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Fazendas, Gestão

Raízes profundas: conheça a história da Fazenda Santo Isidoro (Coxilha/RS)

Com estrutura construída com paciência, autonomia e critério técnico, a Fazenda Santo Isidoro transformou escolhas simples em diferenciais robustos e fez da atividade leiteira um projeto consistente, próprio e sustentável

Raízes profundas: conheça a história da Fazenda Santo Isidoro (Coxilha/RS)

Muito do que Fernando Stedile aprendeu veio das salas de aula da universidade. Mas foi no dia a dia da Fazenda Santo Isidoro, em Coxilha, no noroeste do Rio Grande do Sul, que ele moldou seu olhar de gestor e reconheceu, na lida com os animais, a verdadeira vocação da propriedade. Foi ali, no compasso das ordenhas, das decisões pensadas e dos dias longos, que o leite se fez destino – e conduziu a família Stedile por uma história de crescimento sólido, em que a terceira geração carrega, com fôlego renovado, a mesma força que impulsionou os primeiros passos. 

História de visão e transformação 

A história da Stedile Sementes e Pecuária de Leite iniciou em 1959, quando o patriarca, Henrique Antônio Stedile, fixou raízes na Fazenda Santo Isidoro. Com o propósito inicial de plantar trigo e engordar gado de corte, Henrique encontrou na terra fértil e no espírito empreendedor o ponto de partida de uma trajetória marcada por adaptação e visão de futuro. 

Com o passar dos anos, a produção de sementes de soja e trigo se consolidou como o carro-chefe da propriedade. Já a pecuária, embora presente desde os primeiros tempos – com algumas vacas leiteiras mantidas para o consumo da família –, passou por inúmeras transformações até ocupar o centro da estratégia produtiva. A virada começou nos anos 1990, quando Fernando Stedile, filho de Henrique, recém-formado em Agronomia, retornou à fazenda determinado a diversificar as atividades: “A soja dava muito dinheiro, mas a universidade ensinava que não podíamos depender de uma única cultura”. 

Vários investimentos foram feitos, incluindo suinocultura, psicultura e confinamento de gado de corte. Mas foi o leite – produção exigente, intensiva e desafiadora – que demonstrou maior constância, rentabilidade e potencial de crescimento. Ao longo daquela década, a diversificação deu lugar à especialização. Fernando assumiu a condução da pecuária leiteira, enquanto seu irmão, Joacir Stedile, seguiu à frente das atividades agrícolas. Essa divisão estratégica de responsabilidades possibilitou o crescimento sustentável e equilibrado da propriedade. 

No início dos anos 2000, a pecuária leiteira tornou-se, definitivamente, o foco exclusivo da área animal. “Foi uma decisão que exigiu investimento, estudo e paciência. Mas, com o tempo, os resultados vieram”, resume Fernando, que liderou a transformação gradual, porém sólida, sempre atento às oportunidades.

Hoje, a fazenda ainda preserva a força da agricultura com a produção de sementes de soja, trigo e milho, mas é o leite que movimenta a vida de Fernando e de seu filho, o médico veterinário Germano Stedile. A propriedade canaliza conhecimento, tecnologia e sensibilidade para consolidar um sistema produtivo sustentado em escolhas conscientes. A trajetória que começou com objetivos simples evoluiu para um projeto estruturado e tecnificado, que inspira e movimenta a pecuária leiteira do Sul do Brasil. 



 

Genética como pilar de produtividade 

A evolução do rebanho da Santo Isidoro é resultado direto de uma estratégia genética bem-definida e construída ao longo de mais de três décadas. A base atual, predominantemente composta por vacas da raça Holandês, teve início em 1991, com a compra criteriosa de novilhas. “Fomos substituindo aos poucos as vacas mestiças que tínhamos por animais mais padronizados, com maior potencial produtivo”, recorda Fernando. 

Desde então, a inseminação artificial se tornou rotina na fazenda; sempre com sêmen de alta qualidade, em sua maioria proveniente dos Estados Unidos. Cursos e intercâmbios nacionais e internacionais, assim como visitas técnicas ajudaram a formar o critério e o olhar técnico da família para a seleção genética. Há mais de 20 anos, a propriedade deixou de utilizar touros, optando exclusivamente por inseminação e, mais recentemente, por protocolos avançados de reprodução sob a liderança de Germano. 

