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Como avaliar o estresse térmico?

Como avaliar o estresse térmico?

Texto: Wagner Mitsuo Nagao de Abreu

As vacas leiteiras são extremamente susceptíveis ao estresse térmico, o qual gera prejuízos que vão além das perdas em produção e reprodução. Reconhecer que o problema existe e saber avalia-lo é extremamente importante. Neste artigo, conheça algumas formas para identificar e aferir o estrese térmico dentro da fazenda.

 

As vacas leiteiras são extremamente susceptíveis ao estresse térmico, pois seu mecanismo de dissipação de calor não está entre os mais eficientes entre as espécies de mamíferos domésticos (Gráfico 1). Os seres humanos têm a sua zona de conforto em temperaturas mais altas que as vacas leiteiras, muito embora haja diferenças na percepção individual, bem como entre sexos. Basta fazer um pequeno inquérito em qualquer escritório que tenha um ar condicionado para perceber que a maioria das pessoas não consegue chegar a um acordo sobre qual a temperatura ideal que ele deve funcionar. Portanto, basear o raciocínio se as vacas estão ou não passando calor unicamente na nossa sensação térmica não é uma boa escolha. A maneira mais eficiente ainda é usando o bom e velho termômetro. Outro fator que afeta grandemente a capacidade das vacas em lidar com o calor do ambiente é a umidade relativa do ar. Quanto maior a umidade relativa do ar, menor a capacidade das vacas trocarem calor com o meio, portanto acabam mais “estressadas”.

Na tabela 1 temos o THI (índice temperatura umidade). Esta tabela traz a correlação entre a temperatura ambiente e a umidade relativa do ar e várias faixas de conforto. Somente a título de curiosidade, os seres humanos entram em estresse térmico quando o THI ultrapassa 80. O valor de THI aceito mundialmente como limite para a zona de conforto de vacas leiteiras é 72. Porém, hoje se sabe que esse valor pode variar de acordo com a produção de leite ou com o status fisiológico do animal. Para vacas que produzem acima de 35 litros de leite por dia, o THI cai para 68, e que valores acima de 65 são capazes de afetar negativamente a capacidade desses animais em emprenhar. Baseado nesta tabela, podemos ver que a 22°C e com uma umidade de 100% as vacas já estão em estresse térmico, enquanto no outro extremo, quando a umidade relativa do ar estiver ao redor de 20%, basta uma temperatura de 28,5°C para entrarmos na zona de estresse térmico.

 

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É muito comum escutarmos produtores de leite dizendo: “aqui não faz calor”, ou “as minhas vacas não sofrem com isso”. Entretanto, basta dar uma olhada em alguns números da fazenda para acessarmos a realidade. Um deles é comparar a média de produção entre o verão e o inverno. Se a diferença for maior que 10%, há estresse térmico. Se a queda no consumo de matéria seca for maior que 10%, há estresse térmico. Se a reprodução for pior no verão, há estresse térmico.

 

Identificando o problema

Para provar para os mais incrédulos que o estresse térmico existe e que ele pode trazer grandes prejuízos para a atividade, foram utilizados termômetros intravaginais e ambientais que medem a temperatura corporal e do local onde as vacas ficam a cada 5 minutos. Desta maneira, podemos correlacionar as condições do meio ambiente com a temperatura das vacas. A seguir serão apresentados alguns exemplos deste trabalho (Gráficos Fazendas 1 a 4: no eixo vertical da esquerda lê-se a temperatura corporal das vacas e o limite de temperatura corporal, que é de 39,1°C. No eixo vertical da direita lê-se a temperatura ambiente. No eixo horizontal lê-se as horas do dia).

Fazenda 1: fazenda com 3 ordenhas por dia e sistema de resfriamento somente na sala de espera. Produção média do lote estudado de 40 litros/vaca/dia. O free stall no qual as vacas ficam alojadas tem um pé direito de 3,5 metros de altura, telhado com pouca inclinação e não há abertura na cumeeira, o que dificulta a circulação de ar. A temperatura dentro do barracão variou de 15,5°C a 47,8°C. A ordenha das 13 horas contribuiu com a acentuação do estresse térmico através da movimentação dos animais e da aglomeração na sala de espera. A temperatura corporal das vacas variou de acordo com a temperatura ambiente. O fato de ter feito frio a noite não ajudou a diminuir o estresse térmico durante o dia. As vacas só saíram do estresse térmico após a meia noite em todos os dias avaliados.

Fazenda 2: fazenda com 3 ordenhas, com sistema de resfriamento na sala de espera e somente ventiladores no barracão. Produção média do lote estudado de 51 litros/vaca/dia e dias em lactação médio de 83 dias. A temperatura do barracão variou de 17,2°C a 35,0°C. As vacas desta fazenda, durante o período estudado, passaram mais de 90% do tempo com estresse térmico. Este lote, passando tanto tempo sob os efeitos dos estresse térmico, terá resultados reprodutivos aquém do esperado. A pergunta que fica é: quanto de leite estas vacas poderiam produzir se não estivessem sob os efeitos negativos do estresse térmico?

