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Notícias, Sustentabilidade

O bem-estar animal na agenda global da sustentabilidade do leite

O bem-estar animal na agenda global da sustentabilidade do leite

O bem-estar animal vem passando por uma transformação profunda e em âmbito global. Um conceito que, durante muito tempo, esteve associado sobretudo à ética, à percepção do consumidor e à comunicação institucional passou a ocupar o centro de agendas regulatórias, de compromissos corporativos e de exigências de mercado. Esse novo posicionamento aparece de forma clara nas discussões consolidadas no IDF Dairy Cattle Welfare Forum: Key Insights (Fórum da IDF sobre BemEstar de Vacas Leiteiras: Principais aprendizados), publicado em janeiro de 2026 pela International Dairy Federation (Federação Internacional de Lácteos), que reúne aprendizados técnicos e estratégicos a partir do Fórum Global de Bem-Estar Animal, realizado em Santiago, Chile, em outubro de 2025.

A leitura desse material evidencia que o debate internacional já não gira em torno de “se” o bem-estar animal importa, mas de “como” estruturar programas viáveis, escaláveis e aderentes à diversidade dos sistemas produtivos existentes. É nesse ponto que o tema deixa de ser periférico e passa a integrar o núcleo de discussões sobre competitividade, acesso a mercados e legitimidade social da produção leiteira.

Esse movimento dialoga com o espírito da música “Novo tempo”, de Ivan Lins, referência que atravessa esta coluna. A música fala de atravessar fases complexas com atenção, maturidade e responsabilidade. Assim como na canção, a discussão sobre práticas de bem-estar animal chegou a um momento em que crescer, adaptar-se e decidir deixaram de ser alternativas e passaram a ser parte do caminho.

Ao mesmo tempo, esse novo tempo já começa a ser lido a partir de dados brasileiros gerados no campo. Avaliações estruturadas de bem-estar animal realizadas nas diferentes regiões do país ajudam a traduzir o debate global para a realidade das fazendas, revelando avanços, desafi os e prioridades concretas. É nessa combinação entre referências internacionais e dados nacionais que este artigo se apoia.

O DEBATE INTERNACIONAL JÁ NÃO GIRA EM TORNO DE “SE” O BEM-ESTAR ANIMAL IMPORTA, MAS DE “COMO” ESTRUTURAR PROGRAMAS VIÁVEIS, ESCALÁVEIS E ADERENTES À DIVERSIDADE DOS SISTEMAS PRODUTIVOS EXISTENTES


Expectativas crescem mais rápido do que a capacidade de adaptação

Um dos pontos mais recorrentes do debate no IDF foi a velocidade com que as expectativas regulatórias e de mercado vêm evoluindo. Projetos de bem-estar animal precisam acompanhar esse ritmo, sendo capazes de se ajustar a novas demandas sem perder coerência técnica. A mensagem do Fórum foi clara: modelos rígidos, desenhados de forma genérica ou desconectados das condições produtivas tendem a gerar resistência na adoção e, consequentemente, têm baixa efetividade.

Em contrapartida, experiências bem-sucedidas têm sido aquelas compostas por frameworks claros de boas condutas, combinados com mecanismos flexíveis de avaliação e foco em melhoria contínua por parte dos produtores. Mais do que cumprir requisitos, trata-se de construir trajetórias de avanço possíveis dentro da diversidade das configurações produtivas, e que atendam também aos desejos das diversas partes que compõem o setor leiteiro.

O desafio central é a adesão

Cada dia mais, tem-se tornado evidente que o principal desafio para a adoção de boas práticas de bem-estar animal não é técnico, mas humano. A adesão dos produtores continua sendo um fator decisivo para o sucesso de qualquer programa de bem-estar animal. “Comprar a ideia” depende de enxergar valor prático, coerência com o manejo diário e compatibilidade com a viabilidade econômica das fazendas.

Ao mesmo tempo, há uma tensão constante entre diretrizes da esfera regulatória, demandas de organizações da sociedade civil, pressões dos consumidores e aquilo que, de fato, consegue ser implementado nas propriedades rurais. Programas construídos sem diálogo com quem produz tendem a falhar, independentemente da qualidade técnica de seus critérios. O Fórum reforçou que o bem-estar animal precisa ser construído com os produtores, e não apenas para eles.

