Fazenda Tainá
Texto: João Paulo V. A. dos Santos
A evolução de uma fazenda que esse ano completará 32 anos, e que é prova cabal de que com perseverança, idealismo e profissionalismo pode-se produzir leite com eficiência, independente do sistema de produção utilizado.

Um pouco de história
A Fazenda Tainá , localizada em São Pedro/SP, foi adquirida em 1980 por João Roberto M. Lembi, natural de São Paulo/SP, local onde reside até hoje e atua como empresário no ramo imobiliário.
Ao longo de sua história muita experiência foi acumulada, tornando-a uma propriedade ímpar, uma vez que já produziu leite sob diferentes sistemas ao longo de 32 anos de atividade.
Nos primeiros anos, o rebanho mestiço (Girolando) foi manejado em pastejo rotacionado de capim elefante (cv. Napier) e ordenha manual. Posteriormente, a ordenha passou a ser mecanizada (balde ao pé) e canalizada (linha alta), e o rebanho, com a introdução de sucessivos cruzamentos com touros Holandês, foi sendo cada vez mais apurado. A maior produtividade individual fez com que, aos poucos, o sistema de produção a pasto (rotacionado) migrasse, naturalmente, para o confinamento. Dessa forma, a paisagem da propriedade foi sendo, paulatinamente, modificada: nos antigos piquetes foram construídos cochos, parte da área de pastejo foi destinada para lavoura de milho (silagem) e uma parcela remanescente de Napier foi mantida como forma de capineira (verão) e reserva de alimento (ensilagem) para animais não produtivos (inverno).
Os desafios produtivos impuseram a adoção e implantação de rígido programa de melhoramento genético, por meio da inseminação artificial, permitindo a renovação e transformação do rebanho, outrora cruzado, em um plantel 100% Holandês, com elevado potencial de produção. Em meados da década de noventa (1996), a fazenda atingiu a marca de 4.700 litros/dia com 170 animais em produção (27,6 litros de média individual) - um número expressivo para uma propriedade localizada em região de solo arenoso e de baixa fertilidade.
Nesse mesmo ano, a fazenda enfrentou a maior crise de sua história: um grave caso de intoxicação alimentar levou ao óbito praticamente 70% do rebanho em produção, e muitos acreditaram que chegara ao fim, e de modo triste, a história de mais uma fazenda de leite. Entretanto, o duro impacto financeiro não foi suficiente para desanimar o empresário João Roberto que, devido ao elevado número de animais em recria remanescentes, foi “obrigado” a criar um sistema alternativo e mais barato, na ocasião, para alimentação das futuras matrizes. Com a ajuda de seus consultores, delinearam, projetaram e implantaram o sistema intensivo de pastejo rotacionado em vigor até hoje para todas as categorias de produção.
Atualmente, João Roberto gerencia sua propriedade em conjunto com seu filho, Fábio Lembi, administrador de empresas, responsável pelo controle, administração e gestão de todos os custos da atividade. Trabalha ainda com diferentes consultorias técnicas: Wiliam Tabchoury, engenheiro agrônomo, responsável pelo gerenciamento do rebanho e atividades agronômicas; Fernando Giorgetti, médico veterinário, responsável pelo manejo reprodutivo; e a empresa de consultoria Via Verde, na área de pastagens.



O sistema de produção
A produção de leite a pasto sempre foi um grande desafio para animais leiteiros de alta produtividade, em função de suas altas demandas nutricionais e pelo fato de a maioria das forrageiras comumente utilizadas em sistemas rotacionados apresentarem teores de fibra limitantes à ingestão de matéria seca (IMS). Por esse motivo, a fazenda adotou um manejo envolvendo forrageira de altíssima produtividade e com elevada qualidade de fibra (digestibilidade). A aposta deu certo e números expressivos foram alcançados. Em 2011, por exemplo, durante o mês de melhor produção, a fazenda conseguiu, em regime de pastejo, produzir média superior a 5.000 litros/dia, com 195 vacas em lactação, quebrando alguns paradigmas no setor como o conceito de ser impossível trabalhar com vacas de alta produção (Holandês) em regime de pastejo, e de que o pastejo rotacionado irrigado, com gramíneas tropicais, somente poderia ou deveria ser implantado em regiões próximas ao equador (baixas latitudes), em função de aspectos como maior fotoperíodo e elevadas temperaturas, premissas básicas para a alta produção de forragens tropicais, proporcionarem maior retorno sobre o capital investido.
