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Sanidade

Tire todas as dúvidas sobre a vacinação contra as clostridioses bovinas

Com a suspensão da obrigatoriedade da vacinação contra a febre aftosa em diversos estados brasileiros, as vacinas contra clostridioses devem assumir o primeiro lugar como imunógeno mais vendido para bovinos. Tire todas as dúvidas sobre a importância, a composição ideal e o melhor momento para vacinar e garanta a saúde e a produtividade do seu rebanho

Tire todas as dúvidas sobre a vacinação contra as clostridioses bovinas

Com a retirada da obrigatoriedade da vacinação contra a febre aftosa em diversos estados brasileiros, as vacinas contra clostridioses devem assumir o primeiro lugar como imunógeno mais vendido para bovinos. As clostridioses podem ser definidas como o grupo de infecções e intoxicações causadas por bactérias anaeróbias do gênero Clostridium, incluindo diversas doenças comuns na pecuária brasileira como botulismo, enterotoxemia e o carbúnculo sintomático (“manqueira” ou “mal-de-ano”). Com intuito de proteger contra as diversas clostridioses, esses imunógenos comumente são polivalentes e apresentam tanto toxóide quanto bacterina. Apesar de estarem no mercado há muitos anos, ainda existem muitas dúvidas quanto a qualidade das vacinas, o momento ideal para iniciar a vacinação e, principalmente, quanto a composição dos imunógenos. Assim, este artigo tem como objetivo revisar, de forma direta e prática, os aspectos relacionados à utilização de vacinas clostridiais em bovinos leiteiros no Brasil. Para tal, respondemos às principais perguntas que normalmente são encaminhadas por veterinários e produtores sobre esse tema.

A vacinação contra as clostridioses é realmente importante?

As bactérias do gênero Clostridium são ubiquitárias, ou seja, estão distribuídas de forma ampla no ambiente, sendo comumente encontradas no trato gastrointestinal de animais e seres humanos, no solo e na água. Dessa forma, a erradicação dos clostrídios é considerada impraticável. Ainda, apesar de haver variações na incidência das clostridioses a depender da região ou estado, pode-se dizer que essas enfermidades são endêmicas no rebanho bovino brasileiro. Com isso, a vacinação sistemática faz-se invariavelmente necessária para evitar perdas na bovinocultura.

Mesmo em rebanhos onde não há histórico de ocorrência de alguma clostridiose, o risco está sempre presente. Pode-se utilizar o botulismo como um modelo que exemplifica bem essa questão. A grande maioria das propriedades brasileiras jamais vivenciou um surto de botulismo. Porém, o fornecimento acidental de alimentos contaminados com toxina botulínica, sobretudo ração e silagem, é possível em fazendas leiteiras e pode levar a surtos de grande amplitude, com mortalidade de até 100% dos animais do rebanho.

Além do botulismo, outras doenças também podem ocorrer em forma de surtos, inclusive com casos de morte súbita, como o carbúnculo sintomático (“manqueira” ou “mal-de-ano”), a enterotoxemia e a gangrena gasosa. Dessa forma, recomenda-se sempre a vacinação sistemática contra, pelo menos, as principais clostridioses que acometem os rebanhos brasileiros. Nesse ponto, nos deparamos com mais uma pergunta: quais seriam as clostridioses mais frequentes e de maior importância para bovinos leiteiros?

RECOMENDA-SE SEMPRE A VACINAÇÃO SISTEMÁTICA CONTRA, PELO MENOS, AS PRINCIPAIS CLOSTRIDIOSES QUE ACOMETEM OS REBANHOS BRASILEIROS

Quais as clostridioses mais frequentes e de maior importância para bovinos leiteiros?

Inexistem estudos de prevalência das diferentes clostridioses no Brasil. Ainda, as doenças causadas por bactérias do gênero Clostridium não são de notificação obrigatória e, muitas vezes, são facilmente confundidas com outros quadros, sobretudo quando há ocorrência de morte súbita.

