Ambiência em rebanhos leiteiros: Como manejar o estresse calórico
Texto: Neto Carvalho
As características dos bovinos das raças europeias determinam maior sensibilidade aos efeitos de elevadas temperaturas ambientais. A expressão plena do seu potencial genético será comprometida caso não se adote um manejo ambiental que proteja os animais de elevadas cargas térmicas radiantes e altos índices de umidade relativa do ar. Práticas de alteração do ambiente, como fornecimento de sombra e climatização das áreas de descanso e de alimentação têm grande impacto na redução dos efeitos negativos do estresse calórico sobre o desempenho de vacas leiteiras.
Introdução
Vacas leiteiras sob estresse calórico apresentam maior exigência de mantença devido à maior taxa respiratória para dissipação do calor, ao mesmo tempo em que o consumo de MS e, por conseqüência, o consumo de energia e de proteína são diminuídos. A elevada taxa respiratória resulta em alcalose sanguínea, com perda de bicarbonato via urina, perda de Na e de K no suor e, consequente, menor capacidade de tamponamento ruminal.
Práticas de alteração do ambiente, como fornecimento de sombra e climatização das áreas de descanso e de alimentação têm grande impacto na redução dos efeitos negativos do estresse calórico sobre o desempenho de vacas leiteiras. Entretanto, além das medidas de alteração no ambiente, práticas de manejo nutricional, mais especificamente, de alterações na formulação das rações e qualidade de volumoso, também podem contribuir para reduzir o impacto negativo do estresse calórico no desempenho de vacas leiteiras. Nesse artigo vamos nos ater apenas ao manejo ambiental.
Zona de Conforto Térmico
A zona de conforto térmico, ou zona de termoneutralidade (Fig. 1), é determinada pela faixa de temperatura efetiva ambiental, na qual o animal mantém constante sua temperatura corporal entre 38,6 a 39,3ºC, com mínimo esforço dos mecanismos termorregulatórios (Fig. 2).


De acordo com dados de pesquisa, a faixa de termoneutralidade para vacas holandesas em lactação, em função da umidade relativa do ar e radiação solar, poderia ser restringida entre 7 a 21 oC. Recentemente, esta faixa de termoneutralidade foi revista pela universidade do Arizona, e acredita-se que esteja entre 6 e 16°C, face à alta produtividade que os animais apresentam hoje em dia. Diante disso, podemos afirmar que o rebanho brasileiro passa a maior parte do ano, se não todo o ano, em stress calórico.
Quando a temperatura do ambiente se encontra acima da zona térmica ótima (> TCI Fig. 1), o animal aciona seus mecanismos termolíticos, como a vasodilatação periférica, dissipando o calor, principalmente por radiação e convecção. À medida que a temperatura se eleva e ultrapassa a TCS (Fig. 1), o centro termorregulador, sediado no hipotálamo, dá início à termólise, especialmente por via evaporativa, intensificando a sudação que, por sua vez, é complementada com o aumento na evaporação respiratória por meio do ofego. Se esses mecanismos não forem suficientes para perda do calor, não havendo restabelecimento do equilíbrio térmico, a temperatura do corpo começará a se elevar, e inicia-se a redução nas atividades da tireóide, com queda na ingestão de alimentos (10 a 20%) , alterações comportamentais como procura por sombra e modificações na postura, e queda na performance produtiva e reprodutiva .
Estratégias para minimizar o stress calórico
Podemos incluir sombras, ventilação e resfriamento evaporativo como os métodos de modificação do ambiente mais utilizados para aumentar as perdas de calor e melhorar o desempenho. Devendo a sombra ser o primeiro recurso para minimizar o stress calórico, a ventilação natural e artificial deve ser otimizada nas instalações para vacas leiteiras, como o segundo mais importante recurso de conforto, em função da grande quantidade de calor que pode ser passada do animal para o ar e também pela importância dessa via como facilitadora da evaporação.
Sombra Natural
A sombra é o método mais simples para reduzir o impacto da radiação solar, podendo ser natural ou artificial. As sombras das árvores são mais eficientes, já que não diminuem apenas a incidência da radiação solar, mas também a temperatura do ar abaixo delas, quando comparadas com as sombras artificiais (ver foto no início da matéria).
