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Como resultados climáticos vêm sendo medidos e interpretados no setor?

Alegações climáticas só ganham força quando medir, reportar e verificar caminham lado a lado com dados consistentes, fronteiras claras e transparência metodológica

Como resultados climáticos vêm sendo medidos e interpretados no setor?

Na coluna Sustentabilidade Integral, temos usado a música como ponto de partida para aproximar temas técnicos da vida cotidiana no campo. Para além da referência cultural, é uma forma de criar pontes: entre ciência e sensibilidade, entre dados e decisões, entre conceitos globais e a realidade das fazendas leiteiras.

Desta vez, a inspiração vem de “É preciso saber viver”, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos. A canção atravessou gerações porque traduz, de forma simples, uma ideia profunda: viver exige escolha, atenção e responsabilidade diante dos caminhos possíveis. Na sustentabilidade, especialmente quando falamos de clima, talvez seja preciso adaptar esse conselho: é preciso saber medir.

Na pecuária leiteira, essa diferença importa cada vez mais. Termos como “baixo carbono”, “carbono neutro”, “crédito de carbono” e “carbono negativo” ganharam espaço no mercado, nos relatórios e nas estratégias de diferenciação. Por trás de cada uma dessas afirmações, é preciso haver mensurações realizadas criteriosamente.

Essas mensurações têm início nos dados, na metodologia, na separação entre emissões e remoções, na análise das incertezas e na capacidade de explicar, com transparência, o que foi medido, o que foi estimado e o que ficou fora do cálculo. Antes de falar em carbono negativo, é preciso saber medir.

Quando a sustentabilidade vira afirmação pública

Nos últimos anos, a sustentabilidade deixou de ser apenas diretriz interna de gestão e passou a ocupar um lugar central na comunicação das empresas. Na agropecuária, isso aparece em embalagens, relatórios, programas de fornecedores, projetos de certifi cação, campanhas institucionais e estratégias comerciais.

Esse movimento é positivo. Ele mostra que a produção de alimentos está sendo chamada a demonstrar, com mais clareza, seus impactos, suas práticas e seus caminhos de melhoria. No caso da pecuária leiteira, essa cobrança é ainda mais relevante porque a produção de matéria-prima, no caso o leite cru, na fazenda, é uma etapa decisiva da pegada ambiental dos produtos lácteos, envolvendo emissões associadas a animais, dejetos, fertilizantes, alimentação animal e uso de energia e combustíveis.

É importante destacar a diferença entre dizer que uma fazenda adota boas práticas e afirmar que um produto lácteo é “baixo carbono”, “carbono neutro” ou “carbono negativo”. A primeira afirmação está ligada ao manejo, à efi ciência, ao bem-estar animal, à conservação de recursos e ao engajamento com práticas sustentáveis. A segunda entra no campo das alegações climáticas, muitas vezes chamadas no mercado de claims climáticos, ou alegações climáticas.

Os claims são alegações ambientais usadas para comunicar o desempenho climático de um produto, fazenda, empresa ou cadeia. Quando bem construídos, ajudam a dar visibilidade a avanços reais. Quando frágeis, podem gerar desconfiança, confusão e risco reputacional. 

Por isso, antes de comunicar um atributo climático, é preciso responder a uma pergunta simples: a conta sustenta a afirmação?

A reflexão que inspirou este artigo 

Esta coluna nasceu de uma reflexão recente sobre como resultados climáticos vêm sendo medidos, interpretados e comunicados em cadeias agroalimentares. O debate foi despertado por uma análise publicada por Takayoshi Yamagiwa no LinkedIn, que discutiu a importância da contabilidade de gases de efeito estufa, do GHG Protocol e do MRV na avaliação de alegações climáticas.

MRV é a sigla em inglês de measurement, reporting and verification, ou mensuração, relato e verificação. Em termos simples, trata-se do conjunto de processos usados para medir emissões e remoções, comunicar os resultados com transparência e verifi car a consistência das informações.

O caso que motivou a reflexão não é o foco deste texto. Ele serve aqui como ponto de partida para uma discussão mais ampla e diretamente conectada ao leite: o que uma cadeia produtiva precisa demonstrar antes de usar expressões climáticas fortes?

Essa pergunta importa porque o agro tem papel real na agenda climática. Sistemas produtivos bem manejados podem reduzir emissões de gases de efeito estufa, aumentar a eficiência produtiva, otimizar o uso de recursos, conservar áreas e, em alguns contextos, contribuir para remoções de CO2 da atmosfera. No entanto, transformar esse potencial em uma alegação pública exige método.

Na sustentabilidade, boas intenções ajudam a abrir caminhos. Mas o que sustenta uma afirmação climática é a contabilidade.

O alerta que vem dos relatórios de sustentabilidade 

Um estudo publicado em 2026 na revista PLOS Climate analisou 1.233 alegações ambientais feitas por 33 das maiores empresas globais de carne e laticínios, a partir de relatórios de sustentabilidade e websites publicados entre 2021 e 2024. O levantamento mostrou que 68% dessas alegações estavam relacionadas ao clima, confirmando que a agenda climática se tornou um importante foco de comunicação do setor.

