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Manejo

Prejuízos evidentes na reprodução

Prejuízos evidentes na reprodução

 

Texto: Prof. Dr. José Luiz Moraes Vasconcelos

Estresse térmico é um dos principais fatores que levam a baixa fertilidade, particularmente nas zonas tropicais e subtropicais. Vários componentes do sistema reprodutivo são susceptíveis ao calor excessivo, e o comprometimento de qualquer um deles impacta diretamente o sucesso de programas de reprodução em rebanhos de leite.

 

O estresse térmico reduz a produção de bovinos de leite, reduzindo acentuadamente a rentabilidade de fazendas localizadas em locais de clima quente e úmido (West, 2003). Estudos realizados nos Estados Unidos mostram que há impacto financeiro significativo causado pelo estresse térmico em vacas de leite, chegando quase a 1 bilhão de dólares por ano (St. Pierre et al., 2003).

O estresse térmico é o desequilíbrio que ocorre no organismo do animal em resposta às condições ambientais adversas tais como temperatura ambiente, umidade relativa do ar e radiação solar. As condições do ambiente, associadas à produção de calor metabólico, resultam em acúmulo de calor corporal. O estresse térmico ocorre quando a carga térmica recebida do ambiente pela vaca mais o calor proveniente de seu metabolismo são maiores do que a sua capacidade em dissipar calor para o ambiente. O índice de temperatura e umidade (ITU) sugere valores nos quais podemos identificar um ambiente de estresse térmico para vacas de leite. O valor de ITU para caracterizar estresse térmico varia entre pesquisadores: 68 (Bohmanova et al., 2007), 70 (Mader et al., 2006), 72 (Armstrong et al., 1994) e 77 (Johnson et al., 1963).

 

Ingestão de MS e reprodução

A geração de calor decorrente da manutenção das funções vitais e produção de leite representa aproximadamente 31% do consumo de energia de uma vaca de 600 kg de peso vivo, produzindo 40 kg de leite contendo 4% de gordura (Coppock, 1985). Gastos de manutenção quando a temperatura ambiente chega aos 35°C aumentam em 20% comparadas com condições de termoneutralidade (NRC, 1981). O incremento calórico causado pelo aumento da frequência respiratória e outros mecanismos fisiológicos usados pela vaca para dissipar calor, explica em parte a diminuição do aporte de energia para produção de leite. A diminuição da ingestão de alimentos, causada pelo estresse calórico, também contribui para a queda na produção de leite e fertilidade.

Estresse térmico afeta negativamente o desempenho reprodutivo de maneira direta e indireta através de alterações no balanço energético. Em vacas de leite há interação entre estresse térmico, ingestão de matéria seca, produção de leite e balanço energético negativo, que resulta na redução de secreção de LH (Jonsson et al., 1997) e diminui o diâmetro do folículo dominante no período pós parto (Figura1).

A formação de gametas é sensível à temperatura. Espermatogênese requer temperatura menor que a corporal, e recentes evidências indicam que o desenvolvimento do ovócito também é sensível à temperatura (Rutledge et al., 1999). O útero também pode ser afetado devido à diminuição do fluxo sanguíneo e aumento da temperatura (Roman-Ponce et al., 1978). Essas mudanças podem afetar o desenvolvimento do embrião (Rivera et al., 2001), fazendo com que ocorra perda precoce da gestação (Figura 1). Vasconcelos et al (1998) relataram que a maioria das perdas embrionária em vacas sob estresse térmico ocorre antes dos 42 dias de gestação.

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Fertilidade

Estresse térmico é um dos principais fatores que levam a baixa fertilidade, particularmente nas zonas tropicais e sub-tropicais. Vários componentes do sistema reprodutivo são susceptíveis ao calor excessivo, e o comprometimento de qualquer um deles impacta diretamente o sucesso de programas de reprodução em rebanhos de leite.

