Este site utiliza cookies

Salvamos dados da sua visita para melhorar nossos serviços e personalizar sua experiência. Ao continuar, você concorda com nossa Política de Privacidade, incluindo a política de cookie.

x
ExitBanner
Animais Jovens, Manejo

Como o estresse térmico afeta a fisiologia de bezerras leiteiras desde as primeiras semanas de vida

Temperaturas elevadas e variações térmicas ao longo do dia afetam a fisiologia de bezerras leiteiras desde as primeiras semanas de vida, com efeitos que podem repercutir no desempenho futuro dos animais

Como o estresse térmico afeta a fisiologia de bezerras leiteiras desde as primeiras semanas de vida

As mudanças climáticas tornaram-se realidade incontestável e exercem impactos crescentes sobre os sistemas de produção animal. Nesse cenário, a sustentabilidade da produção agropecuária dependerá, cada vez mais, da capacidade dos sistemas produtivos de se adaptarem às novas condições ambientais e se tornarem mais resilientes às variações climáticas, especialmente diante do aumento da temperatura média global. No caso da bovinocultura leiteira, dois fatores merecem atenção: o estresse térmico por calor e a amplitude térmica diária.

Calor e variação de temperatura: qual a diferença?

O estresse térmico por calor ocorre quando o animal não consegue dissipar o calor produzido pelo metabolismo e recebido do ambiente, seja por evaporação, condução, radiação ou convecção. Normalmente ocorre quando a temperatura do ambiente ultrapassa a zonas consideradas termoneutras, que geralmente variam entre 15 e 25°C.

No entanto, quando as temperaturas mínimas e máximas variam intensamente, ultrapassando essas zonas, ocorre o que chamamos de amplitude térmica. Quanto mais rápida e intensa é essa variação, maior é o desafio para animal, que precisa ativar mecanismos metabólicos e comportamentais para manter estável sua temperatura corporal e as funções fisiológicas. Essas alterações de temperatura possuem impactos deletérios que não se restringem apenas às vacas em lactação, mas também afetam categorias jovens, comprometendo o desenvolvimento e o desempenho futuro dos animais.


Em vacas em lactação, os efeitos do estresse térmico estão estabelecidos, incluindo redução no consumo de matéria seca, aumento do consumo de água, comprometimento do sistema imunológico, queda na produção de leite e redução da fertilidade. Entretanto, em animais jovens, as evidências científicas ainda são mais limitadas e menos consistentes quanto à magnitude e à persistência dos efeitos do estresse térmico. Devido à sua maior superfície corporal em relação à quantidade de massa, além da menor capacidade de produção de calor corporal, bezerras jovens tendem a ser mais tolerantes ao estresse térmico pelo calor quando comparados aos animais adultos, porém mais sensíveis às variações bruscas de temperatura ao longo do dia, ou seja, à amplitude térmica.


Dessa forma, a mitigação dos efeitos do estresse térmico requer a adoção de estratégias integradas de manejo, incluindo sistemas de resfriamento artificial (ventilação forçada, aspersão e nebulização no caso de estresse térmico por calor) e alternativas naturais, como sombreamento estratégico e melhoria das condições ambientais. A incorporação dessas práticas é essencial para garantir o bem-estar animal, manter o desempenho produtivo e promover a sustentabilidade dos sistemas de produção de leite em um cenário de mudanças climáticas intensificadas.


No entanto, os efeitos da amplitude térmica diária ainda são pouco considerados em avaliações experimentais e nos sistemas de monitoramento climático voltados para bezerras jovens. Essa lacuna é relevante, uma vez que oscilações térmicas acentuadas podem impor desafios adicionais à termorregulação, especialmente em animais com sistema fisiológico ainda em desenvolvimento, potencializando impactos sobre o desempenho, a saúde e o desenvolvimento futuro.


A MITIGAÇÃO DOS EFEITOS DO ESTRESSE TÉRMICO REQUER A ADOÇÃO DE ESTRATÉGIAS INTEGRADAS DE MANEJO, INCLUINDO SISTEMAS DE RESFRIAMENTO ARTIFICIAL (VENTILAÇÃO FORÇADA, ASPERSÃO E NEBULIZAÇÃO NO CASO DE ESTRESSE TÉRMICO POR CALOR) E ALTERNATIVAS NATURAIS, COMO SOMBREAMENTO ESTRATÉGICO E MELHORIA DAS CONDIÇÕES AMBIENTAIS

O que acontece com a bezerra?