Sombra Artificial
Quando não se dispõe de sombra natural suficiente, o uso de estruturas artificiais, móveis ou fixas, deve ser adotado. As características mais importantes para o desenho dessas estruturas são os materiais utilizados, a altura, a orientação e a disponibilidade de espaço por animal.
Ventilação
O movimento do ar é um fator importante na diminuição do estresse térmico, já que favorece as perdas de calor por convecção e, dependendo da umidade do ar, as perdas por evaporação. Portanto, a ventilação, quando disposta de maneira adequada (número, capacidade e posição dos ventiladores), pode promover melhorias nas condições termo higrométricas das instalações, se tornando um método efetivo no aumento das perdas de calor, além da dispersão de gases.
A velocidade da ventilação indica valores entre 2,5 a 3 m/s como sendo ideais para vacas holandesas em confinamento.
Resfriamento Evaporativo
O resfriamento evaporativo pode ser obtido por meio de sistema de nebulização e aspersão associados à ventilação.
O princípio dos nebulizadores consiste em criar finíssimas gotas d`água que gerem uma neblina que deve evaporar antes de chegar na superfície do animal . Esse método proporciona um resfriamento do ar favorecendo as perdas de calor por convecção.
É importante ressaltar que, se não houver no sistema evaporativo uma circulação de ar adequada, o mesmo pode resultar em alta umidade, levando a problemas de saúde no rebanho.
A aspersão não tem por finalidade resfriar o ar, pois emprega gotas com tamanho maior.
Os aspersores fazem com que a água penetre e umedeça completamente o pêlo e a epiderme do animal, de forma que os mesmos sejam resfriados e percam calor por condução e por evaporação da água. A eficiência desta via de perda de calor depende da diferença do conteúdo de água entre a superfície evaporada e o ar, por isso, se faz necessário a remoção constante do ar, por meio de ventiladores, para evitar a saturação e o frear do processo.
Um estudo realizado por J.F. Smith, na Universidade do Kansas mostrou o impacto da associação da água e ventilação em diferentes intervalos de acionamento para avaliação da taxa respiratória das vacas, já que este é o primeiro sintoma de stress calórico.
Nesse estudo, observou-se que com a utilização de aspersores em intervalos de 5 minutos, mais ventilação suplementar constante, obteve-se maior redução na taxa respiratória, ao redor de 50%, se comparada com animais submetidos ao tratamento sem aspersores e sem ventiladores.
Este mesmo autor, J.F. Smith, vem desenvolvendo projetos de ambiência, trabalhando com galpões em sistema de ventilação cruzada, alcançando reduções de até 10ºC por resfriamento do ar por meio de painéis evaporativos associados à ventilação constante. Com isso, outros benefícios têm sido alcançados, como incremento na produção de leite, aumento na eficiência alimentar, melhora na performance reprodutiva , redução de laminites, e aumento do bem estar dos animais, que justificam o investimento.


Considerações Finais
As características dos bovinos das raças europeias determinam maior sensibilidade aos efeitos de elevadas temperaturas radiantes. A expressão plena do seu potencial genético será comprometida caso não se planifique um manejo ambiental que proteja os animais de elevadas cargas térmicas radiantes e altos índices termo higrométricos.
O incremento do conforto térmico dos bovinos leiteiros, na pastagem e nos estábulos, por meio de arborização e sistemas de ventilação natural ou artificial, deve ser um objetivo na produção de leite.
Ao planejar construções para vacas leiteiras em regiões de clima quente, devem ser observadas as condições micro climáticas prevalentes na propriedade e na área destinada às mesmas, de forma a favorecer a ventilação natural, a renovação do ar dentro dos galpões, o sombreamento dos animais, bem como a manutenção de pisos secos e livres de fontes de infecção. Merece destaque, ainda no projeto, os materiais construtivos e as áreas do entorno das edificações.
Os equipamentos a serem utilizados, como ventiladores, aspersores e nebulizadores, devem ser corretamente dimensionados e posicionados, visando à sua máxima eficácia e mínimo desperdício, de água ou energia.
A produção leiteira só é sustentável, ética e viável, quando bem planejada, não necessariamente com alta tecnologia, mas sempre garantindo as necessidades dos animais, do ambiente e das pessoas envolvidas no processo produtivo, buscando produtos seguros e de alta qualidade.
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