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Fazendas, Gestão

Conheça a força sensível da Agropecuária Bandeira (Ajuricaba/RS)

Francisco e Rozane Bandeira construíram a Agropecuária Bandeira, passo a passo, ao longo de três décadas, e encontraram nas filhas a liderança que, com a mesma determinação e o mesmo olhar sensível para os animais e para o negócio, leva a propriedade, em Ajuricaba/RS, a um novo patamar de produção, genética e gestão.

Conheça a força sensível da Agropecuária Bandeira (Ajuricaba/RS)

A placa na entrada da Agropecuária Bandeira, em Ajuricaba, no Rio Grande do Sul, traz o desenho de uma vaquinha estilizada. Simples e delicado. Anuncia o olhar da nova geração que divide com os pais a condução do negócio. Trata-se de um pequeno detalhe que dá forma a uma história que começou há mais de três décadas, quando Francisco e Rozane Bandeira, com poucos hectares de terra e um punhado de vacas, construíram, passo a passo e sem poupar trabalho, uma das propriedades leiteiras mais produtivas da região. Um projeto de família que se renova com a próxima geração.


Família dedicada à produção de leite

Força e sensibilidade costumam ser tratadas como traços opostos. Na Agropecuária Bandeira, Franciane Bandeira, filha mais velha de Francisco e Rozane, mostra que uma coisa pode sustentar a outra. Há nela firmeza para tomar decisões, conduzir processos e assumir responsabilidades. Mas há também um olhar atento aos detalhes, às pessoas e aos animais. Essa combinação aparece na forma como divide com os pais e com a irmã Gabriela a gestão da propriedade.

Parte dessa coerência talvez venha do modo como Franciane se reconhece na história da fazenda. Ela brinca que “nasceu dentro do tambo”; e não é força de expressão. Nas últimas semanas de gestação, sua mãe ainda ordenhava as vacas. Saiu da lida para ir ao hospital e, depois do parto, voltou ao cuidado do rebanho. Décadas depois, Franciane repetiria, à sua maneira, esse mesmo ritmo. Poucos dias depois do nascimento de Isabela, sua primeira filha, ela estava de volta à fazenda para acompanhar a entrada das vacas no galpão recém-construído, o primeiro grande investimento da família no sistema Compost Barn.

Vista aérea da Agropecuária Bandeira: a produção de leite se apoia na integração entre rebanho, estruturas de manejo e lavouras.


A determinação não é, portanto, novidade na família. A propriedade ganhou forma em 2000, quando Francisco e Rozane estruturaram a produção com dois outros sócios. Em 2013, diante das exigências ambientais e da chance de comprar a parte dos parceiros, a família se reuniu e escolheu ficar com tudo. “Foram anos bem difíceis”, lembra Franciane. A decisão puxou investimentos pesados em infraestrutura.

Esse crescimento nunca foi obra de uma só pessoa. Francisco é a energia que empurra a fazenda para a frente. Franciane reconhece nele uma disposição rara: “Eu nunca vi meu pai cansado. Nunca vi meu pai desanimado. Por mais que a gente tenha passado por problemas, eu nunca o vi reclamar”. Rozane, mais centrada, é o ponto de equilíbrio da família. “Minha mãe é quem pondera, segura os excessos e, quando entende que uma decisão precisa ser tomada, também sabe bater o pé”, explica Franciane. Foi o que aconteceu depois de uma palestra em que um consultor apontou as fragilidades do setor de novilhas da propriedade. Rozane ouviu, chegou em casa e decidiu: o galpão precisava sair do papel.



A rotina da fazenda revela o encontro entre sucessão familiar, gestão e trabalho diário com os animais



As filhas cresceram nesse ambiente em que trabalho e pertencimento se misturam. Francisco e Rozane não precisaram convencê-las a olhar para a fazenda. Franciane, Gabriela e Bárbara foram criadas perto das vacas, da ordenha, das lavouras e das conversas de família em torno do negócio. Com o amadurecimento da propriedade, esse vínculo ganhou organização. Cada uma começou a encontrar seu lugar.

Franciane é casada com Caetano e mãe de Isabela e do pequeno Vicente. Hoje, cuida de tudo o que envolve os animais: reprodução, compra de sêmen, programa de embriões e manejo sanitário. O domínio veio com o tempo. Foi conquistando espaço decisão por decisão, resultado por resultado. “Eu tive que provar que sou boa no que faço”, resume. Desde 2022, conta com o apoio técnico de um nutricionista e de um médico-veterinário, que ajudam a sustentar as decisões em dados, metas e acompanhamento constante.