Germano assumiu a responsabilidade pelo rebanho depois de um estágio técnico nos Estados Unidos, em uma clínica especializada em reprodução bovina. Desde então, promove avanços significativos nos índices zootécnicos da propriedade. A genética, nas palavras de Fernando, só pode se expressar plenamente quando aliada a um ambiente que favoreça o bem-estar animal e a nutrição de precisão. E esse é o tripé que sustenta os resultados crescentes da Santo Isidoro.


Vista panorâmica da Fazenda Santo Isidoro, em Coxilha/RS: natureza, pecuária e gestão caminham em harmonia 


A GENÉTICA, NAS PALAVRAS DE FERNANDO, SÓ PODE SE EXPRESSAR PLENAMENTE QUANDO ALIADA A UM AMBIENTE QUE FAVOREÇA O BEM-ESTAR ANIMAL E A NUTRIÇÃO DE PRECISÃO. E ESSE É O TRIPÉ QUE SUSTENTA OS RESULTADOS CRESCENTES DA SANTO ISIDORO



Germano Stedile, médico veterinário e gestor da nova geração da Fazenda Santo Isidoro: tecnologia, dados e manejo de precisão a serviço de um rebanho produtivo e saudável  


Infraestrutura e bem-estar: ambiente à altura da genética 

Na Fazenda Santo Isidoro, a estrutura física da produção leiteira evoluiu passo a passo com o crescimento do rebanho. O sistema de ordenha, por exemplo, passou por várias modificações até chegar ao modelo atual. Implantado em 2004 e ainda em plena atividade, o sistema é do tipo side by side duplo 16 (paralela), automatizado e informatizado, com coleta de dados em tempo real. “Não fizemos nada às pressas. Nosso crescimento foi com as próprias pernas”, afirma Fernando. 

São três sessões de ordenha por dia, organizadas em turnos precisos, com equipes específicas para garantir fluidez e padrão. A cada ordenha, o desempenho de cada animal é monitorado, permitindo ajustes finos na dieta, na reprodução e no acompanhamento sanitário. “É uma estrutura que permanece atual porque foi bem dimensionada e bem cuidada. E porque a gente está sempre atento ao que precisa ser ajustado”, ressalta Fernando. 

Um dos diferenciais está na integração entre ordenha e alimentação. As vacas recebem a dieta logo após a ordenha. A estrutura ainda se conecta ao sistema de pasteurização do leite fornecido às bezerras e ao controle interno de qualidade, com laboratório próprio na fazenda. 

Por muitos anos, a fazenda ordenhou até 500 vacas em regime de pastejo rotacionado. Toda a estrutura foi pensada para oferecer conforto dentro do possível: água em todos os piquetes, sombreamento com eucaliptos e acesso à suplementação depois das ordenhas. Mesmo com todo o manejo de excelência, havia limites impostos pelas variações do clima e pelas dificuldades em ajustar a dieta em campo. 

A virada estrutural veio há cerca de três anos, com a construção de um galpão com sistema túnel de ventilação – tecnologia de ventilação forçada que assegura temperatura, umidade e renovação de ar ideais para o rebanho. Metade das vacas em lactação está instalada nesse sistema, que também abriga novilhas e animais jovens. O diferencial está na cama, feita com dejetos pasteurizados produzidos na própria fazenda. Por intermédio de um equipamento importado da Itália, o material é tratado a temperaturas superiores a 65 °C, garantindo biossegurança e autossuficiência. “A cama vem do próprio rebanho. Isso nos tornou independentes de areia ou materiais externos. É uma solução eficiente, econômica e sustentável”, explica Fernando. 

O resultado dessa combinação de infraestrutura, cuidado e bem-estar animal é visível na produtividade. Enquanto as vacas mantidas no sistema de pasto produzem, individualmente, em média, 34 litros/dia, os animais alojados no túnel de ventilação ultrapassam 42 litros/vaca/dia. A produção total da fazenda gira em torno de 20,5 mil litros diários, com 600 vacas em lactação e um rebanho total de 1.300 animais. 