De qualquer forma, algumas clostridioses podem ser destacadas pela reconhecida alta frequência e alta letalidade (Figura 1). Nesse contexto, a vacinação contra o carbúnculo sintomático (“manqueira” ou “mal-de-ano”), doença causada por Clostridium chauvoei, recebe destaque por ser uma doença frequentemente encontrada em rebanhos não vacinados, sendo incluída como um dos antígenos criticamente importantes.

Entre as décadas de 1970 e 1990, o botulismo destacava-se pela alta prevalência. Nesse período, a maioria dos casos era causados pela osteofagia e sarcofagia secundárias à deficiência de cálcio e fósforo. Atualmente, ainda ocorrem casos ligados a deficiência mineral, porém, a maioria dos relatos são de grandes surtos em fazendas leiteiras ou de confinamento para corte, onde houve a disponibilização de alimento contaminado. Apesar de menos frequente, a doença permanece em destaque pela elevadíssima letalidade em rebanhos não vacinados, levando muitas vezes a surtos de dimensões dramáticas, o que justifica a vacinação sistemática contra as toxinas botulínicas tipos C e D.


A inclusão dos clostrídios causadores de quadros entéricos e enterotoxemias (Clostridium perfringens tipos C e D) também pode ser considerada essencial sobretudo em rebanhos sob alto risco, principalmente confinados e de alta produção.

Finalmente, fechando o grupo de antígenos prioritários, temos os cinco agentes causadores de gangrena gasosa: C. perfringens tipo A, C. sordellii, C. novyi tipo A, C. septicum e C. chauvoei. Apesar de não ser uma enfermidade frequente, justifica-se sua inclusão pela ocorrência eventual de surtos de amplitude média a grande, sobretudo associados a vacinação ou administração de medicamentos intramusculares sem a higiene devida.

Em um segundo grupo de importância, estão doenças menos frequentes no Brasil ou restritas a algumas regiões, como a hemoglobinúria bacilar e a hepatite necrótica, causadas por C. haemolyticum e C. novyi tipo B, respectivamente. O tétano, toxi-infecção causada por C. tetani, também se encontra na segunda lista graças a sua menor ocorrência em bovinos, em contraste com equinos.

Muito tem-se discutido ainda sobre a inclusão ou não de C. perfringens tipo A na vacinação sistemática de rebanhos de bovinos de leite. O agente tem sido incriminado como o possível causador do quadro conhecido como “jejuno hemorrágico”, uma enterite aguda e hemorrágica altamente letal que acomete animais com dietas ricas em concentrado. Apesar do esforço de diversos grupos de pesquisa em todo mundo, a etiologia do “jejuno hemorrágico” permanece obscura e o papel de C. perfringens tipo A no quadro nunca foi confirmado. A dificuldade reside no fato do agente ser um comensal do trato gastrointestinal dos animais e seu isolamento, mesmo que em quantidades elevadas, não apresenta associação clara com a ocorrência da doença.

Ainda, existem poucos estudos avaliando efeito da vacinação sistemática contra esse agente na ocorrência do “jejuno hemorrágico” e os resultados até o momento são conflitantes. De qualquer forma, C. perfringens tipo A também é um dos causadores de gangrena gasosa, portanto a utilização de vacinas contendo o toxóide alfa pode ser priorizada independente do seu efeito no quadro de “jejuno hemorrágico”.

Devo me preocupar com a qualidade das vacinas clostridiais?

A qualidade das vacinas clostridiais também é um tema recorrente de discussão. Enquanto alguns defendem uma possível superioridade na qualidade de vacinas importadas, outros grupos sugerem que as vacinas nacionais seriam mais adequadas e mimetizariam melhor os antígenos encontrados no campo. Ainda nesse contexto, tem crescido o número de fazendas que optam pela utilização de vacinas autógenas de forma complementar.

