ampliados em função da grande quantidade de animais afetados – e que virão a óbito, em sua maioria. Por exemplo, Soares et.al (2018) relataram os impactos econômicos decorrentes do surto de botulismo que acometeu um confinamento de 6.300 bovinos de corte, dos quais 25 animais foram afetados: o prejuízo total foi de cerca de 55 mil reais. Em contrapartida, o custo da vacinação preventiva de todo o rebanho (e não apenas dos que vieram a óbito) seria de 14 a 22% da perda demonstrada.


MISSÃO: 

Há mais de dois séculos foram descobertas as vacinas e, desde então, diversos experimentos foram realizados para torná-las cada vez mais eficazes, com menos efeitos colaterais e maior proteção do indivíduo contra as doenças. No caso das clostridioses não foi diferente, de forma que o mercado disponibiliza variedades de vacinas que conferem ótima proteção imunológica. No intuito de facilitar o calendário vacinal e pelo fato das vacinas serem compostas pelo mesmo gênero de bactérias, a maior parte dos fabricantes optou por produzir imunógenos do tipo polivalente, ou seja, que têm a capacidade de imunizar contra vários agentes. 

Sobre a forma de apresentação, as vacinas podem ser vivas, vivas atenuadas e inativadas. As vivas, como o nome já diz, possuem o agente vivo na composição, logo, ativam intensa resposta imunológica. Contudo, estão associadas ao risco de desenvolvimento de quadro clínico, principalmente se o indivíduo estiver imunossuprimido. Já as vivas atenuadas também possuem o agente na formulação, mas esse é “enfraquecido” por métodos laboratoriais ou naturais, o que acarreta menos efeitos adversos. As vacinas inativadas, por sua vez, contêm o agente morto, o que gera resposta imune eficiente, mas não desencadeia as reações adversas que podem ser associadas às vacinas vivas. Nesse tipo de imunógeno, para ajudar a estimular a resposta imune do indivíduo, são adicionados adjuvantes. Por fim, as vacinas com produtos microbianos também são inativadas e apresentam adjuvantes, mas são compostas por alguma parte do agente que seja capaz de gerar resposta imune, como proteínas ou, até mesmo, toxóides, que são partes de toxinas.

Foto 1. Animal com fezes sanguinolentas devido a enterotoxemia desencadeada por bactéria do gênero Clostridium.


Das vacinas clostridiais para bovinos, recomenda-se as que contenham culturas inativadas de Clostridium chavoei e toxóides de C. tetani, C. botulinum, C. septicum, C. sordellii, C. novyi e C. perfringes tipos A, B, C e D. Como a composição de nenhum imunizante é “perfeita”, é importante consultar o Médico Veterinário para selecionar a vacina que será aplicada no rebanho, pois os fatores de risco presentes na propriedade devem ser avaliados, bem como os tipos de Clostridium aos quais o rebanho está mais susceptível.  


AÇÃO:

Uma vez inoculada a vacina, o sistema imunológico, especialmente a classe dos linfócitos, é induzido a produzir defesas contra o agente inativado e os toxóides do gênero Clostridium. Os linfócitos T, ao entrarem em contato com os antígenos apresentados, começam o processo de identificação e desenvolvimento de memória. Em seguida, ocorre a comunicação entre linfócitos T e linfócitos B, sendo esses últimos os responsáveis por iniciarem a produção de anticorpos específicos contra o agente. 

As variações antigênicas entre as cepas, a capacidade de evasão do sistema imune, como no caso do C. chauvoei, e os problemas relacionados à eficiência das vacinas frente aos desafios naturais influenciam diretamente na variação da resposta imune humoral e concentração de anticorpos entre as espécies de Clostridium. A fim de manter a produção de anticorpos alta e garantir a proteção do rebanho, a vacina deve ser administrada em intervalos programados.


CHECKLIST:

A vacinação dos animais e a remoção dos fatores de risco são as formas mais importantes de profilaxia que podem ser aplicadas nos rebanhos. A imunização dos animais, em especial, é fundamental, pois apresenta alta eficácia e baixo custo (principalmente frente ao altíssimo prejuízo associado ao surto). Porém, é importante destacar alguns fatores que podem alterar a eficácia da prevenção e a probabilidade de surtos nos rebanhos:  

Armazenamento: as vacinas devem ser armazenadas conforme indicações do fabricante. De modo geral, entre 2° C e 8º C, nas prateleiras da geladeira (nunca na porta, pois essa parte do refrigerador está mais susceptível às flutuações de temperatura), ao abrigo de luz e fontes de calor. É ideal, ainda, que a temperatura do refrigerador seja monitorada. Em caso de aumento da temperatura do ambiente ou falha no fornecimento de eletricidade, a vacina pode perder eficácia, devendo, portanto, ser descartada. Da mesma forma, frascos abertos não devem ser armazenados.

Época de vacinação e tempo entre doses: durante os primeiros 90 dias dos bezerros, o colostro ingerido é capaz de manter a defesa imunológica contra as clostridioses. Entretanto, no período próximo aos 120 dias de vida, essa resposta imunológica decresce, o que justifica esse ser o melhor momento para o calendário vacinal ser iniciado. A primeira dose deve ser administrada entre 90 e 120 dias de idade, com reforço após 30 dias. Após esse período, a vacina pode ser efetuada semestralmente ou anualmente. Caso o intervalo entre as doses seja ampliado, há risco dos animais atravessarem algum período sem cobertura vacinal contra as clostridioses, o que favorece a ocorrência de surtos. Em propriedades com fatores de risco graves e/ou numerosos, o Médico Veterinário sanitarista pode recomendar doses extras de vacina.  

Associação entre vacinas: Neto et al. (2021) demonstraram que vacinar bezerras contra brucelose e clostridioses no mesmo dia pode interferir na resposta imune humoral, diminuindo a produção de anticorpos neutralizantes, responsáveis por agir na presença de bactérias do gênero Clostridium. Por esse motivo, o manejo de vacinação contra brucelose deve ocorrer de forma isolada. Já as vacinas contra raiva e clostridioses podem ser administradas no mesmo dia.

• Ferramentas para aplicação: a pistola deve estar higienizada e calibrada para o volume de 5 ml por bovino e as agulhas devem ser desinfetadas por água fervente antes do uso. A mesma agulha não deve ser utilizada em mais de dez animais.  

Bactérias Clostridium estão por toda parte! Se livrar totalmente dos agentes não é tarefa fácil, mas a seleção da vacina mais efetiva e os cuidados durante a aplicação são as ferramentas que tornam possível a missão de proteger seu rebanho contra as clostridioses e seu bolso contra os prejuízos.   


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