Culpada ou Inocente

Qualidade do Leite | 23 de Maio de 2017 Voltar

Edição #94 - Janeiro/2017

Culpada ou inocente

A máquina de ordenha e seus efeitos sobre a mastite e a qualidade do leite

O surgimento da ordenhadeira, no final dos anos 1800, permitiu a expansão da produção de leite em todo o mundo, com uma força de trabalho reduzida, levando a melhorias na economia de escala e rentabilidade dos sistemas de produção. Independentemente de quão aperfeiçoada se tornou a tecnologia e de quão melhor nós entendemos a inter-relação entre vaca, operador e máquina, ainda há espaço para melhorias contínuas.

É um equívoco frequente achar que problemas de saúde de úbere, isto é, altas contagens de células somáticas (CCS) e mastite clínica, são diretamente atribuíveis ao funcionamento da máquina de ordenha. No entanto, em uma revisão de artigos científicos, abrangendo várias décadas, sobre o impacto da ordenhadeira na saúde do úbere, apresentada pelo Dr. Graeme Mein ao National Mastitis Council (NMC), estimou-se que entre 6% e 20% das novas infecções de mastite foram direta ou indiretamente relacionadas com o funcionamento da máquina de ordenha.

Não obstante esta descoberta,  sistemas de ordenha mal operados podem ocasionar, por si só,  em condições de saúde do úbere abaixo do ideal. Em vacas individuais, isso nem sempre se manifesta por meio de altas contagens de células somáticas ou mastite clínica, embora haja ligações significativas entre estas ocorrências. A influência da máquina de ordenha sobre a condição da teta e, subsequentemente, sobre as taxas de novas infecções mamárias, foi destacada em um boletim da International Dairy Federation (IDF), de 1994, que avaliou a relação entre várias condições dos tetos e a ocorrência de mastite.

 Embora muito se saiba hoje sobre o impacto da ordenhadeira na saúde do úbere, muitos ordenhadores continuam sendo mal informadas sobre o impacto da máquina de ordenha e sua forma de uso sobre os índices de mastite e sobre a qualidade do leite.

O FUNCIONAMENTO DA ORDENHADEIRA

 Existem três elementos principais para o correto funcionamento da máquina de ordenha: a criação de vácuo, a regulação desse vácuo a um nível apropriado para o tipo de equipamento, e um meio de alternar o vácuo e a pressão atmosférica na câmara de pulsação, para facilitar o movimento da teteira.

 Se os tetos da vaca são continuamente expostos ao vácuo, suas pontas se tornam  congestionadas com fluidos circulatórios , o que pode causar desconforto significativo para a vaca, bem como inibir o fluxo de leite. Uma  série de artigos publicados pela Teat Club International (2001), indicou que a congestão do teto também pode levar a uma diminuição da resistência de seu canal à invasão bacteriana. A congestão é reduzida pela ação da teteira ao se fechar ao redor do teto durante o ciclo de pulsação. A alternância entre vácuo e ar à pressão atmosférica, na câmara de pulsação, faz com que o revestimento interno da teteira se abra e se feche ao redor do teto. Quando a câmara é exposta ao ar atmosférico, o vácuo dentro no interior da teteira fará com que ela se feche em torno do teto (colapso). Isto alivia o vácuo na extremidade do teto, massageia e mantém a circulação sanguínea, minimizando os efeitos da congestão. No entanto, alguns pesquisadores observaram que a carga de compressão aplicada pelo fechamento da teteira pode, por si só, levar à produção adicional de queratina em torno da extremidade do teto, enfraquecendo a primeira linha de defesa da glândula mamária

 Quando se aplica vácuo à câmara de pulsação, a teteira será afastada do teto, expondo a sua extremidade ao vácuo, fazendo com que o leite flua. Esse movimento completo (isto é, completamente fechado para totalmente aberto e de volta para completamente fechado) é denominado ciclo de pulsação. Embora a frequência dos ciclos de pulsação varie entre as marcas de equipamentos, ela ocorre, geralmente, entre 55 e 62 ciclos por minuto, para a ordenha de bovinos.

