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Fazendas

Na Fazenda Lageado (Lagoa Formosa/MG) decisões baseadas em dados moldam o crescimento

Decisões baseadas nos dados, na excelência do manejo e no planejamento estruturado moldam o crescimento da Fazenda Lageado, localizada em Lagoa Formosa/MG

Na Fazenda Lageado (Lagoa Formosa/MG) decisões baseadas em dados moldam o crescimento

Honesto, calmo, bondoso, trabalhador. Foram esses os adjetivos usados por Cleusa, esposa de Geraldo Fernandes, e por um de seus quatro filhos, João Paulo Tiago Santana, para definir o homem que deu início, com discrição e responsabilidade, à história da família e da Fazenda Lageado. Geraldo não precisa elevar a voz para ser ouvido. Fala pouco, observa muito e ensina pelo exemplo. Durante a conversa, ouviu atentamente o próprio percurso sendo contado pelo filho - relato que se confunde com a trajetória da propriedade, localizada em Lagoa Formosa/MG, no coração de uma das mais importantes bacias leiteiras do país.

Braço forte

Nem mesmo o delicioso aroma do almoço que vinha da cozinha da Fazenda Lageado foi capaz de desviar a atenção de João Paulo, filho caçula de Geraldo e Cleusa. Sentado à mesa, cercado por ouvintes atentos, ele iniciou a conversa, mas logo fez questão de ceder a palavra ao pai. O gesto foi o sinal de respeito de quem reconhece ali a origem de tudo.

Geraldo falou no seu ritmo, sem pressa. Contou que tudo começou na década de 1960, com trabalho e muita perseverança. “Não havia máquinas, tampouco grandes estruturas. O que existia era a lida diária, o cultivo feito à força do braço, a ordenha modesta e a necessidade de fazer com que cada litro de leite sustentasse a casa”, relembra.

Ao falar da família, a voz ganha outro tom. O orgulho pelos filhos aparece com naturalidade. Ronaldo, o mais velho, passou décadas fora, construiu sua trajetória profissional e retornou recentemente para contribuir com a fazenda, atuando principalmente na parte administrativa e de apoio às decisões. Geraldo José, que sempre esteve ao seu lado, acompanhou de perto a evolução da propriedade, ajudando no dia a dia, na manutenção e nas atividades ligadas à agricultura e ao manejo. Isabel seguiu outro caminho, formou-se em Psicologia. O filho Pedro já começa a participar da rotina da fazenda, dando os primeiros passos no mesmo ambiente onde ela cresceu.

João Paulo foi quem assumiu de forma mais direta a condução técnica do negócio, logo após se formar em Medicina Veterinária, e imprimiu uma nova dinâmica para a gestão. Nesse processo, ele conta com o apoio da esposa, Lorena, responsável por organizar a parte administrativa e financeira da propriedade, e do filho mais velho, Hugo, que começa a acompanhar a rotina e a aprender, desde cedo, os valores que sempre sustentaram a Fazenda Lageado (eles ainda são pais de Heitor e da pequena Isadora).

O que se construiu foi um modelo de sucessão baseado em confiança e em responsabilidade compartilhada, pilares que seguem orientando as decisões e o futuro da fazenda.

João Paulo assume a narrativa e traduz, com clareza, o papel do pai nesse processo. “Meu pai sempre foi um homem calmo e reservado. Ainda assim, é ele quem sustenta tudo isso aqui. Foi quem pensou a fazenda, teve visão e soube conduzir a sucessão, sempre incentivando a gente a seguir em frente”, conta.

Genética como ponto de partida

Para João Paulo, a grande virada da Fazenda Lageado aconteceu antes mesmo dos investimentos em infraestrutura. Começou na forma de pensar. “O divisor de águas foi parar de pensar como “tirador de leite” e começar a pensar como empresário rural”, resume. Foi a partir dessa mudança de mentalidade que termos como planejamento, metas e decisões técnicas passaram a fazer parte do cotidiano da fazenda.

Com essa nova visão, ficou claro que alguns pilares precisariam sustentar o crescimento. Sanidade, bem-estar animal, nutrição e gestão passaram a caminhar juntos, mas foi a genética que se revelou como o ponto de partida de todo o sistema.

A construção desse olhar acompanha a própria evolução da pecuária leiteira na região. No início, o rebanho era formado sem critérios técnicos bem definidos. Vieram os primeiros cruzamentos, depois a introdução do Holandês, ainda de forma pouco planejada.

Esse cenário começou a mudar de forma mais decisiva a partir de 2017, com a introdução do genoma como ferramenta de decisão.


