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Manejo

Medicina de Produção: “A eficiência na integração das ferramentas de manejo”

Medicina de Produção: “A eficiência na integração das ferramentas de manejo”

Texto: Gustavo H. F. A. Moreira, Patrícia de Alencar Auler, Julia Gomes de Carvalho, Elias J. Facury Filho, Antônio U. de Carvalho

A Medicina de Produção, tem como objetivo aumentar a eficiência do sistema produtivo, por meio da identificação e controle dos fatores de risco, da minimização de erros de manejo, além da busca constante por uma correta e eficaz interação entre as ferramentas da produção (Nutrição, Reprodução, Ambiência, Genética, Clínica e Cirurgia, Patologia, Epidemiologia, dentre outras). Como resultado, teremos uma maior produtividade, sem abrir mão da saúde e bem-estar animal e da segurança alimentar, quesitos imprescindíveis para quem quer se manter no mercado atual, garantindo assim um produto final de qualidade.

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O perfil do produtor de leite brasileiro tem sofrido alterações, seja em resposta ao mercado consumidor, atento às práticas de produção e bem-estar animal, seja pela competitividade do mercado por outros produtos e /ou produtores.

Wagner Beskon, em seu artigo publicado na edição de fevereiro de 2013 da revista Leite Integral, moldou o perfil dos produtores e os dividiu em tipo patronal extrativo e do tipo familiar sobrevivente. Independentemente desta divisão de origens, ele chama a atenção para o surgimento de um novo perfil de produtor denominado empreendedor rural.

Associado a essas mudanças no tamanho e escala de produção, especialização e gestão das empresas rurais, os mercados têm colocado grandes restrições sobre as margens de lucro do leite vendido, em virtude dos crescentes custos de produção, forçando uma atuação mais atenta por parte dos produtores.

Em resposta a este novo contexto, uma nova abordagem de trabalho tem sido colocada em prática por algumas Universidades em todo o mundo, incluindo a Escola de Veterinária da UFMG.  Esta nova abordagem se baseia nos conceitos de doenças subclínicas e medicina de rebanho, levantados a priori por Douglas Charles Blood, professor de Medicina Veterinária e Decano da Faculdade de Ciências Veterinárias da Universidade de Melbourne – Austrália, que demonstrou, tanto para a comunidade científica quanto para os produtores, que a doença subclínica tem maior impacto econômico para o sistema que os quadros clínicos.

Entende-se como subclínica aquela doença que está presente no animal/rebanho, mas que o produtor não consegue identificar de maneira clara, sendo necessária, muitas vezes, a utilização de métodos complementares de diagnóstico por parte do médico veterinário. É importante ressaltar que a grande maioria das perdas econômicas do sistema, referentes às enfermidades, estão associadas a estes quadros subclínicos, que de uma maneira geral, caracterizam-se por baixa severidade, quando comparados aos quadros clínicos, perdurando de uma maneira muito mais prolongada, e acarretando um elevado grau de perdas para o sistema.

Para ilustrarmos esta ideia, tomemos como exemplo um estudo realizado em 2002 pelo setor de Clínica de Ruminantes da EV-UFMG, no qual foi perguntado a 63 produtores da bacia leiteira da região metropolitana de Belo Horizonte quantos de seus animais apresentavam enfermidades do sistema locomotor. Em um universo de 323 vacas, os produtores apontaram 7% destas como animais com algum grau de manqueira. Após realizar o questionário, estes mesmos animais foram examinados, verificando-se que, na verdade, 87% destes apresentavam algum tipo de enfermidade nos pés.

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Nota-se, claramente, no exemplo acima, como estes sistemas podem estar comprometidos pela presença “invisível” das formas subclínicas das doenças. Se somarmos a estes resultados alguns dados sobre diminuição na ingestão de matéria seca e produção de leite, podemos ter uma pequena ideia dos impactos do subclínico na produção. Peter Robinson, pesquisador da Universidade da Califórnia (UCDavis), mostrou que vacas com claudicação discreta ( escore 2, utilizando o escore de manqueira 1-5) apresentam algum grau de redução na ingestão de matéria seca (MS), assim como na produção de leite. Vacas com escore 3 de claudicação, caracterizado pelo ligeiro arqueamento da linha de dorso em estação e ao se locomover, apresentam redução de 3% na ingestão de MS, e 5% na produção de leite. Se extrapolarmos estes resultados para um rebanho de 200 animais, com produção média de 30 litros de leite/animal/dia, teremos uma perda diária de 200 litros de leite, resultando em 6000 litros/mês ou R$6000,00, assumindo o preço pago por litro de leite como sendo de R$1,00.  Observa-se que esta perda ocorre de maneira direta, entretanto, devemos lembrar que outras estão indiretamente associadas, como aumento no tempo de serviço, predisposição a doenças concomitantes, resultando em descarte involuntário, dentre outras.

