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Sustentabilidade

Coluna Sustentabilidade Integral, especial COP30: qual o papel da pecuária leiteira em um planeta sob pressão?

Coluna Sustentabilidade Integral, especial COP30: qual o papel da pecuária leiteira em um planeta sob pressão?

Coluna Sustentabilidade Integral, especial COP30: qual o papel da pecuária leiteira em um planeta sob pressão?

Nos últimos anos, a ciência tem nos mostrado evidências cada vez mais claras: estamos ultrapassando a capacidade de resiliência do planeta. O Planetary Health Check 2025 revelou que sete dos nove limites planetários já foram transgredidos, entre eles clima, biodiversidade, uso da terra, ciclos de água e nutrientes, além da poluição química e da acidificação dos oceanos. 

Como canta Cazuza em “O tempo não para”, “dias sim, dias não, eu vou sobrevivendo sem um arranhão”. A metáfora cabe bem ao planeta: por um tempo, ele resiste; mas, caso não haja mudanças significativas na forma com que temos vivido, podem se formar feridas irreversíveis. A mensagem é clara: o tempo não para, e a pecuária leiteira precisa agir agora e ser parte da solução. 

A COP30 trará para o Brasil o centro das discussões globais sobre clima. Esta edição especial da coluna Sustentabilidade Integral, da Revista Leite Integral, inaugura a cobertura que acompanhará de perto o papel do agronegócio e da pecuária de leite na agenda ambiental, com Bruna Silper participando do evento e conectando ciência, campo e comunicação. Neste momento pré-COP, este artigo traz a reflexão: qual o papel da pecuária leiteira em um planeta sob pressão? Como o setor pode ajudar a equilibrar a relação entre produtividade, clima e os limites que sustentam a vida? 

O que são os limites planetários? 

O conceito de limites planetários foi desenvolvido em 2009 por Johan Rockström e colegas, atualizado ao longo da última década e reafirmado pelo relatório de 2025. Ele descreve nove dimensões críticas para a manutenção de condições estáveis na Terra, representados na Figura 1, com informações do estado atual.

A MENSAGEM É CLARA: O TEMPO NÃO PARA, E A PECUÁRIA LEITEIRA PRECISA AGIR AGORA E SER PARTE DA SOLUCÃO  



Existe um espaço seguro: enquanto permanecermos dentro dele, a Terra consegue se autorregular. Mas quando ultrapassamos esses limites e adentramos as zonas de risco de atingimento dos pontos de não retorno, em que processos naturais perdem sua resiliência. Cada um dos limites planetários influencia os demais. O desmatamento, por exemplo, reduz a biodiversidade, compromete o ciclo da água e acelera a mudança do clima devido a emissões de gases de efeito estufa. 

A pecuária leiteira e os limites planetários 

A produção de leite está conectada a praticamente todos os limites planetários. Entender essa relação é essencial para identificar onde estão os riscos e onde residem as oportunidades de transformação. A Figura 2 resume como práticas sustentáveis na pecuária leiteira podem contribuir para respeitar os limites planetários.




Clima 

A pecuária, assim como diversas outras atividades econômicas, é fonte de gases de efeito estufa, como metano entérico (CH4) e óxido nitroso (N2O). Estes gases possuem potencial de aquecimento global (GWP 100) maior que o do CO2 , apesar de permanecerem menos tempo na atmosfera. 

Na prática: aumento da produtividade, eficiência alimentar, uso de coprodutos e subprodutos e biodigestores são exemplos de como reduzir de forma significativa as emissões na pecuária leiteira, ao mesmo tempo em que favorecem a rentabilidade da atividade.

Biodiversidade 

A expansão de áreas de pastagem sobre ecossistemas naturais está entre as principais causas de perda de biodiversidade no Brasil. Por outro lado, práticas como integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF) e agricultura regenerativa ajudam a restaurar habitats, favorecer polinizadores e manter a biodiversidade no solo. 

Na prática: é urgente que o desmatamento seja zerado e biomas sejam regenerados para retorno ao equilíbrio e à zona segura frente às barreiras planetárias. 

Uso da terra 

Mais de 60% da área agrícola do Brasil é ocupada por pastagens, cerca de 21% do território nacional. Boa parte dessas áreas ainda é de baixa produtividade, o que evidencia o desafio e a oportunidade para aumento de produção, sem necessidade de expansão de áreas. 

Na prática: buscar intensificação sustentável, práticas regenerativas e diversificação de culturas e crescimento em produtividade. 

Água doce 

Atividades antropogênicas podem impactar tanto a água azul (rios, lagos) quanto a água verde (umidade do solo). Baixa eficiência de uso, má administração dos efluentes, falta de planejamento e estrutura podem comprometer bacias hidrográficas. 

Na prática: conservação de nascentes, reuso de água na limpeza de instalações e fertirrigação com dejetos são alternativas para preservação da qualidade e disponibilidade de água. 

Nutrientes (N e P) 

A orientação agronômica é fundamental para que a aplicação de fertilizantes seja feita com critério, sem que haja risco ou sobrecarga a solos e rios, o que pode resultar em eutrofização e emissão acentuada de óxido nitroso. 

Na prática: biodigestores, compostagem e biofertilizantes formam ciclos de nutrientes dentro da propriedade rural e transformam resíduos em insumos. 

Novas entidades 

O uso de antibióticos, plásticos (por exemplo na conservação de forragens), e produtos químicos na limpeza, por exemplo, podem contribuir para o rompimento desta barreira. 