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Foto:Se os tetos da vaca são continuamente expostos ao vácuo, suas pontas se tornam  congestionadas com fluidos circulatórios , o que pode causar desconforto significativo para a vaca, bem como inibir o fluxo de leite.

 Um nível mais alto de vácuo é necessário para elevar o leite do que quando ele cai numa tubulação de linha baixa. Isso explica a  a diferença no nível de vácuo recomendado para as instalações de ordenha de linhas baixa e alta . No entanto, o vácuo registrado na extremidade da teta durante o fluxo de leite máximo deve ser semelhante, independentemente da configuração da instalação de ordenha. O padrão internacional, ISO 5707: 2007 (Milking machine installations – Construction and Performance), recomenda que, para uma ordenha adequada, eficiente e delicada, o nível de vácuo, no fluxo máximo de leite, perto da extremidade do teto, deve estar na faixa de 32 a 42 quilopascals (kPa).

 Uma ordenhadeira em pleno funcionamento, corretamente instalada, mantida e operada irá ordenhar a grande maioria das vacas de forma eficaz, eficiente e com mínimos efeitos adversos sobre a saúde do úbere e o comportamento animal.

 A máquina de ordenha pode causar mudanças de curto, médio ou longo prazo na condição do teto. No entanto, fatores ambientais também podem induzir tais mudanças. Em situações práticas, será a combinação de ambos que, muitas vezes, elevará os índices de mastite, tanto clínica quanto sub-clínica.

INFLUÊNCIA DA ORDENHADEIRA NA SAÚDE DO ÚBERE

 A máquina de ordenha pode afetar as taxas de mastite de duas maneiras principais:

 1) como vetor, transportando ativamente bactérias até e, por vezes, para dentro de um quarto mamário; ou

 2) afetando a condição do teto e, portanto, o funcionamento da primeira linha de defesa da glândula mamária.

 VETOR DE TRANSFERÊNCIA BACTERIANA

 Existem duas situações  nas quais a ordenhadeira pode atuar, significativamente, como um vetor no transporte de bactérias para quartos sadios. Em primeiro lugar, o deslizamento da teteira e, consequentemente, seu impacto na extremidade do teto, Em segundo lugar, o ato físico de transferir os patógenos bacterianos de teto para teto e de vaca para vaca. Estas ocorrências foram revisadas por O'Shea e Hamann no Boletim da IDF de 1987, Machine Milking e Mastitis e, embora estejam bem elucidados no setor leiteiro,, ainda continuam sendo uma das principais causas de mastite.

 As forças de impacto ocorrem quando existe uma diferença de pressão entre a extremidade do teto e o conjunto de ordenha. A causa mais provável disso é o deslizamento da teteira, que pode fazer com que o leite se mova, em alta velocidade, em direção à base do teto. Essa velocidade pode ser suficiente para penetrar no canal aberto, através do orifício do teto. Se esse leite estiver contaminado com bactérias causadoras de mastite, então é provável que uma nova infecção se estabelecerá.

 Assim como o deslizamento da teteira, impactos podem ser criados quando o conjunto é removido, ao final da ordenha, sem o fechamento da fonte de vácuo, ou quando se faz uma pressão para baixo no conjunto de ordenha, seja sob a forma de pesos, ou colocando uma mão sobre o copo coletor.

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Foto: O desgaste das teteiras pode aumentar a ocorrência de deslizamentos e de outros fatores de risco para a mastite.

