Por que estão ocorrendo mais partos gemelares?

Reprodução | 01 de Maio de 2011 Voltar

Dr. Hernando Lopez - Diretor Contas Chave América Latina ABS Global - hlopez@absglobal.com

A incidência de ovulações e gestações múltiplas tem aumentado muito nas últimas décadas, acompanhando o aumento na produção de leite por vaca. Estudos feitos no início dos anos 70 relatavam taxas de dupla ovulação variando entre 5 e 13%, e taxas de gestações gemelares entre 1 e 5%. Estudos recentes, com vacas de alta produção, têm relatado taxas de dupla ovulação de 18 a 25%, e taxas de gestações gemelares da ordem de 5 a 15%. Trata-se de um tema interessante, pois a grande maioria dos nascimentos múltiplos em bovinos são provenientes de ovulações múltiplas. Nesse artigo, apresentaremos uma série de perguntas e respostas relacionadas a este assunto obtidas em um experimento conduzido na Universidade de Wisconsin.

 

Como foi o estudo?

O estudo avaliou 267 vacas da raça Holandesa mantidas em  sistema ‘free stall’ e alimentadas com uma ração balanceada de mistura total. As vacas foram ordenhadas duas vezes ao dia e a quantidade de leite produzida (em kg) foi registrada a cada ordenha. Coletas de sangue e exames de ultrassonografia foram realizados semanalmente após o parto. As ultrassonografias tiveram o objetivo de determinar quando ocorreu a primeira ovulação após o parto e se esta foi simples ou dupla (de um ou dois folículos). No total, foram avaliadas 504 ovulações espontâneas (sem tratamento hormonal). Além disso, foi realizada a detecção de cio 24 horas por dia, utilizando um sistema de radiotelemetria comercialmente conhecido como HeatWatch® (Figura 1).

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Qual foi a relação entre o nível de produção de leite e de ovulações múltiplas?

Segundo a avaliação dos níveis de progesterona e das ultrassonografias foi observado que, aos 71 dias em leite (DEL), 28,5% das vacas ainda não estavam ciclando (anovulares), enquanto 71,5% já apresentavam atividade cíclica. No grupo de vacas cíclicas, a incidência geral de dupla ovulação foi de 22,4%, e foi diretamente relacionada ao nível de produção de leite.

A Figura 2 mostra que a incidência de dupla ovulação foi baixa (menos de 7%) para as vacas que produziram menos de 40 kg de leite por dia. Quando a produção de leite foi maior que 40 kg por dia, a incidência de dupla ovulação aumentou para 25%, sendo que para as vacas que produziram mais de 50 kg por dia, o índice ultrapassou os 50%.                                       

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Houve diferença entre o número de partos?

A Figura 3 mostra os resultados de uma análise detalhada, na qual foram avaliados os fatores que podem estar relacionados a uma dupla ovulação, incluindo o número de dias pós-parto e o DEL. Em geral, as chances para que uma vaca tenha dupla ovulação irá aumentar à medida em que se aumenta a produção de leite, tanto para as vacas de primeira lactação como para multíparas. Aparentemente, as vacas mais velhas parecem ter uma taxa de dupla ovulação ligeiramente mais alta.

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Qual foi a incidência de partos gemelares?

Nem todas as vacas que tiveram dupla ovulação apresentaram partos gemelares. Embora a taxa de dupla ovulação tenha sido superior a 20%, a taxa de gêmeos foi de apenas 7%. Novos estudos devem ser realizados para entender se isso ocorreu devido a uma diferença de fertilização (de somente um dos oócitos), e para elucidar outras questões importantes, como  o fato de que algumas vacas com gestação múltipla perderam um dos embriões e pariram apenas um bezerro.

 

Como foi a expressão de cio?

As vacas que tiveram dupla ovulação expressaram cios mais curtos do que aquelas com ovulação única. A duração do cio (a partir do primeiro até o último evento de monta) de vacas com ovulação única foi de 9,8 horas, enquanto aquelas com dupla ovulação manifestaram cio por apenas 4 horas. Essa observação deveu-se ao fato de que as altas produtoras (que tiveram mais duplas ovulações) mostraram cios mais curtos, devido a uma relação negativa entre a produção de leite e a duração do cio. Em nosso estudo, as vacas com ovulação simples apresentaram uma menor produção de leite (<40 kg) que aquelas com dupla ovulação (>40 kg) (Tabela 1).

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Qual é a relação entre o nível de produção de leite e de dupla ovulação?

A razão pela qual as vacas apresentam duas ovulações é que dois folículos crescem até um tamanho de “folículo dominante”. Os níveis circulantes de progesterona parecem ser decisivos para determinar se uma vaca irá desenvolver um ou dois folículos dominantes.

Geralmente, baixos níveis de progesterona promovem o desenvolvimento de mais de um folículo dominante ou, neste caso, co-dominante. Assim, a produção diária de leite torna-se um importante fator que determinará se as vacas terão ovulação simples ou dupla, pois quanto maior a produção de leite, menor será o nível circulante de progesterona, e maior a probabilidade da vaca desenvolver dois folículos ovulatórios.

 

Por que vacas em primeira lactação são menos propensas a terem gêmeos?

A razão mais importante é que durante a primeira lactação, em média, as vacas produzem menos leite que nas lactações subsequentes. É interessante observar que vacas mais jovens e com produção mais alta de leite têm taxas de gestação dupla muito semelhantes às de vacas multíparas, o que mostra mais uma vez o efeito do nível de produção de leite sobre a incidência de ovulações múltiplas, independentemente do número de lactações (Figura 3).

 

O que se pode fazer?

Se a produção de leite está aumentando, então é provável que as taxas de dupla ovulação também estejam. Assim, mais cedo ou mais tarde, também aumentarão a quantidade de partos gemelares. A seguir apresentaremos algumas práticas que podem ser incorporadas ao manejo dos rebanhos, visando à redução de problemas decorrentes dos partos gemelares:

• Rotineiramente, avalie a existência de gestações geme-lares durante a revisão do médico veterinário. De forma alternativa, identifique as vacas mais produtivas e avalie a existência de gestações gemelares nessas vacas. As vacas que têm gêmeos apresentam um risco maior de distocia do que aquelas que parem só um bezerro, devido a problemas óbvios de acomodação. Portanto, um diagnóstico prévio de prenhez gemelar é valioso no sentido de alertar os produtores sobre as vacas que são mais propensas a enfrentar problemas durante o parto.

• Ajuste as rações das vacas gestantes de gêmeos antes do parto, porque esses animais têm requisitos de energia mais elevados ao final da gestação.

• Crie um sistema de monitoramento para tratar as vacas que pariram gêmeos a fim reduzir os problemas causados por nascimentos de dois bezerros. •