O projeto de expansão já está nos planos: a meta é construir um segundo galpão para abrigar o restante do rebanho, unificando os sistemas e potencializando ainda mais os ganhos em sanidade, produção e eficiência alimentar.


A VIRADA ESTRUTURAL VEIO HÁ CERCA DE TRÊS ANOS, COM A CONSTRUÇÃO DE UM GALPÃO COM SISTEMA TÚNEL DE VENTILAÇÃO – TECNOLOGIA DE VENTILAÇÃO FORÇADA QUE ASSEGURA TEMPERATURA, UMIDADE E RENOVAÇÃO DE AR IDEAIS PARA O REBANHO  




Galpão com sistema túnel de ventilação: infraestrutura moderna garante conforto térmico e alta produtividade, com vacas produzindo mais de 42 litros/dia


Nutrição como estratégia 

Se a genética cria o potencial, é a nutrição que o realiza. Na Fazenda Santo Isidoro, a alimentação do rebanho é pensada com rigor técnico, mas também com sensibilidade prática, resultado de décadas de ajustes, observação e aprendizado. 

Antes do confinamento, as vacas tinham acesso à dieta total em cochos abertos no pós-ordenha; solução que funcionava, mas sofria com a interferência do clima e com as dificuldades de ajuste fino. No galpão de confinamento, a realidade é outra: a dieta formulada no computador chega exatamente como planejada à boca da vaca, protegida do sol e da chuva, com acesso contínuo a alimento, água de poço artesiano e cama limpa. 

A fazenda conta com uma fábrica própria de ração, o que garante autonomia na formulação do alimento concentrado e controle absoluto sobre a qualidade dos ingredientes. A base alimentar é composta por silagem de milho, silagem de trigo, palha de trigo, milho, farelo de soja e sais minerais, enriquecida com aditivos que favorecem o aproveitamento da dieta. 

Há mais de 12 anos, a parceria com a Alltech reforça a eficiência nutricional do sistema. Destaca-se a utilização do MILK-SACC ®+, que contribui diretamente para o melhor desempenho do rebanho. “A gente aprende que não adianta ter um superproduto se o resto do sistema não está funcionando bem. Aqui, cada detalhe da nutrição está alinhado com a estrutura, com a ordenha, com a genética”, diz Fernando. 

Com vagão forrageiro novo, silagem manejada adequadamente e ração personalizada, a Santo Isidoro construiu uma engrenagem em que cada peça fortalece a outra – e a produtividade é o reflexo dessa harmonia.


“A GENTE APRENDE QUE NÃO ADIANTA TER UM SUPERPRODUTO SE O RESTO DO SISTEMA NÃO ESTÁ FUNCIONANDO BEM. AQUI, CADA DETALHE DA NUTRIÇÃO ESTÁ ALINHADO COM A ESTRUTURA, COM A ORDENHA, COM A GENÉTICA”  

Nutrição de precisão: com dieta balanceada, formulada na própria fazenda e distribuída em ambiente controlado, as vacas expressam todo o seu potencial genético


Parceria que gera resultados: há mais de 12 anos, a Fazenda Santo Isidoro conta com o suporte técnico e nutricional da Alltech para otimizar a eficiência alimentar do rebanho. Na foto, João Paulo Costa, gerente de vendas da Alltech para ruminantes no Rio Grande do Sul, com o proprietário da Santo Isidoro, Fernando Stedile 


Bezerras bem-cuidadas: onde tudo começa 

O manejo das bezerras revela o compromisso com o futuro do rebanho na Fazenda Santo Isidoro. Por isso, são tratadas com o mesmo nível de atenção dedicado às vacas em lactação. E isso não é de hoje. 

Fernando já testou todos os modelos possíveis de bezerreiros: do tipo argentino, baias cobertas, iglus de fibra. A busca por uma rotina que aliasse desempenho, bem-estar e viabilidade operacional foi longa, até culminar, em 2015, na implantação de um sistema estruturado com amamentadores automáticos e galpão exclusivo para bezerras. 

O novo modelo substituiu o aleitamento manual, que, além de demandar grande esforço da equipe, era vulnerável às oscilações climáticas e à rotatividade de mão de obra. 