Estudos demonstram que os antígenos clostridiais de interesse, ou seja, aqueles que compõem as vacinas, apresentam baixíssima variação entre diferentes localidades geográficas. Ainda, essa baixa variação não chega a comprometer o desempenho vacinal. Dessa forma, a ideia de utilizar antígenos autógenos ou mesmo a preocupação com um possível melhor desempenho de vacinas importadas não se justifica. Ainda, os antígenos contra C. perfringens tipo C e D, C. chauvoei e C. botulinum são sistematicamente avaliadas pelo Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (MAPA) em todas as vacinas comerciais presentes no mercado brasileiro, importadas ou não. Dessa forma, a qualidade dos imunógenos é garantida. A exceção a essa regra são as vacinas autógenas já que a legislação não obriga a comprovação de potência desses produtos.

Nos últimos anos, surgiram boatos de que a vacinação simultânea do botulismo com as demais clostridioses comprometeria a resposta do animal à vacina como um todo. Nesse contexto, vários produtores passaram a vacinar separadamente contra botulismo na expectativa de uma melhor resposta dos animais. Na verdade, trata-se meramente de um boato. A vacinação com imunógenos polivalentes, contendo o toxóide botulínico e os demais antígenos clostridiais, apresentam respostas similares a vacinação separadamente com toxóide botulínico. Portanto, trata-se apenas de um boato e não há necessidade em utilizar esses componentes da vacina separadamente.

Ainda sobre a qualidade das vacinas, vale ressaltar a necessidade do correto armazenamento e aplicação, o que garante a qualidade. As vacinas devem ser mantidas resfriadas (entre 2° C e 8° C), de preferência em locais com controle de temperatura. O resfriamento deve ocorrer inclusive durante o transporte. A aplicação deve seguir as recomendações de bula quanto a volume e local de aplicação. Ainda, produtos fora do prazo de validade não devem ser utilizados e, uma vez iniciado o uso, as sobras dos frascos devem ser descartadas pelo risco de contaminação.

Quando vacinar e quantas doses aplicar?

A primeira dose da vacinação contra as clostridioses deve ocorrer em bezerros com 90 a 120 dias de idade. Nesse momento, a imunidade passiva adquirida via colostro encontra-se baixa e não deve interferir no estímulo vacinal. Ao mesmo tempo, o animal já possui uma maturidade imunológica suficiente para responder de forma adequada ao imunógeno. Não é incomum, porém, encontrar rebanhos que iniciam o protocolo vacinal em animais com idade inferior, comumente entre 60 e 90 dias de vida. Quanto mais novo o bezerro, maior o risco de interferência da imunidade materna na vacinação, o que pode levar a uma resposta menos adequada, ou seja, de menor amplitude e menos duradoura. Dessa forma, a tentativa de antecipar a vacinação pode levar justamente no comprometimento da proteção desse animal. Vale ressaltar ainda que a vacinação de bezerros com idade inferior a 30 dias é fortemente desaconselhada já que, além da potencial interferência da imunidade passiva, a resposta imunológica de animais nessa idade é bastante inferior pela imaturidade do sistema imune.

A PRIMEIRA DOSE DA VACINAÇÃO CONTRA AS CLOSTRIDIOSES DEVE OCORRER EM BEZERROS COM 90 A 120 DIAS DE IDADE


Recomenda-se a aplicação de duas doses a partir dos 90 dias de vida, intervaladas de 21 a 30 dias. Nesse período, a imunidade passiva já encontra-se em níveis aceitáveis e não deve interferir no estabelecimento da imunidade ativa. Já a revacinação pode ser anual (no período seco) ou semestral em casos de desafios reconhecidamente maiores.

Como as vacinas contra as clostridioses são inativadas (“vacinas mortas”) elas não induzem uma resposta duradoura sem o reforço vacinal, também conhecido como booster. De forma geral, a administração de apenas uma dose permite apenas uma baixa e fugaz produção de anticorpos, o que de fato não protegeria os animais contra um eventual desafio. Esse fato foi comprovado tanto por diversos estudos científicos, mas também pela ocorrência de surtos em rebanhos que haviam recebido apenas uma dose do imunógeno. Dessa forma, faz-se essencial a aplicação de uma segunda dose entre 21 e 30 dias após a primovacinação.