O QUE CAUSA O DESLIZAMENTO DA TETEIRA

 O deslizamento pode ocorrer em uma série de circunstâncias diferentes, incluindo:  

  • Incompatibilidade entre a forma e o tamanho do teto, e a teteira escolhida. Geralmente, teteiras com diâmetro grande  (> 22mm) e um afunilamento no cano, deslizarão menos. Se o rebanho tem uma alta proporção de novilhas ou animais com tetos pequenos, uma teteira com diâmetro grande pode não ser adequada.
  • Nível de vácuo muito baixo para a instalação. O nível de vácuo vai depender da localização da tubulação ou do tanque coletor (linha baixa, média ou alta). Se a planta for de linha média, seria normal esperar que o nível de vácuo esteja na faixa de 45 a 48 kPa. Já na linha baixa, seria esperado que o nível de vácuo esteja entre 40 a 44 kPa.
  • Reserva efetiva é inadequada para manter um nível de vácuo estável. A reserva efetiva é o fluxo de ar requerido para manter um nível de vácuo estável, quando os conjuntos de ordenha são conectados e desconectados, alimentadores e extratores automáticos estão operando, e a máquina está funcionando conforme especificado.
  • Desgaste das teteiras. Normalmente, as teteiras européias devem ser trocados após a ordenha de 2.500 vacas ou após seis meses de uso, o que ocorrer primeiro. No entanto, essa recomendação pode variar de acordo com  o tipo de borracha ou outro polímero utilizado e instruções específicas dos fabricantes. Um estudo desenvolvido no Institute for Animal Health, em 2003, revelou que, além de um aumento no deslizamento, as teteiras mais velhas ordenhavam mais lentamente, proporcionando uma massagem menos eficiente, causando mais descoloração do teto e maior incidência de leite residual.
  • Posição inadequado do conjunto de ordenha. O conjunto de ordenha deve ser corretamente colocado abaixo do úbere, com distribuição de peso uniforme em cada quarto, não devendo jamais ficar torcido. Quando o conjunto não está corretamente alinhado com a vaca, a distribuição do peso será desigual, propiciando maior ocorrência de deslizamento de teteiras.

 Existem estratégias alternativas para reduzir a ocorrência de deslizamentos. Um fabricante de equipamento de ordenha projetou um sistema que usa uma teteira afunilada de grande diâmetro. .Para evitar a tendência ao deslizamento, com este tipo de teteira, utiliza-se um copo coletor mais pesado.

 Outros fabricantes tentaram reduzir o problema, utilizando conjuntos e copos coletores mais leves, mas fornecendo suportes para melhorar a posição da unidade de ordenha.

 Além do deslizamento de teteira e dos impactos nas extremidades do teto, a máquina de ordenha pode transferir bactérias causadores de mastite de teto para teto e de vaca para vaca. Isto pode ocorrer quando um animal infectado é ordenhado com um conjunto de ordenha e nenhuma desinfecção ocorre antes da ordenha do próximo animal. A transmissão bacteriana também pode ocorrer quando uma máquina é inadequadamente higienizada entre ordenhas, particularmente quando se faz linha de ordenha.

 Para reduzir o risco de infecção cruzada, os animais com CCS elevada ou aqueles tratados para mastite clínica devem ser, preferencialmente, ordenhados com um conjunto separado, que é deve ser limpo e desinfetado após utilização, com produtos específicos.

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Foto: Suporte inadequado da mangueira de leite prejudica o correto posicionamento da unidade de ordenha.

CONDIÇÃO DO TETO E O FUNCIONAMENTO DA PRIMEIRA LINHA DE DEFESA DO ÚBERE

 O canal do teto é a principal barreira física à invasão de patógenos na glândula mamária. Um teto com extremidade em boas condições é um fator de resistência importante para impedir a entrada bacteriana. A pele macia e maleável do teto é importante na manutenção de uma defesa natural contra infecções.

 A condição da pele é influenciada por uma série de fatores, incluindo a ordenhadeira, o clima, a cama e idade do animal. A desinfecção é empregada, principalmente, para auxiliar na prevenção de novas infecções, mas também é uma oportunidade para melhorar a condição dos tetos.

 

Texto e fotos: Ian Ohnstad – The Dairy Group - Taunton, UK - www.thedairygroup.co.uk