O caminho do sucesso: conheça a história da Agropecuária Rex (Boa Esperança/MG)
Com uma gestão inovadora, Maria Antonieta Guazzelli transformou a Agropecuária Rex em exemplo de sustentabilidade e eficiência na pecuária leiteira
No escritório da Agropecuária Rex, sediado na Fazenda Palmito, em Boa Esperança/MG, quadros com as fotos de satélite, realizadas na década de 1970, convivem com imagens atuais feitas por drones. Esses adornos são testemunhas do crescimento do grupo e da visão estratégica de Maria Antonieta Guazzelli, que conectou sua experiência em tecnologia da informação (TI) à gestão do agronegócio.
Trajetória de coragem
A facilidade com que Maria Antonieta Guazzelli se localiza entre os minúsculos traços e letras dos mapas e no horizonte das fotos que coleciona nas paredes do escritório da Agropecuária Rex dá indícios da sua personalidade ou, pelo menos, de algumas de suas mais preciosas qualidades: a habilidade para lidar com coordenadas e, em decorrência disso, o foco no planejamento. Talvez sejam características que remetam à sua carreira anterior, na área de TI. Ou pode ser que sejam herdadas da capacidade analítica de seu pai, Reynaldo Guazzelli. “Meu pai era industrial, dono de um laticínio, e sempre esteve profundamente ligado à produção de leite. Ele visitava constantemente fazendas em busca de fornecedores para abastecer a indústria. Foi esse envolvimento com o setor que levou, na década de 1950, à aquisição da primeira fazenda produtora de leite da família, em Santa Rita de Caldas/MG, marcando nossa entrada no agronegócio”, conta Antonieta.
As histórias de seu pai – que se apaixonou pela Fazenda Palmito ao avistá-la de uma propriedade vizinha, na década de 1970 – revelam o pioneirismo e a visão de quem acreditava no potencial de terras até então pouco valorizadas, como as do cerrado. “Ele disse que era um lugar maravilhoso e não descansou até conseguir comprá-la. Na época, a utilização das terras do cerrado estava começando, mas ele enxergava algo além”, compartilha Antonieta. Com essa visão, ele foi consolidando a Agropecuária Rex, enquanto Antonieta mantinha uma forte ligação com as terras da família, mesmo durante seus anos de estudo em Poços de Caldas/MG e, posteriormente, quando se mudou para São Paulo aos 18 anos.

Dois grandes desafios foram enfrentados por Antonieta há mais de 20 anos: o falecimento do pai, em 2002, e a decorrente missão de assumir a gestão da Agropecuária Rex. Durante esse tempo, ela vivia e trabalhava em São Paulo, atuando na área financeira em grandes bancos, longe da rotina do campo. A ligação emocional com a fazenda, construída ao longo da infância e da juventude, a impulsionou a lutar para manter o patrimônio na família. Em sociedade com o irmão, Otávio Guazzelli – que atua como conselheiro estratégico, auxiliando em grandes decisões e investimentos –, Antonieta se dedica ao dia a dia na fazenda. A visão lógica, aprimorada pela trajetória profissional, foi essencial para dar continuidade ao trabalho do pai, mesclando o legado familiar com a inovação e uma boa dose de tecnologia, algo que hoje se reflete na modernização das operações da Agropecuária Rex.
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A VISÃO LÓGICA, APRIMORADA PELA TRAJETÓRIA PROFISSIONAL, FOI ESSENCIAL PARA DAR CONTINUIDADE AO TRABALHO DO PAI, MESCLANDO O LEGADO FAMILIAR COM A INOVAÇÃO E UMA BOA DOSE DE TECNOLOGIA, ALGO QUE HOJE SE REFLETE NA MODERNIZAÇÃO DAS OPERAÇÕES DA AGROPECUÁRIA REX
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A trajetória da marca Rex na família Guazzelli teve início em 1930 com a criação do Laticínio Rex, em Poços de Caldas/MG. Na década de 1950, a família diversificou as operações, ingressando no setor agropecuário.
Traçando caminhos
De uma coisa Antonieta não duvida: da força do trabalho em equipe. E a sua começou a ser formada a partir da solução de um problema que remonta ao início dos anos 2000 – um surto de mastite que atingiu cerca de 40% do rebanho. Na tentativa de controlar a situação, o primeiro movimento foi o de separação dos animais doentes, uma experiência improvisada e que contou com uma antiga sala de ordenha; mas esse manejo inicial não surtiu efeito. Com as soluções falhando e sem orientação adequada, foi sugerida a venda de todo o rebanho, algo que Antonieta se recusou a aceitar. “Eu pensei: com tanta tecnologia e recursos, não pode ser impossível resolver esse problema”, afirma, mostrando a determinação que a ajudou a contornar essa crise. Foi nesse momento de incerteza que Antonieta conheceu Beto Bodega, o médico veterinário que transformou a realidade da fazenda e que até hoje é o responsável por orquestrar o crescimento do negócio. “Beto ajustou todo o manejo, começando pelo correto diagnóstico de mastite”, diz ela. Além de Beto, Antonieta conta com Olga Maria de Oliveira, gerente administrativa da fazenda, que acredita que o sucesso da Agropecuária Rex está na liberdade de participação que toda a equipe tem. Segundo Olga, a abertura e a valorização do time são fundamentais para o crescimento e o êxito da fazenda.
Depois do controle desses desafios iniciais, Antonieta e sua equipe puderam focar em outras áreas críticas, como a reprodução e o controle sanitário. Orgulhosa, ela ressalta que o crescimento da produção de leite foi orgânico, sem a compra de novos animais: “O rebanho está conosco há mais de 40 anos, sem a entrada de nenhum animal de fora. Temos um controle sanitário rigoroso, o que nos garante uma linhagem forte e saudável, resultado de décadas de manejo cuidadoso e excelência genética”.
Em conversa com Caio Costa e Rafael Amaral, Médicos Veterinários da UCBVET Saúde Animal, fica claro que o diagnóstico rápido e preciso da mastite é crucial. “Muitas vezes, as mastites podem ser ocasionadas por microrganismos que demandam uma intervenção imediata”, explica Caio. “É importante um tratamento terapêutico com anti-inflamatórios e antibióticos que tenham boa penetração na glândula mamária, como o Mastigen V.L., que acelera o retorno à vida produtiva,” complementa Rafael.
Desde 2014, Antonieta se dedica integralmente ao negócio: “Quando eu me desliguei do meu trabalho em São Paulo, foi um momento decisivo. Eu percebi que minha vida era aqui”. Hoje, a Agropecuária Rex é uma referência na produção e conta com o olhar minucioso da proprietária, que zela pela tradição familiar, enquanto inova com tecnologia e boas práticas.