Ainda com relação a primovacinação, trabalho recente demonstrou que a resposta às vacinas contra as clostridioses é fortemente comprometida quando realizada simultaneamente com a vacinação contra brucelose (Figura 3). Esse comprometimento ocorre provavelmente pela resposta requerida por cada um desses imunógenos: enquanto a vacina contra as bactérias do gênero Clostridium induz uma resposta humoral com produção de anticorpos, as vacinas B19 ou RB51, contra brucelose, induzem uma forte resposta celular. Essa “disputa” imunológica leva então a um comprometimento da resposta à vacina inativada, visto por um menor título de anticorpos contra os clostrídios testados. Apesar do estudo se restringir a vacina contra as clostridioses, acredita-se que esse efeito possa ser mais amplo. Dessa forma, a vacinação contra brucelose deve ser feita de forma isolada, nunca em conjunto com outros imunógenos.

Além do reforço, a revacinação também se faz necessária. Até alguns anos atrás, acreditava-se que a revacinação anual era suficiente para a manutenção de altos títulos de anticorpos em bovinos. Essa ainda permanece a recomendação mais comum na bula da maioria das vacinas comerciais. Porém, essa informação foi contestada em estudos recentes. Os trabalhos demonstraram que a grande maioria dos animais apresenta redução gradual dos títulos de anticorpos, chegando a níveis não detectáveis em até 180 dias (Figura 4). Com isso, acredita-se que revacinação anual pode ser suficiente em situações de desafio baixo, porém em rebanhos com histórico de ocorrência de alguma clostridiose ou mesmo em situações onde fatores de risco relevantes estão presentes, a revacinação semestral seria mais indicada.

  RECOMENDA-SE A APLICAÇÃO DE DUAS DOSES A PARTIR DOS 90 DIAS DE VIDA, INTERVALADAS DE 21 A 30 DIAS. NESSE PERÍODO, A IMUNIDADE PASSIVA JÁ ENCONTRA-SE EM NÍVEIS ACEITÁVEIS E NÃO DEVE INTERFERIR NO ESTABELECIMENTO DA IMUNIDADE ATIVA. JÁ A REVACINAÇÃO PODE SER ANUAL (NO PERÍODO SECO) OU SEMESTRAL EM CASOS DE DESAFIOS RECONHECIDAMENTE MAIORES 



Considerações Finais

As clostridioses são doenças de erradicação impraticável e, por isso, a vacinação sistemática dos rebanhos é essencial para o controle, mesmo em propriedades sem histórico dessas enfermidades. Porém, a imunização vai além da simples aplicação da vacina. Devemos nos atentar a detalhes que fazem muita diferença na resposta dos animais, sobretudo a idade da primovacinação, a necessidade de reforço e de revacinação periódica, assim como a composição vacinal e as possíveis interações com outras vacinas do mercado. Só assim podemos garantir o sucesso do protocolo vacinal, um dos pilares principais do controle das clostridioses.

Agradecimentos

Os autores agradecem ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) pelas bolsas de estudo e à Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG), processo RED-00132-22, pelo apoio financeiro.




Rodrigo Otávio Silveira Silva - Professor Adjunto do Departamento de Medicina Veterinária Preventiva da Escola de Veterinária da UFMG
Thayanne Gabryelle Viana de Souza - Doutoranda em Ciência Animal na Escola de Veterinária da UFMG
Yasmin Gonçalves de Castro - Mestranda em Ciência Animal na Escola de Veterinária da UFMG
José Azael Zambrano Uribe - Zambrano Consultoria
Francisco Carlos Faria Lobato - Professor Titular do Departamento de Medicina Veterinária Preventiva da Escola de Veterinária da UFMG


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