Conheça a leucose enzoótica bovina, uma doença que compromete a saúde e a produtividade na pecuária leiteira
A leucose enzoótica bovina é uma doença crônica e de difícil erradicação, que compromete a saúde do rebanho e a eficiência produtiva na pecuária leiteira
A produção leiteira ocupa papel central na economia, consolidando o Brasil como um dos principais produtores e exportadores de leite no cenário global. Apesar da relevância econômica e social do setor, a presença da leucose enzoótica bovina (LEB) no rebanho nacional representa um desafio significativo à eficiência e à sustentabilidade da produção. Trata-se de uma doença infectocontagiosa crônica, amplamente disseminada ao redor do mundo, que compromete o sistema imunológico dos bovinos, tornando-os mais vulneráveis a outras infecções.
A LEB possui longo período de incubação e evolução lenta, ou seja, os sintomas demoram a se manifestar após a infecção pelo vírus. Por esse motivo, a doença costuma ser negligenciada pelos produtores, uma vez que raramente leva à morte dos animais e a maioria dos bovinos infectados não apresenta sinais clínicos evidentes. As perdas associadas à LEB estão relacionadas principalmente ao aumento de outras infecções, como mastite, e a problemas reprodutivos. Além das perdas crônicas de produção, a enfermidade pode reduzir o desempenho produtivo dos animais devido à linfocitose persistente (aumento anormal de linfócitos, células de defesa, no sangue) e ao linfossarcoma (câncer originado no sistema linfático). Ademais, as restrições comerciais decorrentes da LEB variam conforme as políticas sanitárias estabelecidas por diferentes países e regiões.
Como a doença ocorre?
O vírus da leucemia bovina (BLV) é o agente responsável pela LEB. Após infectar o bovino, o material genético do vírus integra-se ao material genético do animal, de maneira semelhante ao que ocorre na infecção pelo HIV em seres humanos. O BLV é conhecido por induzir neoplasias (câncer) em bovinos, especialmente em linfócitos B, embora possa também infectar outras células do sistema imunológico. A principal área afetada é o sistema linfático, resultando na formação progressiva de tumores. Em estágios avançados, os linfossarcomas tornam-se comuns, sobretudo em bovinos de rebanhos leiteiros, devido ao manejo intensivo. O BLV pode ser inativado com o uso de álcool, éter e clorofórmio, o que reforça a importância de protocolos rigorosos de higienização em todas as etapas da produção animal.
Fatores que influenciam a ocorrência da doença
A LEB apresenta relevância mundial, especialmente em rebanhos leiteiros, devido à sua alta transmissibilidade e impacto econômico. De acordo com a Organização Mundial de Saúde Animal (WOAH), a LEB está presente em todos os continentes, com diferentes prevalências e variações genéticas nos vírus circulantes, de acordo com a região geográfica.
No Brasil, a epidemiologia da LEB reflete a diversidade dos sistemas de produção bovina, especialmente nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, onde a pecuária leiteira é altamente intensiva. Estados como Santa Catarina se destacam pela identificação de cinco genótipos de BLV, o que evidencia a diversidade genética do vírus no país e sugere diversas vias de introdução.
A transmissão da LEB ocorre principalmente por meio do contato com sangue ou fluidos corporais de animais infectados. Procedimentos como vacinação, coleta de sangue e outras práticas que envolvem o uso de agulhas ou instrumentos compartilhados, como luvas de palpação e espéculo, são importantes veículos de transmissão, caracterizando a transmissão iatrogênica (efeito colateral de práticas veterinárias). Além disso, o contato com secreções como saliva, secreções nasais, oculares e vaginais também pode contribuir para a disseminação do vírus. Dessa forma, práticas de biosseguridade rigorosas, como o uso de agulhas descartáveis e de uso único, e a higienização frequente de equipamentos com soluções antissépticas, são cruciais para reduzir a transmissão.
A transmissão vertical, da vaca para o bezerro, também pode ocorrer, principalmente por meio do colostro. Apesar de menos importante, existem também relatos de transmissão da LEB entre diferentes espécies, como de ovinos, suínos e cães para bovinos, embora tais casos apresentem diferentes sinais clínicos e epidemiologia.
A prevalência de LEB em rebanhos leiteiros é especialmente preocupante, uma vez que a doença compromete o sistema imunológico dos animais, tornando-os mais suscetíveis a outras infecções e levando a perdas produtivas significativas. Estima-se que cerca de 30% dos animais infectados desenvolvem linfocitose (aumento do número de linfócitos circulantes) persistente entre os 4 e 8 anos de idade, o que pode progredir para linfossarcomas (tumores), especialmente em estágios mais avançados da infecção. Além disso, o comprometimento do sistema imunológico dos animais infectados frequentemente resulta em descarte precoce, tanto das vacas quanto de seus descendentes.
No Brasil, a ausência de um programa nacional de controle e erradicação da LEB dificulta o manejo da doença, uma vez que os animais sem sintomas aparentes podem permanecer como reservatórios do vírus, mantendo a infecção ativa dentro dos rebanhos. A implementação de medidas de biosseguridade e de programas de controle regionais tem sido discutida como abordagem necessária para reduzir a prevalência da LEB no país. Além disso, avanços científicos são necessários, principalmente para o desenvolvimento de vacinas eficazes, o que poderia transformar o panorama epidemiológico da LEB, tanto no Brasil quanto no mundo.
Evolução clínica e impactos
A maioria das infecções por LEB é subclínica, ou seja, não manifesta sinais clínicos visíveis. Porém, cerca de um terço dos bovinos infectados com mais de três anos de idade apresentam um quadro persistente de aumento das células de defesa de forma anormal (linfocitose), caracterizada por uma resposta imunológica exagerada.