A genotipagem permitiu conhecer, de fato, o potencial de cada animal, identificar pontos fortes e, principalmente, orientar os acasalamentos com mais precisão. “O genoma reorganizou nossas escolhas e deu direção ao trabalho”, resume João Paulo.


A partir desse momento, a seleção passou a considerar dados concretos. Os touros começaram a ser escolhidos com critérios muito mais rigorosos, levando em conta não apenas produção, mas também fertilidade, saúde e longevidade. “O nosso crivo é muito alto. Não podemos errar porque sabemos exatamente o que temos no rebanho”, explica.

Esse avanço técnico se apoia em acompanhamento especializado. A equipe da Zoetis acompanha a Fazenda Lageado na definição do planejamento genético, dos protocolos reprodutivos e das estratégias sanitárias, participando das discussões e da interpretação dos dados gerados no próprio sistema. A relação se consolidou na troca técnica e na confiança construída ao longo do tempo.

Para Gustavo Andrade, consultor técnico da Zoetis, a incorporação da genômica ao processo decisório marca uma mudança estrutural na pecuária leiteira. “Quando o produtor passa a trabalhar com ferramentas como o Clarifide®, a genética passa a oferecer previsibilidade, direcionando acasalamentos, reposição e investimento com muito mais critério”, explica.



Com o avanço do uso do genoma, a fazenda também passou a compreender que genética, sozinha, não sustenta resultado. Era preciso criar as condições para que esse potencial pudesse ser expresso. Infraestrutura, alimentação adequada, conforto térmico e manejo correto tornaram-se partes indissociáveis da estratégia.

O planejamento reprodutivo passou, então, a ser construído com base em dados, metas e acompanhamento constante. “Praticamente todos os animais da fazenda são genotipados, e as decisões são tomadas a partir dessas informações”, afirma João Paulo. O resultado é um rebanho mais uniforme, funcional e com maior previsibilidade produtiva.

Para ele, esse processo consolidou uma certeza: o crescimento da Fazenda Lageado não viria de decisões pontuais, mas de uma construção baseada em conhecimento, critério e visão de longo prazo. “O genoma trouxe segurança. Sabemos exatamente onde estamos e, sobretudo, para onde queremos seguir.”

Trabalho orientado ao resultado

Com a consolidação da estratégia genética, outro ponto ficou evidente para João Paulo: não adiantava avançar na seleção dos animais se o ambiente não estivesse preparado para expressar esse potencial.

Gustavo reforça esse ponto ao destacar que a genômica eleva o patamar da gestão. “Quando o produtor trabalha com genoma, passa a tomar decisões animal por animal. A nova forma de conduzir o rebanho aumenta o nível de precisão do sistema”, observa.

Atualmente, a Fazenda Lageado trabalha com um rebanho total de aproximadamente 1.750 animais, sendo cerca de 730 vacas em lactação. A recria é expressiva, reflexo direto do investimento em genética e manejo reprodutivo. A taxa de nascimento de fêmeas é alta, impulsionada pelo uso de sêmen sexado e embriões, e a taxa de sobrevivência das bezerras chega a 93%, índice considerado excelente.

O resultado desse trabalho é um rebanho jovem, com alto potencial produtivo e excedente de animais, o que permite à fazenda planejar o crescimento com segurança.

A fazenda conta com três galpões de recria, um de vacas secas e pós-parto, um de pré-parto e quatro galpões de lactação, sendo um deles em fase final de implantação, todos no sistema de Compost Barn. A topografia da propriedade exigiu soluções específicas. Diferente de áreas planas, onde o layout pode ser padronizado, a Fazenda Lageado precisou adaptar os projetos ao relevo, reorganizando espaços e buscando alternativas que garantissem conforto sem comprometer a funcionalidade.

O conforto animal passou a ser tratado como prioridade. Ambiência adequada, espaço, ventilação e manejo correto tornaram-se peças-chave para sustentar o avanço genético conquistado. A média de produção gira em torno de 43 litros por vaca, com produção diária próxima de 30 mil litros, números que refletem a excelência da estratégia.

Mas o salto de desempenho também exigiu uma mudança profunda na forma de pensar a alimentação. Durante muito tempo, a preocupação principal era garantir volume de silagem. Com o tempo, ficou claro que não bastava quantidade, era preciso qualidade. “A gente entendeu que não adianta ter genética se não tiver comida boa. E comida boa começa na lavoura”, afirma.

A fazenda passou a investir fortemente na qualidade da forragem, buscando maior digestibilidade, melhor valor nutricional e menor custo. O manejo das lavouras foi aprimorado, com maior controle fitossanitário, uso intensivo de tecnologia e investimento em insumos para garantir plantas mais sadias e produtivas. A produção de silagem passou a ser encarada como etapa estratégica do sistema.