A Tainá maneja hoje 32 piquetes de 6.000 m2 para vacas em lactação (19,2 ha) e 10 piquetes de 9.000 m2 para recria e vacas secas. Toda a base da alimentação do rebanho é proveniente, única e exclusivamente, do pastejo de Jiggs (90% da sua área). Para garantir elevada produtividade, a fazenda trabalha com dosagem elevada de adubo, sendo veiculados, anualmente, por hectare, 280 kg N e 280 kg K20. A aplicação do fertilizante nitrogenado é 100% foliar, com uso de subproduto da indústria alimentícia, Ferami e/ou Agifer (4,5% de N), enquanto que a adubação potássica é realizada com adubo granulado, cloreto de potássio (KCl). Por meio da adubação, associada ao manejo adequado (1 dia de ocupação), e uso de equipamento simples de irrigação - apenas 1 canhão (rolo auto-propelido) para manejar todo o sistema - a fazenda conseguiu atingir resultados expressivos em termos de taxa de lotação: 20 UA/ha no verão e 12 UA/ha no inverno.
De acordo com João Roberto, trabalhar adequadamente com gramíneas de alto potencial de produção e capacidade de resposta, como as do gênero Cynodon, requer cuidados especiais e atenção no manejo. Por isso, a fazenda adota um regime de pastejo diferenciado. Tradicionalmente, a maioria das fazendas que trabalham com sistema de produção a pasto adotam um período de ocupação (PO) e um período de descanso (PD), em dias, fixo e pré-estabelecido, de acordo com a forrageira em questão, o clima, a época do ano e o nível de adubação empregado. Na Tainá, isso também é feito, entretanto o pastejo é ajustado semanalmente, e o controle e ordem de entrada/escolha dos piquetes a serem consumidos é feito mediante a altura do pastejo (não seqüencial). Segundo Fábio Lembi, “a prioridade é sempre a máxima ingestão de forragem”. Para isso, é necessário fazer com que as vacas em lactação consumam uma forragem de altíssima qualidade, o que é alcançado com um período de descanso variável, ou seja, de 15 a 18 dias no verão, e de 25 a 30 dias no inverno.
Dessa forma, nos períodos do ano de maior produtividade, os piquetes são manejados com até 2 lotes. Quando o primeiro lote pastejou/consumiu 50% da área, um segundo lote inicia novo ciclo de pastejo, com ocupação de 1 dia. Segundo João Roberto, em algumas áreas e determinadas épocas do ano, em função da combinação de fatores climáticos, a produtividade é tão alta que, mesmo com esse manejo (2 lotes de consumo), é necessário efetuar o corte mecanizado para regularização de algumas áreas.
Todo o sistema de produção da fazenda Tainá está hoje fundamentado no fornecimento e uso de uma única fonte forrageira: gramíneas de alta qualidade (Cynodon). Todas as categorias recebem suplementação com concentrado, em diferentes quantidades e níveis nutricionais, de acordo com os requisitos de cada uma. Em períodos de escassez de pastagem (inverno) a suplementação volumosa é feita com o excedente produzido no verão. Segundo João Roberto, até como “ferramenta” de manejo, a forragem excedente é conservada na forma de silagem, com uso de inoculantes. Dessa forma, tanto no verão (pastejo), como no inverno, o Jiggs é utilizado como volumoso. Durante o verão, os animais em produção consomem pequenas quantidades de volumoso (1,5 a 4,0 kg de matéria original (MO)/cabeça/dia), misturado ao concentrado (suplemento), com consumo estimado em 30 até 48 kg de matéria orgância via pastejo. No inverno, a relação se inverte, com fornecimento no cocho de 21 a 25 kg/cabeça/dia de volumoso conservado (silagem), sem pastejo (confinamento total), ou com fornecimento parcial de pastagem, dependendo do lote/categoria.
A Gestão
O gerenciamento da fazenda é totalmente informatizado, com a utilização de software especializado em gestão de custo e de rebanho. De acordo com o proprietário, a implantação do software e do almoxarifado foi fundamental e um diferencial positivo em termos de administração, gestão e controle de custos da propriedade como um todo.
Na fazenda existe uma funcionária exclusiva para a função administrativa, sendo sua responsabilidade realizar cotações de compras, cadastrar notas de contas a pagar e efetuar pagamentos.
O sistema de gerenciamento é integrado, sendo os dados da fazenda armazenados em arquivos de backup e transmitidos aos gestores que os acessam do escritório de São Paulo para avaliação e controle.
