Qual o impacto da substituição do milho seco por silagem de milho grão úmido ou milho reidratado na dieta de vacas leiteiras?
Ganhos reais
O milho é a principal fonte de amido nas dietas de vacas leiteiras e, normalmente, o grão participa com 10% a 25% da matéria seca (MS) da ração. Por isso, cresce constantemente o interesse por estratégias que permitam armazenar o milho com segurança, otimizar sua utilização, extrair o máximo do seu potencial nutricional e, ao mesmo tempo, reduzir perdas no processo.
O milho seco moído é a forma mais comum de utilização nas fazendas leiteiras. Pode ser armazenado em silos aéreos ou galpões cobertos, porém apresenta limitações importantes, como o elevado custo de estrutura de armazenamento e as dificuldades no controle de roedores que, além de causar perdas, podem atuar como vetores de doenças, como a leptospirose.
Como alternativa, ganha destaque a silagem de grão, seja na forma de milho grão úmido, colhido com maior teor de umidade, ou de milho reidratado, em que o milho seco é novamente umedecido até atingir a umidade ideal para ensilagem.
No caso do grão úmido, produtores que cultivam o próprio milho têm a vantagem de antecipar a colheita, abrindo janela para implantação de uma nova cultura e melhor aproveitamento da área agrícola ao longo do ano. Já o milho reidratado permite compras estratégicas em períodos de menor preço do grão, possibilitando seu armazenamento e uso em momentos de valorização do mercado. No entanto, é importante lembrar que o movimento contrário também pode ocorrer. O produtor pode adquirir o milho acreditando estar em um momento favorável de preço e, posteriormente, o mercado sofrer queda, reduzindo a vantagem econômica esperada. Além disso, deve-se considerar que, ao optar pela reidratação e ensilagem, haverá imobilização de capital durante o período de armazenamento, o que também representa custo financeiro.
Entretanto, essa decisão precisa ser bem calculada. É fundamental considerar as variações regionais no preço do milho, as perdas inerentes ao processo de ensilagem e o capital que ficará imobilizado durante o período de armazenamento.
Diante dessas variáveis, que devem sempre ser analisadas conforme a realidade de cada propriedade, surge uma pergunta frequente no campo: ao ensilar milho, seja como grão úmido ou reidratado, ocorrem mudanças capazes de aumentar a digestibilidade do amido e melhorar a eficiência alimentar das vacas?
Para responder a essa questão, foram conduzidos dois estudos na Universidade Federal de Viçosa (UFV), em Minas Gerais, publicados em 2025 na revista Journal of Dairy Science.
O primeiro estudo avaliou a substituição do milho seco moído por milho grão úmido (GU) ou milho reidratado (MR) em dietas de vacas em lactação. O segundo estudo investigou o efeito do tempo de ensilagem e da inclusão de ácido propiônico sobre a degradabilidade ruminal do amido em silagem de milho grão úmido.

Quem cultiva o próprio milho ganha uma vantagem: antecipar a colheita abre janela para outra cultura e aproveita melhor a área ao longo do ano
Estudo 1: Martins et al. (2025a)
Neste experimento foram avaliados os efeitos da substituição do milho seco moído por milho reidratado ou milho grão úmido em dietas de vacas em lactação. As vacas apresentavam, em média, 100 dias em lactação (DEL) e produção média de 30 kg de leite por dia.
A dieta basal era composta por silagem de milho, farelo de soja, caroço de algodão, feno, premix vitamínico-mineral, bicarbonato de sódio, óxido de magnésio e ureia. A única variação entre os tratamentos foi a forma de processamento do milho grão.
Foi utilizado o mesmo híbrido de milho em todos os tratamentos, cultivado no mesmo período, com elevada vitreosidade (80%). Esse tipo de milho é comum no Brasil, diferentemente dos Estados Unidos, onde predominam híbridos dentados, com endosperma mais farináceo. A maior vitreosidade ajuda a reduzir o ataque de pragas no campo, porém está associada a menor digestibilidade ruminal, pois dificulta o acesso da microbiota do rúmen ao amido.
