Impacto do manejo nutricional e das instalações no comportamento alimentar de vacas leiteiras
Texto: Trevor J. DeVries
Um melhor entendimento do comportamento alimentar, combinado com contínuos esforços de nutricionistas, é essencial para que os produtores possam projetar e manejar seus sistemas de produção, de forma a permitir que suas vacas maximizem o potencial da dieta fornecida, melhorando, dessa forma, a saúde, a produtividade e o bem-estar.
Introdução
O estímulo da ingestão de alimentos por vacas leiteiras, particularmente aquelas no início da lactação, é crítica para a melhora e manutenção da produção de leite, saúde e condição corporal.
Práticas de seleção genética têm resultado em vacas leiteiras que são capazes de produzir leite em quantidades maiores do que as que podem ser mantidas pela ingestão de nutrientes, particularmente durante o começo da lactação.
Pesquisas anteriores em nutrição focavam quase que exclusivamente nos aspectos nutricionais da dieta, resultando em muitas descobertas e melhorias na saúde e produção de vacas leiteiras. Apesar dos muitos avanços nesse campo, ainda estamos enfrentando o desafio de garantir um consumo de matéria seca (CMS) para maximizar a produção e prevenir doenças, particularmente durante o período de transição.
Esse artigo descreverá a importância de entender o comportamento alimentar, e como o conhecimento nessa área da ciência pode ser usado para avaliar estratégias de manejo nutricional e de adequação das instalações. Sabe-se que, com um melhor entendimento do comportamento alimentar, combinado com contínuos esforços de nutricionistas, os produtores podem projetar e manejar seus sistemas de produção de forma a permitir que suas vacas maximizem o potencial da dieta fornecida, melhorando, dessa forma, a saúde, a produção e o bem-estar.
Importância do comportamento alimentar
Ao longo dos anos, muitos pesquisadores avaliaram muitos fatores físicos, digestivos e metabólicos que contribuem para a regulação fisiológica do CMS. A identificação desses fatores é necessária para a formulação de dietas que promovam a maximização do CMS, particularmente para as vacas no início da lactação, cujas demandas de energia frequentemente não podem ser supridas. Uma vez que, mudanças no CMS precisam essencialmente ser mediadas por mudanças no comportamento alimentar, é importante entender os fatores que influenciam os padrões desse comportamento nas vacas. Até agora, a maioria das pesquisas sobre nutrição de vacas leiteiras ignorou a forma como a dieta é consumida, simplesmente estimando o CMS diário, sem considerar como e qual alimento foi realmente consumido.
Vacas leiteiras modernas, intensivamente instaladas, recebendo uma ração total (TMR), tipicamente consomem sua cota diária de matéria seca em até 6 horas do dia, dividida entre 7 ou mais refeições. Práticas de manejo que levam os animais a consumir refeições maiores, com menor frequencia, foram associadas com uma maior incidência de acidose ruminal subaguda. A razão para esse risco é que o pH ruminal declina após as refeições, e a taxa de declínio aumenta com o aumento do tamanho da refeição e à medida que a concentração de fibras dietéticas efetivas decresce. Além disso, quando as vacas gastam menos tempo total se alimentando e aumentam sua taxa de consumo, a secreção salivar diária é reduzida, diminuindo a capacidade de tamponamento e o pH do rúmen. Por outro lado, quando as vacas diminuem sua taxa de consumo de matéria seca e fazem refeições menores e mais frequentes ao longo do dia, o tamponamento do rúmen é maximizado, reduzindo-se as grandes quedas de pH e o risco de acidose ruminal subaguda. Dessa forma, para maximizar a saúde do rúmen, a eficiência e a produtividade, é importante utilizar estratégias de manejo nutricional que promovam consumo frequente de alimentos em pequenas refeições ao longo do dia.