Crescimento estruturado
O processo de modernização da Agropecuária Rex teve início com foco claro no bem-estar animal, o que impulsionou o investimento em um sistema de Free Stall. Com o rebanho composto por vacas da raça Holandês, conhecidas pela sensibilidade ao clima, foi necessário criar um ambiente para que expressassem todo o potencial genético. “Passamos mais de um ano estudando, viajando e conversando com especialistas antes de tomar a decisão sobre o sistema de produção”, relembra Antonieta.
Em 2014, a primeira estrutura de Free Stall foi concluída, com capacidade para 600 vacas. O galpão foi projetado para otimizar o conforto das vacas, com camas de areia individuais, alimentação de alta qualidade e acesso à ventilação controlada. Em 2018, a Agropecuária Rex expandiu ainda mais suas operações com a construção de um segundo Free Stall, dessa vez com capacidade para 1.200 vacas. “A expansão foi feita de forma modular, sempre de acordo com o crescimento do rebanho e as necessidades da fazenda”, destaca Antonieta.
O conceito de sustentabilidade está integrado ao dia a dia das operações, especialmente na gestão de dejetos. A fazenda utiliza um sistema de captação 100% subterrâneo, que transporta os resíduos diretamente para uma lagoa de tratamento, evitando a contaminação do solo e das fontes de água. “Os dejetos são encaminhados de forma eficiente para tratamento, garantindo que nada seja desperdiçado”, explica Antonieta. Esse processo contribui para a integração eficiente entre a pecuária e a agricultura, com os dejetos sendo transformados em energia elétrica e fertilizante, em alinhamento com a principal diretriz da fazenda: a sustentabilidade.

O sistema de Free Stall contribui para o conforto e o bem-estar das vacas, ao permitir que elas tenham acesso a ambientes controlados, ventilação adequada e camas individuais

Os biodigestores transformam os dejetos do rebanho em energia renovável, contribuindo para a sustentabilidade das operações e fechando o ciclo de reaproveitamento de resíduos na fazenda
Tecnologia e eficiência na ordenha
Com o aumento da produção gerado pelos novos galpões, a estrutura de ordenha também precisou evoluir. Depois de criterioso estudo e diversas visitas a outras fazendas, a Agropecuária Rex decidiu adotar a tecnologia da ordenha rotatória. Com 60 postos, o novo sistema foi projetado para atender até 2 mil vacas por ciclo. Essa escolha revolucionou a eficiência da fazenda, permitindo que a ordenha fosse realizada em menos tempo, com maior precisão e menos estresse para os animais. “A rotatória ampliou nossa capacidade, trouxe mais fluidez ao processo e impactou diretamente a qualidade do leite”, ressalta Antonieta.
Além de otimizar o fluxo de trabalho, a ordenha rotatória oferece um controle mais detalhado do rebanho, possibilitando o monitoramento de cada vaca durante o processo. Isso garante que eventuais problemas sejam identificados de maneira rápida e eficiente, resultando em um manejo mais ágil. “Com esse sistema, conseguimos melhorar a rotina operacional da fazenda, maximizar o uso de recursos e mão de obra e assegurar o bem-estar animal, que é a nossa prioridade”, completa Antonieta.
O sistema de ordenha rotatória oferece uma experiência otimizada e eficiente ao trabalhar com os movimentos naturais e com a fisiologia dos animais. Funções automáticas, como controle de início e velocidade, juntamente com sistemas de separação, proporcionam ao operador um controle total do processo, permitindo ajustes conforme necessário.
O SISTEMA DE ORDENHA ROTATÓRIA OFERECE UMA EXPERIÊNCIA OTIMIZADA E EFICIENTE AO TRABALHAR COM OS MOVIMENTOS NATURAIS E COM A FISIOLOGIA DOS ANIMAIS. FUNÇÕES AUTOMÁTICAS, COMO CONTROLE DE INÍCIO E VELOCIDADE, JUNTAMENTE COM SISTEMAS DE SEPARAÇÃO, PROPORCIONAM AO OPERADOR UM CONTROLE TOTAL DO PROCESSO


