Confira como foi o 13º Simpósio Brasil Sul de Bovinocultura de Leite (Chapecó/SC)
Com temas técnicos estratégicos e muito incentivo à inovação, o evento sediado em Chapecó/SC segue contribuindo para posicionar o Brasil entre os protagonistas do mercado de produtos lácteos de valor agregado
Referência em divulgação científica, aperfeiçoamento profissional, desenvolvimento de tecnologias e troca de experiências, o Simpósio Brasil Sul de Bovinocultura de Leite (SBSBL), realizado no Centro de Cultura e Eventos Plínio Arlindo de Nes (Chapecó/SC), reuniu 22 estandes de empresas e muitos congressistas interessados em expandir a rede de contatos e qualificar os conhecimentos apresentados nos painéis Indústria, Qualidade da forragem e Saúde, manejo e ambiente.
Antecedendo a décima terceira edição do evento, o 3º Fórum Brasil Sul de Bovinocultura de Corte foi ponto de encontro de agentes do setor capacitados a planejar estratégias frente aos gargalos da pecuária de corte. Em paralelo, a 8ª Brasil Sul Milk Fair se consolidou como plataforma fundamental para a exposição de produtos e serviços.
“Recebemos Médicos Veterinários, Zootecnistas, técnicos, profissionais de agroindústrias, produtores rurais e estudantes de todo o Brasil e da América Latina, com a missão de entregar um evento completo, que demonstre e reforce a pujança da bovinocultura brasileira”, listou Tiago Mores, presidente do Nucleovet, associação responsável por organizar o evento. Ao atestar que o SBSBL é cenário de discussões atuais, apresentação de novas soluções e geração de conexão entre empresas e profissionais, Mores atribui o sucesso de mais uma edição do evento à abordagem pragmática de assuntos que podem agregar, além de informação técnica, aplicação prática.
O presidente da comissão científica do Nucleovet, Claiton André Zotti, explicou que a programação é elaborada por uma comissão responsável por avaliar os temas de maior relevância para o setor na atualidade. “Com uma equipe formada por profissionais de diversos segmentos da cadeia produtiva, conseguimos construir uma programação riquíssima e que estimula importantes debates”, destacou o Zootecnista. Zotti reforçou, ainda, que as discussões levantadas por conceituados pesquisadores do setor qualificam ainda mais a grade técnico-científica do evento.
Após a cerimônia de abertura na qual Mores enfatizou os desafios que a cadeia produtiva está enfrentando em função das crises climáticas e das importações excessivas de leite, Camila Telles, comunicadora e produtora rural, reiterou que “o protagonismo econômico e social do agronegócio merece ser valorizado”. Ao questionar se os valores positivos e a essencialidade das atividades agrícolas e pecuárias são refletidos na comunicação, Telles assevera: “Quando temos propósito, nos unimos. E não há objetivo mais incrível do que produzir alimento para as pessoas”.

QUANDO TEMOS PROPÓSITO, NOS UNIMOS. E NÃO HÁ OBJETIVO MAIS INCRÍVEL DO QUE PRODUZIR ALIMENTO PARA AS PESSOAS.
O primeiro dia do 13º SBSBL também foi marcado pela pergunta de difícil resposta: “Por que é tão difícil reduzir a CCS no Brasil?”. Em sua palestra, José Pantoja, doutor em Epidemiologia da Mastite Bovina e Qualidade do Leite, apontou que o problema é multifatorial e envolve questões socioeconômicas, culturais e até geográficas. “A pergunta é complexa e a reflexão acaba sendo prática e filosófica. Para reduzir a CCS é preciso controlar a mastite no rebanho. Para isso, o produtor precisa estar motivado”, afirmou Pantoja, acrescentando que a motivação deve vir do entendimento das perdas em produção e qualidade do leite associadas à mastite. “Esse conhecimento precisa ser disseminado de forma intensa para toda a cadeia leiteira, principalmente para a indústria, os órgãos governamentais e os produtores”, provocou o palestrante. “Assistência técnica, capacitação, programas de incentivo e conscientização devem ser estimulados constantemente. E os consumidores devem exigir a qualidade dos produtos lácteos”, concluiu.
Também no painel Indústria, Michael Mitsuo Saito, Engenheiro de Produção e especialista em competitividade no segmento de queijos, abordou os principais entraves para a exportação do queijo brasileiro. “A caseína é a parte mais importante para o rendimento do queijo, sendo cerca de 77% da composição da matéria-prima. Em paralelo, temos a margem apertada entre o custo de produção e o valor de mercado. Então acabamos não tendo uma produção competitiva, em comparação à Argentina, por exemplo – e a quantidade de caseína tem influência nisso”, salientou. Ao afirmar a importância da integração entre produtores, indústrias e varejistas, Saito revelou otimismo com a transformação que está observando no setor. “Passamos por essa transição na carne e em outras commodities, e agora chegou a vez do leite. Promover eventos como o SBSBL é essencial para enxergarmos no que precisamos investir e para onde precisamos ir para fazermos a nossa indústria mais forte”, finalizou.