As rações totais (TMR) foram concebidas como uma mistura homogênea, com o objetivo de ajudar a minimizar o consumo seletivo de componentes individuais do alimento, promover uma condição estável que conduz à contínua função do rúmen e fluxo da ingesta, e garantir ingestões adequadas de fibra. Não surpreende, então, que fornecer o alimento como ração total tem se tornado padrão na maioria das fazendas leiteiras comerciais, particularmente para animais em lactação. Infelizmente, mesmo quando se fornece o alimento como TMR, as vacas conseguem selecionar os componentes da dieta, dando preferência aos grãos, em detrimento da forragem mais longa. A seleção da dieta pode fazer com que as vacas consumam uma ração inconsistente, com maior quantidade de carboidratos fermentáveis e menor quantidade de fibras efetivas do que se pretendia e, dessa forma, aumentando o risco de acidose ruminal subaguda. Além disso, a seleção da TMR pode reduzir o valor nutritivo da dieta restante no cocho de alimentação, particularmente com o passar do tempo após a distribuição do alimento. Para vacas alimentadas em grupo, isso pode ser prejudicial para aqueles animais que não têm acesso ao alimento no momento em que ele é distribuído, por exemplo, quando existe uma grande competição no cocho. Nesses casos, essas vacas podem não ser capazes de ingerir a quantidade adequada de nutrientes para manter os altos níveis de produção de leite. Dessa forma, as estratégias de manejo alimentar são essenciais para garantir que as vacas consumam a dieta da forma como foi formulada para elas.
Está claro que, além da formulação adequada das dietas, precisamos também considerar como as mesmas são consumidas, para garantir que o potencial seja maximizado. Existem cada vez mais informações na literatura que mostram que o conhecimento do comportamento alimentar pode ser usado para identificar falhas de manejo nutricional e as melhores estratégias de adequação de instalações para maximizar o potencial das dietas. Isso inclui garantir que as vacas tenham acesso a alimento fresco ao longo do dia e minimizar a competição no cocho.
Impacto do manejo nutricional no comportamento alimentar
Quando mantidos em pastagens, os bovinos frequentemente sincronizam seu comportamento com o dos outros animais no grupo de alimentação, ruminando e descansando ao mesmo tempo. Estudos mostram que vacas leiteiras em confinamento também sincronizam seu comportamento, particularmente o da alimentação. Observações indicam que quando as vacas são alimentadas em grupos, o ato de um único animal se mover ao cocho estimula os outros a fazerem o mesmo.
Existe um conceito corrente de que a vaca leiteira exibe um padrão alimentar diurno, com a maior parte da atividade de alimentação ocorrendo durante o dia, particularmente próximo ao nascer e ao pôr-do-sol. Entretanto, essa observação é quase exclusivamente baseada em padrões alimentares exibidos por vacas em pastejo. Para obter um melhor entendimento sobre como os fatores de manejo influenciam no comportamento de vacas em lactação mantidas em confinamento e recebendo TMR ad libitum, examinamos o modo de consumo normal desses animais, e descobrimos que o padrão de alimentar diurno era influenciado, principalmente, pela hora da distribuição do alimento, pela prática de empurrar o mesmo na pista de alimentação, e pela ordenha. Ficou claro que os picos mais dramáticos de consumo ocorrem ao redor da hora de distribuição do alimento e do retorno da sala de ordenha. Esses resultados indicam que a distribuição do alimento age como influência primária no padrão diário de alimentação de vacas leiteiras em confinamento e não, como se pensava anteriormente, a hora do dia.
