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Nutrição

Manejo alimentar visando a longevidade de vacas leiteiras

Manejo alimentar visando a longevidade de vacas leiteiras

Texto: Michael F. Hutjens

Os administradores de fazendas leiteiras esforçam-se para melhorar a lucratividade dos sistemas de produção, mas a curta vida produtiva das vacas - em média, menos de três lactações - é um grande desafio. Falhas reprodutivas, problemas de casco e as desordens de saúde relacionadas à transição são os principais fatores que afetam a longevidade produtiva das vacas, e podem estar relacionadas a programas inadequados de alimentação.

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Vida produtiva e problemas de casco

As claudicações têm se tornado a segunda desordem mais cara que as vacas leiteiras apresentam, perdendo apenas para a mastite. Pesquisadores de Wisconsin reportaram 73 casos por 100 vacas em 30 rebanhos (15 free-stall e 15 rebanhos convencionais, com média de 10.482 quilos de leite). O custo foi estimado em US$ 122 por vaca com claudicação, US$ 88 por caso de verruga peluda, US$ 369 por caso de úlcera de sola e US$ 227 por caso de doença na parede do casco.

Uma abordagem para resolver as desordens de casco é avaliar três fatores que contribuem para a ocorrência das mesmas e aumentam os descartes: genética, conforto da vaca e alimentação. Os fatores relacionados à vaca, incluindo seleção genética de pés, como profundidade do talão, por exemplo, e conformação das pernas, podem tornar o pé mais propenso a problemas de claudicação. O conforto da vaca, as distâncias caminhadas diariamente (da sala de ordenha ao pasto ou área de descanso), o tipo de piso percorrido nas caminhadas, a presença de pedras e irregularidades nesse piso, a superfície e o espaço do free stall, a ocorrência e severidade do estresse térmico, a exposição a esterco e lama, são todos fatores que podem impactar na saúde dos cascos.

Agentes infecciosos são responsáveis por 58% dos casos de claudicação, incluindo pododermatites e verrugas peludas. Já as laminites, que respondem por 42% dos quadros de manqueira, é uma inflamação que causa interrupção do fluxo sanguíneo ao córion. Várias causas de laminite podem ser encontradas em artigos científicos e observações a campo, como:

• Histamina sanguínea aumentada após a morte de bactérias gram-negativas, liberando endotoxinas e causando acúmulo de sangue no casco. A degradação de proteínas no rúmen também pode contribuir com a elevação da histamina;

• Baseado em pesquisas com equinos, observou-se que a acidose ruminal produz uma toxina que pode levar à quebra das ligações entre a epiderme da parede do casco e o tecido mole no córion,  levando a úlceras na sola e abcessos na linha branca;

• Pesquisas européias sugerem que a produção de ácido lático no rúmen, em situações de baixo pH ruminal, muda os padrões normais de fermentação, desencadeando quadros de acidose ruminal;

A acidose ruminal subaguda continua sendo um importante fator relacionado à ocorrência de laminite. Fatores que causam redução do pH do rúmen para menos de 6 incluem: altos níveis de amido fermentável no rúmen; ácidos graxos insaturados; altas ingestões de matéria seca; grande quantidade de grãos fornecidos na alimentação (mais de 2,2 a 3,2 quilos de matéria seca por refeição); forragens com menor capacidade natural de tamponamento (como silagem de milho); forragens que são processadas em partículas muito pequenas, reduzindo a mastigação e ruminação; rações úmidas; pastagem de alta qualidade; e a seleção dos alimentos, tanto nas TMR quanto em sistemas de pastagens.

Fatores relacionados ao balanceamento das dietas, visando minimizar os riscos de problemas de casco são resumidos a seguir. Os níveis recomendados são expressos como a porcentagem na ração total em uma base de 100% de matéria seca, na Tabela 1. Os nutrientes com relações diretas à saúde dos pés incluem sódio, cloro, potássio, cálcio, fósforo, cobalto e magnésio.

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Amido e açúcar são importantes nutrientes que levam a um menor pH do rúmen e à acidose. Esses carboidratos podem alterar a fermentação, aumentando os níveis de ácidos propiônico e lático. O tamanho das partículas de grãos (finamente moído), o processamento (floculado) e a fonte de amido (trigo vs. milho) impactam na taxa de fermentação. Os açúcares, encontrados em pastagens de alta qualidade, por exemplo, têm taxas mais rápidas de fermentação no rúmen. Os níveis sugeridos na matéria seca da ração total são de 24 a 26% de amido e 4 a 6% de açúcar.

A qualidade e a quantidade de proteínas podem impactar a ocorrência de problemas de casco. Altos níveis de proteína degradável e proteína total podem levar à formação de produtos de fermentação no rúmen que podem afetar a saúde dos pés.