Além disso, a propriedade passou a trabalhar com reaproveitamento de resíduos e compostagem, enriquecendo o solo e reduzindo custos. A melhoria da matéria orgânica trouxe ganhos visíveis na sanidade das plantas e na estabilidade da produção. A busca por uma segunda forragem de qualidade também ganhou espaço, com testes envolvendo aveia e, mais recentemente, a implantação de áreas com alfafa, mesmo diante dos desafios climáticos da região.

Para João Paulo, o verdadeiro avanço está em compreender o sistema como um todo, do solo ao animal, e tomar decisões baseadas em dados, planejamento e visão de longo prazo.

O VERDADEIRO AVANÇO ESTÁ EM COMPREENDER O SISTEMA COMO UM TODO, DO SOLO AO ANIMAL, E TOMAR DECISÕES BASEADAS EM DADOS,
PLANEJAMENTO E VISÃO DE LONGO PRAZO



 O manejo de excelência ajuda o alcance do equilíbrio microbiológico, do conforto térmico e do ambiente estável

Bezerreiro: organização, rotina e controle sanitário

A criação de bezerras é um dos pontos que mais evoluiu na Fazenda Lageado nos últimos anos. Segundo João Paulo, a mudança envolveu estrutura, mas principalmente organização do manejo e definição clara de prioridades. O setor é conduzido pelos funcionários mais experientes da fazenda, justamente por ser uma fase considerada crítica dentro do sistema produtivo.

O manejo começa logo após o nascimento. As bezerras permanecem inicialmente em gaiolas suspensas, onde ficam entre 35 e 40 dias, período que permite maior controle sanitário e acompanhamento individual. Em seguida, são transferidas para um sistema coletivo, organizado de forma progressiva: primeiro em duplas, depois em grupos de quatro e, posteriormente, de oito animais. Esse grupo permanece junto até o desaleitamento.

Os resultados desse sistema aparecem nos indicadores zootécnicos. As bezerras são desaleitadas com 110 Kg, com ganhos médios diários superiores a 1 quilo até essa fase.

A alimentação segue protocolo definido. Nos primeiros meses, as bezerras recebem leite pasteurizado, proveniente de vacas recém-paridas, além de ração produzida na própria fazenda. O alimento volumoso é introduzido apenas em pequenas quantidades e de forma gradual, após os quatro meses de idade. Segundo João Paulo, a retirada do alimento volumoso oferecido precocemente na dieta das bezerras impactou positivamente a saúde dos animais.

Nos primeiros dias de vida, o manejo prioriza conforto, higiene e imunidade, com bezerras alojadas em gaiolas suspensas

O manejo sanitário é baseado em prevenção. O trabalho começa ainda no pré-parto, com vacinação das vacas para garantir qualidade imunológica do colostro. Após o nascimento, as bezerras recebem vacinação respiratória por via nasal, seguida de reforços injetáveis conforme o avanço da idade. O foco principal é o controle de doenças respiratórias, historicamente um dos principais desafios da fazenda.

Além disso, o rebanho jovem segue um calendário sanitário contínuo, incluindo vacinação contra enfermidades reprodutivas a partir dos seis meses de idade. O objetivo é reduzir riscos, evitar perdas e garantir que as novilhas cheguem à fase reprodutiva em condições adequadas. O uso de vacinas de alta tecnologia, especialmente vacinas vivas e termossensíveis, associado a manejo correto e nutrição adequada, permite construir imunidade de forma eficiente. Essa combinação sustenta índices zootécnicos elevados e dá previsibilidade ao sistema.

Para Gustavo, o avanço da cria e da recria na Fazenda Lageado está diretamente ligado à lógica de prevenção adotada desde o nascimento. “Vacinar bezerra não é reagir a doença, é construir imunidade. Quando a vacinação começa ainda no pré-parto e segue com protocolos respiratórios bem definidos, como as vacinas nasais e os reforços injetáveis, o sistema reduz perdas e ganha regularidade”, explica.

“A criação precisa ser pensada desde o primeiro dia. É ali que se constrói o desempenho que o sistema vai entregar ao longo do tempo”, resume João Paulo.


O manejo de excelência ajuda o alcance do equilíbrio microbiológico, do conforto térmico e do ambiente estável

GERAR leite e a condução da reprodução

A participação de João Paulo no GERAR Leite também se tornou um elemento relevante na condução das decisões técnicas da Fazenda Lageado. A convivência com outros produtores, consultores e pesquisadores ampliou o repertório de análise e fortaleceu o debate sobre manejo, reprodução e gestão.


“A discussão é muito rica. A gente aprende ouvindo, debatendo, comparando realidades e resultados. No ano passado, tivemos um encontro do GERAR Leite aqui na fazenda, com um grupo grande e a presença do professor Zequinha. Foi um momento muito produtivo, de reflexão e aprendizado coletivo”, relata.