SISTEMAS PRODUTIVOS BEM MANEJADOS PODEM REDUZIR EMISSÕES DE GASES DE EFEITO ESTUFA, AUMENTAR A EFICIÊNCIA PRODUTIVA, OTIMIZAR O USO DE RECURSOS, CONSERVAR ÁREAS E, EM ALGUNS CONTEXTOS, CONTRIBUIR PARA REMOÇÕES DE CO2 DA ATMOSFERA

Ao mesmo tempo, os resultados acendem um sinal de alerta. Apenas 29% das alegações apresentavam algum tipo de evidência de apoio, e somente três eram sustentadas por literatura científica. Além disso, com base no framework metodológico adotado na análise, 98% das alegações foram classificadas com alguma inclusão de indicadores de greenwashing.

O estudo também mostrou que uma parte expressiva das mensagens analisadas era composta por promessas futuras, incluindo metas de neutralidade ou net zero, muitas vezes sem planos claros, métricas verificáveis ou demonstração de viabilidade. Em vários casos, segundo os autores, as empresas priorizavam ações pontuais, pilotos, pequenas melhorias operacionais ou compensações, em vez de demonstrar reduções estruturais nas emissões.

Para a pecuária leiteira, esse debate é especialmente relevante. A pressão por relatórios, metas climáticas, inclusão do escopo 3, rastreabilidade e diferenciação de mercado tende a crescer. No entanto, para que essa pressão gere impactos positivos, ela precisa vir acompanhada de uma mudança na qualidade da informação. A comunicação climática não pode depender apenas da força da palavra escolhida. Ela precisa fornecer respostas a questões sobre como a conta foi construída, quais dados foram usados, quais fontes foram incluídas, quais remoções foram consideradas e quais incertezas permanecem. O problema não está em comunicar os avanços climáticos. Está em comunicar mais do que a conta consegue sustentar.

A Figura 1 ajuda a dimensionar esse risco a partir dos principais números do estudo. Os dados não devem ser lidos como uma generalização para toda a pecuária, mas como um alerta metodológico: quando a comunicação avança mais rápido do que a evidência, a confi ança no setor enfraquece. É justamente por isso que medir, reportar e verificar se tornam etapas centrais na construção de alegações climáticas robustas.


Figura 1. O alerta dos dados: evidência e risco de greenwashing em alegações ambientais de grandes empresas globais de carne e laticínios Fonte: Dados extraídos de Bach et al., PLOS Climate, 2026. O estudo analisou relatórios de sustentabilidade e websites corporativos publicados entre 2021 e 2024.

Pegada de carbono, inventário e alegação climática não são a mesma coisa 

Uma fonte frequente de confusão está no uso de termos parecidos como se fossem equivalentes. Pegada de carbono, inventário de emissões, balanço de carbono, neutralidade e carbono negativo pertencem ao mesmo universo, mas não signifi cam a mesma coisa. A pegada de carbono de um produto consiste nas emissões de gases de efeito estufa, expressas em equivalentes de dióxido de carbono, por unidade de determinado produto, (CO2eq/unidade; ex. CO2eq/kg leite corrigido para gordura e proteína).

A pegada de carbono do leite cru, por exemplo, considera fontes como fermentação entérica, manejo de esterco, fertilizantes, energia e combustíveis, todas traduzidas para uma unidade comum de comparação, kg de CO2 eq/kg de leite corrigido para gordura e proteína. Informações detalhadas podem ser obtidas nos materiais técnicos elaborados e divulgados pela ESGpec indicados ao fi nal desta coluna.

Um inventário de emissões, por sua vez, pode ser feito em diferentes escalas: país, organização, fazenda, produto, cadeia ou projeto. Ele organiza fontes de emissão, dados de atividade e fatores de emissão. No caso dos inventários nacionais, a Cartilha do Inventário Nacional de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa explica que os princípios de transparência, acurácia, completude, consistência e comparabilidade são fundamentais para que os resultados possam ser compreendidos, verifi cados e comparados.

Já uma alegação climática diz respeito à forma como o resultado é comunicado ao mercado. Aqui está uma diferença: uma boa medição pode apoiar uma boa comunicação, mas o número, sozinho, não indica nenhuma conclusão. Dizer que uma fazenda reduziu sua pegada de carbono em relação a uma linha de base é diferente de dizer que o leite é neutro em carbono. Dizer que há práticas com potencial de sequestro de carbono no solo é diferente de afi rmar que o produto é carbono negativo.

Dizer que uma cadeia monitora emissões é diferente de afirmar que todos os impactos climáticos estão compensados. Cada afirmação exige um tipo de evidência.

Para facilitar essa leitura, na Figura 2 são apresentados os principais pontos que devem ser observados antes de transformar um resultado climático em uma afirmação pública. A proposta não é criar uma regra única, mas sim mostrar que a comunicação climática no leite depende de uma sequência técnica: definir o que está sendo medido, entender de onde vêm os dados, separar emissões e remoções, reconhecer incertezas e escolher palavras compatíveis com o nível de evidência disponível.