Na prática: manejo racional de antibióticos, descarte adequado de embalagens e substituição por insumos menos poluentes reduzem riscos. 

O que já sabemos que funciona 

O setor leiteiro não parte do zero. Já existem soluções testadas e aplicáveis a diferentes sistemas de produção, capazes de contribuir para a manutenção das atividades dentro do espaço seguro de operação: 

• Eficiência produtiva: aumentar litros/vaca/dia dilui emissões de gases de efeito estufa por kg de leite; 

• Mitigação de metano: aditivos alimentares podem atuar no rúmen e reduzir as emissões entéricas; 

• Agricultura regenerativa: técnicas como rotação de culturas, ILPF e plantio direto contribuem para a estocagem de carbono no solo, além de melhorar a saúde do solo e a produtividade das lavouras; 

• Manejo de dejetos: biodigestores transformam resíduos em energia limpa e coprodutos para devolver matéria orgânica e nutrientes ao solo; 

• Bem-estar animal: sistemas que favorecem conforto e saúde resultam em maior resiliência para os sistemas produtivos.  

O SETOR LEITEIRO NÃO PARTE DO ZERO. JÁ EXISTEM SOLUÇÕES TESTADAS E APLICÁVEIS A DIFERENTES SISTEMAS DE PRODUÇÃO, CAPAZES DE CONTRIBUIR PARA A MANUTENÇÃO DAS ATIVIDADES DENTRO DO ESPAÇO SEGURO DE OPERAÇÃO


Efeitos em cascata: a força das interações 

O Planetary Health Check destaca que os limites não são situações isoladas. Isso também é verdade dentro da fazenda: 

• Melhorar o bem-estar animal → mais saúde menor perda de animais menos emissões de GEE. 

• Tratar dejetos → menos metano mais biofertilizante menor dependência e gastos com adubos químicos. 

• Realizar manejo regenerativo de solo → mais carbono estocado no solo melhor estrutura do solo mais água no solo maior biodiversidade no solo. 


Esses são alguns exemplos de práticas com múltiplos benefícios. Cada boa prática gera efeitos diretos e indiretos, que se somam e reduzem riscos ambientais e produtivos. Como mostra a Figura 3, esses efeitos em cascata revelam como ações integradas na fazenda, do manejo ao bem-estar animal, fortalecem a regeneração dos sistemas produtivos e ambientais.



Desafios 

Apesar dos avanços, alguns obstáculos para a evolução nestes quesitos são: 

• Acesso desigual: pequenos produtores têm menos recursos para investir em tecnologias; 

• Cultura e informação: ainda há resistência em adotar práticas inovadoras; 

• Dados: o Brasil carece de informações robustas sobre emissões de GEE no setor, o que reforça a importância de inventários nacionais; 

• Políticas públicas: faltam incentivos econômicos às práticas sustentáveis em larga escala.  

Oportunidade Brasil: COP30 e além 

Em novembro de 2025, Belém será palco da COP30. É uma chance única para o Brasil mostrar ao mundo suas soluções e liderar a discussão.

Com biodiversidade única, tecnologias desenvolvidas localmente e experiências de sucesso já em curso, o país pode liderar a transição para uma pecuária equilibrada, integrada e biodiversa. A presença da ESGpec nesse debate reforça a missão de trazer ciência aplicada e ferramentas digitais que ajudam o setor a mensurar, planejar e agir.

Conclusão: as mudanças são urgentes e é tempo de agir 

O Planetary Health Check 2025 mostra que grande parte da biosfera já está nas zonas de risco, mas há caminhos para restaurar a estabilidade da Terra. 

Na pecuária leiteira, cada decisão importa. Da dieta ao manejo do esterco, da genética ao uso da terra, as escolhas de hoje podem reposicionar o setor como protagonista da solução climática e ecológica. 

O tempo, como lembra a música, segue em frente sem esperar. E é justamente por isso que este momento exige ação e diálogo. Temos a oportunidade de mostrar que a pecuária leiteira no Brasil pode ser parte da solução, com sistemas produtivos equilibrados, integrados e biodiversos, comprometidos com a regeneração do planeta e seus biomas.  

Esta edição especial marca a parceria entre a Revista Leite Integral e a ESGpec, em uma colaboração voltada à difusão de conhecimento técnico e científico sobre sustentabilidade na pecuária. Juntas, Revista e startup atuam para aproximar o campo da ciência, traduzindo dados em informação acessível, promovendo reflexão, engajamento e ação concreta.

EM NOVEMBRO DE 2025, BELÉM SERÁ PALCO DA COP30. É UMA CHANCE ÚNICA PARA O BRASIL MOSTRAR AO MUNDO SUAS SOLUÇÕES E LIDERAR A DISCUSSÃO  

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Autores

Bruna Silper

Bruna Silper

Bruna Silper, Veterinária, especialista em pecuária de precisão e soluções sustentáveis, PhD em Ciência Animal, produtora de leite em MG e colunista de sustentabilidade da Revista Leite Integral

HELOISE DUARTE

HELOISE DUARTE

Médica veterinária, especialista em Gestão Agroindustrial e produtora de corte em MG

LUIZ GUSTAVO PEREIRA

LUIZ GUSTAVO PEREIRA

Médico veterinário, professor e pesquisador, Doutor em Ciência Animal, especialista em nutrição e sistemas regenerativos


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