Fibras efetivas permanecem por mais tempo no rúmen, otimizando a taxa de passagem e a ruminação normal, ou seja, 550 a 600 minutos de atividade de mastigação e ruminação diariamente. O pH do rúmen deve ser mantido acima de 6,0 (idealmente, 6,0 a 6,2). Dois quilos de partículas de forragem com tamanho superior a uma polegada de comprimento ou 19 a 21% de fibra em detergente neutro (FDN) efetiva são os níveis mínimos sugeridos.

Gorduras e óleos podem reduzir a digestão das fibras e o pH do rúmen devido à queda no número de bactérias que digerem fibras. Ácidos graxos insaturados também podem mudar para formas trans se o pH do rúmen estiver marginalmente baixo, levando a baixos teores de gordura do leite. Limite a adição de óleo vegetal, proveniente de oleaginosas para 2,5%; de óleo livre, não contido nas células das oleaginosas, para 225 gramas por vaca por dia; e de óleo de peixe para 50 gramas por vaca/dia.

O cobre pode melhorar a saúde dos cascos pelo estímulo à produção de uma enzima que aumenta a dureza do casco. Vacas com deficiência de cobre são mais susceptíveis a rachaduras, podridão e abcessos nos cascos. O nível sugerido de cobre total na matéria seca da ração é de 10 a 15 ppm, sendo 1/3 de fontes orgânicas e 2/3 de inorgânicas. Se o nível de molibdênio total na ração for superior a 1 ppm, níveis maiores de cobre suplementar serão necessários.

O enxofre é necessário para a síntese de aminoácidos sulfurados pelas bactérias do rúmen, sendo necessárias de 10 a 12 partes de nitrogênio para uma parte de enxofre. Estudos apontaram para maior dureza dos cascos em dietas com 0,25 a 0,28% de adição de enxofre.

O zinco melhora a integridade dos cascos por meio da cicatrização de lesões, manutenção do epitélio e síntese e maturação da queratina. Os níveis de zinco das pastagens variam ao longo do ano, com níveis mais baixos no período de grande crescimento da primavera. O zinco orgânico pode reduzir a contagem de células somáticas e aumentar a produção de leite. Níveis recomendados na matéria seca da ração total são de 40 a 60 ppm, sendo 1/3 de fontes orgânicas e 2/3 de fontes inorgânicas. 

A biotina é necessária para a formação da queratina e para o desenvolvimento da parede do casco, sendo que sua deficiência pode levar a problemas de casco. Estudos recentes da Universidade de Wisconsin apoiaram trabalhos anteriores da Universidade do Estado de Ohio que mostraram que a suplementação de biotina aumentou a produção de leite em 2 a 2,5 quilos, entretanto, sem melhora na saúde dos cascos. O mecanismo para uma maior produção de leite pode estar relacionado à sua função metabólica de vitamina B. São necessários de 6 a 12 meses de suplementação para que uma resposta consistente seja observada na saúde dos cascos. O nível recomendado de biotina é de 20 miligramas por vaca/dia. 

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Vida produtiva e manejo da transição

Os programas de nutrição de vacas em transição continuam sendo uma “chave” para a alta produção, saúde e longevidade. O balanço energético (BE) positivo é fundamental para a saúde da vaca, minimizando mudanças de peso, melhorando a reprodução e aumentando a produção de leite.

As vacas secas close-up (de 21 dias pré-parto ao parto) podem requerer quase 20% mais energia relacionada ao feto, ao colostro e à demanda da glândula mamária. Entretanto, a ingestão de matéria seca pode cair de 10 a 30% à medida que as vacas se aproximam do parto. Se as vacas estiverem submetidas a fatores ambientais, como estresse térmico, os requisitos energéticos de mantença também podem aumentar em 10 a 20%. Vacas secas close-up, que não diminuem o consumo de matéria seca antes do parto, têm maior ingestão de matéria seca aos 21 dias após o parto, conforme foi reportado por pesquisadores de Wisconsin e Illinois. Qualquer fator de manejo ou da dieta que possa manter a ingestão de nutrientes ao parto é positivo para vacas em transição. Apresentaremos a seguir algumas estratégias para vacas em período de transição, recomendadas por pesquisadores. Mas, é importante considerar os prós e os contras de cada programa cuidadosamente.

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Estratégia Um:

Maior energia nas rações close-up.

Prós: A adição de amido pode aumentar a fermentação microbiana do rúmen e estimular a ingestão de matéria seca.

Contras: a acidose ruminal e o acúmulo de ácido lático pode levar a uma queda no consumo e ao deslocamento de abomaso.

 

Estratégia Dois:

Rações com baixa energia para vacas secas.

Prós: Colocar vacas secas em uma dieta com menor energia pode minimizar a incidência de vacas com sobrepeso que, consequentemente, apresentam menor ingestão de matéria seca. A adição de 3 a 4 quilos de palha de trigo (30-35% da matéria seca da ração) é uma sugestão.