Fazenda 3: fazenda com 3 ordenhas diárias, sem sistema de resfriamento. Produção média do lote estudado de 38 litros/vaca/dia. Temperatura ambiente mínima 18,66°C e máxima 28,96°C. Como a fazenda não tem sistema de resfriamento, mesmo com temperatura ambiental “relativamente baixa”, as vacas passaram a maior parte do tempo em estresse térmico. Mesmo em regiões que não têm um “verão tão forte” ou em épocas do ano de temperaturas mais amenas, ainda se faz necessário o uso de métodos de combate ao estresse térmico.

Fazenda 4: fazenda com 3 ordenhas diárias, com sistema de resfriamento na sala de espera e as vacas são levadas para banhos de meia hora de duração entre as ordenhas. Produção média do lote estudado de 45 litros/vaca/dia. Temperatura ambiental mínima de 12,8°C e máxima de 24,5°C. Mesmo com temperaturas “de inverno”, em 3 momentos as vacas entraram em estresse térmico e em vários outros momentos chegaram bem perto. Isto demonstra a necessidade de se ter instalado e funcionando um bom sistema de resfriamento.

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Outros formas de aferição

Estes trabalhos realizados com termômetros intravaginais, apesar de fornecerem informações bem completas sobre o que está acontecendo com as vacas, são demorados, têm um alto custo (cada termômetro custa 150 dólares e são necessários no mínimo 8 deles em cada local estudado) e, como são de uso intravaginal, só utilizamos em animais prenhes, para não interferir com os protocolos reprodutivos da fazenda. Porém, há duas alternativas bem simples e baratas que qualquer produtor pode colocar em prática na sua propriedade, independente do número de vacas em lactação ou do sistema de exploração utilizado (free stall, compost barn, semi-confinado ou a pasto).

Basta um termômetro de mercúrio ou digital, aquele mesmo usado para aferir a temperatura de animais ou um cronômetro. Se for usar um termômetro, basta escolher 20% dos animais (para rebanhos acima de 50 animais em lactação, ou todas as vacas para rebanhos pequenos), de preferência os de maior produção leiteira (são mais susceptíveis ao estresse térmico) e medir e anotar a temperatura corporal das vacas 3 vezes por dia: no início da manhã, logo após o almoço e no final da tarde, de preferência após as 18 horas. Se pelo menos um terço dos animais estiver com temperatura corporal acima de 39,1°C, a fazenda está enfrentando um problema de estresse térmico e com certeza a produção de leite e a reprodução estarão prejudicados.

A outra maneira de se fazer essa aferição é através da medição da frequência respiratória. Os bovinos respiram em média 40 vezes por minuto e há uma correlação muito estreita entre a frequência respiratória e a temperatura corporal. Quanto maior a temperatura corporal, maior a frequência respiratória (Gráfico 2). Isso se dá porque um dos principais mecanismos que os bovinos usam (principalmente as raças europeias, mas não somente limitadas a elas, os zebuínos também utilizam esta estratégia) é aumentar a frequência respiratória para aumentar a dissipação de calor. Toda vez que uma vaca estiver com uma frequência respiratória maior que 60 movimentos por minuto ela estará com estresse térmico (fazer diagnóstico diferencial com patologias respiratórias). Utiliza-se o mesmo processo de amostragem e anotação de dados explicados acima para o uso dos termômetros.

 

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Como dizia o poeta: “Vivemos em um país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza.” Infelizmente, esse mesmo clima tropical que torna as praias brasileiras o destino de milhões de turistas do mundo todo é o mesmo país tropical que tem um verão inclemente para a pecuária leiteira. Se o objetivo for continuar a evoluir na pecuária leiteira, procurando produções acima dos 10 mil quilos de leite por vaca por ano, altas produções de gordura e proteína, intervalos entre partos cada vez mais curtos, baixos índices de doenças e maior longevidade, temos que começar a encarar o problema de frente. O estresse térmico é, provavelmente, o maior vilão da nossa atividade e, enquanto continuarmos fazendo de conta que isso é história da carochinha, ou que com meio sistema de resfriamento o problema está solucionado, vamos continuar nadando e morrendo na praia.

 

*Nota do autor: “em 2014 tive a oportunidade de guiar um grupo de 24 veterinários, zootecnistas e produtores de leite em uma série de visitas a propriedades produtoras de leite no Estado do Wisconsin, EUA. Na divisa com o Canadá, Wisconsin é um dos estados mais frios de lá. Nos 3 dias de visita, a temperatura ambiente estava por volta dos 12°C a 15°C e em todas as fazendas os sistemas de resfriamento estavam funcionando (aspersão sobre linha de cocho e ventiladores sobre as camas). Quando questionados o porquê disto, todos os proprietários foram unânimes: “não queremos resfriar as vacas, queremos evitar que elas esquentem e vacas sem estresse térmico produzem muito mais leite.”

 

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