Segundo João Roberto, no passado, os custos e gastos com manutenção eram extremamente elevados e a implantação do almoxarifado ajudou a profissionalizar e melhorar o controle. De acordo com Fábio Lembi, “com ajuda do programa de gerenciamento foi possível enxergar melhor os pontos fortes e fracos do sistema. A informatização de todas as despesas e o controle setorizado de todos os gastos fez com que melhorássemos nossa estratégia de compras”. “Percebemos que, para alguns setores e itens, a compra programada e estratégica, com melhores condições de preço, e a formação de estoque foram fundamentais”, completa.
No almoxarifado, são armazenados diferentes itens, peças e produtos de reposição, que vão desde herbicidas e medicamentos até utensílios usados nas casas dos trabalhadores (colônia). “Temos até chuveiro elétrico de reposição. Se queima ou quebra um chuveiro de um funcionário ele pode retirar no almoxarifado, sendo descontado posteriormente na folha de pagamento”, explica Lembi. Outros fatores que atrapalhavam muito o dia-a-dia da fazenda, como a paralisação de atividades ou não realização de serviços por falta de peças de reposição/manutenção, também foram sanados. “Com o almoxarifado, cada compra é cadastrada, e quando determinado item ou produto é consumido, é despachado do estoque e direcionado para o setor designado. Isso fez com que reavaliássemos nosso custo de produção, que passou a ser constituído com outro enfoque. No passado, o custo era gerado com o montante de capital desembolsado, independentemente de um determinado insumo ser consumido ou não. Hoje, o capital desembolsado é repartido de acordo com cada setor e somente entra na nossa metodologia de custos quando é efetivamente consumido.

A Visão do Técnico
Ao abordarmos diferentes sistemas de produção paira sempre a dúvida sobre qual seria a melhor proposta de trabalho em busca da maior eficiência para se produzir leite. A experiência acumulada pela fazenda Tainá esclarece muitos aspectos interessantes.
O primeiro deles é que o pastejo rotacionado é uma excelente opção para rebanhos menos especializados e com menor potencial de produção individual. Essa foi a realidade da propriedade nos primeiros anos de atividade, quando trabalhou com pastejo rotacionado de Capim Elefante.
O segundo aspecto interessante foi a migração, natural, do pastejo para o confinamento, à medida que houve evolução genética do rebanho como um todo. Aliás, esse é um desafio bastante comum para muitas fazendas no Brasil. Com o melhoramento genético dos animais e a necessidade de maior IMS e nutrientes, principalmente de alimentos volumosos (pasto), para produção de leite, a manutenção de vacas em sistema com baixos níveis de suplementação se tornou um desafio. Essa foi uma experiência vivida pela fazenda Tainá. Vale ressaltar aqui que muitos sistemas foram e são estruturados para produção de leite de baixo custo, e muita confusão ocorre nesse momento de escolha, pois baixo custo de produção está associado a eficiência, independentemente do tipo de sistema (pastejo ou confinamento). Todavia, teoricamente, nenhum sistema pode ou poderia superar a logística operacional, bem como a racionalidade, do pastejo em si: afinal, o mesmo está fundamentado na busca do alimento pelo próprio animal, colhendo-o no seu melhor momento ou valor nutricional.
O terceiro e último aspecto que destacamos, no caso da Tainá, está associado à produção de leite em pasto com rebanho de alto potencial de produção (100% Holandês). Problemas intrínsecos e desafios particulares levaram a propriedade, novamente, à migração de sistema de produção. Dessa vez, entretanto, do confinamento total para o pastejo rotacionado. Na prática, a fazenda demonstrou ser possível a viabilização da produção de leite nas condições supracitadas, contanto que haja planejamento e adequação entre o volume e a qualidade de forragem fornecida para animais mais exigentes.
Diferentemente de muitas propriedades que, independentemente do sistema de produção escolhido trabalham com diferentes forrageiras, a Tainá direcionou todo o seu trabalho para a produção de gramíneas do gênero Cynodon, manejadas com extremo cuidado, seja no pastejo ou na ensilagem, com o propósito de fornecer sempre o melhor valor nutricional possível aos animais, fator também a ser destacado. O aspecto positivo a ser transmitido para todos, ao visitarmos essa propriedade e conhecermos sua história, é o fato de que não devemos e não podemos generalizar conceitos. Infelizmente, no meio técnico algumas idéias são divulgadas de maneira precipitada, levando a conclusões e tomadas de decisões erradas, em muitos casos. A Tainá, que completará 32 anos de atividade esse ano é a prova cabal de que, com perseverança, idealismo e profissionalismo podemos produzir leite sob diferentes sistemas, com sucesso.

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