ABCBRH avança na construção do genoma nacional da raça Holandesa
Enquanto consolida os números que fazem dela a guardiã de um dos maiores bancos de dados da raça no mundo, a Associação Brasileira dos Criadores de Bovinos da Raça Holandesa trabalha para construir um genoma nacional, capaz de avaliar o rebanho nas condições de clima, manejo e nutrição do Brasil
Durante décadas, o produtor brasileiro que quis melhorar seu rebanho da raça Holandesa olhou para fora. A referência genômica vinha dos Estados Unidos, do Canadá, dos países da Europa; mercados que consolidaram, por gerações, os índices que orientam a seleção dos melhores animais.
Contudo, a Associação Brasileira dos Criadores de Bovinos da Raça Holandesa (ABCBRH) quer mudar esse ponto de partida. E, segundo seu presidente, Armando Rabbers, a mudança já está em curso:
“O GENOMA NACIONAL ESTÁ CADA VEZ MAIS CONSISTENTE. EM 2027, O TEREMOS COM AS CARACTERÍSTICAS TRADICIONAIS JÁ UTILIZADAS. ESTAMOS SEMPRE EM BUSCA DE AVANÇOS, DA INCLUSÃO DE NOVAS CARACTERÍSTICAS, MAS JÁ É O INÍCIO PARA UMA CONSTRUÇÃO SÓLIDA PARA A RAÇA HOLANDESA NO BRASIL”
A base desse avanço, explica Armando, é o trabalho que os próprios produtores fazem no dia a dia: registro, controle leiteiro, genotipagem, classificação. “De posse dessas informações, conseguimos ter um banco de dados para construirmos o nosso genoma, na nossa base, no nosso clima, no nosso país. Isso vai fortalecer a nossa raça aqui e dar ainda mais valor a ela.”
Uma liderança construída na pecuária leiteira
Antes de assumir a presidência da ABCBRH, Armando já ocupava um lugar de referência no setor leiteiro, especialmente pela ousadia de suas escolhas. Filho de produtores e herdeiro de uma história familiar ligada ao setor, transformou radicalmente o rumo da propriedade ARM Genética ao apostar, em 2010, na pecuária leiteira como atividade principal. Dois anos depois, tornava-se o primeiro produtor da América Latina a implantar um sistema de ordenha robotizada.
À frente da entidade nacional – cargo que acumula com a vice-presidência da Associação Paranaense dos Criadores de Bovinos da Raça Holandesa (APCBRH) –, Armando imprime uma marca clara à sua gestão: a de quem valoriza tanto a tecnologia quanto o diálogo.
“Gosto de buscar desafios e de construir união entre as partes”, afirma. Para ele, conduzir a associação é, antes de tudo, exercer a escuta de quem está na base da cadeia e devolver, com ações concretas, o reconhecimento pela confiança recebida.