Clima, estresse térmico e bem-estar entram na mesma conversa 

Um tema moderno que amplia ainda mais essa complexidade é o aquecimento global, e com ele, as mudanças climáticas. O aumento da frequência e da intensidade de eventos extremos exerce pressão adicional sobre temas clássicos do bem-estar animal, como o conforto térmico, o comportamento e a nutrição. Estresse térmico e produção de forragens, por exemplo, passam a ser adversidades estruturais em muitas regiões.

Nesse cenário, o bem-estar animal deixa de ser apenas uma questão de manejo e passa a se relacionar diretamente com a resiliência dos sistemas de produção. Soluções isoladas perdem efi cácia e a discussão passa a exigir abordagens integradas que incluam manejo, infraestrutura, genética e planejamentos agrícola e produtivo.

O bem-estar animal resulta da interação entre ambiente, nutrição, saúde e comportamento, dimensões que demandam avaliação estruturada e monitoramento contínuo

Diferentes países, questões surpreendentemente semelhante  

Apesar das diferenças entre países e modelos produtivos, as discussões do Fórum evidenciaram que as questões relacionadas ao bem-estar animal são surpreendentemente semelhantes em contextos socioeconômicos distintos. Experiências de Austrália, Canadá e México, seja em iniciativas lideradas por governos, indústrias ou associações de produtores, revelam pontos em comum que ajudam a explicar o sucesso de iniciativas nestes países.

Entre esses pontos estão a existência de frameworks claros de métodos recomendados, indicadores alinhados aos cinco domínios do bem-estar animal, relatórios transparentes, engajamento de múltiplas partes interessadas e coleta consistente de dados ao longo do tempo. O método de governança é diverso entre programas modelo, mas a lógica de construção é convergente.

Bem-estar animal, sustentabilidade e qualidade do leite

Outro aspecto central do debate foi a integração crescente entre bem-estar animal, sustentabilidade e qualidade do leite. Assim como a qualidade do produto é monitorada de forma contínua há décadas, o bemestar animal começa a ser incorporado como parte de abordagens mais amplas de avaliação do desempenho das fazendas.

Essa conexão cria bases concretas para incentivos econômicos, diferenciação de mercado e reconhecimento dos esforços realizados por produtores e técnicos. O bem-estar animal deixa de ser percebido apenas como custo ou exigência externa e passa a ocupar um lugar estratégico na gestão da atividade leiteira (Figura 1).




Figura 1. Integração entre bem-estar animal e sustentabilidade na pecuária leiteira

O que as leituras de campo no Brasil já indicam 

Esse movimento de integração entre bem-estar animal, sustentabilidade e qualidade do leite não se limita à esfera internacional. Esses elementos já aparecem em trabalhos de campo realizados no Brasil, com base em diagnósticos estruturados de bem-estar animal em diferentes sistemas produtivos. Um exemplo é o levantamento conduzido por meio do BEA Score, ferramenta desenvolvida pela ESGpec, que consolidou os resultados de mais de 800 fazendas distribuídas por 11 estados brasileiros, refletindo uma ampla diversidade de ambientes produtivos. Parte significativa dessas avaliações foi realizada no contexto de projetos desenvolvidos em parceria com a Alvoar Lácteos, o Programa Educampo do SEBRAE Minas Gerais e a Rurale, entre outras iniciativas, conectando diagnóstico técnico, gestão da produção e melhoria contínua.

A análise agregada desses dados permite observar como os diferentes domínios do bem-estar animal se expressam. O domínio Ambiente apresenta, em média, um nível de atendimento de 78% dos critérios padrão-ouro, refletindo bom manejo em aspectos como instalações, conforto e estresse térmico. Nutrição aparece em seguida, com 73% dos critérios de boas práticas sendo adotados, o que mostra cuidado com a alimentação do rebanho.