O milho destinado à produção do GU foi colhido com aproximadamente 50% de matéria seca e moído em moinho de rolos, visando partículas menores que 3 mm. Já o milho seco e o destinado ao MR foram colhidos com cerca de 89% de matéria seca e moídos em moinho de martelos com peneira de 3 mm. O milho reidratado foi reconstituído com água até atingir cerca de 40% de umidade.
Tanto o GU quanto o MR permaneceram armazenados por 258 dias antes do fornecimento aos animais, garantindo estabilidade e evitando variações na digestibilidade ao longo do experimento.
Os resultados mostraram que vacas alimentadas com milho grão úmido apresentaram maior ingestão de matéria seca (2 kg/d a mais), matéria orgânica (1,6 kg/d), proteína bruta (0,29 kg/d) e amido (0,15 kg/d) em comparação ao milho seco.
O milho reidratado, por sua vez, não diferiu estatisticamente dos demais tratamentos.
Mesmo após longo período de armazenamento (258 dias), não foram observados ganhos na digestibilidade do amido entre as diferentes formas de milho avaliadas.
Ao analisar o pH ruminal ao longo do dia, observouse que o milho seco moído proporcionou maior estabilidade no ambiente do rúmen. Isso indica que GU e MR, por passarem pelo processo de ensilagem, promovem fermentação mais rápida, enquanto o milho seco apresenta perfil fermentativo mais estável, podendo favorecer a saúde ruminal.
Em relação à produção de leite, não houve diferenças estatísticas entre os tratamentos. No entanto, observou-se tendência de maior produção de leite e maior teor de gordura nas vacas alimentadas com GU, enquanto o MR apresentou desempenho semelhante ao milho seco (Tabela 1).
Esse resultado pode estar relacionado ao maior consumo de matéria seca no tratamento com milho grão úmido, e não a um aumento na digestibilidade do amido.
De modo geral, o uso do milho grão úmido mostrou-se alternativa viável ao milho seco, especialmente quando considerado como estratégia de otimização da área agrícola. Já o milho reidratado apresentou desempenho semelhante ao milho seco, devendo sua adoção ser avaliada principalmente sob a ótica econômica e operacional.
Tabela 1. Produção e composição do leite em vacas leiteiras alimentadas com dietas contendo grãos de milho processados de diferentes maneiras
a,b Médias na mesma linha com sobrescritos diferentes diferem em P < 0,05 pelo teste de Bonferroni. n = 9 para cada tratamento
x,y Médias na mesma linha com sobrescritos diferentes representam tendência estatística em P ≤ 0,10 pelo teste de Bonferroni
Fonte: Adaptado de “Effects of reconstituted finely ground corn grain or high-moisture rolled corn grain as replacers for finely ground dry corn grain when using a fl int corn hybrid for lactating cows”, publicado em Journal of Dairy Science

Mais consumo, não mais digestibilidade: o grão úmido rendeu 2 kg a mais de MS por dia
O USO DO MILHO GRÃO ÚMIDO MOSTROUSE ALTERNATIVA VIÁVEL AO MILHO SECO, ESPECIALMENTE QUANDO CONSIDERADO COMO ESTRATÉGIA DE OTIMIZAÇÃO DA ÁREA AGRÍCOLA. JÁ O MILHO REIDRATADO APRESENTOU DESEMPENHO SEMELHANTE AO MILHO SECO, DEVENDO SUA ADOÇÃO SER AVALIADA PRINCIPALMENTE SOB A ÓTICA ECONÔMICA E OPERACIONAL
Estudo 2: Martins et al. (2025b)
O segundo estudo avaliou o efeito da inclusão de ácido propiônico e do tempo de ensilagem sobre as perdas de matéria seca e a degradabilidade ruminal do amido em silagem de milho grão úmido. Foi utilizado o mesmo milho duro, com cerca de 80% de vitreosidade. O grão foi colhido com aproximadamente 45% de umidade e processado em moinho de rolos, visando partículas menores que 3 mm.
