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Manejo, Sanidade

A dermatofilose pode causar prejuízos significativos ao bem-estar animal, à produtividade e à qualidade do couro

Embora geralmente apresente sinais leves, em casos esporádicos a dermatofilose pode causar prejuízos significativos ao bem-estar animal, à produtividade e à qualidade do couro.

A dermatofilose pode causar prejuízos significativos ao bem-estar animal, à produtividade e à qualidade do couro

A dermatofilose é uma doença bacteriana que acomete a pele de várias espécies de animais domésticos, podendo também afetar o ser humano. Manifestando-se como uma dermatite exsudativa de curso agudo ou crônico, é popularmente conhecida como “mela” ou “chorona”. No Brasil, a dermatofilose em bovinos geralmente apresenta sinais leves, mas, em casos mais graves e esporádicos, pode causar prejuízos significativos relacionados ao tratamento, queda de produtividade e diminuição da qualidade do couro. Considerada uma doença endêmica no Brasil, a dermatofilose é comumente observada em regiões quentes e úmidas. Não há predileção por sexo ou idade dos animais acometidos, embora seja mais comum em animais jovens, visto que esses animais estão frequentemente expostos a manejos estressantes, como desmama, mudanças na alimentação e alteração de lotes. Bovinos de origem europeia são mais susceptíveis à doença do que os zebuínos. Além disso, a dermatofilose é uma zoonose, afetando principalmente indivíduos que têm contato direto com as crostas infectadas sem o uso de equipamentos de proteção individual, como luvas.

Causas e fatores de risco da dermatofilose 

Causada pelo Dermatophilus congolensis, uma bactéria comensal da microbiota da pele de animais portadores, a doença é altamente contagiosa dentro do rebanho. Para que ela ocorra, o animal deve apresentar feridas na pele, que podem ser causadas por cortes, queimaduras ou por picadas de insetos hematófagos, como moscas e carrapatos. A transmissão pode ocorrer pelo contato direto entre um animal sadio e um animal doente ou portador do agente. Carrapatos e moscas podem atuar como vetores mecânicos, transportando a bactéria em suas patas. A transmissão ocorre por meio de fômites, como cabrestos, cordas e até mesmo pelas mãos de quem manuseia os animais. 

Diversos fatores podem predispor à ocorrência e disseminação da dermatofilose em um rebanho bovino. Entre eles, destacam-se:

a) Deficiência de zinco: a carência desse mineral resulta na formação de tecido queratinizado da epiderme, tornando-a mais susceptível a infecções; 

b) Alta umidade e pluviosidade: ambientes com elevada umidade comprometem a barreira protetora da pele dos animais por favorecem a ativação do Dermatophilus congolensis; 

c) Pastos sujos: a presença excessiva de gramíneas fibrosas pode provocar lesões abrasivas na pele, facilitando a infecção.; 

d) Elevada densidade populacional: o aumento do contato direto entre os animais promove a disseminação da bactéria; 

e) Queda da imunidade: doenças, desnutrição e gestação deixam os animais mais vulneráveis; 

f) Estresse: manejos estressantes, como desmame, mudança de lotes e estresse térmico também contribuem para a predisposição à dermatofilose. 

Como suspeitar de dermatofilose no rebanho?

A dermatofilose nos bovinos acomete exclusivamente a pele. Os sinais clínicos incluem inflamações e edemas locais com intensa exsudação serosa ou purulenta. Além disso, ocorre a formação de crostas elevadas, com a presença de tufo de pelos. Essas crostas contêm um alto número de Dermatophilus congolensis e, quando expostas a temperaturas entre 28 e 31° C, os zoósporos, que são a forma infectante da bactéria, podem ficar viáveis e em latência por até 42 meses. Isso favorece a manutenção e a disseminação da doença entre os animais. 

Ao remover os pelos da área afetada, é possível observar pelos agrupados por crostas em sua base, contendo ou não exsudato purulento, assemelhando-se à “cabeça de pincel” (Figura 1). Essa formação característica das crostas e a facilidade de destacá-las da pele são indicativos das lesões causadas pela dermatofilose. As áreas mais comumente afetadas  são a cabeça, os membros, e a região lombar (Figuras 2a e 2b). As lesões podem ser dolorosas, mas não causam prurido (coceira). Em animais adultos, a doença geralmente se manifesta de forma mais branda e cura-se espontaneamente em até três semanas, o que é comum nos rebanhos. Entretanto, em casos esporádicos, quando o animal está debilitado, a doença pode ser grave, causando toxemia e até a morte. 

