Contrato dos 100 dias: Um acordo entre produtores de leite e suas vacas
Texto: Renato Palma Nogueira
Ilustração: Flávia Tonelli
O período de transição é, sem dúvida, a fase de maior desafio dentro de cada lactação. Oferecer a melhor nutrição, condições sanitárias adequadas e conforto é condição básica para minimizar os problemas comuns nesse período. Nesse artigo, a proposta é fazer um contrato de 100 dias com as vacas, compreendendo os 30 dias antes do parto até os 70 dias pós-parto, no qual produtores e animais assumem obrigações uns com os outros.

Vamos fazer um contrato de 100 dias com nossas vacas???
Hoje, sabemos que a fase mais crítica durante o ciclo de lactação de uma vaca é o período de transição, que compreende os 30 dias antes do parto até 30 dias após o parto. Mas, nesse artigo vamos passar um pouco do período de transição normal e estendê-lo até os 70 dias pós parto, envolvendo também a fase reprodutiva, com início dos primeiros cios, a primeira inseminação e a prenhez.
Esse artigo é uma segunda adaptação da versão original produzida por um renomado pesquisador da Universidade do Missouri, Dr. James Spain. A primeira adaptação foi publicada há oito anos no jornal Bovinews, da Nutron Alimentos, e de lá até hoje, vários conceitos relativos ao período de transição vêm sendo repensados por pesquisadores e técnicos.
Responsabilidades das partes
Vamos testar o produtor assinando um contrato com as sua vacas. E, como em todo contrato, cada parte tem suas responsabilidades a cumprir.
Nesse contrato, as obrigações das vacas são: produzir o máximo de leite, dar uma cria viável a cada 13,5 meses (intervalo a ser definido por cada propriedade), emprenhar novamente, e não apresentar doenças (mastites, doenças dos cascos, cistos ovarianos, etc.). Mas, para isso, o produtor também precisa se comprometer, e as suas responsabilidades são: oferecer a melhor nutrição, condições sanitárias (preventivas), conforto, instalações adequadas e uma pessoa que goste de vacas para manejar todos esses itens.
É interessante enfatizar nessa abordagem dois pontos que são essenciais: conforto e instalações adequadas, e uma pessoa que goste de vacas. Nutrição adequada é uma premissa para se ter sucesso na transição e/ou lactação. Porém, muitos rebanhos possuem o mesmo nutricionista, utilizam os mesmos produtos minerais, vitamínicos, e os ingredientes que são comumente utilizados por produtores referências em desempenho, e não conseguem nem de longe o mesmo resultado. Por que? Simplesmente, porque o manejo, as instalações e o gerenciamento do conforto dos animais têm a mesma importância da nutrição para assegurar um desempenho adequado. Essa é a grande diferença entre o artigo escrito há oito anos e o atual. O conforto, a adequação das instalações e a escolha e treinamento das pessoas envolvidas com o manejo das vacas eram negligenciadas até bem pouco tempo atrás, e a nossa grande evolução nesse momento é que todos (técnicos e produtores) estamos agora plenamente conscientes de que a força de uma corrente é o seu elo mais fraco, e esse pode ser tanto o ambiente e as pessoas, quanto a nutrição. O reconhecimento pleno dessa interação nutrição x animal x ambiente x pessoas/manejo nos torna mais focados em todos os pontos que determinam o sucesso do período de transição, que têm origem multifatorial e precisam ser olhados por todos os ângulos.
Primeira fase:
21 dias antes do parto
O ponto chave do período de transição pré-parto é a vaca não diminuir o consumo de alimentos nas últimas duas semanas que antecedem o parto. O suprimento de energia é determinante para o sucesso nesse momento, no qual o bezerro demanda 40% da energia líquida consumida pela vaca, e inicia-se a produção de colostro. Apresentações recentes nos congressos brasileiros têm mostrado que os pesquisadores estão conseguindo identificar, com grande acurácia, o risco de metrite e outras doenças comuns no pós-parto, por meio do comportamento alimentar dos animais nas últimas duas semanas pré-parto. Fatores como espaço de cocho adequado, disponibilidade de sombra, qualidade da forragem oferecida (baixo potássio, boa aceitabilidade), fornecimento de antioxidantes, balanceamento correto da dieta, disponibilidade de água de qualidade, locais adequados para a vaca se deitar, assistência ao parto, lotação adequada dos lotes, condição corporal ideal, dentre outros, são muito importantes e devem ser sempre partes integrantes de um check list desenvolvido pelo profissional de nutrição e manejo, pelo produtor e também pelo veterinário responsável pela sanidade e reprodução. É preciso ter em mente que tudo começa aqui, pois essa é a primeira fase do nosso contrato com as vacas.