O estresse térmico reduz a expressão de comportamento de cio (Hansen et al., 2001), altera o desenvolvimento folicular (Wolfenson et al., 1995), o crescimento e a função do folículo dominante (Wilson et al., 1998a; 1998b) e as taxas de concepção (Ulberg and Burfening, 1967). Em estudo realizado em Israel, (Flamenbaum and Galon, 2010) os autores compararam taxa de concepção e produção de leite no inverno e verão em grupos com diferentes estratégias de resfriamento (30s molhando e 4,5 minutos sob ventilação forçada): intensivo (7,5h/dia), moderado (4,5h/dia) e não resfriado (0h/dia). Vacas com resfriamento intensivo obtiveram uma relação na produção de leite verão/inverno de 98,5%, e taxa de concepção no inverno de 56% e verão 33,8%. Vacas com resfriamento moderado tiveram produção de leite verão/inverno de 96%, e taxa de concepção no inverno de 53% e no verão 34,5%. Vacas que não foram resfriadas tiveram produção de leite verão/inverno 90%, e taxa de concepção no inverno de 54% e no verão de 15%. Esses resultados mostram a importância de se utilizar sistemas de resfriamento intensivos, que realmente mantêm a vaca sem estresse térmico. Particularidades de cada sistema associado ao potencial produtivo do rebanho devem ser avaliadas para determinar a melhor opção a ser utilizada (distância entre ventiladores, volume de água e aspersores, posicionamento dos equipamentos, a partir de qual ITU ligar o sistema, etc.).

 

Temperatura Retal e Fertilidade

Ulberg and Burfening et al. (1967) relataram que a taxa de concepção diminuiu 61 para 45% quando a temperatura retal aumentou 1°C, 12 h após a inseminação. Vasconcelos et al. (2011) encontraram que vacas de alta produção (>35kg/dia), com alta temperatura retal (>39Cº), tiveram menor taxa de prenhez em relação a vacas de alta produção com baixa (≤ 39C°) temperatura retal (Gráfico 1). Nesse estudo foi utilizada transferência de embriões, de modo que os resultados sugerem que mesmo se utilizando dessa técnica, muito usada no Brasil de maneira terapêutica durante o verão, os efeitos deletérios do estresse térmico são significativos e impactam embriões que não foram expostos ao estresse nos primeiros dias de desenvolvimento.

Em estudo no Sudeste do Brasil, Vasconcelos et al. (2011) detectaram que em 33 fazendas avaliadas durante o verão, mais de 60% das vacas avaliadas apresentavam temperatura acima de 39,1ºC no período da tarde (Tabela 1).

 

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Efeitos na fertilidade - estudos realizados no Brasil

Em todos os estudos realizados, o estresse térmico impactou negativamente nos resultados. O gráfico 2 e tabelas 2, 3 e 4 demonstram o quanto o conforto dos animais impactou na fertilidade. O gráfico 2 mostra o exemplo de uma fazenda, onde nos últimos três anos a taxa de concepção cai drasticamente nos meses mais quentes do ano. As tabelas 2 e 3 demonstram que o impacto do estresse térmico não é apenas no momento da inseminação, pois vacas que estavam em estresse térmico antes da IA ou após a IA também apresentaram menores taxas de concepção. Além disso, quanto maior o período de tempo em que as vacas estão em estresse térmico, menores são as taxas de concepção.

 

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Em outro estudo (Pereira et al., 2014) avaliando diferentes protocolos de IATF, durante estação quente (n=617) e fria (857) do ano, a fertilidade durante a estação quente foi menos que a metade obtida durante a estação fria (tabela 4). Medidas fisiológicas associadas à maior fertilidade foram de forma geral reduzidas durante a estação quente, como por exemplo: porcentagem de vacas com corpo lúteo no momento da PGF2α diminuiu em 6,7%, diâmetro do folículo ovulatório diminuiu em 0,9 mm, a expressão de estro diminuiu em 6,8% e a sincronização ao protocolo diminuiu em 5,4%. Estudos anteriores também demonstram efeito negativo do estresse térmico na sincronização ao protocolo (Pereira et al., 2013). Estas alterações fisiológicas poderiam indicar a diminuição da fertilidade em vacas sob estresse térmico. Por exemplo, falta de ovulação iria diminuir a fertilidade aproximadamente em 2,7% na taxa de prenhez geral. E o efeito do estresse térmico nas outras alterações fisiológicas mencionadas iria ter menos impacto que na falta de sincronização (expressão de estro = -0,72%; menor folículo = - 1,2%; sem CL no d – 4 = -0,90) sugerindo que apenas 5,5% da redução da fertilidade é explicada por alterações fisiológicas. Sendo assim os efeitos mais dramáticos do estresse térmico na fertilidade neste estudo foram mais associados a qualidade do oócito, fertilização e a qualidade e desenvolvimento do embrião, do que efetivamente a resposta ao protocolo de IATF. 

Devido à importância econômica do estresse térmico no Brasil, é necessária a conscientização dos técnicos e produtores para utilizarem intensamente estratégias que visam diminuir o estresse térmico, visando maior produtividade.

 

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