Contras: as vacas podem perder peso corporal, com consequente queda nas reservas de energia. Além disso, a competição no cocho pode levar à ingestão variável de alimentos dentro do grupo de vacas secas. As vacas secas precisam consumir mais de 12 quilos de matéria seca por dia, atendendo também aos requisitos de proteína metabolizável (1100 g/dia).

 

Estratégia Três:

Focar em rações com mais silagem de milho.

Prós: Fornecer maiores quantidades de silagem de milho (4,5 a 7,0 quilos de matéria seca) na dieta close-up pode aumentar a ingestão de matéria seca, reduzir os níveis de potássio da dieta, melhorar a palatabilidade e a estabilidade da ração e aumentar o amido fermentável no rúmen.

Contras: o tamanho das partículas pode limitar o preenchimento do rúmen e levar ao deslocamento de abomaso. A adição de 1 a 2 quilos de palha pode ser necessária.

 

Estratégia Quatro:

Três grupos de vacas em transição.

Prós: Fornecer três dietas diferentes (vacas secas até 21 dias pré-parto, vacas secas de 21 dias pré-parto ao parto, e vacas recém-paridas) aumenta a ingestão de nutrientes gradualmente, permitindo que as vacas intensifiquem a concentração de nutrientes com menos de 10% de mudanças na concentração absoluta.

Contras: A mudança de grupos pode aumentar a competição e reduzir a ingestão de alimentos.

 

Estratégia Cinco:

Produtos aniônicos.

Prós: A adição de um produto aniônico melhora os níveis de cálcio do sangue, reduz o risco de hipocalcemia, aumenta a ingestão de matéria seca e reduz a incidência de deslocamento de abomaso devido à melhora na contração da musculatura lisa quando os níveis dietéticos de potássio excedem 1,0 a 1,2%.

Contras: Maiores custos de alimentação, menor ingestão de matéria seca e falta de resposta em novilhas.

 

Estratégia Seis:

Usar subprodutos na alimentação.

Prós: A adição de subprodutos com altos níveis de fibras digestíveis pode aumentar a ingestão de alimentos, manter a ingestão de nutrientes e reduzir os níveis de potássio da dieta.

Contras: Necessidade de ter um grupo de vacas close-up.

 

Estratégia Sete:

Grupos específicos de novilhas close-up e recém-paridas.

Prós: As novilhas têm maiores necessidades de nutrientes já que consomem menos matéria seca. As novilhas também são menos competitivas após o parto, quando misturadas com vacas mais velhas.

Contras: Necessidade de instalações específicas. O tamanho do rebanho também pode ser um fator limitante.

 

Estratégia Oito:

Maiores níveis de proteína bruta e proteína não degradável no rúmen (RUP) no pré-parto .

Prós: A suplementação dos primeiros aminoácidos limitantes pode ser benéfica quando fornecidos antes e depois do parto.

Contras: O fornecimento de proteína bruta em excesso pode ser um problema, porque o fígado pode não ser capaz de detoxificar o excesso de amônia, principalmente em quadros de fígado gorduroso.

As seguintes diretrizes podem ser consideradas com vacas secas close-up:

• Vacas maduras devem receber dietas contendo 12 a 13% de proteína bruta.

• As novilhas gestantes precisam de uma ração contendo 14 a 15% de proteína bruta.

• Se a ingestão de matéria seca é reduzida abaixo dos níveis recomendados, maiores níveis de proteína podem ser necessários.

• Quando se aumenta os níveis de proteína bruta na ração de vacas secas close-up, a fonte de proteína não degradável no rúmen e seu perfil de aminoácidos precisam ser considerados.

• Estimular o crescimento microbiano é essencial para aumentar a oferta de aminoácidos para vacas secas close-up.

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Vida produtiva e reprodução

A reprodução é impactada pela detecção do cio, taxa de concepção, conforto da vaca e outros fatores de manejo. A nutrição também pode influenciar o desempenho reprodutivo, e a lista a seguir pode ser útil para minimizar o risco de efeitos negativos da dieta sobre a reprodução.

• O balanço energético negativo é claramente um risco à reprodução, incluindo perda de peso excessiva, redução nas estruturas foliculares e impacto nos hormônios reprodutivos. O aumento da densidade de energia, da ingestão de matéria seca e da fermentação microbiana no rúmen podem reduzir a perda de reservas corporais. A vaca deve estar em um balanço positivo de energia nas semanas 4 a 6 após o parto, o que propiciará aumento dos escores de condição corporal, redução dos ácidos graxos não esterificados (NEFA) e testes normais de gordura do leite.

• Os altos níveis de proteína podem reduzir a taxa de concepção, em função dos níveis mais altos de compostos nitrogenados no sangue e fluidos uterinos, ou ter um impacto negativo na função imune. O nitrogênio uréico no leite (MUN) pode ser uma ferramenta de campo útil para monitorar a utilização de proteína, sendo que valores de MUN superiores a 16-20 podem reduzir a fertilidade.

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