Hoje, as bezerras são alojadas em um barracão de 30 metros por 30 metros, dividido em baias confortáveis, com cama seca, bebedouros de água limpa, cocho de ração inicial e acesso aos amamentadores. O leite fornecido passa por pasteurização, assim como o colostro, e o sistema automatizado permite um aleitamento individualizado de até 9 litros por dia, com desaleitamento gradual aos 65 dias. Depois desse período, as fêmeas permanecem por mais algumas semanas no mesmo espaço, até seguirem para o galpão principal, onde integram o grupo de animais jovens. 

“Esse setor anda sozinho. A taxa de mortalidade caiu drasticamente e o desempenho das terneiras melhorou muito”, comemora Fernando. Germano, por sua vez, destaca o impacto do novo sistema sobre o crescimento uniforme e a saúde das novilhas, o que reduz o tempo até a primeira inseminação e antecipa a entrada na lactação com melhores condições.


Com manejo individualizado, nutrição de qualidade e ambiente controlado, a Fazenda Santo Isidoro prepara o futuro do rebanho com saúde e desempenho 


A BUSCA POR UMA ROTINA QUE ALIASSE DESEMPENHO, BEM-ESTAR E VIABILIDADE OPERACIONAL FOI LONGA, ATÉ CULMINAR, EM 2015, NA IMPLANTAÇÃO DE UM SISTEMA ESTRUTURADO COM AMAMENTADORES AUTOMÁTICOS E GALPÃO EXCLUSIVO PARA BEZERRAS


Duas gerações, o mesmo compromisso com o futuro 

Inovar, na Fazenda Santo Isidoro, não é apenas adotar o que há de mais recente. É escolher com critério, adaptar com inteligência e fazer funcionar dentro das possibilidades da propriedade. A prática de observar, testar e ajustar foi o que permitiu construir um modelo próprio na fazenda, em que cada inovação é fruto de análise cuidadosa e visão de longo prazo. 

Com a entrada de Germano na gestão, a adoção de tecnologias avançou ainda mais. Ele domina os sistemas de gerenciamento, implementa automações e acompanha indicadores zootécnicos com o apoio de dados em tempo real. “Assumi a parte de reprodução e manejo do rebanho, com foco em eficiência e atualização dos processos. Mas não comecei do zero: recebi algo já sólido, o que torna o desafio diferente, talvez até maior”, observa. 

Além de gerir os protocolos reprodutivos, Germano também responde pela equipe de colaboradores, pela integração com os sistemas de gestão do rebanho e pela manutenção do bom funcionamento da estrutura. A fazenda opera com cerca de 30 colaboradores, divididos em turnos, reforçando a importância da organização e da liderança no dia a dia da operação.

Fernando, por sua vez, segue ativo na gestão estratégica, no planejamento e na busca constante por soluções que respeitem a realidade da propriedade. “A gente sempre buscou conhecimento onde fosse possível. O que funcionava, adaptávamos para a nossa realidade. Nenhum modelo serve para todo mundo. O que fizemos aqui foi construir o nosso”, afirma. 

A convivência entre as gerações é harmoniosa, marcada por escuta, respeito e troca. Germano introduz novas tecnologias, como software e automações; Fernando compartilha a experiência de quem construiu cada etapa com os próprios passos. Juntos, mantêm viva a essência da fazenda: produzir com responsabilidade, crescer com consistência e cuidar daquilo que, mais do que um negócio, é uma história de vida. Um exemplo de como a pecuária leiteira brasileira pode avançar com raízes profundas e olhos bem abertos para o futuro. 

 

“A GENTE SEMPRE BUSCOU CONHECIMENTO ONDE FOSSE POSSÍVEL. O QUE FUNCIONAVA, ADAPTÁVAMOS PARA A NOSSA REALIDADE. NENHUM MODELO SERVE PARA TODO MUNDO. O QUE FIZEMOS AQUI FOI CONSTRUIR O NOSSO"


Gerações conectadas por uma história de trabalho, aprendizado e amor pelo leite 



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Autor

Adriana Vieira Ferreira

Adriana Vieira Ferreira

EDITORA EXECUTIVA
Economista, DSc. em Economia Rural


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