Foram confeccionados minissilos com densidade média de 1.300 kg/m³. O experimento considerou seis tempos de armazenamento (30, 60, 90, 120, 150 e 180 dias) e três níveis de ácido propiônico (0%; 0,25% e 0,50%). Após a abertura dos silos, o material foi analisado quanto às perdas de matéria seca e à degradabilidade ruminal do amido.
Os resultados mostraram que a adição de ácido propiônico não reduziu as perdas de matéria seca. Pelo contrário, houve aumento das perdas, variando de 4,84% sem ácido para 6,75% com 0,25% de inclusão. Além disso, o uso do ácido propiônico reduziu a degradabilidade ruminal do amido.
Esse efeito provavelmente ocorreu porque o ácido propiônico, ao exercer ação antimicrobiana, pode ter reduzido a degradação das prolaminas - proteínas que envolvem e protegem os grânulos de amido no milho. Com menor degradação dessas proteínas, o amido permanece menos exposto, exigindo maior tempo de armazenamento para atingir níveis de disponibilidade semelhantes aos observados em silagens sem aditivo.
Por outro lado, quando se avaliou apenas o efeito do tempo de ensilagem, observou-se aumento progressivo da degradabilidade do amido ao longo do armazenamento. Esse resultado está relacionado à proteólise promovida por enzimas bacterianas e por enzimas do próprio grão, que degradam as prolaminas e aumentam a exposição do amido à ação da microbiota ruminal. Os dados indicam que períodos mais longos de ensilagem, no mínimo 180 dias, são fundamentais para maximizar a degradabilidade do amido e o aproveitamento energético do milho.

Figura 1. Taxa de degradação ruminal do amido
Fonte: Adaptado de “Effects of propionic acid inclusion and ensiling time on in situ ruminal starch degradability of high-moisture flint corn grain silage” publicado em Journal of Dairy Science
Considerações finais
Os estudos conduzidos na UFV mostram que a resposta sobre qual é a melhor forma de utilizar o milho grão - seco, úmido ou reidratado - não é simples. São processos que envolvem múltiplas variáveis, e pequenos detalhes de manejo podem gerar impactos importantes, inclusive econômicos. É importante destacar que os experimentos foram realizados sob condições altamente controladas. Nessas circunstâncias, quando o manejo é bem executado, os resultados indicam desempenho semelhante entre as diferentes formas de utilização do milho. Portanto, não existe uma estratégia única e superior para todas as propriedades. A decisão deve ser tomada em conjunto com o técnico responsável, considerando aspectos produtivos, econômicos, operacionais e a realidade específi ca da fazenda. Mais do que escolher entre milho seco, grão úmido ou reidratado, o que realmente determina o sucesso é a qualidade do manejo em cada etapa do processo

Seco, úmido ou reidratado: o que decide o resultado é o manejo em cada etapa
NÃO EXISTE UMA ESTRATÉGIA ÚNICA E SUPERIOR PARA TODAS AS PROPRIEDADES. A DECISÃO DEVE SER TOMADA EM CONJUNTO COM O TÉCNICO RESPONSÁVEL, CONSIDERANDO ASPECTOS PRODUTIVOS, ECONÔMICOS, OPERACIONAIS E A REALIDADE ESPECÍFICA DA FAZENDA
Referências MARTINS, B. M. et al. Effects of reconstituted finely ground corn grain or high-moisture rolled corn grain as replacers for finely ground dry corn grain when using a fl int corn hybrid for lactating cows. Journal of Dairy Science, v. 108, n. 10, p. 10986–11000, 1 out. 2025a. MARTINS, B. M. et al. Effects of propionic acid inclusion and ensiling time on in situ ruminal starch degradability of high-moisture flint corn grain silage. Journal of Dairy Science, v. 108, n. 12, p. 13289– 13301, 1 dez. 2025b.
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