Cop30: o que a maior conferência do clima do mundo revelou para o leite brasileiro e o futuro da produção?
O que a maior conferência do clima do mundo revelou para o leite brasileiro e por que a próxima década exige dados, transparência e implementação real no campo
Na última edição, na coluna “O tempo não para”, contei que embarcaria para a COP30. Agora, com a conferência realizada na Amazônia e o Brasil no centro das negociações globais, trago uma edição em formato diferente, compartilhando minhas percepções diretas de Belém e o que esses dias intensos significam para o futuro da produção de leite.
O título desta coluna faz referência a um verso da canção “Sal da Terra”, de Beto Guedes e Ronaldo Bastos, que convoca para a união e para a construção coletiva de um mundo possível. Essa mensagem traduz de forma precisa o clima da COP30, marcada pela implementação, pela responsabilidade compartilhada e pela necessidade urgente de cooperação entre países, setores e pessoas.
O que apresento aqui é um olhar direto do centro das discussões climáticas para o campo, um convite a refletir, agir e juntar forças para transformar.
Quando um sonho encontra a Amazônia
Dois anos atrás, em uma reunião de pré-implementação da SAI Platform, fomos convidados a compartilhar um sonho. O meu era claro: participar de uma COP. Eu já mergulhava nas discussões sobre sustentabilidade no leite e buscava entender, com profundidade, como nascem negociações, compromissos e posicionamentos que moldam ações globais voltadas ao enfrentamento da crise climática.

O que é, afinal, a COP
A COP é a Conferência das Partes da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, a UNFCCC. É nesse processo que surgiram o Protocolo de Quioto e o Acordo de Paris. A COP discute mudança climática, e não sustentabilidade no sentido amplo, o que é importante lembrar.
A COP30 foi marcada pela implementação. O foco era avançar na entrega prática das ações necessárias para mitigar as mudanças climáticas, ao mesmo tempo em que se discutia financiamento climático para adaptação, especialmente para países em desenvolvimento, e a definição de novos indicadores globais de adaptação.
Uma COP marcada pela diversidade
A diversidade me acompanhou desde o voo de ida e se refletiu na COP em todos os espaços: diferentes papéis, visões e interesses convivendo no mesmo ambiente. Ver tantos atores reunidos é uma oportunidade rara, mas também evidencia tensões e caminhos nem sempre convergentes.
A COP É A CONFERÊNCIA DAS PARTES DA CONVENÇÃO QUADRO DAS NAÇÕES UNIDAS SOBRE MUDANÇAS CLIMÁTICAS, A UNFCCC. É NESSE PROCESSO QUE SURGIRAM O PROTOCOLO DE QUIOTO E O ACORDO DE PARIS. A COP DISCUTE MUDANÇA CLIMÁTICA, E NÃO SUSTENTABILIDADE NO SENTIDO AMPLO, O QUE É IMPORTANTE LEMBRAR
Um ponto que me chamou atenção foi a presença expressiva do setor privado, importante e necessária, mas que também reacende debates sobre credibilidade, transparência e o risco de greenwashing, quando uma organização comunica avanços ambientais que não se sustentam na prática.
Metano: o freio da emergência climática
Entre as frases marcantes da conferência, uma delas veio de Angela Pinhati, da Natura, que afirmou que regenerar é gerar impactos positivos para pessoas, comunidades e planeta. Essa visão orienta a estratégia da empresa e esteve presente em diversos debates.
Outro ponto recorrente foi a importância da cooperação. A implementação depende de cada um de nós, e o conceito de transição justa reforça que toda mudança precisa levar em conta quem fica para trás, como ocorreu com comunidades afetadas pela descontinuação do uso do carvão para a geração de energia no Reino Unido.
As discussões sobre metano apareceram em vários momentos da conferência. Eu mesma estava muito atenta ao tema, o que talvez tenha ampliado essa percepção, mas o fato é que elas estavam ali e precisam ganhar ainda mais espaço como parte central da agenda climática. Em um dos painéis, Fernanda Ferreira, Diretora para Agricultura da Clean Air Task Force, disse que o metano funciona como o freio de mão do aquecimento global, pois sua mitigação gera efeitos perceptíveis ainda nesta geração. Nessa sessão, também se discutiu a importância de abordagens bottom-up, soluções que nascem do campo e das comunidades, e o papel de mecanismos inovadores de financiamento.

Freio da emergência climática: representa a mobilização coletiva para transformar compromissos em ações concretas
Financiamento climático e novos caminhos
Um dado que me marcou veio de Ana Catalina Peña, da Global Foodbank Network: entre 30 e 40% dos alimentos produzidos globalmente são desperdiçados. Isso evidencia que discutir agropecuária é discutir nutrição, renda, acesso e dignidade, e que eficiência não é apenas produtiva, mas humana. O tema do financiamento apareceu repetidamente. É urgente redirecionar subsídios para práticas que sustentam a produtividade e mitigam emissões. E precisamos de políticas públicas que apoiem os pioneiros, aqueles que testam, arriscam e começam a trilhar novos caminhos.
Dez anos de Acordo de Paris
O Acordo de Paris completou 10 anos. Sua meta era limitar o aquecimento global a 1,5°C. Já ultrapassamos esse valor de forma pontual em 2024, e em poucos anos esse patamar pode se tornar permanente. No painel do Balanço Ético Global, ficou claro que precisamos superar a lógica de decisões individuais, geralmente orientadas pelo curto prazo, e avançar para escolhas coletivas que considerem o longo prazo, o único horizonte compatível com a estabilidade climática.
O que ficou decidido em Belém
O texto final aprovou o Belém Package, um conjunto amplo de decisões para orientar os próximos anos da agenda climática. Entre os principais pontos estão os 59 indicadores voluntários de adaptação, que abrangem água, alimentos, saúde, ecossistemas, infraestrutura e meios de vida. Embora não obrigatórios, esses indicadores servirão como referência global e exigirão detalhamento técnico nos próximos anos, incorporando temas transversais como financiamento, tecnologia e capacitação. O Baku Adaptation Roadmap, que define o trabalho técnico até 2028 e prepara o terreno para o próximo Balanço Global do Acordo de Paris, também foi concluído. Outro destaque foi o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF). Ele opera como um mecanismo de investimento, não de doação. Países precisam apresentar planos de ação e relatórios para acessar parte dos rendimentos gerados pelo fundo, enquanto o capital principal permanece investido.

