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Sanidade

Saiba mais sobre os danos silenciosos provocados pela euritrematose bovina

Apesar de comum em várias regiões, a infecção por Eurytrema em bovinos é frequentemente ignorada, sob a premissa de que os animais coexistem com a doença sem maiores consequências. No entanto, os danos podem ser substanciais e, muitas vezes, silenciosos.

Saiba mais sobre os danos silenciosos provocados pela euritrematose bovina

A euritrematose bovina é uma parasitose causada pelo helminto do gênero Eurytrema, encontrado nos ductos pancreáticos de ruminantes, como bovinos e caprinos. Considerada uma doença “silenciosa”, especialmente em seus estágios iniciais, a euritrematose pode apresentar sinais clínicos sutis ou ser confundida com outras enfermidades, levando ao subdiagnóstico ou até mesmo à negligência.

Os animais infectados geralmente têm comprometimento da função pancreática, o que reduz a eficiência alimentar e causa inapetência devido à inflamação. Isso afeta seu desenvolvimento e produção, gerando perdas econômicas significativas para os produtores. Outro prejuízo econômico relevante é a condenação do pâncreas de animais infectados, usado na indústria para a produção de insulina. Estudos indicam alta correlação entre a euritrematose e índices de mortalidade em propriedades, atingindo até 6,6%.

Endêmica em várias regiões do Brasil, principalmente no Sul e Sudeste, e presente em outras partes do mundo, como outros países da América do Sul, Ásia e Europa, a prevalência dessa doença está relacionada às condições ambientais do entorno dos rebanhos. A infecção é mais comum em regiões com pastagens úmidas e alagadas.

Entre 2019 e 2021, um estudo no abatedouro municipal de Bambuí/MG, revelou que 32,97% das carcaças examinadas estavam positivas para a presença de parasitas do gênero Eurytrema. Isso sugere que uma parte significativa dos animais não estava alcançando seu potencial produtivo.

 OS ANIMAIS INFECTADOS GERALMENTE TÊM COMPROMETIMENTO DA FUNÇÃO PANCREÁTICA, O QUE REDUZ A EFICIÊNCIA ALIMENTAR E CAUSA INAPETÊNCIA DEVIDO À INFLAMAÇÃO 

Transmissão

As espécies do gênero Eurytrema possuem ciclo heteroxeno, o que significa que necessitam de hospedeiros diferentes para completar seu ciclo de vida. O hospedeiro definitivo, aquele onde o parasito adulto se reproduz, é infectado pela ingestão acidental de gafanhotos contendo metacercárias, que são liberadas dos cistos no duodeno e migram para o pâncreas. Dessa forma, animais criados a pasto ou em piquetes estão bem mais suscetíveis a terem contato.

O ciclo de vida desse parasito envolve três hospedeiros. Os ovos são excretados nas fezes dos bovinos infectados e ingeridos por caramujos do gênero Bradybaena similaris, fase em que se desenvolve de larva para cercária. A cercária é eliminada na forragem e ingerida por gafanhotos do gênero Conocephalus sp., onde se desenvolve até a forma de metacercária infectante. O hospedeiro definitivo, o bovino, se infecta por ingestão acidental do segundo hospedeiro intermediário. A metacercária migra para o duodeno via ducto pancreático, alcança o pâncreas e desenvolve-se até a forma adulta, causando lesões típicas de pancreatite intersticial fibrosante, com destruição total ou parcial dos ductos pancreáticos (Figura 1).


Efeitos no organismo

A obstrução dos ductos pancreáticos causada pelos parasitos impede a secreção adequada de enzimas e hormônios essenciais para a absorção de nutrientes. Isso ocorre porque, com a obstrução, essas substâncias não circulam adequadamente na corrente sanguínea, impedindo que as células captem nutrientes essenciais, como a glicose. Por exemplo, para captação de glicose pela célula, é necessário o hormônio insulina, produzido pelo pâncreas. Quando a parte do pâncreas responsável pela produção de insulina está lesionada, a disponibilidade desse hormônio na corrente sanguínea é reduzida, impedindo a absorção de glicose e sua utilização como fonte de energia. Essa deficiência resulta em sinais clínicos visíveis nos animais, como caquexia, letargia e prostração, todos correlacionados com a insuficiência na absorção de nutrientes ingeridos pelos animais.

Adicionalmente, em casos mais graves e crônicos, pode ocorrer destruição do parênquima do órgão, comprometendo ainda mais a produção dos hormônios e enzimas que são secretados no intestino (Figura 2).


Sinais clínicos

A euritrematose é frequentemente subdiagnosticada devido à inespecificidade dos seus sinais clínicos. Os animais afetados podem apresentar uma série de sintomas como desenvolvimento insuficiente, caquexia (perda extrema de peso), decúbito prolongado (permanência prolongada deitado), letargia, fraqueza, prostração, depressão, icterícia e anemia. A icterícia, que se caracteriza pela coloração amarelada das mucosas, pele e/ou esclera, é um sinal de disfunção hepática secundária. Ela ocorre quando os parasitos obstruem, além do pâncreas, o ducto biliar, impedindo a excreção adequada da bilirrubina produzida pelo fígado. Como resultado, a bilirrubina se acumula no sangue e nos tecidos, resultando em icterícia.