Inovação, posicionamento estratégico e valorização de subprodutos do leite foram os assuntos abordados por Peterson Vasconcellos Zequi, Engenheiro de Biotecnologias e mestre em Ciência de Alimentos. Também responsável pelo Departamento de Pesquisa e Desenvolvimento da Sooro Renner Nutrição S/A, Zequi apresentou os conceitos para a produção do soro de leite, uma matriz nutritiva e versátil que, hoje, pode ser obtida sem necessariamente fabricar queijo. “Essa abordagem é estratégica tanto para o mercado quanto para a produção, permitindo produtos mais saudáveis e de maior valor agregado. A filtração por membrana vai separar as proteínas do leite, pulando a etapa da fabricação do queijo,” explicou. Além de ressaltar a qualidade do leite como fator determinante para o atributo final do soro, a palestra de Zequi reforçou o valor de um subproduto que antes era descartado ou utilizado de forma limitada, mas que agora representa uma oportunidade valiosa para a nossa saúde e para o mercado global.
No segundo dia do evento, sanidade animal e tecnologia foram os grandes tópicos dos debates. Fabricio Bernardi, Médico Veterinário e Coordenador do Programa Estadual de Erradicação de Brucelose e Tuberculose, apresentou os dados de Santa Catarina, estado reconhecido como livre de febre aftosa sem vacinação desde 2007. Bernardi comentou que essa condição contribuiu para fortalecer a qualidade sanitária local e possibilitou a implementação do sistema de identificação oficial de bovinos, fundamental para também monitorar a tuberculose e a brucelose. “A identificação permite o rastreamento dos animais desde o nascimento e o sistema favorece a vigilância eficiente e a prevenção à disseminação de doenças, o que é essencial em um cenário em que as enfermidades bovinas ainda representam riscos significativos para a produção e para a saúde pública”, informou.
A palestra de Odriom Escobar Molina foi um exemplo de como o uso avançado da tecnologia pode transformar o setor e posicionar o Brasil em um patamar elevado de produção e eficiência na bovinocultura de leite. O Agrônomo apresentou resultados em fazendas nas quais prestou consultorias acerca de sistemas de ordenha robotizada, comparando-os com dados obtidos durante a experiência como Gerente de Nutrição e Operações Leiteiras da Agrícola Ancali (Chile), uma das maiores fazendas do mundo com ordenha robótica. Segundo Molina, o mercado brasileiro está em plena transição para a ordenha automatizada, que permite maior produtividade por unidade, mas exige alto nível de eficiência e investimentos significativos em alimentação de qualidade. Ele destacou que, para justificar o custo do sistema robótico, é fundamental maximizar a produção de leite por robô, alcançando a média ideal de 2.750 kg leite por equipamento/dia. “O foco na nutrição é essencial para reduzir problemas de saúde, como a acidose, e aumentar a eficiência alimentar e reprodutiva do rebanho”, alertou o palestrante.
Como o manejo de dejetos bovinos pode garantir sustentabilidade e rentabilidade nas propriedades rurais? A resposta foi concebida pelo Zootecnista Alexandre Gallucci Toloi. Ele contou que trabalha com sistemas de manejo de efluentes desde 2009, mas que ainda são poucas as fazendas que se preocupam em manejar adequadamente os dejetos, pois não conseguem verificar resultados financeiros positivos – em parte devido à falta de pressão política e ambiental. Diante disso, Toloi abordou os benefícios que o manejo de dejetos agrega à estruturação do solo, reposição de matéria orgânica, produtividade nas lavouras e produção de biogás/energia limpa. “O potencial do dejeto dependerá das características dos fertilizantes (N, P, K e matéria orgânica) e também das necessidades da cultura e do solo, bem como das decisões quanto ao gerenciamento dos dejetos”, alertou o especialista, concluindo: “É essencial que o produtor tenha claro quais os resultados esperados. Mesmo que o benefício financeiro não seja evidente no início, rapidamente ele vai surgir se o manejo for bem feito”.

O método de análise comportamental do rebanho também foi tema de palestra no 13º SBSBL. Marcelo Cecim, Médico Veterinário, mestre em Produção Animal com ênfase em Etologia e PhD em Endocrinologia, apresentou o projeto Traduzindo Vacas, uma abordagem inovadora que permite interpretar sinais emitidos pelos bovinos e, dessa forma, melhorar o entendimento das suas necessidades específicas. De acordo com Cecim, o bem-estar emocional, assim como acontece nos seres humanos, impacta diretamente a saúde física das vacas e contribui para a prevenção de problemas como mastite, deslocamento de abomaso e pneumonia. “A proposta é entender o que as vacas vêm tentando nos comunicar há cerca de 10 mil anos, desde a domesticação. A medicina de ruminantes vem evoluindo e acrescentando as habilidades que necessitamos nos profissionais atualmente. Para entender o que a vaca expressa, precisamos de pessoas capacitadas nas fazendas, aptas a identificar se a alteração é causada por dor, medo ou outro fator”, encerrou o professor, mostrando que, aliada à tecnologia, a promoção de um ambiente mais saudável e respeitoso para os animais pode transformar o manejo de rebanhos e gerar melhores resultados na produção leiteira.