O Estado mental dos animais, domínio que avalia relações homem-animal e positividade das experiências, apresenta um índice médio de 70%. Já os domínios Comportamento e Saúde concentram os maiores desafios, com 67% e 59% de atendimento ao padrão-ouro, respectivamente, o que indica espaço relevante para melhorias significativas nessas áreas (Figura 2).


Figura 2. Desempenho médio dos domínios do bem-estar animal nas fazendas avaliadas

A análise destes dados reforça uma das mensagens centrais do Fórum do IDF: o bem-estar animal não é um atributo único, mas o resultado do equilíbrio entre múltiplos fatores. Avançar exige olhar sistêmico, priorização técnica e propostas capazes de orientar a melhoria contínua, sem perder de vista a realidade operacional das fazendas e a disponibilidade de recursos humanos e financeiros.

Capacitação, tecnologia e governança como pilares do avanço

Para que esse avanço ocorra em escala, o treinamento de técnicos e produtores é elemento-chave. Formar pessoas capazes de aplicar boas práticas, interpretar indicadores e ajustar os manejos em diferentes cenários é essencial para a consolidação dos programas de bem-estar animal. Em muitos contextos, a escassez de profissionais qualificados torna ainda mais crítico o desenho de abordagens simples e aplicáveis.

Essas metodologias devem ser apoiadas por tecnologia, apontada no relatório do IDF como fator estruturante da melhoria contínua e do benchmarking. Sistemas digitais de coleta de dados, avaliação e acompanhamento permitem transformar observações de campo em informação organizada, facilitando a tomada de decisão, o aprendizado coletivo e a comunicação ao longo da cadeia produtiva.

O BEM-ESTAR ANIMAL NÃO É UM ATRIBUTO ÚNICO, MAS O RESULTADO DO EQUILÍBRIO ENTRE MÚLTIPLOS FATORES. AVANÇAR EXIGE OLHAR SISTÊMICO, PRIORIZAÇÃO TÉCNICA E PROPOSTAS CAPAZES DE ORIENTAR A MELHORIA CONTÍNUA, SEM PERDER DE VISTA A REALIDADE OPERACIONAL DAS FAZENDAS E A DISPONIBILIDADE DE RECURSOS HUMANOS E FINANCEIROS 

Por fim, mesmo que a governança dos arranjos de implementação do bem-estar animal varie entre regiões, indústrias, governos e produtores, ela precisa estar alinhada. Ações fragmentadas tendem a gerar sobreposição de exigências, confusão operacional e perda de confiança. O caminho mais promissor parece ser aquele que busca coordenação, clareza de objetivos e construção conjunta de soluções para a adoção em larga escala das melhores práticas de bem-estar animal.

O que o Fórum do IDF deixa como mensagem

O Fórum Global de Bem-Estar Animal do IDF reforça que o futuro do setor não será definido por exigências isoladas ou pela multiplicação de protocolos desconectados da realidade operacional. A chave está na capacidade de construir sistemas integrados, baseados em dados, com governança clara e diálogo permanente com as pessoas no meio rural.

O bem-estar animal, antes visto como requisito externo, consolida-se como parte estruturante da sustentabilidade, da resiliência e da competitividade no longo prazo. Como sugere a canção Novo Tempo, não se trata de negar as barreiras inerentes a esse processo, mas de reconhecer que esse é um momento de amadurecimento de toda a cadeia. É tempo de avançarmos apoiados em escolhas conscientes, construção coletiva e soluções capazes de transformar princípios em procedimentos cotidianos.



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Autores

Bruna Silper

Bruna Silper

Bruna Silper, Veterinária, especialista em pecuária de precisão e soluções sustentáveis, PhD em Ciência Animal, produtora de leite em MG e colunista de sustentabilidade da Revista Leite Integral

HELOISE DUARTE

HELOISE DUARTE

Médica veterinária, especialista em Gestão Agroindustrial e produtora de corte em MG

LUIZ GUSTAVO PEREIRA

LUIZ GUSTAVO PEREIRA

Médico veterinário, professor e pesquisador, Doutor em Ciência Animal, especialista em nutrição e sistemas regenerativos


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