Diagnóstico 

O diagnóstico da euritrematose pode ser desafiador. As técnicas de contagem de ovos de Eurytrema nas fezes dos hospedeiros definitivos são trabalhosas e sujeitas a alta probabilidade de resultados falsos negativos. Esse desafio é especialmente relevante para animais pouco parasitados que eliminam ovos de maneira constante no ambiente. Devido a essas limitações no diagnóstico parasitológico, a necropsia torna-se ferramenta diagnóstica crucial, especialmente em casos de patologias com sinais clínicos inespecíficos. Durante a necropsia, pode-se observar o pâncreas pálido, com ductos dilatados e presença do parasita em forma de folha e de coloração avermelhada (Figura 3).


O diagnóstico de insuficiência pancreática associada à fibrose induzida por Eurytrema coelomaticum deve ser considerado na diferenciação de doenças que afetam bovinos e resultam em perda de peso crônica. Entre as condições relacionadas, é importante destacar as intoxicações por plantas contendo alcalóide pirrolizidínico. Nos exames complementares, alterações hematológicas como eosinofilia, monocitose e níveis elevados de albumina podem ser observadas. Adicionalmente, exames bioquímicos podem indicar aumento nos níveis de ureia e creatinina.

Devido aos sinais clínicos inespecíficos desta doença, é crucial a realização de diagnósticos diferenciais para outras patologias como Fasciola hepática (fasciolose), babesiose, anaplasmose e anemia hemolítica.

A EURITREMATOSE É FREQUENTEMENTE SUBDIAGNOSTICADA DEVIDO À INESPECIFICIDADE DOS SEUS SINAIS CLÍNICOS

Tratamento

Até o momento, não há tratamento cientificamente comprovado para a parasitose causada pelo Eurytrema spp., uma vez que são desconhecidas as drogas anti-helmínticas eficazes contra esse parasito. Consequentemente, os danos causados pelo parasito são considerados irreversíveis. Apesar de casos com sinais clínicos significativos serem raramente observados nos rebanhos, a alta letalidade em animais clinicamente afetados gera preocupação entre os pecuaristas. Portanto, é essencial que os produtores estejam cientes das áreas de parasitismo e das particularidades do ciclo de vida do parasito para detectar sinais precoces e buscar orientação veterinária apropriada.

Controle

Devido à ausência de tratamento eficaz comprovado, a melhor estratégia é o controle da doença. Conhecer os locais onde o parasito está presente e entender as peculiaridades de seu ciclo de vida são informações cruciais para o pecuarista. Uma vez que os hospedeiros intermediários, como caramujos e gafanhotos, proliferam em poças de água e pastagens, animais criados em pastos e piquetes são particularmente vulneráveis à infecção.

Uma abordagem efetiva para o controle da euritrematose envolve a implementação do pastoreio rotacionado como medida profilática, visando reduzir a exposição dos animais às áreas contaminadas. Essa prática é benéfica, dado que a taxa de lotação, o período de descanso e o ciclo de pastejo têm relação direta com o nível de contaminação dos pastos por larvas infectantes e, consequentemente, com a carga parasitária nos animais. Ao manter o rebanho afastado de determinadas áreas de pastagem por um período pré-determinado, impede-se a progressão do ciclo de vida do parasito, que, sem a possibilidade de completar sua fase parasitária no hospedeiro, acaba morrendo ainda na forma de larva.

Conclusão

Diante deste cenário, a atuação do médico veterinário torna-se essencial para resolver os problemas enfrentados nas propriedades. A medicina de produção é uma ferramenta valiosa na gestão da saúde do rebanho. O exame clínico e a necrópsia de animais com sinais sugestivos de euritrematose são cruciais para um diagnóstico preciso da doença. É fundamental reconhecer que, apesar dos desafios impostos por esse parasito, estratégias de manejo eficazes estão disponíveis para eliminar os hospedeiros intermediários, abordando assim a causa subjacente da infecção. Implementar essas medidas pode significativamente mitigar o impacto da euritrematose nos rebanhos.





ALLINE GRASIELE SILVEIRA MATOS - Graduanda em Medicina Veterinária, UFMG
EMANUELLE FERNANDES GONÇALVES - Graduanda em Medicina Veterinária, UFMG
ISABELA CRISTINA SILVA CARDOSO - Graduanda em Medicina Veterinária, UFMG
JOÃO DE PAULA GONÇALVES FREIRE - Graduando em Medicina Veterinária, UFMG
LARISSA LARA CRISPIM FERNANDES - Graduanda em Medicina Veterinária, UFMG
RODRIGO MELO MENESES - Professor de Clínica de Ruminantes, UFMG


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