Em conjunto, esses pontos mostram que a credibilidade de uma alegação climática não decorre apenas do resultado. Ela nasce da possibilidade de refazer o caminho da conta, compreender as premissas adotadas e interpretar o que o número de fato significa. Quanto mais clara for essa trilha, maior será a confiança de produtores, técnicos, indústrias, investidores e consumidores nas alegações apresentadas.

O papel das ferramentas digitais 

A pecuária leiteira brasileira tem um desafio adicional: transformar dados que muitas vezes estão dispersos em informações confiáveis. 

Uma parte está no caderno do produtor. Outra no sistema de gestão. Outra com o técnico. Outra na indústria. Outra em notas fiscais. Outra em estimativas.

Ferramentas digitais podem ajudar justamente nessa organização. Elas permitem registrar dados de rebanho, produção, composição do leite, alimentação, ingredientes, pastagens, manejo de dejetos, energia, combustíveis e fertilizantes. Esses dados são fundamentais para estimar emissões e calcular a pegada de carbono.

As tecnologias disponíveis para realizar estas mensurações não devem ser vistas apenas como calculadoras. Elas têm uma outra função muito importante: o aprendizado por parte de quem as utiliza.

Quando o produtor entende por que sua pegada é maior ou menor, consegue priorizar ações. Quando o técnico visualiza as fontes de emissão, consegue orientar melhor. Quando a indústria consolida dados de fornecedores, consegue estruturar programas de sustentabilidade com mais consistência. Quando todo o setor acompanha a evolução ao longo do tempo, a conversa sai do campo da promessa e entra no da evidência. É nesse ponto que a agenda climática vai além da comunicação, e passa a ser parte da gestão nos diferentes níveis da cadeia produtiva.

O leite brasileiro tem oportunidade, mas precisa de consistência

A pecuária leiteira brasileira tem características que podem ser favoráveis na agenda climática: diversidade de sistemas, pastagens tropicais, possibilidade de intensifi cação sustentável, recuperação de áreas, integração de práticas regenerativas, melhoria da efi ciência produtiva, avanço tecnológico e crescente capacidade de organização de dados.

Há também desafios: heterogeneidade entre fazendas, lacunas de informação, baixa padronização de registros, difi culdade de coleta de dados em pequenas propriedades, acesso limitado a assistência técnica e risco de transformar resultados preliminares em mensagens fortes demais.

É por isso que a discussão sobre alegações climáticas precisa ser feita com equilíbrio. Não se trata de evitar termos como “baixo carbono” ou “carbono neutro” para sempre, mas sim de usá-los quando houver base suficiente.

Ainda, não é sobre desvalorizar remoções, carbono no solo ou práticas regenerativas. Esse cuidado na comunicação fará valorizar tais práticas, evitando que sejam reduzidas a uma promessa difícil de sustentar.

A agricultura e a pecuária são partes fundamentais da solução climática, e por isso, precisam apresentar comunicações compreensíveis, auditáveis e coerentes, sendo assim reconhecidas e valorizadas.

Na prática, a sequência mais segura é: medir, interpretar, melhorar, monitorar e só então comunicar com mais força. Essa sequência protege o produtor, a indústria e o consumidor. Também protege o próprio conceito de sustentabilidade, que perde valor quando é usado de forma genérica.

Saber medir para saber comunicar 

A canção que inspira esta coluna fala sobre a sabedoria necessária para caminhar pela vida. Na sustentabilidade do leite, talvez o conselho seja parecido.

Saber medir é entender que um número sem fronteira clara pode confundir. É reconhecer que emissões e remoções não devem ser misturadas sem explicação. É aceitar que a incerteza não é fracasso, mas parte da boa ciência. É perceber que uma fazenda não melhora porque recebeu um rótulo, mas porque passou a enxergar melhor seu próprio sistema.

Saber interpretar é transformar o resultado em decisão. É sair da média e olhar para as fontes. É compreender que cada fazenda tem uma combinação própria de desafios e oportunidades.

Saber comunicar é respeitar o peso das palavras. “Baixo carbono”, “carbono neutro” e “carbono negativo” são afirmações que precisam carregar método, dados e transparência.

Antes do carbono negativo, vem a conta. Antes da conta, vem uma escolha: construir a sustentabilidade do leite com a mesma seriedade com que se constrói um sistema produtivo duradouro, passo a passo, dado a dado, decisão a decisão.

 














 

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Autores

Bruna Silper

Bruna Silper

Bruna Silper, Veterinária, especialista em pecuária de precisão e soluções sustentáveis, PhD em Ciência Animal, produtora de leite em MG e colunista de sustentabilidade da Revista Leite Integral

HELOISE DUARTE

HELOISE DUARTE

Médica veterinária, especialista em Gestão Agroindustrial e produtora de corte em MG

LUIZ GUSTAVO PEREIRA

LUIZ GUSTAVO PEREIRA

Médico veterinário, professor e pesquisador, Doutor em Ciência Animal, especialista em nutrição e sistemas regenerativos


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