Gabriela é casada com José Luiz e mãe de Luiza e Gabriel. Ela assumiu a gestão das lavouras, área decisiva para uma fazenda que planta milho e soja e depende da qualidade da silagem para manter o desempenho do rebanho. Se Franciane se realiza entre vacas, reprodução e bezerras, Gabriela encontrou seu lugar na agricultura. A divisão funciona porque cada uma sabe onde pode contribuir melhor. No fim do dia, os números chegam ao pai, que segue ativo e atento à condução dos negócios.

A caçula, Bárbara, ainda está cursando Farmácia. Mas Franciane já reservou para ela um lugar no projeto que sonha construir: uma fábrica de queijos. Afinal, na família Bandeira, ninguém parece ficar de fora da atividade leiteira por muito tempo.


Nutrição e o segredo da produtividade

A média anual de 42 litros por vaca ao dia não acontece por acaso. 

Na Agropecuária Bandeira, a produtividade é resultado de um conjunto de decisões acumuladas no decorrer do tempo: genética construída na própria fazenda, conforto nos galpões, dieta bem ajustada e reprodução conduzida com método.

O rebanho tem história. Há mais de dez anos, a fazenda não compra animais. As vacas que entram na sala de ordenha carregam mais de três décadas de inseminação artificial, seleção e escolhas feitas geração após geração. O ganho genético não é recente e contribui para o desempenho do rebanho.

O investimento em genética é, hoje, ainda mais direcionado. A fazenda trabalha com sêmen sexado e tem como meta produzir 200 novilhas por ano. Franciane quer avançar também no uso de touros A2A2, alinhando a seleção genética ao sonho de, no futuro, produzir queijos com esse diferencial. Cada acasalamento é pensado como parte de um rebanho que continua sendo construído.

Para alcançar a meta de 45 litros/dia por vaca em 2026, a propriedade apoia a estratégia em três pilares que se reforçam mutuamente: a ambiência garantida pelos galpões no sistema Compost Barn, o bem-estar animal e a nutrição formulada com precisão, que contribui para a expressão do potencial genético do rebanho.

Na dieta, a base é a silagem de milho. Em 2025, pela primeira vez, a propriedade conseguiu trabalhar exclusivamente com silagem de safra, conquista celebrada por Franciane. Nos anos anteriores, a dependência da safrinha era uma preocupação recorrente, especialmente pelo risco de geada e pela oscilação na qualidade do milho. “Quando a silagem vem bem, o reflexo aparece no tanque, na saúde das vacas e nos índices reprodutivos”, afirma Franciane.

Além da silagem de milho, o rebanho recebe silagem de trigo forrageiro cultivado na propriedade, feno de alfafa e caroço de algodão. É uma dieta formulada para vacas de alta produção e que ganha precisão no componente mineral. As vacas em lactação recebem um núcleo premix da Agroceres Multimix, com formulação desenhada pelo nutricionista especificamente para o rebanho. O composto inclui ácidos graxos essenciais, tendência crescente no manejo nutricional de rebanhos de elite, que Franciane adotou com convicção. “O resultado aparece nos números.”


A alimentação das vacas em lactação é um dos pilares da produtividade da fazenda, que trabalha com dieta formulada para expressar o potencial do rebanho.


Bezerreiro: o básico bem-feito

Durante muito tempo, a criação das bezerras foi uma das maiores dores da fazenda. A mortalidade chegou a 22%, índice que revelava a necessidade de reorganizar instalações, manejo e rotina. Depois de investimentos pontuais e de um protocolo conduzido com rigor, a taxa caiu para menos de 4%.

Um colaborador cuida exclusivamente das bezerras. Essa dedicação permite observar melhor cada animal, identificar alterações mais cedo e manter a regularidade no fornecimento da dieta, na higiene e nos manejos preventivos. As recém-nascidas vão para um berçário aquecido, com lâmpada de aquecimento e tapete, onde ficam protegidas nos primeiros dias. Depois, seguem para casinhas individuais.

O colostro é pasteurizado. O leite também. A cura de umbigo e as vacinas preventivas completam o protocolo. “É o básico bem-feitinho. A gente não inventa moda”, resume Franciane.

Na dieta, as bezerras recebem leite com adensador, minerais e um produto com o objetivo de proteger a parede intestinal; produto que Franciane já usava nas vacas havia alguns anos e queria estender para a cria. Como a palatabilidade era um desafio, a solução foi incorporá-lo diretamente ao leite. Para a alimentação sólida, as bezerras recebem a mesma dieta total do lote de primíparas, considerada por Franciane a melhor disponível na fazenda. Depois das mudanças no manejo, nas casinhas e no fornecimento de leite, o ganho de peso melhorou de forma evidente.



O rebanho da Agropecuária Bandeira é resultado de décadas de seleção, inseminação artificial e decisões acumuladas geração após geração

O desaleitamento não segue uma idade fixa. O critério é o peso. Nenhuma bezerra é desaleitada com menos de 120 kg. “A decisão reduz o risco de desaleitar animais ainda frágeis e ajuda a preparar melhor a fase seguinte”, afirma Franciane.