A DERMATOFILOSE NOS BOVINOS ACOMETE EXCLUSIVAMENTE A PELE. OS SINAIS CLÍNICOS INCLUEM INFLAMAÇÕES E EDEMAS LOCAIS COM INTENSA EXSUDAÇÃO SEROSA OU PURULENTA

  Figura 2. Bezerra com várias lesões causadas pela dermatofilose na cabeça 

O diagnóstico deve ser realizado por um médico veterinário e deve incluir a análise do histórico dos animais e do manejo da fazenda, observando os fatores de risco para a ocorrência e disseminação da doença. Por apresentar lesões muito características, o diagnóstico pode ser definido a partir da avaliação clínica dos animais. O exame microbiológico pode ser realizado para confirmar o diagnóstico, por meio da coleta e análise das crostas. O principal diagnóstico diferencial para a dermatofilose é a dermatofitose, uma dermatite fúngica que também acomete os bovinos. A dermatofitose causa crostas pouco elevadas que não se destacam facilmente da lesão, sendo essa a principal diferença em relação à dermatofilose. Outra enfermidade a ser considerada no diagnóstico diferencial é a paraqueratose por deficiência de zinco, que ocorre concomitantemente com a dermatofilose, o que causa muita confusão no diagnóstico em bezerras, incluindo casos de fotossensibilização.

O que fazer com os casos de dermatofilose?

 Devido à associação da dermatofilose com a deficiência de zinco, a correta mineralização dos animais é importante no controle da doença. A diminuição de fatores estressantes também pode ajudar no controle. Por ser geralmente autolimitante, ou seja, os animais se curam espontaneamente dentro de aproximadamente três semanas, o tratamento é recomendado somente em casos de surtos dentro do rebanho ou de casos mais graves da doença. 

O tratamento pode ser realizado por via parenteral com antibióticos. O tratamento tópico também pode ser utilizado, com aspersão de substâncias como sulfato de zinco, embora a eficácia do uso de tratamentos tópicos ainda seja questionável. Não há vacinas contra a dermatofilose, portanto, as formas de prevenir e controlar a doença incluem medidas que diminuam os fatores predisponentes e reduzam a disseminação no rebanho. Algumas dessas medidas são:  

• Segregar e tratar os animais doentes; • Assegurar a correta mineralização dos animais; 

• Desinfetar materiais que possam servir de fômites, como cordas, cabrestos e escovas; 

• Desinfetar o ambiente onde permaneceram os animais doentes; • Controlar a presença de moscas e carrapatos na propriedade; 

• Evitar alta densidade populacional; 

• Criar estruturas cobertas que protejam os animais de longos períodos expostos à chuva; 

• Evitar manusear um animal saudável após manusear um animal infectado, sem antes desinfetar as mãos; 

• Reduzir o estresse no manejo dos animais.

Conclusão 

Embora a dermatofilose geralmente cause sinais clínicos brandos e se resolva espontaneamente, sua presença na propriedade pode prejudicar o bem-estar animal e a qualidade do couro dos bovinos acometidos. Portanto, é importante manter a sanidade do rebanho e buscar orientações de um médico veterinário para implementar boas práticas de manejo na propriedade.  

NÃO HÁ VACINAS CONTRA A DERMATOFILOSE, PORTANTO, AS FORMAS DE PREVENIR E CONTROLAR A DOENÇA INCLUEM MEDIDAS QUE DIMINUAM OS FATORES PREDISPONENTES E REDUZAM A DISSEMINAÇÃO NO REBANHO

Agradecimentos

Os autores agradecem ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e à Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG) pelas bolsas concedidas - processo RED-00132-22.


Autores:

KELLY MARA GOMES GODOY  -   Mestranda, Programa de Pós-graduação em Ciência Animal, EV, UFMG;

ELAINE MARIA SELES DORNELES - Professora Adjunta, Departamento de Medicina Veterinária, EV, UFLA;

ELIAS JORGE FACURY FILHO - Professor Titular, Departamento de Clínica e Cirurgia Veterinárias, EV, UFMG;

ANDREY PEREIRA LAGE- Professor Titular, Departamento de Medicina Veterinária Preventiva, EV, UFMG.

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Autor

LeiteInova

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