É ESSENCIAL QUE O PRODUTOR TENHA CLARO QUAIS OS RESULTADOS ESPERADOS. MESMO QUE O BENEFÍCIO FINANCEIRO NÃO SEJA EVIDENTE NO INÍCIO, RAPIDAMENTE ELE VAI SURGIR SE O MANEJO DE DEJETOS FOR BEM FEITO

A saúde afeta o desempenho reprodutivo das vacas leiteiras? Esse questionamento guiou a participação de Ronaldo Luis Aoki Cerri, professor da Universidade da Colúmbia Britânica (UBC), no painel Saúde, manejo e ambiente do 13º SBSBL. O especialista reiterou que independentemente do momento e das características da doença, sempre haverá efeito sobre a reprodução – e, muitas vezes, esse efeito será cumulativo, duradouro e difícil de ser revertido. Para ampliar o panorama sobre a gravidade do efeito da mastite sobre a taxa de prenhez e a fertilidade, Cerri expôs o caráter multifatorial da doença: “Precisamos nos atentar que as tendências variam conforme a região e o ambiente. É necessário coletar e analisar dados da própria fazenda para determinar o tipo de desafio predominante”. Ao explorar a literatura sobre endometrites subclínicas e infecções uterinas, o professor esclareceu que, mesmo após o quadro inflamatório ser resolvido, essas enfermidades do sistema reprodutivo prejudicam a taxa de concepção, possivelmente devido ao ambiente uterino ainda não estar completamente restabelecido. “É crucial ter em mente que a prevenção e o manejo precoce das doenças são mais eficazes do que o tratamento tardio. Isso não quer dizer que requeremos um sistema complexo de monitoramento. O essencial pode ser feito com processos simples, mas que sejam aplicáveis no campo, independentemente do tamanho da propriedade”, reforçou, por fim.
É CRUCIAL TER EM MENTE QUE A PREVENÇÃO E O MANEJO PRECOCE DAS DOENÇAS SÃO MAIS EFICAZES DO QUE O TRATAMENTO TARDIO
O terceiro e último dia do simpósio promovido pelo Nucleovet foi inaugurado por Eduardo Bohrer de Azevedo, docente no departamento de Zootecnia da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Azevedo defendeu a importância do entendimento completo sobre o sistema de produção para que a suplementação dos rebanhos leiteiros manejados a pasto eleve a produtividade e rentabilidade na atividade. “O que acontece com o consumo de pasto quando utiliza-se um suplemento? A resposta é: efeito associativo. Em sistemas de alta produção, os suplementos podem incluir aditivos que melhoram a fermentação ruminal e aumentam a eficiência do uso do volumoso”, apontou o professor, explicando que os objetivos com a suplementação variam de acordo com as condições da propriedade e com o tipo de animal. “Quanto maior a diferença entre o potencial produtivo do animal e a qualidade nutricional que o pasto oferece, maior será a resposta à suplementação”, arrematou.
Em duas palestras complementares que encerraram o painel Qualidade da Forragem, Luiz Ferraretto, professor e extensionista em Nutrição de Ruminantes da Universidade de Wisconsin (EUA), focou no impacto da digestibilidade da fibra e do amido sobre o comportamento alimentar e a produtividade das vacas. Além de mostrar estudo no qual o aumento de 1% na digestibilidade da fibra elevou a produção em cerca de 250 gramas de leite corrigido para 4% de gordura, o Zootecnista destacou os fatores que interferem na digestibilidade do amido disponível na silagem. “O processamento do milho, bem como a duração da fermentação, exerce efeitos diretos na densidade energética e na eficiência alimentar. A fermentação adequada da silagem pode aumentar a disponibilidade de amido, essencial para fornecer energia para as vacas e otimizar a produção de leite”, afirmou. Para completar, Ferraretto ressaltou a importância da presença de grãos quebrados na silagem e demonstrou que grãos mais maduros, com endospermas mais duros, apresentam digestibilidade reduzida, enquanto o uso de inoculantes microbianos pode melhorar a fermentação e a estabilidade aeróbica da silagem.
Com olhares holísticos e bagagens de conhecimentos excepcionais, os palestrantes convidados não só contribuíram para os debates no Simpósio Brasil Sul de Bovinocultura de Leite de 2024, mas também ofereceram recomendações atualizadas e soluções práticas para produtores brasileiros que buscam maximizar a eficiência e a sustentabilidade na atividade leiteira.
Como agentes ativos na divulgação das inovações técnicas e apoiadores da cadeia de produção de leite brasileira, nos entusiasmamos, mais uma vez, com a articulação necessária que o SBSBL faz entre o campo e a ciência. E o próximo encontro já tem data para acontecer: entre 14 e 16 de outubro de 2025 estaremos novamente em Chapecó!
ALOMA EITERER LEÃO - Equipe Revista Leite Integral
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