Segunda fase:
21 dias após o parto
A segunda fase do contrato é um momento de grandes oportunidades na nossa realidade, pois pouco tem sido feito. Trata-se de uma nutrição específica para as três semanas após o parto, momento no qual a vaca inicia a lactação, consumindo pouco, mobilizando reservas corporais, apresentando queda de imunidade e estresse oxidativo. Essa fase determinará o futuro dessa lactação e até a própria vida da vaca. Por isso, ela tem grande interesse em cumprir a sua parte nesse contrato ou poderá pagar com a sua própria vida os erros que podem acontecer. Uma pesquisa da Universidade de Minnesota mostrou que uma em cada quatro vacas que vai deixar o rebanho o faz exatamente durante o período que compreende o Contrato dos 100 dias. É nessa fase que doenças como as mastites pós-parto, as metrites, as retenções de placenta, os deslocamentos de abomaso e as cetoses se manifestam.
O que podemos fazer pelas vacas nesse momento? Dar-lhes uma “licença maternidade” de três semanas pós-parto. Como? Colocando-as em um manejo separado do rebanho em lactação (se, e somente se, o local for de excelente qualidade e a atenção e cuidados de manejo forem dobrados). Assim, poderemos identificar as vacas com pouco apetite, para as quais pode ser oferecido drench e hidratação, e as mesmas possam ser monitoradas para febre e cetose. Devemos mantê-las em um local de pouca disputa por espaços, trabalhando com 80% da lotação máxima; fornecer a mesma quantidade de antioxidantes do período pré-parto (1500 UI de Vitamina E); ordenhá-las sempre na frente do resto do rebanho, já que estão com baixa imunidade; promover a saúde do fígado, se for necessário, com o fornecimento de colina protegida ou propileno glicol; administrar uma maior quantidade de fibra longa na dieta; e promover um aumento rápido na ingestão de matéria seca. Todas essas estratégias irão minimizar o balanço energético negativo, aumentar a imunidade, melhorar a reprodução e propiciar um maior pico de produção. Deve-se ter em mente que o pós-parto é tão ou mais importante que o pré-parto, porque é nessa fase que as vacas morrem.
Terceira fase:
De 22 a 60 dias após o parto
Já a terceira fase do contrato é o momento da colheita, de obter os resultados para os esforços feitos na primeira e segunda fases do contrato. Na terceira fase, as vacas estarão atingindo o pico de produção de leite, encerrando o período voluntário de espera, e sendo inseminadas em maior número (meta é uma inseminação de todas as vacas até 90 dias).
Nesse momento de eficiência alimentar máxima, desafiamos as vacas com uma dieta de alta densidade, colocando toda a tecnologia disponível para maximizar a saúde e o lucro. A meta nessa fase é mais de 1,6 unidades de eficiência alimentar (kg de leite produzido para cada kg de matéria seca consumida) em novilhas, e 1,7 em vacas adultas.
Os animais nesse período representam o lote de maior lucro e menor custo da fazenda, e são eles que efetivamente pagam as contas das categorias não produtivas do rebanho. Nunca, independente de crises ou momentos difíceis que possamos passar, podemos limitar o desempenho na fase do pico de produção.

Conclusões
Esses 100 dias, que compreendem o contrato, são determinantes, não só para lucratividade, mas para a longevidade e todos os índices zootécnicos de um rebanho leiteiro. Nesse momento, jamais tome uma decisão precipitada, pois redução de custos e investimentos podem comprometer toda uma lactação e até a vida dos animais. Deixe a busca pela redução de custos para depois dos 60 dias de lactação.
Não escolham produtos para essa fase, tendo por base apenas preços ou informações de rótulo, mas busquem informações e resultados consistentes dos mesmos em uma grande variedade de situações. Desconfie de produtos que trazem a promessa de que, como em um passe de mágica, todos os seus problemas serão resolvidos, pois 80% do sucesso do período de transição dependerá do manejo dos animais, da alimentação e do ambiente que, juntos, determinam o consumo, que é o grande fator limitante nessa fase.
Profissionais e empresas devem ter programas de gerenciamento e diagnóstico de todos os fatores determinantes do sucesso do contrato dos 100 dias.
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