A distribuição de alimentos frescos é, claramente, um fator importante para estimular as vacas leiteiras a comer. Para confirmar essa observação, conduzimos dois experimentos, visando determinar se uma maior frequência de distribuição de alimentos afeta o comportamento de vacas leiteiras confinadas. No primeiro trabalho, os tratamentos foram: 1) distribuição de alimento uma vez por dia (1x), e 2) distribuição de alimento duas vezes por dia (2x). Os tratamentos para o segundo experimento foram: 1) distribuição de alimentos 2x, e 2) distribuição de alimentos 4x. Em ambos os experimentos, a maior frequência de fornecimento de alimentos aumentou o tempo de alimentação diário total em 10 e 14 minutos, respectivamente, bem como a distribuição do tempo de alimentação durante o dia. A distribuição do tempo de alimentação em ambos os experimentos indicou que as vacas têm mais igualdade de acesso ao alimento durante o dia quando o mesmo é fornecido com maior frequência. A frequência de distribuição de alimentos não teve efeito sobre o tempo diário de descanso das vacas ou no número total de interações agressivas no cocho. Entretanto, observamos que as vacas subordinadas não eram deslocadas com tanta frequência quando alimentadas mais vezes ao dia, indicando que esses animais tiveram maior acesso ao alimento, particularmente ao alimento fresco, quando a frequência de distribuição de alimentos foi maior. Além dessas medidas comportamentais, também observamos os efeitos da frequência de distribuição da dieta sobre a composição da mesmo ao longo do dia. Em ambos os experimentos, o teor de fibra em detergente neutro (FDN) da TMR presente no cocho aumentou ao longo do dia, indicando que a seleção de alimentos ocorreu, particularmente no tratamento 1x. Reforçando essa observação, um estudo recente com múltiplos rebanhos mostrou que uma maior mudança no teor de FDN da ração ao longo do dia foi associada com uma menor frequência de distribuição de alimentos (isto é, 1x vs. 2x ou 3x por dia).
A maior seleção da TMR, quando fornecida 1x por dia, pode ser particularmente problemática em algumas situações, como a alta umidade da dieta. Em dois estudos recentes, investigamos os efeitos da adição de água a dietas contendo somente silagem de feno e de milho como fontes de forragem, e fornecidas 1 vez ao dia. Em um primeiro estudo, reduzimos a concentração de matéria-seca da TMR de 58 para 48% e, no segundo trabalho, de 56 para 50 e para 44%. Em ambos os estudos, observamos que a adição de água às dietas de maior umidade, não contendo forragem seca, realmente resultou em maiores quantidades de seleção de alimento. Além disso, maiores quantidades de água adicionadas às rações também resultaram em menor consumo de matéria seca. Um reduzido CMS, em dietas com alta umidade, pode ser devido, em parte, ao efeito de maior saciedade. É interessante notar que, no segundo estudo, observamos que maiores quantidades de água adicionadas à TMR resultaram em maiores aumentos na temperatura do alimento com o passar do tempo apos o fornecimento no cocho, particularmente em dias mais quentes. Essa maior temperatura do alimento pode ser indicativa de decomposição do mesmo e, dessa forma, pode ter contribuído também para a redução do consumo. Assim, quando a TMR apresentar altos valores de umidade, especialmente em locais com altas temperaturas ambiente, o fornecimento de alimento 1 vez por dia pode, não somente aumentar o risco de maior seleção, mas também, limitar o CMS.
Uma das práticas mais comuns de manejo alimentar que pode estimular o consumo é empurrar o alimento na pista de alimentação ou cocho. Quando se fornece uma TMR, as vacas leiteiras têm a tendência natural de selecionar ingredientes e empurrar o refugo para frente, longe de seu alcance. Isso é particularmente problemático quando o alimento é fornecido em pistas de alimentação. Para minimizar o problema, os tratadores comumente empurram o alimento mais perto das vacas, entre as refeições. Um estudo observacional mostrou que o número de alimentação das vacas aumentou após essa prática.
Existem evidências que sugerem que a hora de distribuição do alimento também é importante para as vacas leiteiras. A disponibilização de alimento fresco, após o retorno da ordenha, tem sido usada para estimular as vacas a permanecer em pé (enquanto comem) ao invés de se deitar. Um trabalho feito por nossa equipe, em 2010, mostrou que o fornecimento de alimentos após ordenha resultou em tempos mais longos de permanência da vaca em pé, e foi o primeiro estudo a documentar como o tempo de permanência em pé após a ordenha se relaciona com o risco de infecção subclínica no úbere. As vacas que se deitam pela primeira vez, em média, 40 a 60 minutos após a ordenha, têm menos chances de uma nova infecção subclínica no úbere causada por bactérias ambientais, comparadas com aquelas que se deitam dentro de 40 minutos após a ordenha. Esses resultados sugerem que práticas de manejo que desestimulem as vacas a se deitar imediatamente após a ordenha, como o fornecimento de alimento fresco, podem ajudar a reduzir os riscos de mastite subclínica.