A COP30 também contou, pela primeira vez em uma conferência da ONU, com a AgriZone, um espaço aberto ao público, dedicado à agricultura tropical e à agropecuária. Organizada pela Embrapa em parceria com instituições públicas e privadas, a AgriZone reuniu cerca de 400 eventos, entre painéis, exposições tecnológicas e demonstrações práticas de sistemas agroflorestais e agricultura de baixo carbono. A novidade atraiu mais de 25 mil visitantes em doze dias, incluindo delegados da COP, pesquisadores, produtores, técnicos e a população de Belém, em uma mostra clara de que o agro pode dialogar com ciência, clima e sociedade. Ainda assim, acredito que, para tornar real o papel da pecuária e da produção leiteira, precisamos ir além dos espaços paralelos: é fundamental que o setor esteja presente nas discussões centrais, não apenas nas vitrines setoriais.
E agora, leite?
A pecuária leiteira é relevante em PIB, empregos, nutrição, renda e emissões. Não existe resposta simples, precisamos ponderar, ajustar e adaptar. O setor será questionado, e com razão. Precisamos responder com números, transparência e metodologia clara. Relatórios incompletos ou pouco detalhados abrem espaço para dúvidas legítimas, perda de competitividade e desconfiança de investidores, parceiros e consumidores.
Tecnologia, dados e saúde animal
Mitigação e remoção não são alternativas excludentes, precisamos das duas. Os combustíveis fósseis seguem sendo o tema mais difícil de avançar, mas a presidência brasileira da COP se comprometeu a construir um mapa voluntário para afastamento dos fósseis e para o fim do desmatamento.
Do ponto de vista do leite, a mensagem é objetiva: é hora de implementar. As métricas são conhecidas, os métodos estão consolidados e as soluções já existem.

AgriZone da COP30: primeiro espaço em conferência da ONU voltado à agricultura tropical e à agropecuária
O próximo passo é inserir tudo isso na rotina da fazenda e ajustar a forma como produzimos alimento.
No painel que reuniu diversos stakeholders, incluindo a Global Roundtable for Sustainable Beef e a Action for Animal Health, reforçou-se que 20% da produção pecuária global se perde por questões sanitárias. Ao melhorar saúde, genética e nutrição, podemos reduzir em até 30% as emissões da pecuária mundial. Isso exige profissionalismo: dados, controle e gestão.
DO PONTO DE VISTA DO LEITE, A MENSAGEM É OBJETIVA: É HORA DE IMPLEMENTAR. AS MÉTRICAS SÃO CONHECIDAS, OS MÉTODOS ESTÃO CONSOLIDADOS E AS SOLUÇÕES JÁ EXISTEM. O PRÓXIMO PASSO É INSERIR TUDO ISSO NA ROTINA DA FAZENDA E AJUSTAR A FORMA COMO PRODUZIMOS ALIMENTO
A década decisiva para o metano
Estamos na metade da década decisiva para atuar no metano. Se fazemos parte do problema, precisamos fazer parte da solução. E isso exige dados abundantes, consistentes e transparentes, capazes de mostrar onde estamos e como estamos avançando.
No painel do Balanço Ético Global, Natalie Untersell, do Instituto Talanoa, citou a ministra Marina Silva: a mudança não vem do centro, vem das frestas. Essa ideia reforça a força da ação individual, da colaboração entre pessoas e instituições, e de iniciativas que começam pequenas, mas transformam sistemas inteiros.
Responsabilidade e transparência
Para encerrar, retomo uma reflexão de Johan Rockström em entrevista ao Capital Reset: precisamos de transição e de mecanismos que responsabilizem cada país pelos compromissos assumidos. Revisar metas não basta; é preciso conformidade. Essa visão vale também para o setor leiteiro, que precisa definir o que medir, como medir e reportar, com clareza e consistência, onde estamos e para onde queremos ir.
No fim, tudo converge para a ideia que inspira o título desta coluna: vamos precisar de todo mundo, de dados, de cooperação e de coragem, para transformar o futuro do leite.
Clicando aqui, você tem acesso ao Action Agenda - Final Report da COP30, documento que traz as principais decisões e diretrizes da conferência para os próximos anos.
Autor
Bruna Silper
Bruna Silper, Veterinária, especialista em pecuária de precisão e soluções sustentáveis, PhD em Ciência Animal, produtora de leite em MG e colunista de sustentabilidade da Revista Leite Integral
Enviar comentário