Em alguns casos, a doença pode progredir para a fase tumoral, com desenvolvimento de linfoma maligno ou linfossarcoma. Essa fase é caracterizada por proliferação exacerbada de linfócitos, principalmente nos órgãos que são responsáveis pela produção e desenvolvimento das células do sangue (hematopoiéticos), como fígado, baço e linfonodos, resultando na formação de tumores. Aproximadamente 5 a 10% dos animais infectados desenvolvem tumores, como o linfoma maligno, após um período de latência relativamente longo.
Os sinais clínicos tornam-se evidentes em bovinos que evoluem para a forma neoplásica (tumoral) da LEB. Antes disso, os animais podem apresentar problemas subclínicos, como redução na produtividade leiteira, maior predisposição a doenças e descarte precoce. Estudos recentes mostram que vacas infectadas com LEB têm menor longevidade e produzem menos leite em comparação às vacas não infectadas.
A TRANSMISSÃO DA LEB OCORRE PRINCIPALMENTE POR MEIO DO CONTATO COM SANGUE OU FLUIDOS CORPORAIS DE ANIMAIS INFECTADOS
Os sinais clínicos associados aos tumores causados pela LEB variam de acordo com o sistema acometido. No Quadro 1 estão listados os principais sistemas afetados e seus respectivos sinais clínicos. As Figuras 1 a 3 ilustram lesões características observadas em casos de LEB.



Diagnóstico da LEB: métodos clínicos e laboratoriais
• Clínico O diagnóstico clínico inicial da LEB é sugerido quando se observa emagrecimento, queda na produção leiteira e aumento generalizado dos linfonodos. Contudo, é indispensável a confirmação laboratorial, uma vez que os sinais clínicos da LEB são inespecíficos, e muitos bovinos infectados pelo vírus permanecem como portadores inaparentes.
• Sorologia A detecção de anticorpos anti-BLV é considerada o método padrão para o diagnóstico de LEB. Como se trata de uma infecção persistente e vitalícia, a presença de anticorpos é uma confirmação confiável da infecção pelo BLV. Os dois testes mais utilizados são:
1. Teste de imunodifusão em gel de ágar (IDGA): oficialmente reconhecido, possui boa especificidade, mas apresenta baixa sensibilidade.
2. Teste de ELISA: mais sensível que o IDGA, com boa especificidade, maior praticidade e capacidade de detectar anticorpos em materiais além do soro. Por essas características, o ELISA é recomendado para testagem em larga escala ou triagem de animais suspeitos.
Como fazer o controle e a prevenção da LEB?
A infecção pelo BLV é vitalícia, tornando o bovino um reservatório permanente do vírus, sem a existência de um tratamento e possibilidade de cura. Além disso, não existem vacinas eficientes e disponíveis comercialmente. Por isso, o controle e profilaxia dessa doença devem estar centrados em evitar o contato de bovinos saudáveis com animais infectados. As principais medidas profiláticas são:
• Quarentena e testes sorológicos: entrada de novos animais no rebanho somente após uma quarentena de, no mínimo, 45 dias e resultados negativos em testes sorológicos;
• Testagem recorrente e isolamento: realização periódica de testes sorológicos em todo o plantel e isolamento imediato dos animais sororreagentes;
• Boas práticas de biossegurança: adoção rigorosa de medidas relacionadas ao manuseio de sangue e materiais contaminados, evitando a transmissão do vírus.
A INFECÇÃO PELO BLV É VITALÍCIA, TORNANDO O BOVINO UM RESERVATÓRIO PERMANENTE DO VÍRUS, SEM A EXISTÊNCIA DE UM TRATAMENTO E POSSIBILIDADE DE CURA
Em propriedades com alta prevalência de animais infectados, a eliminação total dos bovinos portadores, embora seja a medida de controle mais eficaz, pode ser inviável economicamente. Nesse caso, uma alternativa é o descarte gradual dos animais infectados, priorizando aqueles com linfocitose persistente e baixa produtividade. Assim, a erradicação da LEB torna-se um processo oneroso e prolongado, com retorno apenas em médio ou longo prazo.
Agradecimentos
Os autores agradecem ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq e à Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de Minas Gerais - FAPEMIG pelas bolsas concedidas, bem como à FAPEMIG, processo RED-00132-22, e à CAPES PROEXT-PG, Processo 88881.926972/2023-01, pelo apoio financeiro.
ANA BEATRIZ MELLI - Graduanda do Curso de Medicina Veterinária do Departamento de Medicina Veterinária, Universidade Federal de Lavras (UFLA)
FÁBIO NOGUEIRA REIS - Graduando do Curso de Medicina Veterinária do Departamento de Medicina Veterinária, UFLA
ESTELA PEDROSA DE ANDRADE - Graduanda do Curso de Medicina Veterinária do Departamento de Medicina Veterinária, UFLA
CARINE RODRIGUES PEREIRA - Professora Adjunta do Departamento de Medicina Veterinária, UFLA
CHRISTIAN HIRSCH - Professor Adjunto do Departamento de Medicina Veterinária, UFLA
DJEISON LUTIER RAYMUNDO - Professor Adjunto do Departamento de Medicina Veterinária, UFLA
ANDREY PEREIRA LAGE - Professor Titular do Departamento de Medicina Veterinária Preventiva, Escola de Veterinária, Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)
ELAINE MARIA SELES DORNELES - Professora Adjunta do Departamento de Medicina Veterinária, UFLA
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Autor
LeiteInova
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