Além da frequência e da hora de distribuição, a quantidade de alimento fornecida também pode impactar o comportamento alimentar de vacas leiteiras em lactação. Muitas pesquisas nessa área focaram o impacto do tempo de acesso ao alimento. Uma limitação substancial (8 horas diárias de acesso) do período de acesso ao alimento mostrou limitar a ingestão e a produção, provavelmente por efeitos adversos no comportamento alimentar, fazendo com que as vacas tivessem refeições mais curtas, mais velozes, e menor tempo de alimentação. Em um estudo recente, observou-se que uma restrição temporária de acesso ao alimento (14 vs. 23h/dia de acesso) resultou em menores tempos de alimentação e maior competição no cocho. Esses pesquisadores também descobriram que, em maiores densidades animais, essa restrição temporária aumentou a velocidade de alimentação ao longo do dia.
Impacto das instalações no comportamento alimentar
Um dos objetivos específicos das instalações para vacas de leite é fornecer um ambiente confortável, que permitirá que as mesmas supram suas necessidades comportamentais e fisiológicas. Há vários aspectos das instalações que têm potencial para influenciar o acesso das vacas aos alimentos, incluindo a quantidade de espaço disponível no cocho por animal e o projeto físico da área de alimentação.
Observações recentes sugerem que, no atual padrão de 0,61m de espaço de alimentação por vaca, nem todos os animais podem ter acesso ao alimento ao mesmo tempo. Como dito anteriormente, as vacas são animais sociais, e tendem a sincronizar seu comportamento, incluindo o acesso ao cocho de alimentação como um grupo. A disponibilidade reduzida de espaço resulta em aumento de comportamentos agressivos, limitando o acesso de algumas vacas ao cocho em momentos nos quais a motivação para se alimentar é alta, particularmente após a distribuição de alimento fresco. Pesquisas recentes mostraram que a competição no cocho aumentou dramaticamente a velocidade de alimentação e reduziu o número de refeições ao longo do dia. Outro estudo indicou que a competição mudou a distribuição de CMS durante o dia, resultando em maiores ingestões com o passar do tempo após a distribuição da dieta, depois de grande parte da seleção de alimentos já ter ocorrido. Dessa forma, a maior competição promoveu um comportamento alimentar que forçou as vacas subordinadas a consumirem a maior parte de seu alimento após as vacas dominantes terem selecionado a TMR. Esses resultados sugerem que uma maior competição no cocho promove padrões de comportamento alimentar que provavelmente aumentarão a variação entre as vacas na composição da TMR consumida e os riscos de acidose ruminal subaguda. Fornecer mais espaço de cocho do que o padrão atual, de 0,61m por animal, facilita o acesso, aumentando os tempos de alimentação, reduzindo a competição, e melhorando os índices produtivos de vacas subordinadas. Essa mudança ajudará a reduzir a variação na composição da dieta consumida à medida que as vacas subordinadas serão capazes de ter acesso ao alimento antes de esse ter sido selecionado pelas vacas dominantes.
Além de aumentar a quantidade de espaço disponível no cocho, a competição por alimento também pode ser reduzida por meio da adequação do projeto da área de alimentação. Pesquisadores mostraram que um sistema de canzil (headlock system) reduz bastante a competição no cocho, quando comparado com o sistema de cerca (post-and-rail). Outra opção para reduzir a competição é o uso de partições (feed stalls) entre os corpos das vacas adjacentes no cocho. Pesquisas de nosso grupo mostraram que os feed stalls resultaram em maior tempo de alimentação e menor competição, particularmente para vacas subordinadas.
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