Machos e fêmeas recebem o mesmo tratamento até o desaleitamento. Depois, os machos seguem para o piquete, enquanto as novilhas passam a integrar a recria, cada vez mais estratégica para a fazenda. O novo galpão destinado a elas nasceu justamente desse entendimento: para sustentar o crescimento do rebanho, é preciso formar bem as futuras vacas.


O galpão de recria: um sonho concretizado

Criar novilhas com mais conforto, melhor acompanhamento e maior regularidade até a primeira lactação. Essa era a principal motivação de Franciane para investir em um novo galpão destinado à recria.

O gargalo aparecia nos números e na rotina. A fazenda tinha 240 novilhas dividindo uma estrutura com 148 posições de alimentação. Os manejos mensais, a vermifugação, a pesagem e o acompanhamento do desenvolvimento exigiam esforço e muita adaptação. Além disso, os protocolos reprodutivos movimentavam lotes toda semana. Sem espaço nem contenção suficiente, boa parte do manejo era feita “no braço”, como define Franciane. O resultado aparecia em animais perdendo peso, novilhas desafiadas pelo barro e desempenho reprodutivo abaixo do potencial.


As obras começaram em novembro de 2025. Em maio de 2026, as novilhas chegaram ao novo galpão, com alimentação mais bem organizada, tronco com balança, área de manejo e cercamento ao redor.

O investimento foi planejado. A venda de 15 novilhas por ano deve ajudar a pagar a parcela do galpão. O desejo da família, porém, é outro: que o preço do leite permita manter essas fêmeas na fazenda e colocá-las em produção. Para Franciane, este seria o melhor retorno do projeto: crescer com animais criados na propriedade, sob o mesmo padrão sanitário, nutricional e genético construído por anos.



Sustentabilidade como parte do negócio

A Agropecuária Bandeira arrenda muito mais do que os 36 hectares próprios para produzir milho e soja. O arrendamento gira em torno de 30 sacos de soja por hectare, peso relevante na conta da produção. Esse custo, somado às exigências da legislação ambiental, levou a família a investir em um separador de dejetos e em duas lagoas de tratamento.

O esterco líquido é enriquecido com bactérias e fica em cura por 60 dias. Depois, volta para as lavouras por meio de um caminhão equipado com GPS. A dosagem é analisada pelo agrônomo, que define o quanto cada área precisa. “A gente diminui toneladas de adubo químico e reutiliza o que as vacas produzem”, resume Franciane. A fração sólida do esterco retorna como cama dos animais nos galpões, completando o ciclo. 

Na Agropecuária Bandeira, responsabilidade ambiental e inteligência financeira são, no fundo, a mesma decisão.




Futuro: leite, queijo e muito mais

Francisco Bandeira fala do futuro com a inquietação de quem nunca se acomodou. “Quando começamos, eu queria ter 100 vacas. Hoje já temos 300 em lactação. Sei que ano que vem vamos ter 400”, diz. Ele reconhece que o crescimento terá de encontrar um limite em algum momento, mas esse momento ainda não parece ter chegado.

O orgulho maior não está no número de animais, no volume de leite produzido ou no tamanho da estrutura. Está em ver as filhas dedicadas à fazenda, determinadas a continuar o que ele e Rozane começaram. Para Francisco, nada faria sentido se o patrimônio construído durante anos se perdesse por falta de interesse ou de entendimento entre elas. A intenção sempre foi deixar às filhas e aos netos um caminho possível.

Franciane, por sua vez, deseja esse futuro, mas com base em projetos concretos. A fábrica de queijos com leite A2 é um dos planos que mais a movem. Esse projeto envolve uma forma de agregar valor ao leite produzido na fazenda.

Enquanto esse futuro vai sendo desenhado, o dia a dia segue no ritmo que Francisco e Rozane ensinaram: trabalho, controle de custos e gosto pela atividade. Franciane se orgulha da lida. Diz que se suja, que chega à cidade com as marcas do trabalho e que prefere estar entre os animais a passar o dia presa ao escritório. “Sou muito feliz e realizada aqui. Faço isso com amor de verdade.”


Entre passos pequenos e grandes sonhos, o futuro já caminha na Agropecuária Bandeira

Esse amor é a mais pura sensibilidade e é ele que move os sonhos da família. Os netos de Francisco e Rozane – Isabela, Vicente, Luiza e Gabriel – já crescem dentro da Agropecuária Bandeira como as mães cresceram, aprendendo o ritmo do lugar. Essa é a maior força.




▶ Clique aqui e tenha acesso ao vídeo que relata o trabalho desenvolvido na Agropecuária Bandeira


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Autor

Adriana Vieira Ferreira

Adriana Vieira Ferreira

EDITORA EXECUTIVA
Economista, DSc. em Economia Rural


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