Gustavo destaca que a Zoetis construiu sua atuação em reprodução bovina a partir de três pilares: ciência, validação em campo e proximidade com o produtor. “A Zoetis investe continuamente no desenvolvimento e na validação de protocolos hormonais, em tecnologias de monitoramento reprodutivo, ferramentas digitais de gestão e programas de capacitação técnica. Tudo passa por estudos científicos e por testes em condições reais de fazenda.”

Ele chama atenção para a base de dados do GERAR Leite, considerada a maior do mundo em reprodução bovina. “Esse volume de informações permite análises muito precisas, respaldadas por dados robustos, que ajudam a ajustar protocolos e aumentar a eficiência reprodutiva de forma consistente.”

Dentro desse contexto, Gustavo cita o portfólio da empresa como um diferencial estratégico. “A Zoetis oferece o conjunto mais completo de soluções para reprodução. Um exemplo é o CIDR, implante de progesterona mais estudado e referenciado na literatura científica mundial. Esse tipo de ferramenta, quando bem aplicada, dá previsibilidade ao sistema e transforma reprodução em resultado.”




Para João Paulo, esse ambiente técnico fortaleceu a convicção de que, quando o assunto é reprodução, não há espaço para improviso. A estratégia adotada na fazenda segue protocolos consolidados, baseados em evidência técnica e com alto nível de controle. “Reprodução é o ponto em que você não pode economizar nem arriscar”, afirma.

A fazenda trabalha com protocolos completos, incluindo pré-sincronização, uso de GnRH, dispositivos com progesterona em níveis adequados e aplicação criteriosa de prostaglandinas. O objetivo é contribuir para o alcance de eficiência reprodutiva, reduzir falhas e aumentar a taxa de prenhez de forma consistente.

Como resultado da estratégia adotada, a Fazenda Lageado mantém índices reprodutivos considerados elevados. O serviço gira em torno de 75%, com taxa de prenhez próxima de 30%, números que refletem a combinação entre manejo, sanidade, nutrição e escolha correta dos protocolos.

João Paulo reconhece que a reprodução é um dos pontos mais desafiadores da atividade, justamente por envolver múltiplos fatores. Ainda assim, destaca que os avanços obtidos são consequência de decisões coerentes ao longo do tempo. “É um processo contínuo. A gente ajusta, corrige e aprimora, sempre com base técnica. Reprodução é fundamento. Sem ela bem resolvida, o sistema não avança.”

Gestão como base do avanço

Na Fazenda Lageado, as decisões caminham lado a lado com a leitura dos números e com a compreensão do momento do negócio. O crescimento foi tratado como como consequência de um sistema organizado, do domínio dos custos e da clareza sobre onde fazia sentido avançar. A análise econômica passou a orientar os passos da fazenda, indicando quando investir, quando ajustar rotas e quando ganhar escala.

“Tudo o que a gente faz é baseado em resultado. O foco é entender o que o número está mostrando e tomar a decisão a partir disso”, explica João Paulo. Para ele, o crescimento sempre esteve diretamente ligado à viabilidade. “Chegou um momento em que os próprios indicadores mostraram que crescer era o caminho mais lógico. O custo fixo já existia. Produzir mais passou a ser a forma de diluí-lo.”

A decisão de reduzir a venda de animais e investir na ampliação do sistema nasceu exatamente dessa leitura. Com estrutura montada, equipe formada e custos elevados de manutenção, aumentar a produção tornou-se a alternativa mais coerente do ponto de vista econômico.

Essa visão também se projeta para além do presente. A propriedade é a base de sustentação de várias gerações da família. “Somos quatro irmãos. Tem fi lhos vindo aí. Tudo o que a gente decide hoje precisa fazer sentido lá na frente”, pondera João Paulo.

Nesse contexto, a sucessão assume um significado particular. Ao falar do pai, o tom é de respeito e reconhecimento. “Ele sempre foi o nosso exemplo. Nunca precisou levantar a voz. Sempre ensinou pelo jeito de fazer, dando liberdade para a gente decidir e assumir responsabilidade”, afirma.

No fim, a Fazenda Lageado se afirma como um sistema que avança porque entende seus próprios limites e possibilidades. As decisões são técnicas, os números orientam o caminho, mas é a confi ança construída ao longo do tempo, entre gerações, pessoas e escolhas, que sustenta o projeto. O crescimento não rompe com a história. Ele se apoia nela.


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Autor

Adriana Vieira Ferreira

Adriana Vieira Ferreira

EDITORA EXECUTIVA
Economista, DSc. em Economia Rural


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