Um estudo conduzido na Embrapa Gado de leite, em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), teve como objetivo avaliar os efeitos do estresse térmico por calor e da amplitude térmica sobre o consumo, desempenho, parâmetros fisiológicos, metabólicos e ruminais, digestibilidade e saúde de bezerras leiteiros da raça Holandês no primeiro mês de vida. Um grupo de animais foi mantido em condições termoneutras, enquanto outros dois grupos foram submetidos a condições de estresse térmico por calor ou por amplitude térmica diária. O experimento foi planejado para simular condições frequentemente observadas nas fazendas brasileiras (Figura 1).



Os resultados mostraram que as bezerras dos grupos estresse térmico por calor e amplitude térmica apresentaram aumento de mais de 60% na frequência respiratória, resultado associado à ativação de mecanismos de termorregulação. Além disso, ambos os grupos apresentaram aumento médio de pelo menos 0,3°C na temperatura retal quando comparados ao grupo controle. Mesmo sendo um aumento aparentemente pequeno, ele indica maior esforço fisiológico do animal para manter o equilíbrio térmico.

Quanto ao consumo e à digestibilidade, não houve diferenças entre os grupos para ingestão de matéria seca, proteína e energia. No entanto, as bezerras submetidas à amplitude térmica apresentaram maior consumo de leite e de água em relação ao grupo controle, enquanto esse aumento na ingestão de leite não foi observado nas bezerras sob estresse térmico por calor.

As bezerras sob estresse térmico por calor consumiram, em média, 1,1 litro de água por dia a mais do que o grupo controle, enquanto aquelas submetidas à amplitude térmica ingeriram 0,6 litro adicional por dia. Essas alterações fisiológicas e de consumo também resultaram em mudanças na fermentação ruminal, com alteração na produção ou proporção de ácidos graxos, sem impacto no ganho de peso diário ou no peso final dos animais durante o período experimental.

Quanto às respostas metabólicas, não foram observadas diferenças nos níveis sanguíneos de glicose e insulina. No entanto, citocinas associadas à resposta imunológica foram alteradas nos bezerros expostos ao estresse térmico por calor e à amplitude térmica, sugerindo possível redução da capacidade imunológica desses animais em comparação ao grupo controle (Figura 2).






Bezerras são sensíveis às condições ambientais, com respostas fisiológicas que começam ainda nas primeiras semanas de vida

O que o produtor pode fazer na prática? 

Os resultados indicam que o estresse térmico e as variações bruscas de temperatura ao longo do dia afetam diretamente a fisiologia e o comportamento de bezerras leiteiras desde as primeiras semanas de vida. Mesmo quando não se observam perdas imediatas de ganho de peso, os animais submetidos ao calor ou à grande amplitude térmica apresentam alterações importantes na respiração, na temperatura corporal, no consumo de água e em indicadores do sistema imunológico.

Isso significa que o impacto do clima na fazenda começa muito antes da fase produtiva da vaca. O cuidado com o ambiente onde as bezerras são criadas, incluindo sombra adequada, ventilação, proteção contra o frio noturno e manejo adequado da água, pode fazer grande diferença na saúde e no desenvolvimento desses animais.

EM UM CENÁRIO DE MUDANÇAS CLIMÁTICAS E MAIOR FREQUÊNCIA DE EXTREMOS DE TEMPERATURA, INVESTIR EM CONFORTO TÉRMICO DESDE A FASE INICIAL DA VIDA DOS ANIMAIS NÃO DEVE SER VISTO COMO CUSTO, MAS COMO ESTRATÉGIA E INVESTIMENTO EM PRODUTIVIDADE FUTURA

Bezerras mais saudáveis e adaptadas tendem a se tornar vacas mais produtivas e longevas, contribuindo para sistemas leiteiros mais eficientes, sustentáveis e rentáveis no longo prazo.







Tags

Compartilhar:


Autor

EMBRAPA GADO DE LEITE

EMBRAPA GADO DE LEITE


Comentários

Enviar comentário


Artigos Relacionados