Além do conceito de doença subclínica, cabem aqui mais dois outros conceitos - risco e fator de risco. Define-se risco como a probabilidade de ocorrência de um resultado desfavorável, de um dano ou de um fenômeno indesejado. Já o fator de risco é definido como uma via que pode conduzir um indivíduo à maior probabilidade de desenvolver uma doença ou a uma maior probabilidade de ocorrer o problema /dano.

Ao levantarmos os fatores de risco de uma propriedade, nos deparamos basicamente com duas classes, como demonstrado no esquema abaixo, Figura 2. No primeiro grupo estão localizados os fatores de risco que, juntos, irão contribuir para o aumento da ocorrência de uma determinada doença na propriedade, como o piso inadequado, o excesso de umidade, a dieta rica em concentrado de rápida digestão e a não adaptação adequada à dieta. Já o segundo grupo está relacionado àqueles fatores de risco que podem influenciar no aumento da ocorrência de várias doenças, como por exemplo, o manejo inadequado do esterco no ambiente, que pode propiciar o surgimento de moscas; a ocorrência de mastites ambientais; o aumento das lesões de casco, dentre outras.

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Uma vez compreendidos os conceitos de doença subclínica, risco e fatores de risco passaremos ao próximo ponto que é exatamente a doença. O que é doença? Por que duas propriedades vizinhas, possuindo os mesmos agentes, mesmo clima, relevo, dentre outras semelhanças,  apresentam quadros diferentes em relação à incidência e tipo de doenças?  A simples presença destes agentes quase sempre não é suficiente para desencadear um problema. A saúde ou doença são processos que não ocorrem ao acaso, assim como uma propriedade bem sucedida também é fruto de uma interação favorável entre fatores. Basicamente, a doença clínica ou subclínica é observada no sistema quando ocorre um desequilíbrio entre a tríade Indivíduo, Ambiente e Agente, conforme pode ser visualizado na Figura 3. Imaginemos uma balança onde de um lado encontram-se os desafios impostos pelo agente e pelo ambiente, e do outro as defesas do hospedeiro. Caso o desafio seja maior que a defesa, esta equação resultará em doença. Já em contrapartida, se os desafios forem menores que as defesas, estes serão debelados e a doença não residirá no sistema.

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Ao entendermos a “equação” que resulta em doença ou saúde, o impacto da doença subclínica no sistema, a existência e o papel dos fatores de risco, construímos uma visão integrada do sistema de produção e percebemos que as medidas exigidas devem ser “lidas e extraídas” na propriedade, sendo trabalhadas de uma maneira integrada, utilizando-se para isso as diversas ferramentas disponíveis.

Sob este novo enfoque, surge a Medicina de Produção, que tem como objetivo aumentar a eficiência do sistema produtivo por meio da identificação e controle dos fatores de risco, da minimização de erros de manejo, além da busca constante por uma correta e eficaz interação entre as ferramentas da produção (Nutrição, Reprodução, Ambiência, Genética, Clínica e Cirurgia, Patologia, Epidemiologia, dentre outras). Como resultado, teremos uma maior produtividade, sem abrir mão da saúde e bem-estar animal e da segurança alimentar, quesitos imprescindíveis para quem quer se manter no mercado atual, garantindo assim um produto final de qualidade.

Para o sucesso na aplicação da filosofia da Medicina de Produção, deve-se instituir alguns passos, sendo eles:

• o estabelecimento de objetivos/metas gerais e específicas;

• a divisão e inclusão de programas específicos para cada categoria de animais da propriedade (princípio e prática);

• o treinamento da mão de obra e o fornecimento de condições e materiais necessários para a realização da atividade de maneira eficaz e segura (prática com princípio);

• o desenvolvimento de ferramentas de monitoramento - índices de produção, exames complementares - a fim de acompanhar o desenvolvimento do projeto e,

• por meio do registro de um banco de dados e a minuciosa interpretação dos mesmos, a avaliação dos resultados e, caso necessário, o ajuste do programa para se alcançar as metas previamente propostas.

Programas de gestão em saúde de rebanhos devem produzir registros que poderão ser utilizados para definir a frequência e distribuição de eventos dentro do rebanho, avaliados em conjunto para identificar e investigar fatores de risco ou causas de eventos de saúde e doença. Para tanto, uma base sólida em epidemiologia deve ser o primeiro passo no conjunto de competências da Medicina de Produção, sendo aconselhável dominar o conhecimento sobre a estrutura funcional do gerenciamento do rebanho, da convergência de funções de gestão operacional da fazenda em relação à saúde, produtividade, economia, bem-estar animal e meio ambiente. São também imprescindíveis conhecimentos específicos sobre a fisiopatologia, a dinâmica, o diagnóstico e a prevenção de doenças, tornando o profissional apto a interpretar não só a doença clínica e subclínica, mas também os dados de produção e os impactos deles decorrentes. Ademais, deve-se ampliar a capacidade de comunicação do técnico a fim de estimular e motivar a manutenção de registros, a melhoria dos procedimentos de gestão e adoção das recomendações propostas, atuando como uma fonte e um crítico de novas informações disponibilizadas ao produtor.

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