Inovação no cuidado: eficiência e bem-estar na cria e na recria
Após consolidar a produção de leite, a Agropecuária Rex voltou seu foco para aprimorar a cria e a recria, elementos fundamentais na operação da fazenda. A implementação de um berçário e de um bezerreiro para desaleitamento há dois anos, e de um novo composto para 780 novilhas, em fase final de construção, marcam os primeiros passos desse avanço. Uma das inovações mais significativas é a criação das bezerras em grupo com o auxílio de alimentadores automáticos, que proporcionam eficiência e trazem benefícios notáveis para o bem-estar dos animais. O sistema automatiza a alimentação com base em um transponder individual, que reconhece o animal e disponibiliza a quantidade exata de leite na temperatura correta, substituindo o trabalho manual envolvido no fornecimento de leite. Como resultado, a equipe pode se dedicar mais ao cuidado e ao manejo dos animais, melhorando a eficiência geral do processo.
O desaleitamento gradual, feito por meio do aumento progressivo de concentrado e da redução do fornecimento de leite, diminui o estresse dessa etapa da vida das bezerras, favorecendo o ganho de peso e a saúde. Criadas em grupo, as bezerras têm a oportunidade de expressar comportamentos naturais de socialização, o que é fundamental para o desenvolvimento dos animais. Com um ambiente confortável e limpo, combinado à alimentação precisa e ajustada às necessidades individuais, a fazenda assegura um rebanho mais forte e saudável.
CRIADAS EM GRUPO, AS BEZERRAS TÊM A OPORTUNIDADE DE EXPRESSAR COMPORTAMENTOS NATURAIS DE SOCIALIZAÇÃO, O QUE É FUNDAMENTAL PARA O DESENVOLVIMENTO DOS ANIMAIS


Antonieta planeja o futuro da Agropecuária Rex focando no aumento da produção de leite e na venda de genética, sempre aliando inovação com tradição familiar e gestão sustentável
Em direção ao futuro
“Inovação não é ter a tecnologia mais moderna, mas saber melhorar continuamente os processos e o manejo”, explica Antonieta. É assim que o futuro é planejado na Agropecuária Rex: a tecnologia está a serviço da efi ciência, especialmente no monitoramento do rebanho e na gestão de operações. Para um rebanho de grande porte, o uso de sistemas de monitoramento é indispensável, mas Antonieta faz questão de equilibrar o uso dessas ferramentas com a presença das pessoas nos diferentes setores da fazenda, acreditando que “a visão de quem está no local faz toda a diferença”.
Em termos de crescimento, o objetivo da Agropecuária Rex é claro: aumentar a produção para atingir a marca de 100 mil litros de leite por dia. A estratégia é focada na expansão do rebanho sem a aquisição externa de animais, apostando no fortalecimento da recria e na reprodução para garantir a sustentabilidade do processo. Como plano futuro, a fazenda vislumbra a venda de genética e de animais, aproveitando o sólido trabalho que vem sendo feito na qualificação do rebanho. “Estamos sempre avaliando as possibilidades, mas com planejamento estratégico”, conclui Antonieta, demonstrando sua visão de negócio e seu compromisso com um crescimento sólido.

Antonieta lidera a Agropecuária Rex com visão de inovação e eficiência e foco no crescimento sustentável
Antonieta soma ao seu papel de destaque na gestão da Agropecuária Rex a aproximação com outras mulheres líderes no agronegócio e o fortalecimento da comunicação e marketing do setor leiteiro. Como integrante ativa de diversos grupos de mulheres do agro, incluindo o Núcleo Feminino do Agronegócio (NFA), onde já atuou como presidente, Antonieta utiliza sua vasta experiência para promover a união e a troca de ideias entre as participantes. Sua atuação na Diretoria de Comunicação e Marketing da Associação Brasileira dos Produtores de Leite (ABRALEITE) também reflete seu compromisso em combater os mitos sobre o leite, levando informações precisas e de qualidade ao consumidor final, ajudando a melhorar a percepção e o consumo desse produto essencial.
O pioneirismo e a determinação em trilhar novos caminhos, sem medo de inovar e enfrentar desafios, formam o legado de Reynaldo Guazzelli. Esse legado se perpetua no firme compromisso de Antonieta em buscar a excelência, valorizando o aprendizado contínuo e o trabalho em equipe, enquanto abre novos caminhos com a coragem de fazer (e ser) diferente.

Autora - Adriana Vieira Ferreira
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Adriana Vieira Ferreira
EDITORA EXECUTIVA
Economista, DSc. em Economia Rural
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