Armando Rabbers, presidente da ABCBRH: escuta ativa e base técnica a serviço de um genoma nacional da raça Holandesa
Um legado de mais de 90 anos
Fundada há mais de nove décadas, a ABCBRH carrega a responsabilidade de ter moldado, ao longo dos anos, os rumos do melhoramento genético de uma das raças mais importantes para a pecuária leiteira nacional. Desde os primeiros registros da raça no país, a associação tem sido guardiã de uma base de dados que hoje se equipara às maiores do mundo em volume e confi abilidade. Esses dados – que englobam registro, controle leiteiro, classificação dos animais e avaliações genéticas – permitiram que o Brasil entrasse na era genômica.
Armando faz questão de reconhecer o papel de quem veio antes. “Tenho certeza de que os primeiros criadores enfrentaram desafios muito maiores. Se hoje temos um banco genético forte, é mérito da visão deles. Sabiam que era preciso documentar, registrar, classificar. E deixaram para nós esse patrimônio técnico e histórico”, afirma. Para ele, a longevidade da entidade é, ao mesmo tempo, mérito institucional e simbólico. Representa a persistência de famílias que, geração após geração, acreditaram no potencial da raça.
As ferramentas que não podem se perder
Para Armando, o entusiasmo com a genômica não pode fazer o setor abandonar o trabalho que sustenta toda a cadeia de dados: o registro, o controle leiteiro e a classifi cação. É uma preocupação que ele descreve como internacional. “Se nós perdermos essas informações, a raça Holandesa fica sem essa referência. E um banco de dados que não reflete mais o rebanho acaba perdendo o seu valor”, alerta.
A tecnologia de genotipagem não substitui o acompanhamento de campo. As duas ferramentas se complementam. “As duas são muito positivas para o melhoramento genético. O genoma sozinho, ou só a classificação, ou só controle leiteiro, não trazem o mesmo resultado. A tecnologia está sempre a favor, mas junto com o relacionamento entre os produtores e a associação, que é a nossa fortaleza”, pondera Armando.
Ele acrescenta um alerta técnico: genética de ponta só se traduz em produção quando há estrutura para isso. “Se não tiver instalações, manejo e alimentação para esse animal produzir, o que está na genética não vai corresponder”, observa. Por isso ele defende a importância de os produtores manterem o trabalho conjunto com a associação, as filiadas e os núcleos. Porque, quanto mais criadores realizarem esses serviços, mais robusto ficará o banco de dados que embasa o avanço da raça.
O que a raça ainda busca
Se a produtividade da raça Holandesa no Brasil já rivaliza com os dados que vêm de fora do país, os objetivos de seleção, segundo Armando, miram agora outras características. “Temos produtores que já produzem igual ou até melhor do que lá fora. Mas precisamos continuar buscando longevidade, qualidade do leite em sólidos, saúde do úbere, saúde de pernas e cascos”, enumera. O espelho, diz, é a Europa, onde os rebanhos alcançam maior longevidade.
“TENHO CERTEZA DE QUE OS PRIMEIROS CRIADORES ENFRENTARAM DESAFIOS MUITO MAIORES. SE HOJE TEMOS UM BANCO GENÉTICO FORTE, É MÉRITO DA VISÃO DELES. SABIAM QUE ERA PRECISO DOCUMENTAR, REGISTRAR, CLASSIFICAR. E DEIXARAM PARA NÓS ESSE PATRIMÔNIO TÉCNICO E HISTÓRICO”
Longevidade, para Armando, significa mais qualidade de vida para o animal e melhor qualidade do leite para o consumidor. E é também uma característica na qual ele acredita haver mais espaço para crescer. “Para mim, a produtividade da raça Holandesa ainda tem a crescer por animal. Tem quem esteja falando que, em 2050, teremos produtores com média de 70 litros. Falta pouco para isso. Hoje, 50 litros já não é tão incomum”, projeta.
De norte a sul, uma raça que se adapta
Um dos pontos que Armando faz questão de ressaltar é a amplitude geográfica da raça no país. A Holandesa vai bem em contextos de clima, nutrição e manejo radicalmente diferentes; às vezes até num mesmo estado. “O Rio Grande do Sul tem produtores na Serra Gaúcha e no noroeste, que são climas totalmente diferentes. Nos Pampas, é outro clima ainda. E mesmo no nordeste e no sudoeste do país temos produtores com números fantásticos”, exemplifi ca. Para ele, essa capacidade de se adaptar a uma extensão continental é uma das forças da raça no Brasil.
A representação dessa diversidade se dá pela estrutura federativa da associação: núcleos e fi liadas presentes em oito estados – Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Espírito Santo e Pernambuco – fazem a ponte diária com o produtor, respeitando as particularidades regionais sem perder de vista os parâmetros da entidade nacional.

O circuito que mede a raça no Brasil inteiro
Entre os motivos de orgulho, Armando destaca o Circuito Nacional da Raça Holandesa (CNRH). Em 2025, foram 16 exposições homologadas (12 integraram o circuito), 1.732 animais julgados e 276 expositores. Estaduais e regionais, as exposições são realizadas no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina, no Paraná e em Minas Gerais, e é nelas que se selecionam as campeãs e as reservadas que vão disputar a etapa nacional. Os resultados, com as melhores fêmeas de cada categoria, saem no ano seguinte, geralmente no início de março.
O formato ganhou uma novidade: a participação virtual. Em um país de vastas extensões, isso amplia o alcance. “Nem sempre o produtor consegue levar seus animais para exposições mais distantes. Nesse formato, o circuito permite uma participação muito mais ampla, reunindo rebanhos de diversas regiões e mostrando, de forma representativa, como está o melhoramento genético da raça Holandesa em todo o Brasil”, explica Armando. É assim que a associação atua e divulga o retrato da raça Holandesa em todo o país.

O Agroleite como casa viva
O Agroleite se tornou, para a associação, um espaço permanente. Armando descreve a casa da ABCBRH no parque como um lugar vivo, que funciona o ano todo, com movimento de colaboradores e treinamentos de empresas parceiras.
No balanço que faz da raça, Armando volta ao mesmo par de ideias: tecnologia e união. “Quanto mais conforto e melhoramento genético, e quanto melhor a tecnologia que a gente usa, mais isso favorece nossa cadeia produtiva, trazendo, claro, resultados em termos de produtividade”, resume. Mas nada disso se sustenta sem o vínculo entre quem cria, quem seleciona e quem transforma dados em progresso, insiste Armando. E destaca um dos grandes objetivos da Associação: o Projeto Genoma Nacional. Afi nal, isso só se constrói com a base de dados alimentada diariamente por milhares de produtores espalhados por todo o país.

Autor
Adriana Vieira Ferreira
EDITORA EXECUTIVA
Economista, DSc. em Economia Rural
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